segunda-feira, 25 de maio de 2020

Espírito e Jornada

Amigo, para sofrer
Nasce o homem de verdade;
Esta é a oportunidade
De ser o gaúcho um forte;
De repente vem a morte
E dá um pealo sem piedade.

Andar assim mal pilchado
Em nada me facilita.
Não sou uma alma bendita,
Mas me dói o mal alheio;
Sou um pastel com recheio
Que parece torta frita.

Tampouco me faltam males
E desgraças – te previno;
Às vezes um mau destino
Me tira todo conforto;
Me faço de frango morto
E saio piando fino.

Com essas e outras manhas
Vou vivendo esfarrapado;
Às vezes fico de lado
Sem dar nem mesmo um suspiro,
Mas no borrachão me atiro
Como gordo em milho assado.

A mim não me matam penas
Se ainda tenho o couro inteiro;
Quem vê o sol de janeiro
E a geada braba do inverno
Se o mundo é todo um inferno
Vai se assustar um campeiro...?

Vamos fazer cara feia
Para os males, companheiro;
Até o sorro mais matreiro
Pode cair numa trampa
Deixando os ossos no pampa
Se vem atrás de um cordeiro...

Hoje temos que sofrer
Males que não têm mais nome;
É preciso que se assome
Quem aceite este pastel;
Mais voltas que um carretel
Às vezes tem que dar o homem.

Eu nunca vou me entregar
Nos braços frios da morte;
Arrasto esta triste sorte
E a luta me justifica,
Porque onde o fraco fica
É onde escapa o mais forte.

E que cada um recorde
O que cada um sofreu;
O que se foi já morreu
Com tristeza ou alegria,
Porque o passado passou:
Amanhã é outro dia.


Martín Fierro – José Hernández. Tradução de Antonio Augusto Fagundes