quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Atenção e Escolha

3. Saiba que o mundo está contra você

No mundo em que vivemos, é incrivelmente difícil manter foco. Tudo e todos estão competindo pela atenção. E não estou falando apenas de nossa família, amigos ou colegas. Também estou falando de empresas, youtubers e influenciadores. Hoje, mais do que nunca, a capacidade de chamar a atenção das pessoas é uma das maiores fontes de renda de muitas empresas. O seu foco vale muito dinheiro, e é por isso que o YouTube, Facebook e o Instagram fazem de tudo para mantê-lo com os olhos grudados na tela.

Mas o seu foco também vale muito dinheiro para você.

Ao retomar o controle do seu foco e usá-lo para atingir os seus objetivos mais importantes, você tem o poder de transformar radicalmente a sua vida. Você pode ganhar mais dinheiro canalizando seu foco para concluir suas tarefas mais ımportantes e pode aumentar seu bem-estar redirecionando o seu foco para atividades mais significativas (ou seja, passar tempo com a sua família e amigos ou em seus hobbies favoritos).

que eu quero dizer é o seguinte: o mundo está contra você. Sempre vai ter alguém tentando chamar a sua atenção. Tendo isso em conta, você tem duas opções. Você pode proteger seu foco criando hábitos e sistemas ou pode se deixar distrair das coisas mais importantes para você.

O que você vai escolher?


Detox de Dopamina - Thibaut Meurisse

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Amor e Silêncio

Na ocasião do encontro amoroso, vivido em toda sua profundidade, esperado por anos, conversamos com "a hora que soa ou [com] o sol que se esconde, a fim de dar a nossas almas o tempo de se admirarem e de se unirem em um outro silêncio, que o murmúrio dos lábios e do pensamento não poderá perturbar"¹. Maeterlinck reencontra aqui Jean Paul, que escrevia: "Quando desejo amar com muita ternura uma pessoa amada, e perdoar-lhe por tudo, eu apenas tenho que a olhar em silêncio por algum tempo"².


¹ MAETERLINCK, M. "Emerson". In: Le Trésor des humbles. Op. cit., p. 80.

² Jean Paul, Apud MAETERLINCK, M. "La Vie profunde". In; Le Trésor des humbles. Op. cit., p. 146.


História do Silêncio - Alain Corbin

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Vaidade e Preguiça

Do mesmo modo, os dias de guarda exigem zelo e comportamento diferentes daqueles requeridos nos dias em que é licito trabalhar. Nos dias de guarda, devemos nos reunir mais zelosa e espirituosamente na igreja e nos dispor mais devotamente para celebrar mistérios divinos; devemos perseverar por mais tempo na oração e demonstrar nas vestes, no caminhar e no agir maior devoção para com o culto divino; não devemos fazer nada que não seja santo, que não seja divino e que não nos seja ordenado; devemos afastar a língua de conversas vazias e os pés das idas e vindas; devemos fechar os olhos, inclinar o rosto, elevar a mente e entregar todo ato e todo movimento do coração e do corpo ao serviço divino; devemos, enfim (por assim dizer), honrar os dias santos com espírito sempre renovado.
Nos outros dias, em que é lícito trabalhar, ninguém fique ocioso; cada um deve, segundo suas forças e conhecimentos, aplicar-se àquele trabalho que lhe tiver sido imposto, e não que ele próprio escolheu. Quanto de beleza o repouso dá aos dias de guarda, tanto de ornamento o esforço do trabalho confere aos dias restantes. Desta forma, todo aquele que não quis repousar nos dias de guarda seja juiz de sua vaidade, e aquele que não foi esforçado nos dias de trabalho seja testemunha de sua preguiça. Assim se dá com as mentes carnais: nos dias de descanso a vaidade as incita a não descansar, e nos dias de trabalho a preguiça as impede de trabalhar bem.
Por isso, para agir bem deve haver um cuidadoso discernimento dos tempos, para que, assim como as obras más em tempo algum são louváveis, as boas obras não sejam dignas de repreensão por não terem sido praticadas o tempo oportuno.


A Instrução dos Principiantes - Hugo de São Vítor

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Aflição e Preocupação

Também é responsabilidade da meditação dos costumes a consideração de evitar na boa ação dois males principais: a aflição e a preocupação. A aflição gera a amargura, a preocupação gera a dispersão. Pela aflição amarga-se a doçura da mente; pela preocupação dispersa-se a sua tranquilidade.
A aflição se dá quando, pensando nas boas obras, somos consumidos por uma impaciência de realizar coisas que nos são impossíveis. E a preocupação, quando ficamos inquietos pela impaciência de realizar coisas possíveis. Então, para que a alma não fique amargurada, sustente pacientemente as suas impossibilidades; e, para que não se preocupe de um modo prejudicial, não estenda suas possibilidades além da sua medida.


Opúsculo Áureo sobre a Arte de Meditar - Hugo de São Vítor

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Esforço e Orgulho

A meditação dos costumes também precisa considerar o fim e a direção em todas as relações. O fim é aquilo que é buscado. A direção, aquilo através do qual se chega mais facilmente. Tudo que busca algo, a ele se dirige segundo algum caminho próprio, e aquilo que prossegue do modo mais direto, mais rapidamente chega.
Certamente há alguns bens nos quais há muito para se mover e pouco para se promover. Outros, com pequeno trabalho alcançam um grande fruto. Sendo assim, estes que rendem mais devem ser discernidos e escolhidos com prioridade. Pois que, sem dúvida, os que rendem mais os melhores, convém julgar toda ação segundo o seu fruto.
Muitos, não possuindo esse discernimento, trabalharam muito e progrediram pouco, já que dirigiram seu olhar apenas exteriormente à aparência da obra, e não internamente ao fruto da virtude. Orgulham-se por fazerem grandes coisas mais do que por realizarem o que é útil, e amaram mais aquelas obras em que podiam ser vistos o que aquelas em que podiam se emendar.


Opúsculo Áureo sobre a Arte de Meditar - Hugo de São Vítor

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Meditação e Realização

5. Sobre a meditação


A meditação é o pensamento frequente com deliberação, que investiga prudentemente a causa e a origem, o modo e a utilidade de cada coisa. A meditação tem o seu princípio na leitura, entretanto não se realiza por nenhuma regra ou preceito da leitura. Na meditação, de fato, agrada-nos discorrer por uma espécie de espaço aberto, no qual direcionamos nosso olhar para a verdade a ser contemplada, considerando ora uma, ora outra das causas das coisas; às vezes também penetrando no que nelas ha de mais profundo, não deixando nada de duvidoso ou obscuro.
O princípio do conhecimento, portanto, está na leitura e sua consumação na meditação. Quem aprender a amá-la intimamente e se dedicar a ela com frequência, tornará sua vida imensamente gozosa e terá na tribulação a máxima consolação. A meditação é, entre todas as coisas, a que mais afasta a alma da barulheira das ações mundanas; e pela doçura da sua quietude oferece já nesta vida um antegosto da vida eterna. Ela nos faz buscar e conhecer o Criador por meio das suas criaturas, e dessa forma ensina a alma pela ciência e a aprofunda na felicidade, donde que na meditação se realize a maior das alegrias.


Sobre o Modo de Aprender e Meditar - Hugo de São Vítor

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

História e Alegoria

Capítulo VI
Sobre a ordem dos livros


Não se deve seguir a mesma ordem de livros na leitura histórica e na alegórica. A história segue a ordem temporal. À alegoria é mais apropriada a ordem do conhecimento, pois, assim como foi dito acima, o aprendizado deve começar sempre das coisas mais claras e conhecidas, e não das obscuras.
Donde se segue que, neste tipo de leitura, o Novo Testamento, no qual está manifestamente proclamada a verdade, é preferível ao Velho, no qual a mesma verdade está prenunciada ocultamente sob representações figurativas. Em ambos os testamentos, trata-se da mesma verdade, mas lá está oculta, aqui manifestada; lá, prometida, aqui, realizada. Escutaste o que se lê no Apocalipse, que o livro estava selado e que não se podia encontrar ninguém que pudesse remover seus selos, a não ser o "leão da tribo de Judá". ¹ Selada estava a Lei, seladas estavam as profecias, pois os tempos da redenção futura estavam ocultamente prenunciados. Acaso não te parece selado aquele livro que anunciou: "Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho; e o chamará com o nome de Emanuel"? ² E este outro que disse: "E tu, Belém de Éfrata, que és pequenina entre milhares de tribos de Judá: de ti sairá para mim aquele que será o dominador de Israel; e tem sua origem desde o início, desde as auroras da eternidade"? ³ E também o Salmista: "Porventura não se dirá de Sião: 'Este e aquele homem nasceram nela, e o próprio Altissimo a fundou"? * E que, de novo, disse: "É do Senhor, é do Senhor que vem a evasão da morte"? *¹ E igualmente: "Disse o Senhor ao meu Senhor: 'senta-te à minha direita'"? *² E, logo depois, no mesmo salmo: "Contigo está o principado desde o dia do teu nascimento; nos esplendores dos santos, desde o útero, antes da aurora eu te gerei"? *³ E Daniel: "Eu contemplava na visão da noite, e eis que entre as nuvens do céu como que se aproximava o Filho do homem, e chegou ao ancião dos dias e deu a ele o poder, a honra e o reino; e todos os povos, de todas as tribos e línguas, lhe serviram: seu poder é um poder eterno, que não lhe será tirado"? **
Quem tu pensas que poderia compreender estas coisas antes que se cumprissem? Estavam seladas, e ninguém poderia remover os selos, senão o leão da tribo de Judá. Veio, então, o Filho de Deus, e se revestiu de nossa natureza, nasceu da Virgem, foi crucificado, sepultado, ressuscitou, ascendeu aos Céus e, cumprindo o que havia sido prometido, revelou o que estava velado. Leio no Evangelho que o Anjo Gabriel é enviado à Virgem Maria para anunciar que ela dará à luz; e recordo-me da profecia que disse: "Eis que a Virgem conceberá".**¹ Leio que, quando José foi a Belém com Maria, sua esposa gestante, veio o tempo de ela parir, e deu à luz o seu filho primogênito, o qual o anjo anunciara que havia de reinar no trono de David, seu pai; e recordo-me da profecia: "Belém de Éfrata, que és pequenina entre milhares de tribos de Judá: de ti sairá para mim aquele que será o dominador de Israel".**² Leio em outro lugar: "No principio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e a Verbo era Deus";**³ e recordo-me da profecia que disse: "E tem sua origem desde o início, desde as auroras da eternidade".*** Leio: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós"; ***¹ e recordo-me da profecia que disse: "Chamarás a ele com o nome de Emanuel, isto é, Deus conosco". ***²
Não tenho a intenção de te saturar, passando por todos os trechos; mas, se não conheceres primeiro a natividade de Cristo, sua pregação, paixão, ressurreição, ascensão e tudo o que suportou na carne e pela carne, não conseguirás penetrar os mistérios das figuras do Velho Testamento.

¹ Ap 5,5.
² Is 7, 14.
³ Mq 5, 1.
* Sl 87,5.
*¹ Sl 68, 21.
*² Sl 110,1.
*³ SI 110, 3.
** Dn 7,13-14.
**¹ Is 7, 14.
**² Mq 5, 1.
**³ Jo 1, 1.
*** Mq 5, 1.
***¹ Jo 1, 14.
***² Is 7 14.


Didascalicon: Sobre a Arte de Ler - Hugo de São Vítor

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Ascender e Descender

Capítulo IX
Sobre os quatro degraus


São quatro as etapas nas quais se exerce a vida dos justos neste mundo, como se fossem quatro degraus pelos quais ela se eleva à perfeição futura, a saber, a leitura ou aprendizado, a meditação, a oração e a ação. Segue-se ainda uma quinta, a contemplação, na qual, como um fruto decorrente das precedentes, tem-se um antegosto nesta vida do que será a recompensa futura das boas obras. Por isso, o Salmista, quando falava sobre os Mandamentos de Deus, 
recomendando-os, imediatamente acrescentava: "É grande a retribuição para quem os observa".¹
Destes cinco degraus, o primeiro, isto é, a leitura, pertence aos iniciantes, o último, isto é, a contemplação, aos perfeitos. E, quanto aos degraus intermediários, quem mais se ascender por eles, mais se aproximará da perfeição. Por exemplo: no primeiro degrau, a leitura concede o entendimento: no segundo, a meditação fornece o conselho; no terceiro, a oração pede; no quarto, a ação busca; e no quinto, a contemplação encontra.
Portanto, se lês e tens o entendimento e já sabes o que deve ser feito, estás no início do caminho do bem, mas ainda não é suficiente para ti, ainda não és perfeito. Suba, então, à fortaleza do conselho, e medite como conseguir realizar aquilo que você aprendeu que deve ser feito. Com efeito, muitos têm a ciência, mas poucos são os que sabem de que modo convém exercê-la.
De outra maneira, visto que o conselho humano, sem o auxílio divino, é débil e ineficaz, eleva-te à oração e pede a ajuda de Deus, sem a qual nada podes fazer de bom, a fim de que a sua graça, que antecipadamente já te iluminou, conduza também teus passos pelo caminho da paz, e te leve a consumar em boas obras o que antes estava somente na vontade.
Depois, resta a ti que te revistas da boa ação, para que o que pedes orando mereças receber agindo. Deus quer operar contigo, não para te obrigar, mas para te ajudar. Se operas sozinho, nada consegues; Se somente Deus opera, nada mereces. Opere, então, Deus, para que te seja possível conseguir alguma coisa; e operes também tu, para que a mereças. A boa ação é o caminho pelo qual se conduz à vida. Quem percorre este caminho busca a vida. "Tem coragem e age virilmente",² este caminho tem seu prêmio. Quantas vezes estamos fatigados dos fardos deste caminho e somos iluminados pela graça que do alto nos guarda, "provando e vendo quão suave é o Senhor".³ E assim se cumpre o que foi dito acima: o que a oração busca, a contemplação encontra.
Vês, pois, de que modo a perfeição vai ao encontro dos que ascendem por estes degraus, de tal maneira que quem não os sobe não pode ser perfeito.
O nosso propósito deve ser sempre ascender; porém, visto que é grande a inconstância de nossa vida, de tal modo que não conseguimos permanecer no mesmo degrau, somos freqüentemente impelidos a retornar aos degraus já superados, e, para não perdermos o que já conquistamos, refazemos algumas vezes o caminho pelo qual já havíamos passado. Por exemplo: quem está firme no degrau da ação, reza para não cair; quem está persistente na oração para que não cometa enganos rezando, medita sobre o que deve rezar; e quem, às vezes, desconfia do próprio conselho, recorre novamente à leitura. E é assim que acontece: ainda que nossa vontade seja sempre ascender, às vezes, entretanto, a necessidade nos obriga a descender, mas de tal modo que nosso propósito consista em nossa vontade, e não na necessidade. Nosso propósito é. ascendermos, e por causa dele é que, às vezes, descendemos. Portanto, o fundamental não é descender, mas ascender.*

¹ Sl 19, 12.

² Js 1,18.

³ Sl 34, 9.

* "Há, portanto, um tempo para estudar e há um tempo para meditar. Há um tempo para investigar a verdade para que se enriqueça o entendimento, há um tempo para exercitar a virtude para sanar os nossos afetos, e há também um tempo para praticar a boa obra para que se auxilie o próximo. Há um tempo para orar e um tempo para cantar, há um tempo para assistir ao Ofício Divino e um tempo para dedicarmos a qualquer outra coisa necessária. De todas estas coisas, como uma abelha que retira o seu mel de flores diversas, devemos colher para nós a doçura de uma suavidade interior, para que possamos consumar, através de uma vida santa, o favo de uma melíflua justiça" (Hugo de Sao Vítor, Prólogo do Sermones Centum).


Didascalicon: Sobre a arte de ler - Hugo de São Vítor

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Escritura e Significado

Capítulo III

Sobre também as coisas terem um significado na Sagrada Escritura


Também é necessário saber que, no discurso divino, não só as palavras, mas também as coisas têm significados, de um modo que não se costuma encontrar com freqüência em outros escritos.¹ O filósofo conhece somente o significado da palavra, mas o significado das coisas é muito mais superior do que o das palavras, pois o significado destas foi instituído pelo uso, enquanto o daquelas foi fornecido pela natureza. O significado das palavras é voz do homem, o das coisas é a voz de Deus aos homens.² As palavras, depois de pronunciadas, perecem; as coisas, depois de criadas, subsistem. A voz, frágil, é a expressão dos sentidos; a coisa é imagem da razão divina. Portanto, o que o som emitido pela boca, som que cessa ao mesmo tempo em que se expressa, é para a idéia mental, toda duração temporal é para a eternidade. A idéia mental é o verbo interior que se expressa pelo som da voz, isto é, o verbo exterior. E assim, a divina Sabedoria, que o Pai fez brotar de seu coração e que em si mesma é invisível, pelas criaturas e nas criaturas é que se dá a conhecer.³
A partir disso, fica claro o quão profundo deve ser o conhecimento extraído da Sagrada Escritura, na qual pela palavra se chega ao intelecto, pelo intelecto à coisa, pela coisa à idéia, e pela idéia à verdade. Por não levarem isto em conta, algumas pessoas pouco sábias julgam não haver sutileza alguma na Sagrada Escritura na qual possam exercer o seu engenho, e por isso voltam-se aos escritos dos filósofos, pois não concebem que nela esteja expressa alguma coisa a não ser unicamente a superfície do sentido literal, ignorando, assim, o poder da verdade.
Através de um breve e claro exemplo demonstraremos como o discurso sagrado se utiliza do significado das coisas. Diz a Escritura: "Vigiai, pois vosso inimigo, o Diabo, que como um leão rugindo ronda em torno de vós".* Aqui, se dizemos que o leão significa o Diabo, devemos compreender a coisa em si e não a palavra que a designa. Se estas duas palavras, isto é, "Diabo" e "leão", significassem a mesma coisa, seria inútil a semelhança de uma coisa com ela mesma. Segue-se, então, que esta palavra, "leão", significa o animal, e que este animal designa o Diabo. E todas as outras coisas devem ser entendidas do mesmo modo, como quando dizemos que o verme, o bezerro, a pedra, a serpente e outras coisas semelhantes significam o Cristo.


Didascalicon: Sobre a Arte de Ler - Hugo de São Vítor


¹ Hugo de São Vitor, comentando o trecho (Hb 4, 12) em que São Paulo faz a distinção entre a palavra de Deus e a dos homens, escreve: "'A palavra de Deus é viva', porque não muda Eficaz, porque não falha. Penetrante, porque não se engana. Não muda no que promete, não falha no que realiza, não se engana no julgamento" (A Palavra de Deus, disponível em cristianismo.org.br/h-verb.htm).

² "'Toda criatura possui uma causa e uma imagem na razão de Deus e em sua providência eterna; e é por esta causa e sobre o modelo desta imagem que ela foi criada em sua substância' (Hugo de São Vítor, De Sacramentis) [...] a criação é, portanto, a manifestação do pensamento e da sabedoria de Deus, assim como a palavra é a manifestação do pensamento e da sabedoria do homem" (Princípios fundamentais de pedagogia, disponível em cristianismo.org.br/pfp-01.htm).

³ "O Verbo de bondade e a vida de sabedoria que fez o mundo se manifesta na contemplação da criação. O Verbo em si mesmo era invisível, mas se fez visível, e foi visto pelas suas obras. [...] O mundo é, de fato, um livro escrito pelo próprio dedo de Deus. Cada criatura 
é como um sinal, não por convenção humana, mas estabelecido pela vontade divina. O homem ignorante vê um livro aberto, percebe certos sinais, mas não conhece nem as letras nem o pensamento que elas manifestam. Assim também o insensato, o homem animal que não percebe as coisas de Deus, vê a forma exterior das criaturas visíveis, mas não compreende os pensamentos que elas manifestam. Assim como em uma única e mesma obra um homem admira a cor e a forma das letras, enquanto outro louva os pensamentos que elas expressam. É bom, portanto, contemplar assiduamente e admirar as obras de Deus, mas para aquele que souber converter a beleza das coisas corporais em uso espiritual" (Hugo de São Vítor, Tratado dos três dias, disponível em cristianismo.org.br/pfp05-b.htm)

* I Pe 5, 8.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Reflexão #22

Spes est dum anima est

A esperança existe enquanto existe vida (alma)

Dum spiro, spero 

Enquanto respiro, tenho esperança

 

No contexto pagão, donde suponho que surgiu, este ditado lembra-nos que mesmo no cenário pessimista o improvável pode acontecer e resultar no melhor. Não é o provável, mas se acontecer não podemos nos arrepender de não ter tentado. E se não acontecer, o que perdemos?

O ditado latino é o que hoje diríamos motivador. A versão moderna é mais limitada - Só acaba quando termina - e apesar de dar a mesma ideia de ainda haver tempo para a ação, portanto não desistir, é menos direta quanto à esperança. Ressalto a esperança, pois é um conceito abandonado, substituído por uma credulidade no desejo, numa crença que o pensante é o centro do mundo e que esta entidade que chamam de universo, acaso, energia, etc. irá atender este desejo em particular, ignorando todo o resto. Perdeu-se o conceito de que a esperança pode estar direcionada à justiça divina. Mesmo antes da Revelação, havia uma crença na justiça dos deuses do Olimpo.

Ainda quando o pior acontecia, tentava-se adequar o pensamento à realidade, ou seja, que a justiça divina quis essa tragédia, por motivos desconhecidos no momento. A maioria das pessoas já viu ou passou por um mal momento que foi trampolim para um melhor. Daí tira a lição de que nem todo mal acontecimento é ruim no contexto maior.

Portanto, enquanto vivemos, todo mal, toda tragédia, horror e desgraça pode ser proveito para o melhor, conquanto tenhamos esperança. Para o católico, enquanto há alma, enquanto há vida espiritual, a justiça divina será feita. Mesmo que o reino deste mundo pereça, o reino do Pai triunfará e a justiça será feita.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Reflexão #21

O homem é uma máquina que transforma futuro possível em passado realizado


Neste tempo de histórias sobre viagem no tempo e múltiplos universos, durante uma reflexão sobre o propósito da vida, ansiedade sobre o futuro e remorso do passado, ocorreu-me esta frase. É um resumo da nossa operação como humanos: tomamos uma das infinitas possibilidades que o futuro guarda e reduzimos a uma única realização. Não vou entrar no mérito de que podemos interpretar essa realização de múltiplas maneiras, vou ater-me ao fato.

Esta semente tem o propósito de florescer na decisão consciente sobre os atos fazemos em nossa vida, na nossa aniquilação de possibilidades e concretização em um único ato por vez. Tendo em nós as virtudes desenvolvidas (ou em desenvolvimento), devemos tornar-nos cada vez mais conscientes, ato a ato, sobre o que estamos realizando e imutabilizando conforme vivemos.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Sofrimento e Ensinamento

#72
O pastor e o mar

O pastor, ao pastorear seu rebanhozinho num local litorâneo, vendo o mar calmo teve desejo de navegar para fazer comércio. Depois então de vender suas ovelhas e comprar tâmaras, zarpou. Mas, ao sobrevir uma forte tempestade, e com a nau correndo o risco de afundar, jogou toda a carga ao mar e a custo se safou com a nau vazia. Depois de não poucos dias, passando por ali um sujeito que se espantava com a tranquilidade do mar (pois este por acaso estava calmo), o outro, tomando a palavra, lhe disse: "Meu bom amigo, ao que parece ele tem de novo desejo de tâmaras, e por isso se mostra sossegado".


A história mostra que para os seres humanos os sofrimentos são ensinamentos.¹


¹ Há um jogo no original, porque os termos "sofrimentos" (pathémata) e "'ensinamentos" (mathémata) diferenciam-se só pela letra inicial. A ideia de que "a experiência ensina" era popular entre os gregos e aparece em outra máxima famosa, páthei máthos, "pelo sofrimento o ensinamento, presente na tragédia Agamêmnon de Ésquilo (século V a.C.).


Fábulas - Esopo

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Acordo e Segurança

#24
O lobo, as ovelhas e o carneiro


Os lobos despacharam embaixadores até as ovelhas para estabelecer com elas uma paz duradoura, com a condição de que pegassem os cães e os destruíssem. E as estúpidas ovelhas concordaram em fazer isso. Mas um velho carneiro disse: "Como vou confiar e conviver com vocês, quando - mesmo com os cães me guardando - não me é possível pastar sem perigo?".

Porque ninguém deve se despir da sua segurança, persuadido por juras de inimigos com os quais não há conciliação possível.


Fábulas - Esopo

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Morte e Meditação

A união na recordação

O poeta amigo de Rodin, Rilke, escreveu: "Talvez os mortos sejam aqueles que se puseram à parte para meditar sobre a vida". Eles meditam, com efeito, mas vivendo, e com eles podemos meditar para bem viver, e juntos. Estando divididos, a comunidade de culto em relação aos mortos nos aproxima, e isto mesmo se esses ausentes tenham sido outrora aliados imperfeitos, e até criadores de problemas.

De qualquer maneira, nossos mortos são a reserva moral da família. Têm meios para intervir nos momentos difíceis da vida e dos relacionamentos. Um grande poder de pacificação emana deles: são, para nós, um viático. Quando sofremos ou estamos extenuados, essa grande serenidade nos sustenta, como a doçura dos astros numa marcha noturna.


Nossos Mortos - A. D. Sertillanges

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Cientificismo e Alma

Mas voltando ao livro, prossegue Cavaillé, analisando uma gravura que reproduz o anfiteatro da cidade de Leiden:

A sessão de anatomia desenrola-se numa arquitetura teatral circular inspirada no modelo vitruviano [de Vitruvius, o grande arquiteto]. Essa associação da ciência e do teatro, na aurora da modernidade, é carregada de significação. A anatomia tem valor de modelo para a ciência experimental nascente assim como o teatro tem, ao mesmo tempo, para as artes do visível. A aula de anatomia é aquele espetáculo científico no qual a máquina do corpo é pacientemente desmontada peça por peça. Nas gravuras do anfiteatro de Leiden, o espectador é atingido em primeiro lugar por aqueles esqueletos de homens e de animais.

Há uma mesa no centro, onde se opera a dissecção do cadáver, em volta da qual fica a platéia e, em cima, a galeria de esqueletos de homens e animais, cada um com uma bandeirinha que lembra o tema da precariedade da vida: Vita brevis, "a vida é breve"; Pulvis et umbra sumus, "somos pó e sombra".

Estamos realmente na presença de um teatro da vaidade, um teatro da morte. É bem a ciência moderna que aí se afirma. O esqueleto, e mais genericamente o cadáver, permanecem ainda um símbolo; mas ele é já, antes de tudo, um objeto de estudo, de análise e classificação. A ciência não objetiva assim o corpo humano senão fazendo abstração do seu estatuto simbólico.

... que é o mesmo que dizer: a ciência destrói o sentido simbólico do corpo humano na medida em que o reduz a um aglomerado de pedaços que se colam uns aos outros mecanicamente. E depois, para tentar recuperar essa unidade - que só pode ser captada pela experiência do fluxo interior e da percepção real -, terá de inventar teorias como fluxo vital", "energia vital", "vitalismo" etc.


Theatrum Anatomicum
The anatomical theatre of Leiden University, early 17th century. Contemporary engraving by Willem Swanenburgh; drawing by Jan Cornelisz. van 't Woudt (Johannes Woudanus)



A imaginação e a unidade do real - Olavo de Carvalho

A Formação do Imaginário

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Maturidade e Responsabilidade

Sempre me espanta constatar certa ingenuidade característica da geração dos nossos pais. A passividade bovina com que entregaram sua vida inteira à tutela do Estado é verdadeiramente acachapante.

Ora, o resultado de uma primeira infância marcada pela privação afetiva, seguida de anos instrucionais focados em destruir no jovem qualquer amor ao conhecimento e qualquer princípio de intuição criativa - somos nós.

Nós que, nesta segunda década do novo século, estamos já na vanguarda das demandas de trabalho: presentemente nos compete educar os pequenos e amparar os idosos, gerar renda para nossas famílias, prestar serviços à sociedade e abastecê-la com bens materiais e intelectuais.

Nós que, curiosamente, no entanto, comandamos hoje uma sociedade em que se proliferam, de maneira quase simétrica, dois tipos de empreendimentos: o pet shop e a "casa de repouso" para idosos - empresas que lotam as avenidas de todas as nossas cidades, grandes e pequenas, e que de quadra em quadra nos oferecem seus slogans sob os quais são feitas sempre as mesmas ofertas: "Deixe conosco esse outro que te atrapalha. Não se preocupe tanto. Vá viver sua vida sem aborrecimentos nem incômodos. Compre aqui todos os apetrechos necessários para que você possa vivenciar, através de um animal de estimação, um simulacro do afeto humano".

Incapazes de cuidar, porque mortalmente apavorados diante da ideia de amar - já que o amor é exigente, trabalhoso, dolorido, afeito a sacrifícios... -, estamos hoje na vanguarda da vida adulta e nos rebelamos. Não queremos filhos; achamos desumano ter de trabalhar tanto por um não eu, um estranho, um outro... Filhos - trabalho e desperdício! Temos nossos próprios anelos mais profundos. Não raro nossos pais seguem pagando nossas contas.

Imaturos, egoístas, materialistas e frágeis. Todos temos esse espantalho de adultinho moderno dentro de nós - e urge combatê-lo.


Fantasmas e afetos: o problema da educação infantil - 
Lorena Miranda Cutlak

A Formação do Imaginário


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Memória e Imaginário

No sistema de ensino que temos, a contemplação é praticamente esterilizada pela obrigação de dar atenção não ao que nos encantou, mas por obrigação. O decorar, assim, significa apenas guardar uma informação para atender outra finalidade, como ir bem em uma prova, passar de ano etc. Não espanta, consequentemente, que aquilo que se decorou logo se esqueça uma vez conquistado o objetivo, isso quando não acaba sendo desprezado. Quantas pessoas você conhece, por exemplo, que têm má vontade para com a literatura porque foram obrigados a ler na escola? Talvez você seja uma delas. Eu era. E tanto fazia se o livro fosse bom ou ruim, ninguém ama quando é obrigado a tanto, pelo contrário.

A consequência disso é mais nefasta do que parece. Dissociada da instrução e formação, essa experiência amorosa deixa de ser cultivada com esse propósito, prestando-se apenas como entretenimento, ao lazer das horas de descanso e ócio, tornando a vivência da cultura em geral - seja alta ou baixa, atual ou antiga - mero diletantismo, mais um hobby do que outra coisa.

O resultado é a inanidade geral dos imaginários pessoais das últimas gerações, transparente, por exemplo, nos inúmeros memes nostálgicos das redes sociais sobre as infâncias e adolescências das últimas décadas, especialmente dos anos 1980 em diante. Que revelam do que mais se guardou no coração? Brinquedos da época, programas de televisão encerrados, hits radiofônicos descartáveis, modas passageiras etc. Apenas coisas a marcarem certos momentos ou períodos da vida, formando memórias afetivas, não por valerem grande coisa em si. Daí ao fenômeno da adolescência esticada, aliás, no vai nenhuma distância.

Ver palestra a respeito do tema no II Congresso de Artes Liberais:
https://youtu.be/tmEwFCx2Zco?si=vjmvsew9rlMr4M6


A formação do imaginário através da educação da imaginação - Francisco Escorsim
A Formação do Imaginário

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Tentação e Devoção

Capitulo 5
Consolação para uma alma que se acha tentada


Filoteia, Deus só permite estas tentações violentas a almas que Ele quer elevar a uma grande perfeição de seu amor; mas não há para elas uma certeza que, tendo passado por estas provas, adquiram afinal esta perfeição, porque tem acontecido muitas vezes que alguns, não correspondendo em seguida fielmente à graça que os tinha feito combater com constância, sucumbiram tristemente a tentações muito mais leves.

Quero dizer-te, a fim de que, se te achares algum dia em provas tão penosas, te consoles com o desígnio que Deus tem em vista e, portanto, humilde em sua presença, nunca te creias em segurança 
contra as pequenas tentações, depois de ter superado muito maiores, para que sejas sempre fiel à sua graça e, se te sobrevier alguma tentação e sentires algum prazer nela, não te perturbes absolutamente enquanto a tua vontade recusar o seu consentimento a uma coisa e outra, porque de modo algum ofendeste a Deus.

Quando um homem cai sem sentidos e não dá nenhum sinal de vida, põe-se-lhe a mão sobre o coração e, se algum movimento se sente, por mais insignificante que seja, conclui-se daí que ainda está vivo e que se pode com algum remédio forte e eficaz restituir-lhe as forças.

Julguemos também assim da alma na violência das tentações que parecem às vezes consumir todas as suas forças. Examinemos se o coração e a vontade têm ainda algum movimento de vida espiritual, isto é, se a vontade recusa o seu consentimento à tentação e ao deleite; porque, enquanto notamos este movimento em nossa vontade, podemos estar certos de que a vida da caridade não está extinta e que Jesus Cristo, embora oculto, está presente em nossa alma; de modo que, pelo exercício contínuo da oração e recepção dos sacramentos e pela confiança em Deus, podemos recuperar todas as forças perdidas e viver para sempre em Deus, numa vida doce e perfeita.


Filoteia - São Francisco de Sales

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Confissão e Devoção

Capítulo 6

Antes de tudo é necessário que a alma se purifique dos pecados mortais


Libertar-se do pecado deve ser o primeiro cuidado de quem quer purificar o coração e o meio de fazê-lo se depara no Sacramento da Penitência. Procura o confessor mais digno que possas achar; toma um desses livrinhos próprios para ajudar a consciência no exame que se deve efetuar sobre a vida passada, como os de Granada, Bruno, Árias, Auger; lê-os com atenção, notando, ponto por ponto, tudo em que ofendeste a Deus desde o uso da razão e, se não confias em tua memória, assenta por escrito o que notaste. Depois do exame, detesta e abomina os pecados cometidos, pela contrição mais viva e perfeita que podes suscitar em ti, considerando estes motivos valiosíssimos: que pelo pecado perdeste a graça de Deus, abandonaste os teus direitos sobre o céu, mereceste as penas eternas do inferno e renunciaste a todo o amor de Deus.

Já vês, Filoteia, que te estou falando da confissão geral de toda a vida; mas digo francamente, ao mesmo tempo, que não a julgo sempre de uma necessidade absoluta; contudo, considerando a sua utilidade e proveito para o começo, aconselho-ta encarecidamente. 
Acontece não raras vezes que as confissões ordinárias de pessoas que levam uma vida negligente e comum são defeituosas e malfeitas; não se preparam nada ou quase nada; não têm a contrição devida; confessam-se com uma vontade secreta de continuar a pecar, ou porque não querem evitar as ocasiões do pecado ou porque não querem envidar todos os meios necessários para a emendação da vida; e nesses casos uma confissão geral torna-se necessária para assegurar a salvação. Além disso, a confissão geral nos dá um conhecimento mais perfeito de nós mesmos; nos enche duma salutar confusão em vista de nossos pecados; livra o espirito de muitas inquietações; tranquiliza a consciência, excita-nos a bons propósitos; faz-nos admirar a misericórdia de Deus, que nos tem esperado com tanta paciência e longanimidade; abre o fundo de nossa alma aos olhos do nosso pai espiritual, de sorte que este nos possa dar avisos mais salutares; facilita-nos a confessar futuramente os pecados com mais confiança.

Tratando-se, pois, Filoteia, de uma renovação completa de tua vida e de uma conversão perfeita de tua alma a Deus, não é sem razão, a meu ver, que te aconselho fazeres uma confissão geral.


Filoteia - São Francisco de Sales

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Exercício: descrições com plano de composição (biblioteca)

 Descrição de coisas sem movimento

8) Descreva uma biblioteca, desenvolvendo o seguinte plano:
a. A sala: forma, luz, aspecto, comunicações, paredes, estatuetas, tapetes
b. A mobília: escrivaninha, poltronas estofadas de couro, sofá, divã
c. A livraria: as estantes, os livros


Flor do Lácio: Explicação de textos e guia de composição literária - Cleófano Lopes de Oliveira


8.a. A sala
A biblioteca é composta apenas por um cômodo comprido, parecendo um corredor. Do ponto de vista de quem entra, após transpassar a porta dispõem-se as prateleiras em toda a parede de ambos os lados, e uma grande janela ao fundo. Acima, lâmpadas de tubo fluorescentes iluminam bem o cômodo durante a noite. Acima da janela há uma prateleira com alguns bustos dos três pensadores gregos. Acima deles há um crucifixo engastado em ouro. No chão, um raso tapete estende-se por todo o cômodo, com um padrão de listras que faz parecer ainda mais longa a sala.

8.b. A mobília
Próximo à janela, de costas para esta, está a escrivaninha com uma cadeira, o local apropriado de estudos. É uma mesa limpa com apenas alguns utensílios para anotações e um suporte de leitura.

8.c. A livraria
As estantes preenchem os dois lados da sala, por toda a parede do chão ao teto. Contém subdivisões para categorização e uma certa profundidade, o que permite mais de um livro por prateleira.
Os livros são das seguintes categorias: clássicos, antiguidade, gramática, literatura de romance (inglês, francês, alemão, português, brasileiro), espirituais, instrutivos, e literatura infantil.

Imagem gerada por Gemini

Imagem gerada por ChatGPT






terça-feira, 12 de agosto de 2025

Exercício: descrições com plano de composição (sala de jantar)

Descrição de coisas sem movimento

7) Descreva uma sala de jantar, de acordo com o seguinte plano:
a. A sala: forma, luz, aspecto, comunicações, paredes, quadros, tapetes ou congóleum
b. A mobília: mesa, poltronas, cadeiras, cristaleiras, aparador etc.


Flor do Lácio: Explicação de textos e guia de composição literária - Cleófano Lopes de Oliveira


7.a. A sala:

É uma sala retangular, bem iluminada pelo janelão em uma das laterais maiores. Os outros três lados têm portas que vão para outros cômodos, sendo um a cozinha. Tem um aspecto clássico, limpo e adornado. As paredes são brancas com frisos ou detalhes próximo às bordas do teto, paredes e janela. Os marcos das portas, da janela e os móveis são todos de madeira escura. Há um grande tapete retangular - um mosaico branco-bege-marrom-preto - que preenche o espaço da mesa e cadeiras. O piso é de tábuas de madeiras escuras, iguais aos marcos.


7.b. A mobília:

A mesa é retangular e preenche a maior parte do centro da sala. Está essencialmente nua em sua base com pequenos suplats para os pratos, totalizando ao todo 10 lugares, dois nas pontas e quatro em cada lado. As cadeiras são também de madeira escura, assim como a mesa, porém tem estofado de forro bege. No lado oposto ao janelão, nas paredes entre as portas, a da esquerda tem um aparador com alguns enfeites em cima e um quadro da família na parede, enquanto a da direita tem uma cristaleira alta, com a parte superior de vidro que permite ver toda a louça de cristal. Não há outros móveis além desses.

Imagem gerada por Gemini


terça-feira, 22 de julho de 2025

Correção e Adulação

XXV

Por isso aconselhamos tanto no como seguimos agora aconselhando que se extirpe o amor-próprio e a presunção, precursora de toda adulação: pois é ela que, adulando-nos por dentro, nos amolece e entrega mais propícios aos aduladores externos. Se, porém, confiantes em Apolo e na utilidade que seu preceito, "Conhece-te a ti mesmo", tem para todas as coisas, examinarmos quantas deficiências e quanta abjeção misturada com temeridade derivam da nossa natureza, criação e educação, e respingam em nossas ações, palavras e paixões, já não permitiremos tão facilmente que os aduladores nos calquem a seus pés. Alexandre dizia que por causa do sono e do acasalamento não acreditava nos que o chamavam de deus, pois em ambos sentia seu espírito degenerar e fazer-se menos senhor de si. Já nós, que olhando para dentro vemos em todo canto tanta torpeza, tanta aflição, tanta imperfeição e erro, descobrimo-nos necessitados não de um amigo que nos louve e elogie, mas que nos submeta a exame, que nos fale com franqueza, que nos repreenda e até, por Zeus!, que nos trate mal. São poucos dentre muitos os que ousam falar aos amigos mais com franqueza do que para o agrado; e mesmo dentre esses poucos não acharás facilmente quem saiba fazê-lo de verdade, pois a maioria crê que basta insultar e repreender para usar bem a franqueza. Além disso, como qualquer outro remédio, assim também a franqueza empregada em má hora cria mágoas e perturbações inúteis, fazendo com a dor o mesmo que a adulação faz com o prazer. Recebem dano não apenas os que são elogiados importunamente, mas também os que são repreendidos. E o que mais fragiliza dos aduladores é quando resvalam como a água das mais árduas alturas até o mais acolhedor e macio dos vales. Por isso é necessário temperar a franqueza com a cortesia, usando de moderação para abrandar o excesso e destempero assim como se faz com a luz, a fim de evitar que os amigos, perturbados e aflitos por serem repreendidos por tudo o que fazem, se refugiem à sombra do adulador e busquem um lugar livre de desgosto. Pois todo vício, ó Filopapo, deve ser evitado por meio da virtude, não pelo vicio contrário¹, como pensam alguns, prescrevendo como cura do acanhamento o despudor, ou como remédio da rusticidade a bufonaria, e que o modo de pôr-se o mais longe o possível da covardia e da frouxidão é aproximar-se da audácia e do atrevimento. Alguns, para reprimir a superstição, recomendam o ateísmo, e contra a simploriedade dão como solução a velhacaria, forçando para o lado contrário os costumes tortos como se faz com a madeira, ignorantes que são do verdadeiro modo de corrigi-los. No entanto, não há defesa mais torpe contra a suspeita de adulação do que magoar os amigos inutilmente, e é sinal de rudeza de espírito e inaptidão no trato com os outros usar da rabugice e do mau humor para evitar na amizade a baixeza e mesquinharia, como o liberto da comédia, que crê que a incriminação desenfreada dos outros faz parte da liberdade de expressão a que tem direito. Porém, assim como é torpe resvalar na adulação fazendo tudo pelo agrado de alguém, também é torpe evitar a adulação arruinando a amizade e negligenciando os cuidados próprios dela com uma franqueza imoderada; cumpre não descair para nenhum dos lados, mas, como em todo o mais, também na franqueza extrair da mediania o belo e o bom. Pois bem, aqui parece que o desenvolvimento mesmo da questão exige que coroemos o livro com este assunto.


¹ Cf. Aristóteles, Ética, II. 7; Horácio, Sátiras, I. 2. 24.


Como Distinguir os Aduladores dos Amigos - Plutarco

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Amizade e Adulação

VI

Então vejamos a coisa do início. Dissemos que a amizade nasce, para a maior parte dos homens, da afeição pelos mesmos modos e maneiras, da alegria pelas mesmas práticas, pelos mesmos feitos e pelas mesmas ocupações, e da afinidade de talante e natureza: e é neste sentido que foi dito:

o velho se deleita ouvindo o velho,
as crianças ouvindo outras crianças,
nem nada dá mais gosto ao mulherio
do que com outras mulheres conversar.
É música aos ouvidos do doente a voz de outro doente,
e ao desgraçado a fala dos colegas na desgraça.

Vendo como da semelhança nos gostos e afeições surge naturalmente a familiaridade e o amor, o adulador usa-se desse método antes de qualquer outro para insinuar-se na confiança dos homens e capturá-la, como alguém que, imitando, numa pastagem, as práticas, os interesses, os desejos e o modo de viver de um animal, vai pé ante pé se achegando e acostando ao bicho até que ele dê a oportunidade e se ofereça manso e habituado ao toque humano. Assim, de um lado, o adulador reprova as práticas, as vidas e os homens que perceba desagradar o adulado; de outro, elogia tudo o que lhe agrade, não de maneira razoável e comedida, mas enaltecendo com aparente assombro e admiração, e ainda por cima assegurando que todos seus gostos e aversões nascem mais do juízo que das paixões.


Como Distinguir os Aduladores dos Amigos - Plutarco

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Reflexão #20

Retomo o conselho de Plutarco sobre os inimigos, ele diz que mesmo na vitória é bom manter alguns inimigos por perto, pois se temos apenas os amigos, acabamos direcionando nossas críticas e insatisfações contra estes, causando desgaste e, quiçá, os tornando novos inimigos.

Refletindo sobre esse conselho, considerei a situação da política brasileira da última década (2010-2020), especificamente o conflito de Direita e Esquerda. Antes desse período, a Esquerda era dominante e seu inimigo era o PSDB, o socialismo fabiano, esquerda de terno, esquerda com eficiência econômica, ou seja lá como quiser chamar. Deste ponto de vista, percebe-se que seu inimigo era de certa forma controlado, e excluía a possibilidade de existência da Direita.
Ainda assim, com o surgimento da "nova Direita", estabeleceu-se um verdadeiro conflito de Direita e Esquerda, ou seja, com reais inimigos. Entretanto, esta nova Direita não soube aplicar o conselho de Plutarco, nem imitar a situação anterior da Esquerda. Ao invés de direcionar suas críticas ao verdadeiro inimigo, a Esquerda, assim que colocou seu candidato na presidência voltou-se contra si mesma. Portanto, além do inimigo principal, tornou seus poucos amigos em inimigos.
Terminado esse período, a Esquerda voltou à presidência e segue com um único inimigo, a Direita. Por enquanto, não tornaram seus amigos em inimigos, nem pararam de atacar seu único inimigo, por mais fraco que este esteja.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Inimigo e Proveito

X

Se, porém,

toda cotovia vem com crista,

como diz Simônides, e também todo homem por natureza traz no peito a contenção, a emulação e a inveja,

companheira das cabeças ocas,

como fala Píndaro, tiraria um proveito nada modesto quem, tomando os inimigos, por assim dizer, como esgoto, despejasse neles todas essas más inclinações,¹ de modo a purgar-se delas e desviá-las do caminho dos companheiros e familiares.² E isto, ao que parece, é o que compreendeu aquele político de nome Demos, quando, encontrando-se do lado vencedor de uma insurreição em Quios, aconselhou seus correligionários que não banissem todos os integrantes da facção rival, mas deixassem alguns, "de modo", explicou ele, "que não passemos a nos voltar contra os amigos uma vez livres de todos os inimigos". Deste modo, essas nossas inclinações, despendidas por inteiro contra os nossos inimigos, incomodarão menos os nossos amigos. Não convém, afinal, que "o oleiro inveje o oleiro ou que o "o bardo do bardo tenha inveja", como canta Hesíodo, nem que haja emulação de espécie alguma com o vizinho, o primo ou o irmão que tenha "avançado depressa na 
riqueza" e chegado à prosperidade. E se não há outro expediente contra a rivalidade, a inveja e a contenção, acostuma-te a sentir o aguilhão toda vez que souberes da felicidade dos teus inimigos, e toma isto como estímulo para apontar e aguçar o teu espirito contencioso. Assim como os jardineiros habilidosos sabem que faz bem às rosas e violetas plantar à volta delas alho e cebola (já que sugam das flores tudo o que contenham de acre e fétido), do mesmo modo o inimigo, atraindo e absorvendo toda a tua malevolência e calúnia, devolve-te mais benévolo aos amigos prósperos. Por isso, na hora de disputar com os inimigos pela glória, pela autoridade ou pelo ganho justo, não apenas sintamos o aguilhão caso levem vantagem sobre nós em alguma coisa, como também observemos todos os meios pelos quais alcançaram essa vantagem, e tentemos superá-los no esmero, no esforço, na temperança e no exame de si mesmos. Nesse sentido dizia Temístocles que a vitória de Milcíades em Maratona não o deixava dormir. Quem, afinal, se crê superado pela fortuna do inimigo quer nos cargos de poder, quer na defesa de seus clientes, quer na gestão do Estado ou na relação com os amigos e superiores, caso se rebaixe, da ação e da emulação, à calúnia e ao acabrunhamento, toda essa inveja que o estimula a combater tornar-se-á inútil e ineficiente. Já aquele que não está cego para o que odeia, mas enxerga como um observador justo e imparcial a vida, os costumes, os ditos e as obras do outro, perceberá que a maior parte do que emula nos inimigos foi conquistado por meio diligência, da prudência e da honestidade na conduta; e, querendo chegar aos mesmos bens, cultivará, por um lado, o amor à honra e à beleza, e amputará, por outro, a preguiça e o desleixo.


¹ Cf. Xenofonte, Memorabilia, I, 4. 6.
² Cf Moralia, 813A. 


Como Tirar Proveito dos Inimigos - Plutarco

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Julgamento e Autoconhecimento

IV

Acrescenta a isto o dito mui filosófico e civil de Diógenes: "'Como hei de castigar meu inimigo? Tornando-me eu mesmo belo e bom".¹ Afligem-se os homens reparando como são celebrados os cavalos dos inimigos e elogiados os seus cães; murmuram, quer vejam seus campos bem lavrados, quer avistem seus jardins em plena flor. O que pensas, portanto, que lhes há de acometer se te mostrares um homem justo, sensato, prestativo, honrado nas palavras, puro nas ações, temperante na conduta,

lavrando os sulcos profundos da mente
fecundos em conselhos fidedignos?

"Os derrotados", diz Píndaro, "levam a lingua agrilhoada num silêncio sepulcral". Essas palavras não são verdadeiras em qualquer caso nem se aplicam a todos os homens, mas apenas aos que se vêem derrotados pela diligência, pela retidão, pela magnanimidade, pela benevolência e pela bondade dos inimigos; são estas as coisas que, como diz Demóstenes, "embaraçam a lingua, tapam a boca, comprimem-na e fazem calar".


Sê diferente dos maus: nada o impede

Se queres atormentar quem te odeia, não o xingues de pederasta, de efeminado, de licencioso, de ladrão de oferendas ou de sovina: antes sê tu mesmo viril, casto, verdadeiro, benigno e justo com os que cruzarem teu caminho. Se chegares, todavia, a insultar alguém, cuida que estejas o mais afastado o possível dos insultos que lhe atiras. Mergulha na tua alma e sonda o que ainda tens de podre nela, para que não aconteça daí que algum vicio te entoe de dentro aquele canto do poeta trágico:

És médico dos outros, mas o teu corpo de úlceras estala.

Se o chamares de iletrado, aguça em ti mesmo o amor à instrução e ao esmero; se o chamares de covarde, desperta e reaviva ao máximo tua coragem e virilidade; se o chamares de libertino e destemperado, apaga da tua alma o traço ainda oculto de amor à luxúria. Nada, afinal, é mais vergonhoso que a difamação que se volta contra seu autor, nem nada mais penoso; e tanto a luz parece ofender mais as vistas fracas se refletida, quanto as pechas quando devolvidas pela verdade mesma aos que as impõem nos outros. Como faz com o nevoeiro o vento nordeste, assim a vida indecorosa arrasta sobre si mesma seus insultos.

¹ Cf. Moralia, 21E
.
² Euripides, Orestes, 251.


Como Tirar Proveito dos Inimigos - Plutarco

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Reflexão #19

Em relação a uma recente referência:
O Senhor se queixa dos ricos porque encontram, na profusão dos bens seu consolo (Lc 6,24). "O orgulhoso procura o poder terreno, ao passo que o pobre em espírito busca o reino dos céus". O abandono nas mãos da providência do Pai do céu liberta da preocupação do amanhã. A confiança em Deus predispõe para a bem-aventurança dos pobres. Eles verão a Deus.


Surgiu-me o pensamento de como a bebida - ou outra droga, doce, cigarro, etc. - toma o papel de bem material que serve de consolo para o homem em sua dificuldade. É especialmente difícil para o humano suportar a dificuldade sem consolo. Diria até que humanamente impossível. Entretanto, não é impossível para Deus, e é por isso mesmo que deve-se pedir a Ele a força para atravessar esses vales de sofrimento.

Pecado e Perdão

— Há um limite a caridade humana - disse Lady Outram, trêmula da cabeça aos pés.
— Existe, é verdade,- respondeu o Padre Brown, secamente - e aí está a diferença real entre a caridade humana e a caridade cristã. Vocês me perdoem se eu não me deixei esmagar pelo seu desprezo à minha falta de caridade hoje; ou pelos sermões quanto a perdoar todos os pecadores. Pois me parece que voces só perdoam os pecados que não Ihes parecem realmente pecaminosos. Só perdoam criminosos quando o que estes fizeram não é algo que julgam ser um crime; sim, uma convenção. De modo que toleram um duelo convencional, assim como toleram um divórcio convencional. Perdoam porque não há o que se perdoar.
— Mas não é possível que o senhor espere que perdoemos uma coisa tão vil dessas! - protestou Mallow.
— Não - disse o padreco - mas temos de ser capazes de perdoá-la.

De súbito, pôs-se de pé e os fitou a todos.

— Temos de tocar tais homens, não com um pedaço de pau, e sim com uma bênção - disse ele. - Temos de dizer a palavra que haverá de salvá-los do inferno. Somos nós que Ihes restam para livrá-los do desespero quando sua caridade humana já os desertou. Vão, caminhem satisfeitos pela sua própria estrada primaveril, a perdoar seus vícios favoritos e dispensar generosidade aos seus crimes em voga; deixem-nos à treva, os vampiros da noite, para consolar os que realmente precisam ser consolados; os que verdadeiramente fizeram algo indefensável, para o qual não se pode encontrar em lugar algum qualquer mínima justificativa - ninguém senão um padre haverá de perdoá-los. Deixe-nos com os homens culpados de crimes perversos, revoltantes e reais; tão culpados quanto São Pedro quando o galo cantou; e ao qual se lhe seguiu ainda a luz da alvorada.
— A luz da alvorada... - repetiu Mallow, cético. - O senhor quer dizer esperança, para ele?
 Sim - replicou o outro - Deixem-me fazer-lhes uma pergunta. Vocês todos são grandes senhoras e homens honrados, e seguros de si; vocês nunca, é o que se podem dizer, rebaixar-se-iam por um motivo tão sórdido como aquele. Mas me digam o seguinte: se alguém de vocês houvesse caído assim, será que anos mais tarde, já velhos e ricos e em segurança, teriam sido forçados pela consciência ou por algum confessor a contar uma tal história de si próprios? Dizem que não seriam capazes de cometer um crime tão vil. Seriam capazes de confessar um crime tão vil? - os demais juntaram suas coisas e, em silêncio, foram-se embora da sala aos pares e trios. E o Padre Brown, também em silêncio, retornou ao melancólico castelo de Marne.


O Segredo do Padre Brown - Gilbert Keith Chesterton

terça-feira, 10 de junho de 2025

Ofício e Caráter

— O último homem que teria me passado pela cabeça - disse Devine.
— O primeiro homem que me passou pela cabeça - replicou o Padre Brown. - Isto na medida em que tinha eu o direito de pensar em quem fosse. Meu amigo, não há tipos ou ofícios sociais bons ou maus. Qualquer homem pode ser um assassino como o pobre-diabo do John; qualquer homem, e aliás o mesmo homem, pode ser um santo como o pobre Michael. Mas se há um tipo de homem que tende aqui e ali a ser mais ímpio do que os outros, é esta espécie um tanto brutal do homem de negócios. Não tem qualquer ideal social, quem dirá religião; não tem nem as tradições do cavalheiro, nem a lealdade de classe do sindicalista. Sempre que se vangloria por ter conseguido uma boa barganha, está se vangloriando por ter malogrado alguém. Suas chacotas as tentativas de espiritualidade da sua irmã eram detestáveis. O misticismo da senhora era uma besteira; ele odiava o seu espiritualismo apenas porque calhava de ser espiritualidade. Seja como for, não resta dúvida de que ele é o vilão deste caso; o único interesse que resta é ter sido um caso originalíssimo de vilania. Fora realmente um motivo novo e único para um assassinato. Era o motivo de usar o defunto como um aparato teatral - algo como uma boneca ou manequim odioso. No início, pensara num plano para matar Michael no carro, apenas para levá-lo para casa e fingir tê-lo matado no jardim. Contudo, toda sorte de toques finais os mais fantásticos seguiram-se naturalmente ao fato 
primário; que tinha ele à mão, de madrugada e num carro fechado, o cadáver de um ladrão famoso e reconhecível. Podia deixar suas digitais e pegadas; podia apertar-lhe a cara familiar contra janelas e levá-la embora. Repare como Moonshine ostensivamente apareceu e sumiu enquanto Bankes estava ostensivamente fora da sala, em busca do colar de esmeraldas.


O Segredo do Padre Brown - Gilbert Keith Chesterton

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Produtividade e Ansiedade

SOCIEDADE DA ANSIEDADE

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, defende, no livro Sociedade do Cansaço, que a sociedade em que vivemos, a sociedade pós-moderna, está excessivamente centrada no desempenho e na produtividade, o que gera grande cansaço e esgotamento e colabora com o aumento dos problemas psíquicos.

As pessoas acabam por se tornar vítimas de si mesmas através de uma dinâmica tóxica de autocobrança e dependência do "sucesso".

Seguindo um raciocínio parecido no estudo intitulado "Como superar la ansiedade", Enrique Rojas traz o conceito de "sociedade da ansiedade". Na descrição que faz do fenômeno, ele elenca aspectos da nossa cultura, como o materialismo, o 
hedonismo, a permissividade, relativismo e o consumismo, como fatores que "vão marcando a rota da ansiedade". O mais interessante é que Rojas "não escreve como filósofo, historiador o antropólogo, e muito menos como moralista, mas como psiquiatra experimental, a partir dos casos concretos trazidos ao seu consultório".
Tal constatação não deve causar surpresa, pois como já mencionamos, a ansiedade excessiva e o sentimentos a ela relacionados possuem raízes no medo de sofrer, e toda nossa cultura parece especialmente engajada em evitar o sofrimento a todo custo. Como pais ou educadores, temos medo de ver as crianças sofrerem; como adultos, somos constantemente bombardeados por todo tipo de alarmismo, o que nos faz desenvolver temores e reforça os que já temos. Adquirimos gradualmente a sensação de que não há mais causas nobres por que lutar, não sabemos para onde ir e qual o verdadeiro sentido da vida. Cria-se terreno fértil para a ansiedade!
Assim, desenvolvemos aversão a todo o tipo de sofrimento, o que nos impede de conviver com ele em paz e até com certa alegria.


O Mínimo sobre Ansiedade - Araceli Alcântara

terça-feira, 3 de junho de 2025

Oração e Contemplação

A TRADIÇÃO DA ORAÇÃO

ARTIGO 1
NAS FONTES DA ORAÇÃO


O Espírito Santo é "a água viva" que, no coração orante, "jorra para a Vida eterna". É Ele que nos ensina a recolher essa água na própria fonte: Cristo. Ora, existem na vida cristã fontes em que Cristo nos espera para nos dessedentar com o Espírito Santo.


A palavra de Deus

A Igreja "exorta todos os fiéis cristãos, com veemência e de modo peculiar [...] a que, pela frequente leitura das divinas Escrituras, aprendam 'a eminente ciência de Jesus Cristo'. Lembrem-se, porém, de que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada pela oração, a fim de que se estabeleça o colóquio entre Deus e o homem; pois 'a Ele falamos quando rezamos; a Ele ouvimos quando lemos os divinos oráculos'".
Os Padres espirituais, parafraseando Mt 7,7, resumem assim as disposições do coração alimentado pela Palavra de Deus na oração: "Procurai pela leitura, e encontrareis meditando; batei orando, e vos será aberto pela contemplação".



Catecismo da Igreja Católica 2653-2654

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Pobreza e Espírito

III. A pobreza de coração

Jesus ordena a seus discípulos que prefiram a tudo e a todos e lhes propõe que renunciem a todos os bens por causa dele e do Evangelho. Pouco antes de sua paixão, deu-lhes como exemplo a pobre viúva de Jerusalém que, em sua indigência, deu tudo o que possuía para viver. O preceito do desprendimento das riquezas é obrigatório para se entrar no Reino dos céus.
Todos os fiéis de Cristo "devem dirigir retamente seus afetos para que, por causa do uso das coisas mundanas, por causa do apego às riquezas contra o espírito da pobreza evangélica, não sejam impedidos de tender à perfeição da caridade".

"Felizes os pobres no espírito" (Mt 5,3). As bem-aventuranças revelam uma ordem de felicidade e de graça, de beleza e de paz. Jesus celebra a alegria dos pobres, a quem já pertence o Reino.

"O Verbo chama de "pobreza em espírito" a humildade voluntária de um espírito humano e sua renúncia; o Apóstolo acrescenta, como exemplo, a pobreza de Deus quando diz: "de rico que era, tornou-se pobre por causa de vós" (2Cor 8,9).

O Senhor se queixa dos ricos porque encontram, na profusão dos bens seu consolo (Lc 6,24). "O orgulhoso procura o poder terreno, ao passo que o pobre em espírito busca o reino dos céus". O abandono nas mãos da providência do Pai do céu liberta da preocupação do amanhã. A confiança em Deus predispõe para a bem-aventurança dos pobres. Eles verão a Deus.


Catecismo da Igreja Católica 2544-2547

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Esperança e Confiança

A ESPERANÇA

Quando Deus se revela e chama o homem, este pode responder plenamente ao amor divino por suas próprias forças. Deve esperar que Deus lhe dê a capacidade de corresponder este amor e de agir de acordo com os mandamentos da caridade. A esperança é o aguardar confiante da bênção divina e da visão beatifica de Deus; é também o temor de ofender o amor de Deus e de provocar o castigo.

O primeiro mandamento visa também aos pecados contra a esperança, que são o desespero e a presunção.
Pelo desespero, o homem deixa de esperar de Deus sua salvação pessoal, os auxílios para alcançá-la ou o perdão de seus pecados. O desespero opõe-se à bondade de Deus, à sua justiça porque o Senhor é fiel às suas promessas e à sua misericórdia.
Há duas espécies de presunção. Ou o homem presume suas capacidades (esperando poder salvar-se sem a ajuda do alto), ou então presume a onipotência ou a misericórdia de Deus (esperando obter seu perdão sem conversão e a glória sem mérito).


Catecismo da Igreja Católica 2090-2092

terça-feira, 27 de maio de 2025

Leitura e Escritura

OS SENTIDOS DA ESCRITURA

Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o sentido espiritual, sendo este último subdividido em sentido alegórico, moral e anagógico. A concordância profunda entre os quatro sentidos garante toda a sua riqueza a leitura viva da Escritura na Igreja.

O sentido literal. É o sentido significado pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese que segue as regras da correta interpretação. "Omnes sensus fundantur super litteralem  Todos os sentidos (da Sagrada Escritura) devem estar fundados no sentido literal".

O sentido espiritual. Graças à unidade do projeto de Deus, não somente o texto da Escritura, mas também as realidades e os acontecimentos de que ele fala podem ser sinais.
1. O sentido alegórico. Podemos adquirir uma compreensão mais profunda dos acontecimentos, reconhecendo a significação deles em Cristo. Assim, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de Cristo e também do Batismo.
2. O sentido moral. Os acontecimentos relatados na Escritura devem nos conduzir a um justo agir. Eles foram escritos "como advertência para nós" (1Cor 10,11).
3. O sentido anagógico. Podemos ver realidades e acontecimentos em sua significação eterna, nos conduzindo (em grego: "anagogé") à nossa Pátria. Assim, a Igreja na terra sinal da Jerusalém celeste.

Um dístico medieval resume a significação dos quatro sentidos.
"Littera gesta docei, quid credas allegoria, moralis quid agas, quo tendas anagogia". "A letra ensina o que aconteceu; a alegoria, o que deves crer; a moral, que deves fazer; a anagogia, para onde deves caminhar".

"É dever dos exegetas esforçarem-se dentro dessas diretrizes por entender e expor com maior aprofundamento o sentido da Sagrada Escritura, a fim de que, por seu trabalho de certo modo preparatório, amadureça o julgamento da Igreja, pois todas estas coisas que concernem à maneira de interpretar a Escritura estão sujeitas, em última instância, ao juízo da Igreja, que exerce o divino ministério e mandato do guardar e interpretar a Palavra de Deus"

"Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja católica".


Catecismo da Igreja Católica 115-119


terça-feira, 18 de março de 2025

Exercício: descrições com plano de composição (sala de visitas)

Descrição de coisas sem movimento

6) Descreva uma sala de visitas, de acordo com o seguinte plano:
a. A sala: forma, luz, aspecto, paredes, janelas, portas, cortinas, tapete, lareira
b. A mobília: mesa moderna, cadeiras, poltronas, sofá etc.
c. Ornatos: quadros, estatuetas, jarrões etc.


Flor do Lácio: Explicação de textos e guia de composição literária - Cleófano Lopes de Oliveira


6.a. A sala: forma, luz, aspecto, paredes, janelas, portas, cortinas, tapete, lareira

6.b. A mobília: mesa moderna, cadeiras, poltronas, sofá etc.

6.c. Ornatos: quadros, estatuetas, jarrões etc.


6.a. A sala:
É uma espaçosa e aconchegante sala de estar, formada por um grande quadrado e um retângulo um pouco menor estendendo-se para o lado. A sala tem uma boa iluminação natural, porém à noite fica um tanto escura com a iluminação artificial. Tem um aspecto que mistura de rústico e estilo simples-moderno. As paredes são de tijolo à vista, porém com uma cobertura de tinta branca, estando os tijolos delineados apenas pela sombra dos seus contornos. As janelas tem um formato retangular, mais largas que altas, com a parte superior em arco. As portas seguem o mesmo estilo das janelas, porém mais altas que largas. Em um dos lados, há um grande arco que divide a sala do vestíbulo. Este arco preenche quase toda a parede, sendo reto nas laterais e uma suave curva na parte superior. Não há cortinas na sala. Há dois tapetes: um no sofá principal, felpudo, retangular que preenche uma área pouco maior que o sofá em éle, que localiza-se ao canto; o outro tem um formato de feijão e está sob o sofá auxiliar, preenchendo a ala menor da sala. A lareira fica em uma parede do centro, oposta aos sofás. É relativamente grande e possui uma grade para fechar a abertura quando inativa.

6.b. A mobília:
Assim como toda sala contemporânea do século XXI, a mobília tem como polo a televisão. Na parede há um painel de madeira frisado, com uma prateleira acima e abaixo um pequeno armário suspenso, que é dividido com uma gaveta à direita e um nicho à esquerda. Ao centro do painel, a TV. Em frente, o sofá em éle de suede cinza-claro e completando o conjunto um pequeno par de mobília redonda, uma mesa circular e um puff chato em cima, ambos de um marrom vivo, que servem de apoio. Na outra seção da sala, o sofá auxiliar com formato de feijão também cinza claro, com uma manta marrom vivo por cima e dois conjuntos de almofadas, um em cada lado, alternadas cinza e marrom, totalizando seis almofadas. Ao lado do sofá auxiliar, uma banqueta retangular de estofado cinza claro e pés metálicos marrom claro, acompanhada por uma mesinha circular com o tampo cinza claro e os mesmos pés metálicos marrom claro. A mesinha tem uma estrutura em formato de cê, que se encaixa na banqueta. No chão, abaixo do sofá e da banqueta, um tapete cinza claro em formato de feijão estende-se, estando a concavidade na mesma orientação do sofá. Do outro lado da seção, à frente do sofá auxiliar, uma poltrona de balanço larga, nas mesmas cores: estofado cinza claro e laterais marrom vivo. Tem os pés em formato de estrela, feitos de uma madeira clara. Na poltrona, duas almofadas com um detalhe de retalho retangular costurado, em marrom vivo. Ao lado da poltrona, uma mesinha oval de madeira marrom vivo, com a estrutura deslocada para um dos lados, formando uma estrutura de cê que por isso pode ser posicionada mais próxima da poltrona.

6c. ornatos
No painel da TV, na parte superior há uma folhagem verde do tipo que se espalha e seus ramos escorrem para baixo, posicionada rente à lateral da prateleira para não cobrir a televisão. Abaixo, no nicho do armário suspenso, alguns equipamentos eletrônicos de internet (modem e roteador) e fios estão aparentes. Na mesinha central, próxima ao sofá, um par de livros falsos, ornamentais, fazem a base para um vaso de flores artificiais. Os livros tem a capa e lombada do mesmo marrom vivo. O vaso é de um marrom bem escuro e as flores variam nos tons desde branco, passando pelo bege e marrom, escurecendo até quase o preto. Envolvendo o vaso e espalhando-se até o puff está uma corrente de contas de madeiras, com alguns ornamentos naturais na união do laço e uma franja de barbantes na ponta. Na ala auxiliar da sala, sobre a mesinha da banqueta, há um par de estatuetas de madeira em formato de girafas, uma maior com um palmo de altura e outra menor com dois terços do tamanho da anterior. Junto, há também um vaso cilíndrico branco, muito suave e claro, e dentro plumas artificiais de um amarelo bem claro. Na mesinha ao lado da poltrona, um pequeno pelego de coelho cobre a mesa, sendo a cor do pelo marrom com algumas manchas brancas.




Imagens geradas por: Gemini (Imagen 3)




Imagens geradas por: Copilot.


Imagem gerada por: ChatGPT (DALL-E)