O impedimento a que me refiro não é material ou quantificável. O IBGE não o inclui em seus cálculos e o Ministério da Educação o ignora por completo. No entanto ele existe, tem nome e é conhecido há mais de dois milênios. A mente treinada reconhece sua presença de imediato, numa percepção intuitiva tão simples quanto a da diferença entre o dia e a noite.
Os gregos chamavam-no apeirokalia. Quer dizer simplesmente "falta de experiência das coisas mais belas". Sob esse termo, entendia-se que o indivíduo que fosse privado, durante as etapas decisivas de sua formação, de certas experiências interiores que despertassem nele a ânsia do belo, do bem e do verdadeiro, jamais poderia compreender as conversações dos sábios, por mais que se adestrasse nas ciências, nas letras e na retórica. Platão diria que esse homem é o prisioneiro da caverna. Aristóteles, em linguagem mais técnica, dizia que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um ensinamento definido, mas deixar em suas almas uma profunda impressão. Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles atribui às impressões imaginativas, entende a gravidade extrema do que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um impacto iluminante e estruturador. Na ausência delas, a inteligência fica patinando em falso sobre a multidão dos dados sensíveis, sem captar neles o nexo simbólico que, fazendo a ponte entre as abstrações e a realidade, não deixa que nossos raciocínios se dispersem numa combinatória alucinante de silogismos vazios, expressões pedantes da impotência de conhecer.
[...]
As duas fortalezas do sublime, que Weber menciona, não demoraram a ceder: a vida mística, assediada pela maré de pseudo-esoterismo que se apropriou de sua linguagem e de seu prestígio, acabou por se recolher à marginalidade e ao silêncio para não se contaminar da tagarelice profana. A intimidade, vasculhada pela mídia, violada pela intromissão do Estado, tornada objeto de exibicionismo histérico e de bisbilhotices sádicas, desapropriada de sua linguagem pela exploração comercial e ideológica de seus símbolos, simplesmente não existe mais.
Toda a literatura do século XX reflete esse estado de coisas: primeiro a "incomunicabilidade" dos egos, depois a supressão do próprio ego: a "dissolução do personagem". Mas, desde Weber, muita água rolou. Nas proximidades do fim do milênio, o que se entende por mística é um cerebralismo de filólogos; por intimidade, o contato carnal entre desconhecidos, através de uma película de borracha. Os três valores supremos já não são apenas autônomos, mas antagônicos. O belo já não é apenas alheio ao bem: é decididamente mau; o bem é hipócrita, pseudo-sentimental e tolo; a verdade, feia, estúpida e deprimente. A estética celebra os vampiros, a morte da alma, a crueldade, o macho que mete o braço até o cotovelo no ânus de outro macho. A ética reduz-se a um discurso acusatório de cada um contra seus desafetos, aliado à mais cínica auto-indulgência. A verdade nada mais é o consenso estatístico de uma comunidade acadêmica corrompida até à medula.
APEIROKALIA - Olavo de Carvalho
Fonte:
http://old.olavodecarvalho.org/livros/apeirokalia.htm
Bravo!, Ano I, no1, novembro de 1997 e
A Longa Marcha da Vaca para o Brejo: O Imbecil Coletivo II. Rio, Topbooks, 1998.
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
Palavras e Realidade
Não era só porque ele me divertia que eu passava tempo com Karel – ainda que só Deus soubesse que na época a diversão era bem vinda. Para Karel, as palavras não era servas das coisas, mas senhoras delas: elas arranjam e rearranjam o mundo. Em 1984, de George Orwell, a linguagem foi reconfigurada para que só as opiniões oficiais pudessem ser nela expressas. Algo parecido, dizia Karel, aconteceu conosco. A literatura oficial, a imprensa oficial, até as notícias na TV usavam um pequeno vocabulário de palavras confiáveis, e uma sintaxe que só permitia combinações confiáveis. As pessoas, nesse discurso, aparecem não como indivíduos dotados de livre-arbítrio, mas como abstrações por meio das quais forças impessoais “lutam” por dominação. As forças do progresso inevitavelmente venceriam, e as forças reacionárias seriam derrotadas. Enquanto isso, era importante fundir as palavras permitidas em blocos, de modo que vedassem as portas pelas quais a realidade pudesse entrar. Por isso, reacionário sempre ia junto com “burguês”, “imperialista” e “sionista”, e esta última abria a possibilidade de um tom permitido de antissemitismo; “progressista” invariavelmente vinha junto com “proletário”, “fraterno” e “internacionalista”. Nossa “sociedade” estava “construindo o socialismo” e, nesse ínterim, vivendo numa condição de “socialismo real” que de algum modo antecipava o heroico objetivo. E o que, perguntava Karel, significava a palavra “real”? Só o sedimento que vai para o fundo, quando a jarra das possibilidades é agitada.
O abuso das palavras de que dependia nossa doutrina oficial já estava prefigurado nos textos sagrados de Marx, Engels e Lênin. O objetivo, dizia Karel, não era contar mentiras explícitas, mas destruir a distinção entre o verdadeiro e o falso, de modo que a mentira não fosse necessária, nem possível. E ele comparava a novilíngua ao kitsch*, cujo propósito é destruir a distinção entre sentimento verdadeiro e falso, para remover a emoção da realidade e investi-la num mundo de fantasia, onde nada tem valor, mas tudo tem preço.
O abuso das palavras de que dependia nossa doutrina oficial já estava prefigurado nos textos sagrados de Marx, Engels e Lênin. O objetivo, dizia Karel, não era contar mentiras explícitas, mas destruir a distinção entre o verdadeiro e o falso, de modo que a mentira não fosse necessária, nem possível. E ele comparava a novilíngua ao kitsch*, cujo propósito é destruir a distinção entre sentimento verdadeiro e falso, para remover a emoção da realidade e investi-la num mundo de fantasia, onde nada tem valor, mas tudo tem preço.
As Memórias de Underground – Roger Scruton
* Usualmente é empregado nos estudos de estética para designar uma categoria de objetos vulgares, baratos, sentimentais, bregas (cheesy, do inglês), que copiam referências da cultura erudita sem critério e sem atingirem o nível de qualidade de seus modelos, e que se destinam, conforme o seu crítico popularizador, Clement Greenberg, ao consumo de massa. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Kitsch)
* Usualmente é empregado nos estudos de estética para designar uma categoria de objetos vulgares, baratos, sentimentais, bregas (cheesy, do inglês), que copiam referências da cultura erudita sem critério e sem atingirem o nível de qualidade de seus modelos, e que se destinam, conforme o seu crítico popularizador, Clement Greenberg, ao consumo de massa. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Kitsch)
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Totalitarismo e Publicidade
- Foi esse o erro da sua mãe – disse ela de repente. – Não ser conhecida. Uma pessoa comum, que se desviava das rotinas oficiais como Winston Smith em 1984, sem contar nada disso a ninguém. Isto é, a ninguém que importa. Os criminosos públicos têm um halo elétrico e não podem ser tocados. Os criminosos privados são indefesos.
As Memórias de Underground – Roger Scruton
As Memórias de Underground – Roger Scruton
terça-feira, 11 de agosto de 2020
Memória e Progresso
Voltei ao cinema três vezes para ver o filme. Na terceira vez, levei alguns dos alunos de meu curso, “A Vida Cotidiana na Europa Comunista”. Minha intenção era chamar a atenção deles para a cena da batalha e dizer: “Lembram-se da igreja, da estátua da Virgem, daquilo tudo indo para o espaço? Bem, aquilo era a minha cidade”. Mas Jake disse que o filme era muito cafona; Meg perguntou o que a história tinha a ver com seu curso de Relações Internacionais; Alice achou o filme chato. Comprei pizza para eles e, enquanto conversavam animadamente, eu recordava em silêncio aqueles tempos de medo.
A destruição de nossa cidade não foi noticiada na imprensa. Tudo o que nos disseram foi que tínhamos sido realocados “por motivos econômicos”.
As Memórias de Underground – Roger Scruton
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