quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Reflexão #16

como diz Unamuno em “A agonia do cristianismo”, a luta pela vida é a própria vida, e a agonia dessa verdade é inseparável de sua sacralidade

Deparei-me com esta citação em algum lugar, provavelmente no perfil do Olavo de Carvalho, e imediatamente lembrei-me de dois autores: Viktor Frankl e Jordan Peterson.
O primeiro diz que não é você que pede à vida o que fazer dela, mas a própria vida que pede a você o que fazer. Isto é, não cabe ao nosso eu isolado decidir o que fazer da vida, mas sim compreender a circunstância em que estamos inseridos e a partir daí interpretar o sentido e tomar a decisão de seguir neste.
O segundo diz que a vida é sofrimento. Sofrer é parte essencial da vida e evitar esse sofrimento é evitar o amadurecimento, e consequentemente evitar encarar a realidade.
Após essa dispersão, retornemos à fonte. Lutar pela vida, seja a própria ou de outrem, é a vida mesma acontecendo, é por isso e para isso que vivemos. Ainda não li a obra de Unamuno, mas espero um dia ler e complementar essa reflexão.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Memória e Inteligência

Essas mesmas bibliotecas não deixam de ter sérios inconvenientes. Com a facilidade de ver o que nossos predecessores pensaram sobre as questões que nos interessam, acabamos perdendo o hábito de pensar por nós mesmos. E como nenhum poder se enfraquece tanto pela falta de exercício como o do esforço pessoal, chega-se logo a substituir sempre e em tudo os esforços da memória aos esforços de investigação pessoal ativa. Quase sempre a capacidade de pensamento pessoal é inversamente proporcional à riqueza de recursos que fornecesse o meio em que se vive. É por esse motivo que os estudantes dotados de muito boa memória são quase sempre inferiores a seus colegas menos bem-dotados sob esse aspecto. Estes últimos, desconfiando de sua capacidade de reter, recorrem a ela o menos possível. Fazem uma escolha escrupulosa dos materiais que a repetição introduzirá na memória; só confiam-lhe o que é essencial, e deixam o esquecimento apagar tudo aquilo que é acidental. E mesmo o essencial, é urgente organizá-lo muito bem. Uma tal memória é como uma tropa de elite composta somente pelos melhores oficiais. Assim, quem não tem acesso às inumeráveis bibliotecas, cerca-se somente dos melhores livros, que lê com cuidado, que medita e analisa, suprindo o que lhe falta pela observação pessoal e por esforços de penetração que constituem um admirável exercício para o espírito.


A Educação da Vontade – Jules Payot

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Trabalho e Hábito

Em suma, se a meditação desperta na alma poderosas emoções, ela não pode capitalizá-las sob a forma de hábitos. Ora, a educação da vontade é impossível sem a criação de excelentes e sólidos hábitos; sem eles nossos esforços teriam que sempre recomeçar. Somente eles permitem fixar nossas conquistas e prosseguir adiante. Ora, esses hábitos, agora o sabemos, somente a ação pode criar.

Para agir, é preciso realizar corajosamente cada uma das pequenas ações que concorrem para alcançar uma finalidade. A ação fixa o pensamento, engaja-nos publicamente num partido, produz uma profunda alegria.

Infelizmente, o tempo da atividade, já tão curto, é ainda diminuído pela falta de método odo estudante em seu trabalho; apesar disso, como já dissemos, “basta pouco para cada dia se a cada dia realizamos esse pouco”. A paciência dos esforços incessantemente renovados produz resultados prodigiosos: é, portanto, o hábito da atividade incessante que o estudante deve adquirir. Para tanto, ele deve fixar toda a noite a tarefa do dia seguinte, aproveitar de todos seus bons movimentos, terminar todo trabalho começado, fazer uma só coisa de cada vez e não desperdiçar nenhuma parcela de seu tempo. Tais hábitos lhe permitirão esperar os mais altos destinos e lhe darão as condições para pagar à sociedade a dívida de reconhecimento que os benefícios que dela recebeu obrigam-no a reconhecer.

O trabalho assim compreendido não pode jamais ser uma sobrecarga: a fadiga que se atribui ao trabalho provém de fato, quase sempre, dos excessos da sensualidade, das inquietudes, das emoções egoístas, de um mau método; o trabalho bem compreendido, o hábito dos pensamentos nobres e elevados, só fazem fortificar a saúde, se é verdade que uma condição fisiológica excelente é feita de calma, tranqüilidade, felicidade.


A Educação da Vontade – Jules Payot

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Trabalho e Determinação

Raras são na vida as ocasiões de realizar ações estrondosas. Assim como uma excursão ao Monte Branco é feita de miríades de passos, de esforços, de saltos, de incisões no gelo, também a vida dos maiores sábios é feita de longas séries de pacientes esforços. Agir é, portanto, realizar milhares de pequenas ações. Bossuet, que foi um admirável diretor espiritual, “aos grandes esforções extraordinários a que se chega por grandes arroubos, e de onde se cai numa queda profunda”, preferia “os pequenos sacrifícios que são às vezes os mais mortificantes e os mais extenuantes, os ganhos modestos, mas seguros, os atos fáceis mas repetidos e que se tornam hábitos insensíveis [...]. Basta pouco a cada dia se a cada dia realizamos esse pouco” ¹. Com efeito, o homem corajoso não é aquele que realiza corajosamente todos os atos da vida. É o aluno que, apesar da repugnância, obriga-se a levantar para procurar uma palavra no dicionário, que acaba sua tarefa apesar do desejo de descansar, que termina a leitura de uma página tediosa. É nessas mil ações aparentemente insignificantes que se tempera a vontade. “todas as obras fazem crescer”. Devemos, na falta de grandes esforços, realizar a toda hora os pequenos, excelentemente e com amor. Qui spernit modica paulatim decidet ². A grande regra aqui é escapar sempre, até nas mínimas ações, à vassalagem da preguiça, dos desejos e das influências exteriores. Devemos mesmo buscar as ocasiões de alcançar essas pequenas vitórias. Chamam-lhe quando está trabalhando, e você experimenta um sentimento de revolta: levante-se sem demora, obrigando-se a ir vigorosa e alegremente aonde foi chamado. Antes da aula, um amigo convida-o para passear; faz um belo dia; vá vigorosamente trabalhar! A vitrina daquela livraria atrai-o na hora do trabalho: vá para outro lado da rua e caminhe rapidamente. É por essas “crucifixões” que se habituará a triunfar sobre suas inclinações, a ser ativo em toda parte e sempre... mesmo quando dorme ou passeia, que seja porque escolheu esse repouso. É assim que nos bancos do liceu, estudando, a criança aprende uma ciência mais preciosa que o latim ou as matemáticas que deve saber: a ciência do auto-domínio, de lutar contra a desatenção, contra as dificuldades desanimadoras, contra o tédio das pesquisas no dicionário ou na gramática, contra o desejo de perder o tempo sonhando; e por uma conseqüência consoladora, ocorre que os progressos realizados no estudo estão sempre digam o que disserem, em razão direta com os progressos realizados nessa obra de domínio sobre si mesmo, tanto é verdade que a energia da vontade é ao mesmo tempo a mais preciosa das conquistas e a mais fecunda em boas conseqüências!

¹ Ver o Bossuet de Lanson. [Gustave Lanson, Bossuet, Société Française d’imprimerie et de librarie, Paris, 1890 – NT].

² “O que despreza as coisas pequenas pouco a pouco cairá”. Eclo 19, 1b – NT.


A Educação da Vontade – Jules Payot

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Trabalho e Constância

A preguiça fundamental não impede de forma alguma ocasionais momentos de energia. O que repugna os povos não civilizados não são os esforços violentos: é unicamente o trabalho regular, contínuo, que no fim das contas consome uma quantidade de energia bem maior; um desgaste, mesmo pequeno, mas constante, acaba demandando mais do que grandes desgastes separados por longos períodos de repouso. Os árabes conquistaram um vasto império. Não o conservaram porque lhes faltou a constância de esforços que organizam a administração de um país, constroem estradas fundam escolas e indústrias. Da mesma forma, quase todos os estudantes preguiçosos, acicatados pela aproximação dos exames, podem fazer um tour de force. O que lhes repugna são os esforços moderados mas reiterados dia após dia, ao longo dos meses e dos anos.


A Educação da Vontade – Jules Payot