sábado, 25 de abril de 2026

Atenção e Oração

Para retraçar essa marcha ascendente do espírito em direção à unidade absoluta da consciência, da qual a atenção, mesmo a mais intensa, não passa de um pálido esboço, não precisamos mais recorrer a hipóteses prováveis, nem proceder teoricamente e a priori. Encontro, no Castelo Interior de Santa Teresa, a descrição, etapa por etapa, desta concentração progressiva da consciência que, partindo do estado ordinário de difusão, reveste a forma de atenção, vai além dela e, pouco a pouco, em alguns raros casos, alcança a perfeita unidade da intuição. A bem da verdade, este documento é único, mas uma boa observação vale mais do que cem medíocres.¹ Aliás ela pode nos inspirar plena confiança. É uma confissão feita por ordem do poder espiritual, a obra de um espírito muito delicado, muito hábil em observar e em manejar a língua para expressar as nuances mais sutis.

Rogo ao leitor que não se deixe desorientar pela fraseologia mística desta observação, não esquecendo que é uma espanhola do século XVI que se analisa com a linguagem e as idéias de seu tempo; mas pode-se traduzi-la para a linguagem da psicologia contemporânea. Irei tentar esta tradução, atendo-me a demonstrar a concentração sempre crescente, e o estreitamento incessante do campo da consciência, descrito a partir de uma experiência pessoal.

Existe, diz ela, um castelo construído de um único diamante, de beleza e pureza incomparáveis; adentrá-lo e habitá-lo, tal é o objetivo do místico. Esse castelo é interior, na nossa alma; não precisamos sair de nós mesmos pare penetrá-lo; mas o caminho é longo e difícil. Para chegar a ele, há sete estâncias a percorrer; e para percorrê-lo, há sete graus de "oração". Na fase preparatória, ainda se está imerso na multiplicidade de impressões e imagens, na "vida do mundo". Traduzindo: a consciência segue seu curso ordinário, normal.

A primeira estância é atingida pela "oração vocal". Interpretando: a oração feita em voz alta; a palavra articulada gera um primeiro grau de concentração, reconduzindo a uma via única a consciência dispersa.

A segunda estância é a da "oração mental", isto é: aumenta a interioridade do pensamento; a linguagem interior toma o lugar da linguagem exterior. O trabalho de concentração torna-se mais fácil: a consciência não necessita mais do apoio material das palavras articuladas ou ouvidas para não se desviar; bastam-lhe imagens vagas de signos que se sucedem.

A "oração de recolhimento" marca o terceiro grau. Aqui, confesso, fico confuso com a interpretação. Só posso enxergar nela uma forma superior do segundo momento, separada por uma nuance sutil e somente perceptível para a consciência do místico.

Até este ponto, houve atividade, movimento, esforço. Todas as nossas faculdades permanecem em jogo; agora, é preciso "não mais pensar muito, mas amar muito". Em outras palavras, a consciência irá passar do modo discursivo ao modo intuitivo, da pluralidade à unidade. Ela tende a se tornar, não mais uma irradiação em redor a um ponto fixo, mas um único estado de imensa intensidade. E essa passagem não resulta de uma vontade caprichosa e arbitrária, nem do simples movimento do pensamento entregue a si próprio; ela precisa ser motivada por um poderoso amor, pela "inspiração da graça", isto é, ela precisa da conspiração inconsciente de todo o ser.

A "oração de quietude" introduz à quarta estância, e então "a alma não produz mais, ela recebe"; é um estado de alta contemplação, que os místicos religiosos não foram os únicos a conhecer. É a verdade que aparece bruscamente de um só bloco, impondo-se como tal, sem os lentos e longos procedimentos de uma demonstração lógica.

A quinta estância ou "oração de união" é o início do êxtase, mas é instável. É a "entrevista com o divino noivo", mas sem fruição durável. As flores apenas entreabriram seus cálices, apenas espargiram seus primeiros perfumes". A fixidez da consciência não é completa, é oscilante e fugidia; ela ainda não é capaz de manter-se nesse estado extraordinário e antinatural.

Finalmente, ela atinge o êxtase na sexta estância através da "oração de arrebatamento".

O corpo torna-se frio, a palavra e a respiração são suspensas, os olhos se fecham, o mais leve movimento causaria os maiores esforços. Os sentidos e faculdades permanecem fora [...]. Apesar de normalmente não se perder o sentimento [a consciência], já me aconteceu de perdê-lo inteiramente: foi raro, e muito breve. Na maioria das vezes, o sentimento se mantém, mas experimenta-se uma perturbação que eu não saberia descrever, e apesar de nos tornarmos incapazes de uma ação exterior, a audição é preservada. É como um som distante. Todavia, até mesmo essa forma de audição cessa quando o arrebatamento atinge o seu mais alto grau.

O que é então a sétima e última estância, que se atinge pelo "vôo do espírito"? O que há para além do êxtase? A unificação com Deus. Ela se dá "de forma súbita e violenta [...] com uma força tal que seria vão resistir a esse ímpeto irrefreável". E então Deus desceu à substância da alma, que é una com ele. A distinção entre esses dois graus de êxtase não é vã, na minha opinião. Em seu grau mais elevado, a própria abolição da consciência é afetada pelo seu excesso de unidade. Essa interpretação parece legítima, se nos referirmos às duas passagens que assinalei acima: "Já me aconteceu de ser inteiramente privada do sentimento", e "essa forma de audição cessa quando o arrebatamento atinge o seu mais alto grau". Poderiam ser citadas diversas outras da mesma autora. É notável que, durante um de seus "grandes arrebatamentos", a Divindade lhe apareça sem forma, como uma abstração perfeitamente vazia. Eis aqui, ao menos, como ela se expressa: "Direi então que a Divindade é como um diamante de uma transparência soberanamente límpida e muito maior do que o mundo".² É impossível 
para mim enxergar nisso apenas uma simples comparação e uma metáfora literária. É a expressão da perfeita unidade na intuição.

Este documento psicológico nos permitiu seguir a consciência pouco a pouco até o seu último grau de concentração, até o monoideísmo absoluto; ele nos permite além disso responder a uma questão que surge freqüentemente e que só foi resolvida teoricamente: Pode um estado de consciência uniforme subsistir? O testemunho de alguns místicos parece permitir uma resposta afirmativa. Decerto, é uma verdade positiva e banal que a consciência vive unicamente pela mudança. Essa verdade é reconhecida pelo menos desde Hobbes: Idem sentire semper et non sentire, ad idem recidunt.³ Mas esta lei é transgredida em alguns indivíduos excepcionais, em casos muito raros e por pouquíssimo tempo. No êxtase ordinário, a consciência atinge o seu máximo de retração e de intensidade, mas mantém ainda a forma discursiva: é só em grau que ela difere de uma atenção muito forte. Somente os grandes místicos, cujo ímpeto é mais vigoroso, atingiram o monoideísmo absoluto. Todos, em todos os países, em todos os tempos, sem se conhecerem, consideraram a unidade perfeita da consciência, Ενωσις
, como a suprema consumação do êxtase, raramente atingida. Plotino só alcançou essa mercê quatro vezes na vida, de acordo com Porfírio, que por sua vez só a conheceu uma vez, aos sessenta e seis anos.* Nesse ponto extremo, consciência não pode durar por muito tempo, o que é declarado por eles. Mas essa instabilidade que é vista por eles como resultado de sua indignidade diante de tal felicidade, ou pela impossibilidade para um ser finito de tornar-se infinito, na realidade se explica por causas psicológicas e fisiológicas. A consciência é deslocada das condições necessárias para sua existência, e os elementos nervosos que são suporte e agente dessa prodigiosa atividade não podem suportá-la por muito tempo. Assim, volta-se a pôr os pés no chão, torna-se a ser "o burrico que vai pastando".


¹ É provável que seja possível encontrar outras, vasculhando a literatura mística de diversos países. As passagens citadas são do Castelo Interior e algumas poucas da Vida.
² Vida, p. 526.
³ "Sentir sempre e não sentir têm o mesmo resultado" - NT
* Porfirio, Vida de Plotino, cap. XXII


Psicologia da Atenção - Théodule Ribot

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Atenção e Vontade


A ATENÇÃO VOLUNTÁRIA

Sem pretender enumerar os diversos motivos artificialmente acionados para despertar e consolidar a atenção voluntária, isto é, novamente, para dar ao objetivo a ser atingido uma força de ação que ele não possui naturalmente, destaco na formação da atenção voluntária três etapas cronológicas.

Na primeira, o educador só age sobre sentimentos simples: faz uso do medo sob todas as suas formas, das tendências egoístas, do atrativo das recompensas, das emoções afetuosas e simpáticas, da curiosidade inata que equivale ao apetite da inteligência e que pode ser encontrada em todos em algum grau, por mais fraco que seja.

Na segunda etapa, a atenção artificial é suscitada e mantida por sentimentos de formação secundária: amor-próprio, emulação, ambição, interesse no sentido prático, de ver, etc.

A terceira etapa é de organização: a atenção é suscitada e mantida pelo hábito. O estudante na sala de estudos, o operário na usina, o funcionário no escritório, o comerciante atrás do balcão prefeririam em geral estar em outro lugar; mas o amor-próprio, a ambição, o interesse criaram por repetição um treinamento duradouro. A atenção adquirida tornou-se uma segunda natureza; a obra da arte se consumou. O simples fato de estar posicionado em determinada atitude, em determinado meio, leva ao resto; a atenção se cria e se mantém menos pelas causas presentes do que por causas anteriores acumuladas; os motivos habituais assumiram a força dos motivos naturais. Aqueles que são refratários à educação e à disciplina não atingem nunca essa terceira etapa; neles, a atenção voluntária se produz raramente, de forma intermitente, e não tem como tornar-se um hábito.


Psicologia da Atenção - Théodule Ribot

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Atenção e Educação

Enquanto a vida psíquica permanece assim no período de experimentação, a atenção, isto é, a transferência do espírito de um objeto a outro, é determinada unicamente pela força de atração destes. O despertar da atenção voluntária, que é a possibilidade de fixar o espírito em objetos não atraentes, só pode se produzir forçadamente, por influência da educação, venha ela dos homens ou das coisas. A que vem dos homens é mais fácil de demonstrar, mas não é a única.

Uma criança se recusa a aprender a ler; é incapaz de fixar o espírito em letras que não representam nenhum atrativo para ela; mas contempla avidamente as imagens de um livro. "O que representam estas imagens?". O pai responde: "Quando você souber ler, o livro lhe ensinará". Depois de várias conversas parecidas, a criança se conforma, entregando-se de início sem muito entusiasmo à tarefa, depois se habitua, e finalmente demonstra um ardor que precisa ser moderado. Eis um caso de gênese da atenção voluntária. Foi preciso enxertar, em um desejo natural e direto, um desejo artificial e indireto. A leitura é uma operação que não possui atrativo imediato, mas tem um atrativo como meio, um atrativo de empréstimo; é o suficiente: a criança foi presa pela engrenagem, o primeiro passo foi dado. Tomo emprestado outro exemplo ao Sr. B. Perez:

Uma criança de seis anos, habitualmente muito distraída, sentou-se espontaneamente ao piano para ensaiar uma melodia que agradava à sua mãe; seus exercícios duraram mais de uma hora. A mesma criança, com sete anos, ao ver seu irmão ocupado com os deveres de férias, foi sentar-se no escritório do pai. "O que está fazendo?", perguntou-lhe a empregada, admirada de encontrá-la aí. "Estou fazendo uma página de alemão", disse a criança. Não é muito divertido, mas é uma boa surpresa que quero fazer para mamãe"¹

Outro caso de gênese de atenção voluntária, agora enxertada em um sentimento simpático, e não em um sentimento egoísta, como no primeiro exemplo. O piano ou alemão não despertam espontaneamente a atenção; eles a suscitam e a mantêm por uma força de empréstimo.

Por toda parte, na origem da atenção voluntária, encontra-se este mecanismo sempre igual, com inúmeras variações, e que resulta em sucesso, semi-sucesso ou fracasso: tomar motivações naturais, desviá-las de seu objetivo direto e empregá-las (se possível) como meios para outro objetivo. A arte dobra a natureza aos seus desígnios, e é por este motivo que chamo esta forma de atenção de "artificial".


¹ B, Perez, L'enfant de trois à sept ans [A criança de três a sete anos], p. 108.


Psicologia da Atenção - Théodule Ribot