terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Prudência e Reflexão

Questionário sobre a prudência

– Procuro ter com frequência (se possível, diariamente) alguns momentos de silêncio e reflexão, para orar, meditar e esclarecer com Deus os assuntos fundamentais da minha vida? Peço ao Espírito Santo que ilumine a minha inteligência e oriente e fortaleça a minha vontade para seguir a verdade e o bem?

 Tenho o bom hábito de me aconselhar devidamente antes de assumir compromissos sérios, de fechar negócios arriscados ou de resolver problemas familiares e profissionais de certo vulto? Evito a autossuficiência? Caio no orgulho de dizer: "Não preciso de ninguém, isso eu resolvo sozinho"?

 Quando tenho de enfrentar algum problema que cria tensões desagradáveis (familiares, profissionais, sociais), peço a Deus que não permita que a paixão, a ira, o ódio ou rancor me privem do raciocínio lúcido?

 Guardo um silêncio prudente antes de corrigir, quando ferve a indignação? Falo só após ter transcorrido o tempo suficiente para que a correção, embora firme, seja serena e faça o bem?

– Evito duas imprudências, muito comuns e perigosas: ser afoito, e ser o eterno hesitante?

 Caio na falsa prudência dos medrosos, que não querem arriscar nada e por isso, adiam tudo, fogem de compromissos (com Deus e com o próximo) e se apavoram diante de ideais grandes e generosos? Percebo que este é o caminho garantido para a mediocridade?

–  Esqueço-me de que até as pessoas mais simples me podem sugerir ideias e soluções boas, em que eu não havia pensado? Tenho respeito pelas opiniões dos demais?

 Caio na insensatez de dizer, em matérias de religião e espiritualidade, "eu não preciso de direção espiritual", ignorando que a auto direção costuma terminar no fracasso?

 A prudência do autêntico cristão deve levá-lo muitas vezes a renunciar com valentia a ambientes, situações e comportamentos que outros acham normais. Tenho a coragem de prescindir de certas amizades perigosas, de prazeres, brincadeiras e costumes (em matéria de sexo, de bebidas, de festas, de espetáculos...), que só me fazem mal e ofendem a Deus?

 Dou-me conta do sentido profundo desta frase de Cristo: Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a sua alma (Mt16,26)? Quem é mais "prudente", aquele que se arrisca a condenar levianamente a sua alma, ou o que não hesita em fazer os sacrifícios necessários para não perder Deus para sempre?

 Sou firme nas minhas decisões? Persevero no cumprimento das resoluções difíceis? Depois de ter refletido e pedido luzes a Deus, empenho-me em levar as coisas até o fim, sem esmorecer nem recuar perante os obstáculos?

Conclusões (Procure tirar as suas conclusões e anotá-las).



A Conquista das Virtudes – Francisco Faus

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Hedonismo e Abnegação

A mentalidade hedonista é – como diria o Papa Francisco – uma "mentalidade de descarte". Em nome do prazer e do direito de ser feliz, o marido descarta a mulher, a esposa descarta marido, ambos descartam os filhos, que sempre sofrem as consequências da separação. "Foi inevitável", dizem, "será melhor para eles". Será? Fora casos pontuais, normalmente. teria sido muito melhor para os filhos conviver com os defeitos e as virtudes que os pais deveriam e poderiam ter vivido se se decidissem a amar mais, a "dar-se" mais.
De fato, se quisermos conhecer os motivos da maioria dos divórcios, o casal e o advogado nos darão uma lista. Mas a verdadeira "lista", aos olhos de Deus, em grande parte das crises, são as virtudes que faltaram e levaram aquela família a desmoronar, como um edifício sem estacas nem pilares: falhou o sentido de vocação, de missão, a entrega generosa ao ideal familiar, a abnegação, a compreensão, a dedicação prestativa e alegre, a paciência, o espírito de serviço, o espírito de perdão, e tantas outras mais.


A Conquista das Virtudes – Francisco Faus 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Virtudes e Estabilidade

As virtudes são hábitos estáveis

O Catecismo começa dizendo que "as virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade" (n. 1804). Ou seja que não são tendências instintivas ou espontâneas, como os traços de temperamento mas devem ser adquiridas com empenho e esforço constante. Por isso, as virtudes humanas podem ser chamadas também "virtudes adquiridas".
As virtudes não nascem feitas embrulhadas. Da mesma maneira que não nasce feito tudo o que tem valor e requer esforço de conquista: ser engenheiro eletrônico, spalla de orquestra sinfônica, pesquisador ou médico.
Os que não lutam por ganhar virtudes – lembre-se disso – constroem o edifício da vida sobre "estacas" de vidro barato e quebradiço. São frágeis, vulneráveis a qualquer impacto. E a vida tem muitos impactos...
Creio que você já conheceu, no mundo do trabalho, pessoas inteligentes, tecnicamente bem preparadas, que esbanjam categoria como especialistas, mas que fracassam porque são desleais, arrogantes, indisciplinados, convencidos, criadores de caso... Não podem edificar uma boa vida profissional porque não têm as "estacas" firmes das virtudes
E que dizer dos casamentos desintegrados – edifícios desabados –, porque se baseavam em estacas frágeis, de vidro colorido: as da paixão, da ânsia de prazer físico e afetivo, do aconchego recebido. Mas não tinham as "estacas" sólidas da doação, da compreensão, da paciência, da abnegação, da generosidade, do ideal familiar.


A Conquista das Virtudes – Francisco Faus

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Temperamento e Virtude

3) As inclinações temperamentais

Há outros que parecem ter virtudes excelentes, mas são virtudes, são apenas bons sentimentos ou inclinações temperamentais. Fazem coisas boas porque Ihes "saem" sem esforço, porque correspondem ao seu "natural", porque lhes são agradáveis e até os divertem. Quantas fachadas simpáticas têm essas características!
Mas, nestes casos, por trás da fachada veem-se dois sinais típicos da falsa virtude:
- O primeiro sinal e que não fazem nada por adquirir "outras" virtudes não sentimentais nem fáceis, e que são muito mais importantes. Pense no homem amável e sociável, pronto para ir visitar um amigo e ajudá-lo a passar um bom momento, mas que é preguiçoso, que trabalha mal e não cumpre os compromissos incômodos ou exigentes nem sequer com os amigos.
- O segundo sinal consiste em que eles têm dupla face. Fora de casa, dão vazão, por exemplo, à simpatia e a camaradagem temperamentais (por vaidade, ou simplesmente por prazer), mas em casa – onde mais do que temperamento, é preciso a abnegação – são insuportáveis. Fazem lembrar aquela história do velório de um marido beberrão e violento, que fazia da esposa um saco de pancadas. Os amigos de boteco rodeavam o caixão, compungidos, e comentavam de longe: "Que homem! Grande amigo! Era a amabilidade em pessoa! Sempre pronto para ajudar, bom coração...". A esposa, ao ouvir isso, arregalou os olhos pediu ao filho mais novo: – Joãozinho, vá até o caixão e veja se o defunto é mesmo seu pai...".
Talvez a esses Jesus diria: Sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios [...] de hipocrisia e de iniquidade (cf. Mt 23,27-28).


A Conquista das Virtudes – Francisco Faus

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Suspensão e Compreensão

Ora, um garoto romano da minha idade e muito menos esperto do que eu que houvesse se esgueirado para dentro do senado aquele dia teria entendido o que aquelas quatro palavras significam no instante mesmo em que Cícero pronunciasse a última delas, detulerunt. Qual é a diferença entre nós? Ambos, eu e ele, conhecíamos bem o sentido de cada palavra, sabíamos as declinações e sabíamos toda a sintaxe necessária. E ainda assim eu não entendi e ele entendeu. Onde foi que ele me venceu? Ora, simplesmente nisto: eu, seguindo meus professores, comecei procurando o sujeito, e escolhi haec. O garoto romano não sabia se haec era sujeito ou objeto, para ele era apenas haec. Eu sabia que detulert era verbo, e ele também. Eu sabia que omnia concordava com haec, ele apenas suspeitava que omnia estava junto com haec, de algum modo. Eu sabia (!) que indices era o objeto, ele apenas suspeitava que indices era ou objeto ou sujeito, e que era o contrário de haec omnia (não podia ser um aposto), sendo objeto se haec omnia fosse sujeito e sujeito se haec omnia fosse objeto. Então ele ouviu detulerunt, e com esta palavra tudo se encaixou, de modo tão simples como no verso de Milton,

    ...a lua, cujo orbe     o artista pela vítrea lente vê,

a última palavra resolve o suspense momentâneo quanto à relação entre orbe e artista; essa relação seria oposta se em vez de tivéssemos agrada.

A Arte de Ler em Latim - William Hale