quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Ulisses e Penélope

Claro, se Ulisses continuar na ilha de Calipso, não haverá Odisseia, e por conseguinte não haverá mais Ulisses. Então, o dilema permanece o mesmo: ou a imortalidade anônima – o que significa que, embora mantendo-se vivo para sempre, Ulisses terminará parecido com os mortos do Hades, que são chamados sem-nome, porque perderam sua identidade –, ou, se fizer a escolha oposta, uma existência mortal, é verdade, mas na qual Ulisses será ele mesmo, memorável, coroado de glória. Ulisses diz a Calipso que prefere voltar para casa.

Não há mais desejo, nem hímeros [desejo, ânsia] nem éros [amor, desejo], por essa Ninfa cacheada com quem ele vive há dez anos. E, se vai dormir com ela essa noite, é porque assim quer Calipso. Ele não quer mais. Seu único desejo é reencontrar a vida mortal, e inclusive deseja morrer. Seu hímeros se dirige para a vida mortal; quer concluir sua vida. Diz-lhe Calipso: “És tão afeiçoado a Penélope, preferes Penélope a mim? Achas que ela é mais bonita?”. “Ora essa, de jeito nenhum”, responde Ulisses, “és uma deusa, és a mais bela, a maior, mais maravilhosa que Penélope, bem sei. Mas Penélope é Penélope, é minha vida, é minha esposa, é minha terra”. “Muito bem”, diz Calipso, “compreendo.” E então ela cumpre as ordens e o ajuda a construir uma jangada. Juntos abatem as árvores, ligam os troncos para formar uma jangada sólida com um mastro. Assim Ulisses deixa Calipso e tem início uma nova série de aventuras.


O Universo, Os Deuses, Os Homens – Jean-Pierre Vernant

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Mulher e Humanidade

A mulher é dupla. Ela é essa barriga que engole tudo o que o esposo colheu a duras penas, à custa do suor de seu rosto, de seu cansaço e de seu trabalho, mas esse ventre é também o único que pode produzir o que prolonga a vida de um homem, isto é, um filho. O ventre da mulher representa, contraditoriamente, a parte noturna da vida humana, o esgotamento, mas também a parte de Afrodite, esta que traz nascimentos novos. A esposa encarna a voracidade que destrói e a fecundidade que produz. Resume todas as contradições de nossa existência. Como o fogo, é a marca do que é propriamente humano, pois só os homens se casam. O casamento diferencia os homens dos animais, os quais se acasalam assim como se alimentam, ao acaso dos encontros, de qualquer jeito. Portanto, a mulher é a marca de uma vida civilizada; ao mesmo tempo, foi criada à imagem das deusas imortais. Quando se olha uma mulher, vê-se Afrodite, Hera, Atena. Ela é de certa maneira a presença do divino nesta terra, por sua beleza, sedução, por sua kháris [graça]. A mulher reúne as desgraças da vida humana e seu aspecto divino. Oscila entre os deuses e os bichos, o que é próprio da humanidade.


O Universo, Os Deuses, Os Homens – Jean-Pierre Vernant

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Beleza e Encarnação

O exame da Vênus de Ticiano indica qual a razão pela qual a pornografia não pertence à esfera da arte, por que ela é incapaz da beleza em si e por que dessacraliza a beleza das pessoas que retrata. A imagem pornográfica é como uma varinha mágica que transforma sujeitos em objetos e pessoas em coisas; assim, acaba por tirar-lhes o encanto e destruir a fonte de sua beleza. Ela faz as pessoas se esconderem por trás de seus corpos como marionetes manejadas por cordões ocultos. Desde o cogito de Descartes, a ideia do eu como homúnculo interior influenciou nossas opiniões acerca da pessoa humana. A imagem cartesiana nos instiga a crer que passamos a vida conduzindo um animal numa coleira, forçando-o a fazer o que queremos até ele entrar em colapso e morrer. Sou um sujeito; meu corpo, um objeto: eu sou eu, ele é ele. Assim, o corpo torna-se mais uma coisa entre tantas outras, e a única forma que tenho de resgatá-lo é assegurando meu direito de propriedade, afirmando que este corpo não é apenas um objeto velho, mas um objeto que pertence a mim. É precisamente desse modo que a relação entre alma e corpo é vista na imagem pornográfica.

Existe, contudo, uma forma melhor de ver as coisas, a qual explica boa parte daquela velha moralidade que muitos, hoje, consideram inquietante. De acordo com essa perspectiva, meu corpo não é propriedade minha, mas – para empregarmos o termo teológico – minha encarnação. Meu corpo é um sujeito tanto quanto eu, e não um objeto. Eu o possuo na mesma medida em que possuo a mim mesmo. Estou inextricavelmente ligado a ele, e tudo aquilo que é feito com meu corpo é feito comigo. Além disso, há formas de tratá-lo que me levam a pensar e sentir de modo diferente, a perder meu senso moral, a tornar-me frio ou indiferente aos outros, a cessar meus julgamentos ou seguir princípios e ideais. Quando isso acontece, não sou apenas eu quem se vê prejudicado, mas também todos aqueles que me amam, necessitam de mim e travam relações comigo. Afinal, fiz mal àquela parte sobre a qual relacionamentos se edificam.

A velha moralidade, para a qual vender o corpo era incompatível com a doação do eu, tocava uma verdade. O sentimento sexual não é uma sensação que pode ser acionada e interrompida à vontade; antes, é o tributo que um eu presta a outro e que, em seu ápice, proporciona a incandescente revelação de quem você é. Tratá-lo como bem passível de ser comprado e vendido como qualquer outro é prejudicar tanto o eu presente como o outro futuro. A condenação da prostituição não era apenas beatice puritana; tratava-se do reconhecimento de uma verdade profunda, qual seja: a de que você e seu corpo não são duas coisas distintas, de modo que vender o corpo endurece a alma. E aquilo que se aplica à prostituição, aplica-se também à pornografia. Ela não é um tributo à beleza humana, mas sua dessacralização.


Beleza – Roger Scruton

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Imaginação e Fantasia

Fantasia e realidade


Essa distinção pode ser reformulada como a distinção entre imaginação e fantasia. A verdadeira arte encanta a primeira, ao passo que os efeitos instigam a segunda. As coisas imaginárias são ponderadas; as fantasias, desempenhadas. Tanto a fantasia como a imaginação dizem respeito a irrealidades; no entanto, enquanto as irrealidades da fantasia penetram e poluem nosso mundo, as irrealidades da imaginação existem num mundo que lhes é próprio e no qual vagueamos livremente com um complacente desapego.

A sociedade moderna está repleta de objetos fantasiosos, visto que as imagens realistas da fotografia, do cinema e da TV oferecem uma satisfação substituta a nossos desejos proibidos, legitimando-os, portanto, dessa forma. Um desejo fantasioso não busca nem uma descrição literária, nem a pintura delicada de um objeto, e sim um simulacro – uma imagem em que todos os véus da hesitação foram rasgados. Esse desejo se abstém do estilo e da convenção porque ambos impedem a formação do substituto e o submetem a um julgamento. A fantasia ideal é perfeitamente realizada e perfeitamente irreal – um objeto imaginário que nada deixa a cargo da imaginação. As propagandas comercializam tais objetos, os quais pairam no pano de fundo da vida moderna e a todo momento nos instigam a realizar nossos sonhos em vez de buscar as realidades.

As cenas imaginadas, por sua vez, não são realizadas, mas representadas; elas se apresentam imbuídas de pensamento e estão longe de ser substitutos colocados no lugar do inalcançável. Antes, são deliberadamente postas à distância, num mundo próprio. A convenção, o enquadramento e a coibição são partes integrantes do processo imaginativo. Nós só adentramos uma pintura por meio da moldura que afasta dela o mundo em que vivemos. A convenção e o estilo são mais importantes que a realização; e, quando os pintores adornam suas imagens com um trompe-l’oeil realista, muitas vezes questionamos o resultado, declarando-os insípidos ou kitsch.


Beleza – Roger Scruton

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Reflexão #7

Não é verossímil que tudo sempre aconteça de maneira verossímil

Esta é uma frase que me guia sempre que leio um romance, especialmente um clássico, ou quando escuto uma história, mito, conto, fábula ou até mesmo um causo. Mesmo no fato mais corriqueiro, há a possibilidade do real e factível estar velado por um evento improvável, absurdo ou fantástico.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Meditação e Presença

À hora da sesta fui sentar-me num escuro souto de castanheiros e meditei.

Estava o estômago no mais ativo de sua chilificação. Havia uma insólita claridade no meu espírito. Nenhum devaneio dos que arroubam poetas em ermos e sombras me perturbava o cozimento das pingues substâncias em que abundara o jantar. As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.

Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desborda o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.

E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.

E a meditar assim adormeci, reclinado sobre uma moita de malmequeres e boninas.


Coração, Cabeça e Estômago - Camilo Castelo Branco

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Poder e Sentido

Golsan: E se deslocássemos dos Evangelhos a discussão do bem e do mal e examinássemos o “mal” à luz de seu trabalho sobre Dostoiévski em Mentira Romântica e Verdade Romanesca? Interesso-me de modo particular por Os Demônios. Sem dúvida é verdade que, para o espírito moderno, Stavróguin seria a figura mais ambígua e sedutora desse texto. De acordo com a sua perspectiva, seria ele o personagem mais perverso, ou seria Vierkhoviénski quem melhor se encaixa nessa descrição?

Girard: É possível especular sobre o que Dostoiévski diria. Stavróguin seria para ele o pior, aquele que habita as profundezas mais vis e frias do inferno, um representante do nono círculo. Vierkhoviénski ainda se encontra nas regiões mais quentes, ainda se move e abunda em energia. É disso que desconfio.

O mal é o skandalon e todos os seus frutos. Stavróguin é mais maléfico do que os outros “demônios” porque parece imune ao poder malevolente do skandalon. Ele é um skandalon para os outros, mas, por mais que tentem, os outros não conseguem se tornar um obstáculo para ele. Uma ilustração maravilhosamente cômica disso encontramos no duelo em que ele se recusa a defender a si mesmo, reforçando mimeticamente a impotência de seu adversário, homem cuja esposa Stavróguin insultara gratuitamente, numa espécie de gesto “surrealista”.

Cristo vence o skandalon por meio do amor. Stavróguin apenas sai vitorioso de tudo aquilo que se esforça para fazer. Sua posição no mundo, seu talento pessoal, seu dinheiro, sua boa aparência, sua ousadia, etc., o tornam invariavelmente bem-sucedido. Como resultado, ele é indiferente e frio como o próprio inferno. Ele é uma imagem invertida de Cristo.

Pessoas como Stavróguin nos fascinam mais do que Cristo porque sugerem ser possível vencer o skandalon sem vencer o mundo. Para os que não têm tanto sucesso quanto Stravróguin, isso parece prometer a felicidade suprema, um desfrute perfeito do mundo, algo muito superior a qualquer coisa que Jesus e seu Pai têm a oferecer; na realidade, porém, Stavróguin é incapaz de desfrutar de qualquer coisa. Sua vida é um tédio absoluto, e é por isso que ele recorre a artimanhas “surrealistas”. Stavróguin, como todo o romance, é uma profecia de nosso século. Ele é também a essência da tentação, a ilusão mundana por excelência.



Mito e Teoria Mimética. Uma Introdução ao Pensamento Girardiano - Richard J. Golsan

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Sacrifício e Ordem

Em outros episódios do romance [Viagem ao Fim da Noite], [o protagonista] Bardamu justificará a perseguição alheia recordando-se da própria vitimação. Infelizmente, nem mesmo [o autor] Céline se furtou a empregar essa estratégia. A fim de justificar seu ódio pelos judeus, esse notório antissemita, exaltador de Hitler, insistia em que fora vitimado por eles. Segundo Girard, essa estratégia é muito comum no mundo moderno, em que os perseguidores na verdade buscam o papel de vítima a fim de justificar a perseguição a que eles mesmos submetem os chamados atormentadores¹.

Da tragédia grega ao romance moderno, o mecanismo do bode expiatório desempenha um papel crucial nos esforços da humanidade para lidar com o caos social e a violência incontrolável. O grupo social ameaçado pode ser uma cidade-estado, um império ou apenas um grupo de passageiros e tripulantes a bordo de um navio a vapor [, tema do romance de Céline]: a estratégia empregada para restaurar a ordem é sempre a mesa. Além disso, o próprio processo costuma se tornar, nas obras aqui examinadas, cada vez mais autoevidente e, enfim, menos eficiente. A condenação de Édipo, que no final é ratificada pelo próprio bode expiatório, restaura a ordem e santifica a vítima. O sacrifício de Júlio César acaba por alcançar a mesma finalidade, mas não sem antes complementar essa imolação com a morte do homem que sancionara tal sacrifício: Bruto. Bardamu impede o próprio sacrifício porque entende, muito mais que Bruto, o processo diante do qual se encontra. Ele sabe que os bodes expiatórios existem há tanto tempo quanto “Deus e o diabo”. Muito embora sejam conhecidos por todos, é difícil categorizá-los e defini-los em virtude de seu caráter “polimorfo”. A marginalidade, afinal, jamais é definida da mesma forma em duas comunidades diferentes.

Nas três obras literárias examinadas aqui, parece haver uma relação inversa entre a eficácia das práticas expiatórias e o grau em que o processo é compreendido. Quanto mais a arbitrariedade do processo expiatório é compreendida, menor é a probabilidade de o sacrifício alcançar os objetivos desejados. Em termos um pouco diferentes: o mecanismo do bode expiatório “se torna mais e mais eficaz à medida que há cada vez menos conhecimento”.² Em Viagem ao Fim da Noite, o sacrifício frustrado na verdade chama a nossa atenção para a falência, mais ampla, das práticas sacrificiais no mundo moderno. Para os nazistas, os judeus – tal como as classes inimigas para os revolucionários modernos – jamais passaram por um processo de santificação porque sua perseguição e erradicação jamais se dão por completo. As vítimas se multiplicam à medida que o escopo dessas perseguições crescem, mas uma erradicação catártica da violência não ocorre. O mecanismo não restaura mais a ordem; ele apenas cria mais bodes expiatórios. O porquê de isso acontecer será examinado nos capítulos subsequentes.


Mito e Teoria Mimética. Uma Introdução ao Pensamento Girardiano - Richard J. Golsan


¹ Ao explicar o mecanismo psicológico que pode resultar nesses fenômenos, Girard escreve que “nos sentimos tentados a transformar em nossos próprios bodes expiatórios aqueles que nos parecem fabricá-los”. René Girard, “Generative Scapegoating”, op. cit., p.78.

² Ibidem, p.94.


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Desejo e Sentido

Segundo Girard, esse destino é o destino de todos os homens do século XIX (e XX) após o anúncio da “morte de Deus” por Nietzsche. Após o falecimento de Deus, os homens supostamente tomaram Seu lugar e alcançaram um grau de autonomia espiritual e autossatisfação digno de uma divindade. Quando as aspirações divinas dos seres humanos terminam em decepção e frustração, eles olham ao redor de si e imaginam que os outros não vivenciaram um fracasso semelhante. Ao deseja-los e cobiçarem aquilo que cobiçam, eles procuram se apropriar de sua plenitude, de sua divindade. Nascido de um sentimento de inadequação espiritual, diz Girard, o desejo é ele mesmo “metafísico”, visto ser menos o desejo de possuir um objeto real do que o desejo de absorver, de tornar-se outro. Esse desejo jamais pode ser satisfeito, claro, uma vez que os indivíduos se decepcionarão mesmo quando em posse do objeto. Os outros, afinal, não são divindades, e possuir tanto eles quanto os objetos de desejo que eles cobiçam é algo incapaz de transformar o ser dos indivíduos desejantes.¹


Mito e Teoria Mimética. Uma Introdução ao Pensamento Girardiano - Richard J. Golsan


¹ Em Models of Desire: René Girard and the Psychology of Mimesis (Baltimore, Johns Hopkins University Press, 1992), Paisley Livingston afirma que o desejo mimético pode surgir a partir de outras necessidades além daquela de alcançar uma forma de transcendência por meio da imitação alheia. O comportamento mimético também pode ser visto como forma de ajudar a criar o sentimento da própria identidade ou como forma de determinar que atitude tomar em determinada circunstância. Para um exame detalhado desse e de outros estímulos possíveis ao comportamento mimético, ver Paisley Livingston, Models of Desire, op. cit., p. 4-12. 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Conselho e Estudo

Sexdecim monita Sancti Thomae de Aquino pro acquirendo scientiae thesauro


Qui quaesivisti a me, in Christo mihi carissime Joannes, qualiter te studere oporteat in thesauro scientiae acquirendo, tale a me tibi super hoc traditur consilium.

1. Ut per rivulos, non statim, in mare eligas introire: quia per faciliora ad difficiliora oportet devenire. Haec est ergo monitio mea, et instruction tua.

2. Tardiloquum te esse jubeo et tarde ad locutorium accedentem.

3. Conscientiae puritatem amplectere.

4. Orationi vacare non desinas.

5. Cellam frequenter diligas, si vis in Cellam vinariam introduci.

6. Omnibus te amabilem exhibe.

7. Nihil quaere penitus de factis aliorum.

8. Nemini te multum familiarem ostendas: quia nímia familiaritas parit contemptum, et subractionis a studio materiam subministrar.

9. De verbis et factis secularium nullatenus te intromittas.

10. Discursus super omnia fugias.

11. Sanctorum et bonorum imitari vestigia non omittas.

12. Non respicias a quo audias, sed quidquid boni dicatur, memoria recomenda.

13. Ea quae legis et audis, fac ut intelligas.

14. De dubiis te certifica.

15. Et quidquid poteris, in armariolo mentis reponere satage, sicut cupiens vas implore.

16. Altiora te ne quaeseris.

Illa sequens vestigia, frondes et fructus in vinea Domini Sabaoth utiles, quandiu vitam habueris, proferes ac produces. Haec si sectatus fueris, ad id attingere poteris, quod affectas. Vale. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Orgulho e Verdade

Uma forma de personalidade particularmente hostil ao trabalho é essa hipocrisia quase universal que consiste em ostentar uma aparência de saber quando a sinceridade confessaria ignorância. Ocultar sua indigência intelectual à sobra das palavras é o que se critica ao escrevinhador improvisado, ao jornalista copiador e ao deputado ignaro; mas todo escritor com uma consciência reta deve confessar que cede a todo instante, nesse ponto, às sugestões do orgulho. Quer esconder seu segredo; disfarça sua insuficiência; faz uma pose de grande, sentindo-se pequeno; “afirma”, “declara”, “está certo de que...”; no fundo, não sabe nada do assunto; impõe-se sobre o próximo e, vagamente enganado por seu próprio jogo, seduz a si mesmo.

Uma outra tara é buscar no pensamento essa falsa originalidade que há pouco condenamos no estilo. Querer amoldar a verdade a si mesmo é um orgulho insuportável e acaba em tolice. A verdade é essencialmente impessoal. Que ela utilize nossa voz e nosso espírito, e será matizada por eles sem que o busquemos; ela o fará tanto melhor quanto menos pensarmos nisso; mas forçar a verdade a parecer-se conosco é falseá-la, é substituir essa imortal por um profanador e um efêmero.

“Não considere de onde vem a verdade”, dizia São Tomás: também não considere a quem ela dá glória; deseje que o seu leitor em contato com sua obra, também não considere de onde vem a verdade. Esse sublime desinteresse é a marca da grandeza; busca-lo, fazer dele uma lei sempre aceita, se não sempre obedecida, é corrigir o que não pode ser eliminado em nossa própria miséria. Engrandecemo-nos assim com a única verdadeira grandeza. O humilde pedestal tem sua parte de glória quando a verdade resplandece, chama autêntica, no candelabro do espírito.



A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Leitura e Compreensão

A fonte do saber não está nos livros; está na realidade e no pensamento. Os livros são placas de sinalização; a estrada é mais antiga, e ninguém pode fazer por nós a viagem para a verdade. O que um escritor disse não é o mais importante; o que nos interessa é aquilo que é, e nosso espírito deve se propor não a repetir, mas a compreender, ou seja, a aprender com ele, ou seja, a absorver vitalmente, e finalmente a pensar por si mesmo. A afirmação que escutamos deve, seguindo o autor, talvez graças a ele, mas afinal independentemente dele, obrigar a alma a reafirmá-la para si mesma. Temos que recriar toda a ciência para nosso próprio uso.

O principal benefício da leitura, aliás, pelo menos das grandes obras, não é adquirir verdades esparsas, mas o aumento da nossa sabedoria. Amiel, comparando o espírito francês com o espírito alemão, dizia: “Os alemães colocam a lenha na fogueira; os franceses entram com a chama”. O juízo é talvez um pouco categórico, mas não há dúvida de que o que mais importa é a chama.



A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Vivência e Experiência

Newton teria descoberto a gravitação se sua atenção ao real não lhe tivesse advertido e preparado para perceber que as maçãs caem como os mundos? As leis da gravidade dos espíritos, as leis sociológicas, filosóficas, morais e artísticas também são aplicáveis a tudo. Um grande pensamento pode nascer a partir de qualquer fato. Em toda contemplação, seja de uma mosca ou de uma nuvem que passa, há uma oportunidade de infinitas reflexões. Qualquer raio de luz pode levar ao Sol; qualquer caminho aberto é um corredor que conduz a Deus.

Ora, poderíamos captar essas riquezas se estivéssemos presentes. Olhando para tudo em espírito de inspiração, veríamos em tudo lições, profecias da verdade ou confirmações, prenúncios e conseqüências. Mas em geral não estamos presentes, ou não prestamos atenção. “Todo mundo olha o que eu olho”, dizia Lamennais a Saint-Malo, “diante de um mar tempestuoso; mas ninguém vê o que eu vejo”.

Crie o hábito de estar presente a esse jogo do universo material e moral. Aprenda a ver; confronte o que se oferece a você com as suas idéias familiares ou secretas. Não veja numa cidade unicamente suas casas, mas a vida humana e a história. Que um museu não lhe apresente quadros, mas escolas de arte e vida, concepções do destino e da natureza, orientações sucessivas ou diversas da técnica, do pensamento inspirador, dos sentimentos. Que um ateliê não lhe fale somente de ferro e de madeira, mas da condição humana, do trabalho, da economia antiga e da moderna, das relações entre as classes. Que as viagens ensinem-no sobre a humanidade; que as paisagens evoquem aos seus olhos as grandes leis do mundo; que as estrelas lhe falem das durações incomensuráveis; que os seixos da estrada sejam para você o resíduo da formação da Terra; que a visão de uma família desperte em você a visão das gerações, e que uma simples visita ensine-lhe sobre a mais alta concepção do homem. Se não conseguir ver dessa maneira, não se tornará ou não será mais que um espírito banal. Um pensador é um filtro em que a passagem das verdades deixa sua melhor substância.

Aprenda a escutar, e escute sempre, seja quem for. Se é nos mercados, como queria Malherbe, que se aprende a própria língua, é também nos mercados, ou seja, na vida corrente, que se aprende a língua do espírito. Uma multidão de verdades circula nos mais simples discursos. Uma única palavra ouvida com atenção pode ser um oráculo. Um camponês é às vezes muito mais sábio que um filósofo. Todos os homens se unem quando mergulham no fundo de si mesmos; e se alguma impressão profunda, um retorno instintivo ou virtuoso à simplicidade original, afastar as convenções, as paixões que normalmente desviam-nos de nós mesmos ou dos outros, ouvimos sempre um discurso divido quando um homem nos fala.

Em cada homem está todo o homem, e uma profunda iniciação pode nos vir daí. Se você é um romancista, não sente o que pode extrair disso? O maior dos romancistas forma-se na soleira das portas; o menor, na Sorbonne ou nos salões. Apenas, em vez de se misturar, o grande observador preserva-se, vive em si mesmo, eleva-se, e a vida mais ínfima surge-lhe como como um grande espetáculo.

Ora, o que busca o romancista pode servir a todos, pois todos têm necessidade dessa experiência profunda.



A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Reflexão #5

Por volta dos meus 15 anos, ao folhear aleatóriamente a Bíblia no colégio, procurando alguma coisa para rir, encontrei o seguinte versículo:

Deuteronômio 22:10
Com boi e com jumento não lavrarás juntamente. 

Na época, dei risada desse conselho agrônomo. Imaginava eu que os livros da Bíblia eram livros velhos para civilizações antigas.

Recentemente, vi uma interpretação dessa mesma frase tomando os papéis desses animais ao comportamento humano, isto é, o burro como fanfarrão limitado e o boi como trabalhador calmo. Neste ponto eu já havia percebido que a Bíblia é um livro atemporal, que seus versículos tem diversas interpretações para inúmeras situações. Mesmo assim, quando vi uma nova e útil interpretação para um trecho que eu considerava bobagem, foi quando senti no coração o conhecimento contido nas Escrituras.

"Só sei que nada sei" é um clichê de Sócrates, mas não consigo evitar de resgatá-lo. Eu realmente achava que conseguia ver que havia mais coisa nesses versículos, mas este estava na minha frente e não vi além do que minha memória juvenil guardava.

A reflexão proposta aqui segue este caminho. Quantos outros textos finalizamos a interpretação no primeiro nível de leitura e nos fechamos no escuro, sem ver a luz do conhecimento contida além?

Ordem e Trabalho


1. SIMPLIFICAR 


Para que tudo em você esteja orientado para o trabalho, não basta organizar-se interiormente, definir sua vocação e administrar suas forças: é preciso também ordenar sua vida, e penso aqui no quadro em que ela se desenvolve, nas suas obrigações, nas suas vizinhanças, no seu cenário.

Uma palavra apresenta-se aqui como resumo de tudo: simplifique. Você tem uma viagem difícil pela frente: não se sobrecarregue com muita bobagem. É certo que jamais terá um domínio pleno de sua vida, e então, pensa você, de que adianta legislar? Errado! Em uma mesma situação exterior, um espírito de simplificação pode muito, e o que não se elimina exteriormente sempre pode ser eliminado da própria alma.

“Não atrelarás o jumento com boi”¹, diz a Lei: o trabalho pacífico e sábio não deve ser associado às atrações caprichosas e ruidosas de uma vida exterior. Um certo ascetismo também é de certa forma um dever do pensador. Religiosa ou laica, científica, artística, literária, a contemplação não combina com facilidades muito onerosas e complicações. “Os grandes homens têm camas pequenas”, nota Henri Lavedan. É preciso pagar pelo gênio um imposto sobre o luxo. Dez por cento desse privilégio não o arruinarão; não será ele o prejudicado, mas antes nossos defeitos, ou pelo menos nossas tentações, e o lucro então será duplo.



A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges

¹ Dt 22, 10.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Velho e Novo

 Paul's Letter to the Ephesians

The church is a big family with lots of different kinds of people. But he emphasizes that they are one. One is a key word in this chapter. They are one body unified by one spirit. They have one Lord with one faith. They have one baptism. They believe in one God. It's a lot of unity. However, Paul says unity is not the same thing as uniformity. He goes on to explore how Jesus' new family consists of lots of very different kinds of people but they are all empowered by the one Holy Spirit, each using their unique talents and passion to serve and to love each other, and to build up the church. Here he uses two really cool metaphors. One is building up the church as a new temple. The second is that they are all becoming a new humanity with Jesus as the head. This new humanity is a metaphor he is going to run for the next couple chapters.

Paul challenges every Christian to take off their old humanity like a set of old clothes and to put on their new humanity in which the image of God is being restored. He then goes on into this long section where he compares this new and old humanity. Instead of lying, new humans speak truth. Instead of harboring, anger they peacefully resolve their conflicts. Instead of stealing, new humans are generous. Instead of gossiping, they encourage people with their words. Instead of getting revenge, new humans forgive. Instead of gratifying every sexual impulse, new humans cultivate self control of their bodily desires. Instead of getting drunk, new humans come under the influence of God's Spirit.



The Bible Project

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Beleza e Educação

O impedimento a que me refiro não é material ou quantificável. O IBGE não o inclui em seus cálculos e o Ministério da Educação o ignora por completo. No entanto ele existe, tem nome e é conhecido há mais de dois milênios. A mente treinada reconhece sua presença de imediato, numa percepção intuitiva tão simples quanto a da diferença entre o dia e a noite.

Os gregos chamavam-no apeirokalia. Quer dizer simplesmente "falta de experiência das coisas mais belas". Sob esse termo, entendia-se que o indivíduo que fosse privado, durante as etapas decisivas de sua formação, de certas experiências interiores que despertassem nele a ânsia do belo, do bem e do verdadeiro, jamais poderia compreender as conversações dos sábios, por mais que se adestrasse nas ciências, nas letras e na retórica. Platão diria que esse homem é o prisioneiro da caverna. Aristóteles, em linguagem mais técnica, dizia que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um ensinamento definido, mas deixar em suas almas uma profunda impressão. Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles atribui às impressões imaginativas, entende a gravidade extrema do que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um impacto iluminante e estruturador. Na ausência delas, a inteligência fica patinando em falso sobre a multidão dos dados sensíveis, sem captar neles o nexo simbólico que, fazendo a ponte entre as abstrações e a realidade, não deixa que nossos raciocínios se dispersem numa combinatória alucinante de silogismos vazios, expressões pedantes da impotência de conhecer.

[...]

As duas fortalezas do sublime, que Weber menciona, não demoraram a ceder: a vida mística, assediada pela maré de pseudo-esoterismo que se apropriou de sua linguagem e de seu prestígio, acabou por se recolher à marginalidade e ao silêncio para não se contaminar da tagarelice profana. A intimidade, vasculhada pela mídia, violada pela intromissão do Estado, tornada objeto de exibicionismo histérico e de bisbilhotices sádicas, desapropriada de sua linguagem pela exploração comercial e ideológica de seus símbolos, simplesmente não existe mais.

Toda a literatura do século XX reflete esse estado de coisas: primeiro a "incomunicabilidade" dos egos, depois a supressão do próprio ego: a "dissolução do personagem". Mas, desde Weber, muita água rolou. Nas proximidades do fim do milênio, o que se entende por mística é um cerebralismo de filólogos; por intimidade, o contato carnal entre desconhecidos, através de uma película de borracha. Os três valores supremos já não são apenas autônomos, mas antagônicos. O belo já não é apenas alheio ao bem: é decididamente mau; o bem é hipócrita, pseudo-sentimental e tolo; a verdade, feia, estúpida e deprimente. A estética celebra os vampiros, a morte da alma, a crueldade, o macho que mete o braço até o cotovelo no ânus de outro macho. A ética reduz-se a um discurso acusatório de cada um contra seus desafetos, aliado à mais cínica auto-indulgência. A verdade nada mais é o consenso estatístico de uma comunidade acadêmica corrompida até à medula.


APEIROKALIA - Olavo de Carvalho


Fonte:
http://old.olavodecarvalho.org/livros/apeirokalia.htm
Bravo!, Ano I, no1, novembro de 1997 e
A Longa Marcha da Vaca para o Brejo: O Imbecil Coletivo II. Rio, Topbooks, 1998.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Palavras e Realidade

Não era só porque ele me divertia que eu passava tempo com Karel – ainda que só Deus soubesse que na época a diversão era bem vinda. Para Karel, as palavras não era servas das coisas, mas senhoras delas: elas arranjam e rearranjam o mundo. Em 1984, de George Orwell, a linguagem foi reconfigurada para que só as opiniões oficiais pudessem ser nela expressas. Algo parecido, dizia Karel, aconteceu conosco. A literatura oficial, a imprensa oficial, até as notícias na TV usavam um pequeno vocabulário de palavras confiáveis, e uma sintaxe que só permitia combinações confiáveis. As pessoas, nesse discurso, aparecem não como indivíduos dotados de livre-arbítrio, mas como abstrações por meio das quais forças impessoais “lutam” por dominação. As forças do progresso inevitavelmente venceriam, e as forças reacionárias seriam derrotadas. Enquanto isso, era importante fundir as palavras permitidas em blocos, de modo que vedassem as portas pelas quais a realidade pudesse entrar. Por isso, reacionário sempre ia junto com “burguês”, “imperialista” e “sionista”, e esta última abria a possibilidade de um tom permitido de antissemitismo; “progressista” invariavelmente vinha junto com “proletário”, “fraterno” e “internacionalista”. Nossa “sociedade” estava “construindo o socialismo” e, nesse ínterim, vivendo numa condição de “socialismo real” que de algum modo antecipava o heroico objetivo. E o que, perguntava Karel, significava a palavra “real”? Só o sedimento que vai para o fundo, quando a jarra das possibilidades é agitada.

O abuso das palavras de que dependia nossa doutrina oficial já estava prefigurado nos textos sagrados de Marx, Engels e Lênin. O objetivo, dizia Karel, não era contar mentiras explícitas, mas destruir a distinção entre o verdadeiro e o falso, de modo que a mentira não fosse necessária, nem possível. E ele comparava a novilíngua ao kitsch*, cujo propósito é destruir a distinção entre sentimento verdadeiro e falso, para remover a emoção da realidade e investi-la num mundo de fantasia, onde nada tem valor, mas tudo tem preço.


As Memórias de Underground – Roger Scruton


* Usualmente é empregado nos estudos de estética para designar uma categoria de objetos vulgares, baratos, sentimentais, bregas (cheesy, do inglês), que copiam referências da cultura erudita sem critério e sem atingirem o nível de qualidade de seus modelos, e que se destinam, conforme o seu crítico popularizador, Clement Greenberg, ao consumo de massa. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Kitsch)

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Totalitarismo e Publicidade

- Foi esse o erro da sua mãe – disse ela de repente. – Não ser conhecida. Uma pessoa comum, que se desviava das rotinas oficiais como Winston Smith em 1984, sem contar nada disso a ninguém. Isto é, a ninguém que importa. Os criminosos públicos têm um halo elétrico e não podem ser tocados. Os criminosos privados são indefesos.

As Memórias de Underground – Roger Scruton

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Memória e Progresso


Voltei ao cinema três vezes para ver o filme. Na terceira vez, levei alguns dos alunos de meu curso, “A Vida Cotidiana na Europa Comunista”. Minha intenção era chamar a atenção deles para a cena da batalha e dizer: “Lembram-se da igreja, da estátua da Virgem, daquilo tudo indo para o espaço? Bem, aquilo era a minha cidade”. Mas Jake disse que o filme era muito cafona; Meg perguntou o que a história tinha a ver com seu curso de Relações Internacionais; Alice achou o filme chato. Comprei pizza para eles e, enquanto conversavam animadamente, eu recordava em silêncio aqueles tempos de medo.

A destruição de nossa cidade não foi noticiada na imprensa. Tudo o que nos disseram foi que tínhamos sido realocados “por motivos econômicos”.

As Memórias de Underground – Roger Scruton

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Ansiedade e Fé

BASTAR-SE


O difícil é ter confiança na presença constante da graça. No entanto, é essa confiança que a faz nascer.

Ela não se manifesta sempre sob a forma de uma inspiração súbita em relação com a ocasião em que me é oferecida. Mas há uma graça superior aos acontecimentos e que transparece até nas ações fracassadas.

***

A verdade que convém a cada um de nós, e que é proporcionada a suas necessidades e às condições em que ele se encontra, é-lhe sempre revelada, desde que ele seja dócil e atento.

Mas os homens têm demasiado amor-próprio para vê-la e se contentar com ela. Eles preferem as engenhosas construções de seu entendimento a esses toques simples e luminosos que se dedicam a apegar e a obscurecer.

Só dependeria de nós, se soubéssemos, quando elas se oferecem, reconhece-las e recolhê-las, que a vida de nossa inteligência fosse sempre repleta de novidade, de desembaraço e de alegria.

Ela não seria a obra penosa e irritada de um eu que se alegra muito menos de ter encontrado a verdade do que de tê-la encontrado por seu gênio próprio e por meios que são negados a outros.

O mal é que nós instamos vãmente ao espírito quando ele está mudo e que permanecemos surdos a seu chamado quando ele nos fala.


Regras da vida cotidiana - Louis Lavelle

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Vocação e Identidade

REGRAS DA VOCAÇÃO PARTICULAR


Não devemos ter medo de desenvolver todas as potências de nossa natureza individual, sem procurar imitar outro, nem procurar realizar em nós uma espécie de modelo comum e anônimo.

Ninguém deve arrefecer esse ardor de ser ele mesmo, a única coisa que pode justificar o lugar de cada ser no mundo.

O que não somos, os outros serão, e o conjunto da humanidade é a acumulação de todas as diferenças, o que não implica seu nivelamento.

***

A maior parte dos homens sempre age em razão do corpo e como se o corpo devesse ser o objeto único de seus cuidados. Mas é o contrário o que é preciso fazer. É preciso agir sempre por meio do corpo, mas como se o corpo devesse desaparecer e em razão do que sobrevive ao corpo.


Regras da Vida Cotidiana - Louis Lavelle

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Literatura e Realidade

Comparativos trazidos à tona no vídeo The Book Club: 1984 by George Orwell with Dave Rubin entre o livro, de 1949, e a realidade de 2020 que destaco:
  • Paz é Guerra, Liberdade é Servidão:
    • Racismo é Anti-racismo, Fascismo é Antifascismo.
  • 2 Minutos de Ódio:
    • Semanalmente, algum desconhecido é escolhido para o ódio porque disse algo politicamente incorreto.
  • Winston trabalhava no Ministério da Verdade apagando ou reescrevendo registros históricos:
    • Hoje, trocam-se o nome de ruas, derrubam estátuas, remover livros do currículo de escolas e faculdades porque foram escritos por homens brancos, etc. Além disso, há os censores do Facebook que tem um trabalho surpreendentemente similar ao de Winston.
  • Novilíngua, as palavras recebem novos significados:
    • Politicamente Correto. Fulano ataca imprensa é quando ele discorda da opinião do jornalista. Quando um antifa incendeia uma loja é um manifestante que fez um protesto democrático.
  • Winston não sabia exatamente que ano era, contra quem a guerra estava sendo travada no momento ou com quem tinha sido travada anteriormente:
    • Facebook, Twitter, e a imprensa não costumam ter a noção histórica, de "timeline". Novos posts e notícia surgem como se não houvesse nada antes e somem como se não tivessem consequência.
  • Duplipensar, acreditar em duas ideias que entram em contradição:
    • Criam contextos diferentes para justificar o duplipensar, sem perceber que o contexto é o mesmo. Por exemplo, Fulano e Beltrano realizam ato condenável. Fulano é do partido A ou cor de pele A e Beltrano do partido B ou cor de pele B. Um deles é absolvido e o outro condenado. 
e assim por diante.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Imposto e Administração

Dizer ao povo que ele recebe assistência por meio da dilapidação de sua propriedade pública é uma fraude cruel e insolente. Os estadistas, antes de congratularem-se pela assistência dada ao povo pela destruição de sua receita, deveriam primeiro ter-se cuidadosamente aplicado à solução deste problema – se seria mais vantajoso ao povo pagar montantes consideráveis e ganhar em proporção, ou ganhar pouco, ou nada, e ser isentado de toda e qualquer contribuição? Minha mente está convencida a decidir-se em favor da primeira proposição. A experiência concorda comigo e, creio eu, as melhores opiniões também. Manter um equilíbrio entre o poder de compra por parte do súdito e as demandas da parte do estado a que ele deverá atender é o aspecto fundamental da habilidade de um verdadeiro político. Os meios de compra são anteriores, no tempo e na estrutura. A boa ordem é o fundamento de todas as boas coisas. Para ter condições de comprar, o povo, sem ser servil, deve ser afável e obediente. O magistrado deve ter sua reverência; as leis, sua autoridade. O conjunto do povo não deve encontrar enraizados fora de usa mente os princípios da subordinação natural pela astúcia. Ele deve respeitar aquela propriedade da qual não pode partilhar. Deve trabalhar para obter aquilo que pelo trabalho pode ser obtido; e quando percebe, como geralmente ocorre, que o êxito é desproporcional ao esforço da tentativa, deve ser ensinado a buscar sua consolação nas proporções finais da justiça eterna. Quem quer que o prive de tal consolação enfraquece seu zelo e atinge a raiz de toda aquisição, assim como de toda a conservação. Aquele que faz isso é o opressor cruel, o inimigo impiedoso do pobre e do miserável, ao mesmo tempo em que, por suas especulações perversas, expões os frutos do zelo bem-sucedido e dos acúmulos de fortuna para a pilhagem do negligente, do decepcionado e do impróspero. Muitíssimos financistas de profissão não conseguem ver na receita nada além de bancos, circulação, anuidades de seguros de vida, tontitnas, aluguéis perpétuos, e todos os pequenos artigos das lojas. Em um estado de ordem estabelecida, tais coisas não devem ser tratadas com leviandade, tampouco a habilidade nelas deve ser tida por algo trivial. Elas são boas, mas são boas apenas quando assumem os efeitos daquela ordem estabelecida e são construídas sobre ela. Contudo, quando os homens pensam que esses mecanismos pobres podem oferecer um recurso para combater os males que resultam da ruptura das bases da ordem pública, e de atos que provocam ou toleram a subversão dos princípios da propriedade, eles deixarão, com a ruína de seu país, um monumento triste e duradouro do efeito de políticas absurdas e de uma sabedoria presunçosa, míope e tacanha.


Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Tradição e Revolução

A sabedoria não é o censor mais severo da loucura; são as loucuras rivais que mutuamente travam uma guerra implacável, e que fazem um uso tão cruel de suas vantagens, pois envolvem o vulgar imoderado em um dos lados em suas disputas. A prudência seria neutra, mas se, na disputa entre o apego apaixonado e a feroz antipatia no tocante às coisas cuja natureza não comporta tamanho entusiasmo, um homem prudente for obrigado a escolher os erros e excessos de entusiasmo que ele iria condenar ou suportar, talvez ele considere a superstição que constrói mais tolerável do que aquela que destrói; a que adorna um país, do que aquela que o deforma; a que dá, do que aquela que saqueia; a que dispõe de benefícios equivocados, do que aquele que estimula verdadeiras injustiças; a que leva um homem a renunciar a prazeres lícitos, do que aquela que arranca dos outros a escassa subsistência de sua abnegação. É praticamente esse, creio eu, o estado da questão entre os antigos fundadores da superstição monástica e a superstição dos pretensos filósofos do momento.


Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Sociedade e Responsabilidade

A sociedade é de fato um contrato. Contratos secundários sobre objetos de interesse meramente ocasional podem ser dissolvidos à vontade – mas o Estado não deve ser nivelado a um acordo de parceria em um negócio de pimenta e café, chita, ou tabaco, ou algum outro de igual teor, constituído para um interesse temporário pequeno, e dissolvido pelo desejo das partes. Deve ser visto com outra reverência, porque não é uma parceria de coisas pertinente apenas à existência animal bruta de caráter temporário e perecível. É uma parceria de todas as ciências; uma parceria de todas as artes; uma parceria de todas as virtudes e de toda a perfeição. Como as finalidades de tal parceria não podem ser obtidas em muitas gerações, torna-se uma parceria não só entre aqueles que estão vivos, mas entre aqueles que estão vivos, aqueles que estão mortos, e aqueles que estão por nascer. Cada contrato de cada Estado em particular é apenas uma cláusula no grande contrato primordial da sociedade eterna, ligando as naturezas mais baixas às mais altas, conectando o mundo visível e invisível, de acordo com um pacto fixo sancionado pelo juramento inviolável que mantém todas as naturezas físicas e morais, cada uma em seu respectivo lugar. Esta lei não está sujeita à vontade daqueles que, por uma obrigação que os ultrapassa e lhes é infinitamente superior, são obrigados a submeter sua vontade a essa lei. As corporações municipais desse reino universal não estão moralmente livres a seu bel-prazer e às suas especulações de uma melhoria contingente, para separar e dilacerar inteiramente os liames das comunidades a elas subordinadas e dissolvê-las em um caos anti-social, incivilizado e desconexo de princípios elementares. É somente uma necessidade primeira e suprema, uma necessidade que não é escolhida, mas que escolhe, uma necessidade fundamental para deliberação, que não admite discussão e não precisa de evidência, a única que pode justificar o recurso à anarquia. Esta necessidade não é exceção à regra, porque esta necessidade em si é uma parte, também, daquela disposição moral e física das coisas a que o homem deve ser obediente pelo consentimento ou pela força; mas se o que é apenas submisso à necessidade se torna objeto de escolha, a lei é quebrada, a natureza é desobedecida, e os rebeldes são proscritos, expulsos e exilados deste mundo de razão, ordem, paz, virtude e penitência frutífera para o mundo antagônico da loucura, discórdia, vício, confusão e sofrimento inútil.

Estes, meu caro senhor, são, eram, e, penso eu, serão durante muito tempo os sentimentos da parte não menos instruída e ponderada deste reino.


Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Preconceito e Sabedoria

Veja, senhor, que nesta era iluminada eu sou ousado o suficiente para confessar que somos, em geral, homens de sentimentos rústicos, que, em vez de jogar fora todos os nossos velhos preconceitos, nós os valorizamos num grau bastante considerável, e, para aumentar nossa vergonha, nós os valorizamos porque são preconceitos; e quanto mais tempo eles duraram e mais geralmente têm prevalecidos, mais os estimamos. Estamos receosos de colocar homens para viver e negociar cada um pelo seu próprio estoque privado da razão, porque nós suspeitamos que este estoque em cada homem é pequeno, e que os indivíduos fariam melhor em se valer do banco e do capital gerais das nações e das eras. Muitos de nossos pensadores, ao invés de destruir preconceitos gerais, empregam sua sagacidade para descobrir a sabedoria latente que prevalece neles. Se encontram o que estavam buscando, tarefa em que raramente falham, eles consideram mais sábio manter o preconceito, juntamente com a razão envolvida, do que jogar fora a veste de preconceito e deixar apenas a razão nua; porque o preconceito, com a sua razão, tem um motivo para dar ação a essa razão, e uma afeição que lhe dará permanência. O preconceito é de aplicação imediata em situação de emergência; ele antecipadamente conduz a mente em um curso constante de sabedoria e virtude, e não deixa que o homem hesite no momento da decisão por ceticismo, confusão e indecisão. O preconceito torna a virtude de um homem em seu hábito, e não em uma série de atos desconexos. Através de um preconceito justo, o seu dever se torna parte de sua natureza.


Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke

terça-feira, 14 de julho de 2020

Imaginação e Compaixão

Mas agora tudo está prestes a mudar. Todas as agradáveis ilusões que tornavam o poder suave e a obediência liberal, que harmonizavam os diferentes tons da vida, e que, por uma assimilação branda, incorporavam na política os sentimentos que embelezam e suavizam a sociedade privada, serão dissolvidas por este novo império conquistador de luz e razão. Toda a decente roupagem da vida está prestes a ser rudemente arrancada. Todas as idéias superpostas, decoradas pelo guarda-roupa de uma imaginação moral, que o coração possui e o entendimento ratifica como necessárias para cobrir os defeitos da nossa natureza nua e claudicante, e para elevá-la à dignidade em nossa própria estimativa, devem ser destroçadas como uma moda ridícula, absurda e antiquada.

Neste esquema de coisas, um rei é apenas um homem, e uma rainha, uma mulher; uma mulher é apenas um animal, e não é um animal da mais alta ordem. Toda homenagem prestada ao seu sexo em geral, por si só e sem distinção, deve ser considerada como romance e loucura. Regicídio, parricídio e sacrilégio são meras ficções da superstição, corrompendo a jurisprudência ao destruir a sua simplicidade. O assassinato de um rei, ou de uma rainha, ou de um bispo, ou de um pai são apenas homicídios comuns; e se as pessoas por acaso ou de alguma forma ganharem com isso, tornam-nos uma espécie de homicídio muito mais perdoável, e sobre a qual não faremos um escrutínio muito severo.

No esquema desta filosofia bárbara, que é a prole de corações frios e entendimentos turvos, tão vazios de uma sólida sabedoria quanto destituídos de todo bom gosto e elegância, as leis devem ser garantidas apenas pelos seus próprios terrores e pelo interesse de cada indivíduo a partir de suas próprias especulações privadas ou na medida conveniente aos seus próprios interesses privados. Nos bosques de sua academia, onde quer que se olhe, não se vê nada além de cadafalsos. Não sobrou nada que possa despertar o afeto da comunidade. Com base nos princípios dessa filosofia mecânica, nossas instituições nunca podem ser encarnadas, se me permite a expressão, em pessoas, de modo a criar em nós amor, veneração, admiração ou ligação. Mas esse tipo de razão que expulsa as afeições é incapaz de preencher seu lugar. Essas afeições públicas, combinadas com boas maneiras, são necessárias às vezes como corretivos, e sempre como auxiliares da lei. O preceito dado por um homem sábio, que também era um grande crítico, para a construção de poemas é igualmente verdadeiro quanto aos Estados: - Non satis est pulchra esse poemata, dulcia sunto*. Deveria haver um sistema de costumes em cada nação que pudesse ser apreciado por uma mente bem informada. Para nos fazer amar nosso país, nosso país deve ser amável.

* “Não basta aos poemas ser belos; eles também devem ser doces”. Horácio, Ars Poetica, 99.


Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Compaixão e Subversão

Também não é somente nestes clubes que as medidas públicas são deformadas em monstros. Eles sofrem uma distorção anterior nas academias, concebidas como seminários para esses clubes, que são encontradas em todos os locais de passeio público. Nessas reuniões de toda espécie, todo conselho, na proporção em que é ousado e violento e traiçoeiro, recebe a marca do gênio superior. A humanidade e a compaixão são ridicularizadas como os frutos da superstição e da ignorância. Ternura a indivíduos é considerada traição ao público. A liberdade é sempre vista como perfeita, conforme a propriedade se torna insegura. Em meio a assassinatos, massacres, confiscos, perpetrados ou meditados, eles estão formando planos para a boa ordem da sociedade futura. Envolvendo em seus braços as carcaças dos piores criminosos e promovendo suas relações com base em seus crimes, eles dirigem centenas de pessoas virtuosas para o mesmo fim, forçando-as a subsistir pela mendicância ou pelo crime.


Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Democracia e Representação

Você vai sorrir aqui com a consistência desses democratas que, quando eles não estão em guarda, tratam a parte mais humilde da comunidade com a maior desprezo enquanto, ao mesmo tempo, fingem fazê-los os depositários de todo o poder. Seria necessário um longo discurso para apontar-lhe as muitas falácias que se escondem na natureza ambígua e genérica dos termos “representação inadequada”. Direi apenas, em justiça à Constituição à moda antiga sob a qual há muito prosperamos, que a nossa representação foi considerada perfeitamente adequada para todos os fins para os quais uma representação do povo pode ser desejada ou inventada. Eu desafio os inimigos da nossa Constituição a mostrar o contrário. Detalhar os particulares que a fazem ser considerada tão boa para promover seus fins exigiria um tratado sobre nossa prática Constituição. Declaro aqui a doutrina dos Revolucionários só para que você e outros possam ver que opinião estes senhores têm da Constituição de seu país, e porque eles parecem pensar que algum grande abuso de poder ou alguma grande calamidade, como uma oportunidade para a bênção de uma Constituição de acordo com as suas idéias, seria muito agradável aos seus sentimentos; veja por que eles estão tão apaixonados por sua representação justa e igualitária, que, uma vez adquirida, terá os mesmos efeitos em consequência. Veja que eles consideram a nossa Câmara dos Comuns como apenas “um simulacro”, “uma forma”, “uma teoria”, “uma sombra”, “uma farsa” e talvez “um incômodo”.


Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Comunidade e Pátria

Para homens observadores, pareceu desde o início que a maioria do Terceiro Estado, em conjunto com uma delegação do clero tal como descrevi, enquanto perseguia a destruição da nobreza, inevitavelmente se tornava subserviente aos piores desígnios dos indivíduos dessa classe. No despojo e humilhação de sua própria ordem, esses indivíduos encontrariam um fundo seguro para o pagamento de seus novos seguidores. Dissipar os objetos que fizeram a felicidade de seus companheiros não seria sacrifício algum para eles. Homens de qualidade turbulentos e descontentes geralmente desprezam sua própria ordem quanto maiores seu orgulho e sua arrogância. Um dos primeiros sintomas que revelam de uma ambição egoísta e maliciosa é um desrespeito perdulário de uma dignidade que dividem com os outros. Ter afeição à subdivisão, amar o pequeno pelotão a que pertencemos na sociedade, é o primeiro princípio (o germe, se preferir) da afeição às coisas públicas. É o primeiro elo na cadeia que nos leva a amar nosso país e a humanidade. O interesse dessa parte do arranjo social é uma confiança nas mãos de todos aqueles que a compõem; e assim como apenas homens maus justificariam seu abuso, somente traidores a negociariam visando a alguma vantagem pessoal.


Reflexões sobre a Revolução na França – Edmund Burke

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Espírito e Jornada

Amigo, para sofrer
Nasce o homem de verdade;
Esta é a oportunidade
De ser o gaúcho um forte;
De repente vem a morte
E dá um pealo sem piedade.

Andar assim mal pilchado
Em nada me facilita.
Não sou uma alma bendita,
Mas me dói o mal alheio;
Sou um pastel com recheio
Que parece torta frita.

Tampouco me faltam males
E desgraças – te previno;
Às vezes um mau destino
Me tira todo conforto;
Me faço de frango morto
E saio piando fino.

Com essas e outras manhas
Vou vivendo esfarrapado;
Às vezes fico de lado
Sem dar nem mesmo um suspiro,
Mas no borrachão me atiro
Como gordo em milho assado.

A mim não me matam penas
Se ainda tenho o couro inteiro;
Quem vê o sol de janeiro
E a geada braba do inverno
Se o mundo é todo um inferno
Vai se assustar um campeiro...?

Vamos fazer cara feia
Para os males, companheiro;
Até o sorro mais matreiro
Pode cair numa trampa
Deixando os ossos no pampa
Se vem atrás de um cordeiro...

Hoje temos que sofrer
Males que não têm mais nome;
É preciso que se assome
Quem aceite este pastel;
Mais voltas que um carretel
Às vezes tem que dar o homem.

Eu nunca vou me entregar
Nos braços frios da morte;
Arrasto esta triste sorte
E a luta me justifica,
Porque onde o fraco fica
É onde escapa o mais forte.

E que cada um recorde
O que cada um sofreu;
O que se foi já morreu
Com tristeza ou alegria,
Porque o passado passou:
Amanhã é outro dia.


Martín Fierro – José Hernández. Tradução de Antonio Augusto Fagundes


quinta-feira, 30 de abril de 2020

Linguagem e Realidade

Para que filosofar? Para resgatar a realidade!


As motivações de minha obra, que culminaria em uma filosofia da história, são simples. Elas têm origem na situação política. Qualquer pessoa bem informada e inteligente que, como eu, tenha testemunhado a história do século XX desde o fim da Primeira Guerra Mundial, se vê cercada, e mesmo asfixiada, pela maré montante da linguagem ideológica. Por linguagem ideológica entendo símbolos de linguagem que se pretendem conceitos, mas são na verdade topoi, ou lugares-comuns, sem depuração crítica. Ademais, quem se vê exposto a esse clima dominante de opinião é obrigado a lidar com o problema da linguagem como fenômeno social. Por ser impossível reconhecer como debatedores os que se valem de uma linguagem ideológica, é preciso torna-los objeto de investigação. Não pode haver comunidade linguística com os próceres das ideologias dominantes. Por isso, a comunidade linguística necessária para criticar os que lançam mão da linguagem ideológica precisa antes ser descoberta e, se necessário, criada.


Reflexões Autobiográficas – Eric Voegelin

terça-feira, 28 de abril de 2020

Prudence and Hope

  ‘Hardly has our strength sufficed to beat off the first great assault. The next will be greater. This war then is without final hope, as Denethor perceived. Victory cannot be achieved by arms, whether you sit here to endure siege after siege, or march out to be overwhelmed beyond the River. You have only a choice of evils; and prudence would counsel you to strengthen such strong places as you have, and there await the onset; for so shall the time before your end be made a little longer.’

  ‘Then you would have us retreat to Minas Tirith, or Dol Amroth, or to Dunharrow, and there sit like children on sand-castles when the tide is flowing?’ said Imrahil.

  ‘That would be no new counsel,’ said Gandalf. ‘Have you not done this and little more in all the days of Denethor? But no! I said this would be prudent. I do not counsel prudence. I said victory could not be achieved by arms. I still hope for victory, but not by arms. For into the midst of all these policies comes the Ring of Power, the foundation of Barad-dûr, and the hope of Sauron.

  ‘Concerning this thing, my lords, you now all know enough for the understanding of our plight, and of Sauron’s. If he regains it, your valour is vain, and his victory will be swift and complete: so complete that none can foresee the end of it while this world lasts. If it is destroyed, then he will fall; and his fall will be so low that none can foresee his arising ever again. For he will lose the best part of the strength that was native to him in his beginning, and all that was made or begun with that power will crumble, and he will be maimed for ever, becoming a mere spirit of malice that gnaws itself in the shadows, but cannot again grow or take shape. And so a great evil of this world will be removed.

  ‘Other evils there are that may come; for Sauron is himself but a servant or emissary. Yet it is not our part to master all the tides of the world, but to do what is in us for the succour of those years wherein we are set, uprooting the evil in the fields that we know, so that those who live after may have clean earth to till. What weather they shall have is not ours to rule.


The Lord of The Rings: The Return of the King - John Ronald Reuel Tolkien

sexta-feira, 3 de abril de 2020

War and Need

  ‘There are no tidings,’ said the Warden, ‘save that the Lords have ridden to Morgul Vale; and men say that the new captain out of the North is their chief. A great lord is that, and a healer; and it is a thing passing strange to me that the healing hand should also wield the sword. It is not thus in Gondor now, though once it was so, if old tales be true. But for long years we healers have only sought to patch the rents made by the men of swords. Though we should still have enough to do without them: the world is full enough of hurts and mischances without wars to multiply them.’

  It needs but one foe to breed a war, not two, Master Warden, answered Éowyn. ‘And those who have not swords can still die upon them. Would you have the folk of Gondor gather you herbs only, when the Dark Lord gathers armies? And it is not always good to be healed in body. Nor is it always evil to die in battle, even in bitter pain. Were I permitted, in this dark hour I would choose the latter.’

  The Warden looked at her. Tall she stood there, her eyes bright in her white face, her hand clenched as she turned and gazed out of his window that opened to the East.


The Lord of The Rings: The Return of the King - John Ronald Reuel Tolkien

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Mentira e Referência

Na Teoria dos Signos existe a distinção entre signo, significado e referente. O signo é o elemento visual ou acústico que serve para substituir e indicar no seu pensamento algum significado. O significado é um conjunto de outros signos, em geral palavras, que explicam a intenção com que signo foi usado, o significado que o falante está atribuindo ao signo. Por fim, existe o referente que é a coisa, o fato ou a situação do mundo real a qual aquilo se refere.

Por exemplo, você pega a palavra VACA, é o signo. A definição de vaca, que você encontra no dicionário, é o significado. E o referente é uma vaca real que você vê no pasto. Ora essa vaca real não é uma palavra. Ela mesma não é um signo nem um significado. Ela é uma terceira coisa. É um elemento extra verbal.

Esse elemento extra verbal não vem com sua expressão verbal pronta. Existe sempre uma transmutação que temos que operar do dado dos sentidos para o mundo verbal. Esses dois mundos são de naturezas diferentes. O mundo que você vê, no qual vivemos, é uma coisa e o mundo do discurso é outra. Este é uma parte ínfima do mundo real. Então é evidente que sempre existe na transmutação das experiências em palavras, discurso, uma dificuldade. A possibilidade de erro é monstruosa.

Quando você pega um discurso no qual você só conhece os signos e o significados, essas palavras evocam em você alguma reação (emocional, sentimental) independente do referente. As próprias palavras têm um peso emocional. Elas por si bastam para despertar em você uma reação independentemente do conhecimento do referente. Isso significa, tragicamente, que em qualquer situação a mentira é mais persuasiva que a realidade, porque o discurso da realidade depende do referente.


A Força da Mentira - 18 de fevereiro de 2020 - Olavo de Carvalho



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Virtude e Julgamento

A dificuldade em agirmos conforme a virtude ocorre porque temos de considerar todas as circunstâncias particulares de nossas escolhas, sendo necessário sempre definirmos nossos atos, preocupando-nos com o modo que ocorreram, seus executores, seus objetos, seus efeitos e sua duração. Todos estes fatores são o símbolo da dificuldade em julgarmos os nossos próprios atos. Sendo assim, não é incomum que às vezes louvemos as pessoas que não se irritam, ficando aquém da ira, chamando-as de mansas; mas outras vezes, louvamos os que agem de forma inversa, os que punem e combatem com amplo vigor, qualificando-os de viris.

[Passemos aos pontos suficientes para obtenção da virtude.]

Aristóteles nos diz para não rejeitarmos aquele que pouco transgrida a boa execução, indo minimamente além ou aquém do justo meio da virtude. Um pequeno deslize em relação à conduta virtuosa [é insignificante diante do esforço em se seguir o bem], isto é, o itinerário de uma vida virtuosa. [Um grande bem se oculta por trás do esforço por uma vida justa!] Por outro lado, quem muito se desvia da virtude deve ser reprovado, porque não há qualquer bem oculto em suas ações.


Onze Lições Sobre a Virtude - Santo Tomás de Aquino

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Sentimentalismo e Demagogia

A morte da princesa serviu muito bem ao Sr. Blair e ele aproveitou a oportunidade com habilidoso entusiasmo. Ela tinha a combinação exata de glamour e banalidade, necessária para o novo exercício do elitismo populista, sem qualquer inteligência ou gosto refinado que pudessem ser ameaçadores. Sob a capa da similaridade cultural com as massas e do sentimento democrático, a nova elite vive ema vida tão distante da vida da grande maioria das pessoas do que a vida da aristocracia jamais esteve; na verdade, mais distante, na medida em que a aristocracia tinha de lidar com pessoas comuns em suas propriedades. Não foi por coincidência que o Sr. Blair foi ao mesmo tempo o mais populista e mais distante e inacessível dos primeiros ministros modernos.

O sentimentalismo, tanto espontâneo quanto aquele gerado pela atenção excessiva da mídia, que foi necessário para tornar a morte a princesa num acontecimento de tão grande magnitude, serviu, portanto, a um propósito político, propósito esse que era intrinsecamente desonesto, de modo paralelo à desonestidade que está por trás de boa parte do próprio sentimentalismo.

Um elitista populista como o Sr. Blair não pode admitir em público, e talvez nem para si mesmo, que deseja acima de tudo viver no puro luxo, de modo tão diferente quanto possível das pessoas comuns, entre ricos e famosos, de preferência sendo ele mesmo rico e famoso. Isso significa que ele tem de dar à sua ambição um verniz de propósito social e, ao fazê-lo, nega sua essência mesma, seu fons et origo¹. Uma retórica sobreaquecida, contorcionismos intelectuais e muitas formas de desonestidade são resultado inevitável.

O sentimentalismo de massas é um brinquedo nas mãos dos elitistas demóticos, que são uma elite apenas em sua disposição superior de recorrer às negras artes da manipulação das disputas burocráticas.


Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico - Theodore Dalrymple



¹ "fonte e origem"

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

História e Manipulação

É por isso que hoje em dia há uma ênfase tão grande do ensino escolar na história do tráfico de escravos pelo Atlântico e do Holocausto. Não pretendo, é claro, negar a imensa importância desses assuntos; porém, seu uso para sentimentalizar o modo de ver dos alunos fica bastante evidente a partir do fato de que a eles praticamente não se ensina nada mais em história, e os povos exterminados no Holocausto podem, de maneira razoável, ser apresentados como nada mais do que vítimas de opressão, assim permitindo que o mundo seja elegantemente repartido em bem e mal.

De novo, não quero sugerir que não exista distinção entre bem e mal e nada que distinga o assassino e sua vítima. Contudo, insinuar a mentes jovens que a história humana (e, por extensão, a vida humana inteira) tem sido e não é nada mais do que isto. Um conflito entre vítimas e perpetradores, entre oprimidos e opressores, entre bem e mal, é fazer com que seja improvável que elas desenvolvam aquele senso de proporções sem o qual (como afirmei antes) a informação não passa de uma forma superior de ignorância.

Já mencionei o caso da menina que estava estudando o genocídio de Ruanda e suas aulas de história, com ajuda de um filme de Hollywood a respeito, mas esse não é de jeito nenhum um caso isolado. Para muitas crianças nas escolas, os estudos do genocídio parecem ter tomado o lugar de todo e qualquer outro aspecto da história.

Mal chega a ser necessário dizer que o genocídio é um assunto para uma reflexão quase infinita. O que, por exemplo, devemos pensar do papel motriz da elite com diploma universitário na preparação e na promoção de genocídio? O que isso nos diz a respeito da relação entre educação, cultura e moralidade? E a responsabilidade de forças externas que cruzam os braços e deixam de intervir, ou que até nega que o genocídio esteja acontecendo? Num nível mais profundo, o que a participação de pessoas comuns – às vezes alegremente; em outras por coação – no massacre de seus vizinhos e amigos de outrora, e na apropriação de seus bens, nos diz sobre a natureza humana? Em que medida a coação e o medo atenuam as ações mais vis? Qual a relação entre a explicação histórica dos acontecimentos e sua avaliação moral? Como a responsabilidade individual e a coletiva se relacionam entre si?

Essas questões não são fáceis de responder. Mas é óbvio que a única lição que uma mente completamente não formada pode tirar do estudo – se é que se pode chamar isso de estudo – do genocídio, isolado de quase todos os demais conhecimentos, é do tipo sentimental “quatro pernas bom, duas pernas mau” (como na obra A Revolução dos Bichos, de George Orwell), de que o mundo é composto de gente boa e de gente má; e como a maioria dos que saem da escola nunca mais estudarão história ou pensarão a seu respeito, esse será seu pressuposto subjacente a respeito de todas as demais questões públicas, se não para sempre, ao menos por muito tempo, suposição essa que os deixará suscetíveis ao canto da sereia de diversos demagogos que afirmam pureza de motivos e que manipulam impiedosamente os corações para obter o poder e retê-los. E o pupilo vem a achar que, por condenar aquilo que é obviamente errado, a saber, o assassinato de vastas quantidades de gente, está sendo virtuoso. A adesão pública ao clichê moral torna-se a marca de um bom homem ou de uma boa mulher.


Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico - Theodore Dalrymple

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Possibilidade e Realidade

Ainda se deve observar que uma das consequências da adoção geral da visão romântica e sentimental da existência humana é a perda da clareza dos limites entre o permissível e o não permissível; afinal, a própria vida decreta que nem tudo é ou pode ser permissível. É simplesmente impossível viver como se fosse verdade que é melhor estrangular bebês do que permitir que eles, ou qualquer outra pessoa, tenham desejos tolhidos. Uma das manifestações dessa crença é a recusa de homens e de mulheres em comprometer-se um com o outro – reclamação que se pode ouvir em ônibus e trens o tempo todo. A pessoa que se recusa a assumir um compromisso recusa-se a excluir quaisquer possibilidades que possam vir a surgir em sua vida e das quais ela possa querer aproveitar-se. A pessoa concebe sua liberdade como uma gama infinita de possibilidades: uma gama infinita no sentido de que nenhuma está excluída por uma decisão já tomada. Ela não percebe que toda ação traz vantagens e desvantagens, conveniências e inconvenientes; que uma existência perfeita, sem qualquer vestígio de frustração, de perda e de infelicidade é impossível, uma quimera. Contudo, a perda da clareza dos limites causada pela adoção de uma visão impossível como se fosse verdadeira, e a consequente recusa dos indivíduos em aceitar limitações a suas próprias vidas impostas por forças extemporâneas, isso é, forças que independem de sua vontade ou de seus caprichos, como as convenções sociais, os contratos e coisas afins, significa que a incerteza se torna não o terreno da especulação intelectual, mas da maneira mesma como a vida deve ser vivida. A incerteza, por meio da reação contra ela, gera intolerância e violência.

Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico - Theodore Dalrymple

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Deceit and Hatred

'No more can I say than I have said,' answered Frodo. `Though your tale fills me with foreboding. A vision it was that you saw, I think, and no more, some shadow of evil fortune that has been or will be. Unless indeed it is some lying trick of the Enemy. I have seen the faces of fair warriors of old laid in sleep beneath the pools of the Dead Marshes, or seeming so by his foul arts.'
'Nay, it was not so,' said Faramir. 'For his works fill the heart with loathing; but my heart was filled with grief and pity.'


The Lord of The Rings: The Two Towers - John Ronald Reuel Tolkien

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Circumstance and Judgement

  'I had forgotten that,' said Éomer. 'It is hard to be sure of anything among so many marvels. The world is all grown strange. Elf and Dwarf in company walk in our daily fields; and folk speak with the Lady of the Wood and yet live; and the Sword comes back to war that was broken in the long ages ere the fathers of our fathers rode into the Mark! How shall a man judge what to do in such times?'
  'As he ever has judged,' said Aragorn. 'Good and ill have not changed since yesteryear; nor are they one thing among Elves and Dwarves and another among Men. It is a man's part to discern them, as much in the Golden Wood as in his own house.'


The Lord of The Rings: The Two Towers - John Ronald Reuel Tolkien

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Lembrança e Esquecimento

O pobre menino rico (“sofrendo de fartura”, diria o mordomo Grilo, de A Cidade e as Serras) não teve quem lhe ensinasse o motivo para a distinção básica entre alta e baixa literatura, e levou para a vida a idéia de que mesmo considerar a possibilidade de fazer essa distinção denotaria uma personalidade tacanha, azeda, inimiga das liberdades do espírito. Mas a diferença existe, e é importante conhece-la inclusive para podermos ignorá-la se nos convier.
O motivo para a distinção é muito simples: a 2ª lei da termodinâmica, inviolável até virem ordens de cima, nos diz que todos os sistemas caminham para a desintegração. O universo é um grande brinquedo ficando lentamente sem corda, nós vamos morrer, em 300 mil anos a Mona Lisa será pó etc. Essa é a constatação fundamental a partir da qual tudo o mais deriva – nossa história de sobrevivência, nossos avanços materiais e esforços em busca de sentido. Diante dessa situação duas reações são possíveis: tentar esquecer nossa situação ou se esforçar para lembrar. O que chamamos (sempre com algum desconforto) de “alta literatura” nos faz lembrar. A baixa literatura ou literatura de entretenimento, nos faz esquecer. Quando nos referimos a alguma experiência estética como escapista, é exatamente isso que queremos dizer: estamos escapando por algum tempo da gravidade do mundo real, onde estamos presos ao tempo e ao espaço, à mercê das implacáveis leis da física e dos dilemas dolorosos que pedem a intervenção da nossa consciência. A etimologia, como a hierarquia, é divina: diversão vem de divertere, “afastar-se, desviar-se”.
Só a perfeita consciência de que estamos vivendo nos escombros de um interregno me permite escrever a próxima frase sem implodir de vergonha ao apontar o óbvio: a diversão só faz sentido enquanto diversão, ou seja, desvio. Sem o pano de fundo de algo que não seja diversão, o tédio (que já se chamou “existencialismo” e hoje se chama “depressão”) se instala. Uma vez que isso acontece, a morte por asfixia auto-erótica vira só uma questão de tempo.


Não Tenhais Medo: Como Salvar Sua Próxima Ceia De Natal, O Brasil E Talvez Até Sua Alma - Elton Mesquita

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Razão e Fé

Se o sentido existe imbricado na própria estrutura do Universo, e se a informação pressupõe mente volitiva, então a resposta para “por que existe algo ao invés de coisa nenhuma?” pode muito bem ser “porque existe uma mente criadora que é a origem da informação no Universo, já que informação não pode surgir de interações e processos caóticos”. Se o sentido existe, é razoável supor que Deus exista. Note que, para os propósitos deste livro, eu não disse que Deus existe, disse que é razoável acreditar em Deus. A existência de Deus não pode ser provada a não ser individualmente, no coração e na mente de cada um, por meio da fé – que, assim como gosto estético, pertence a uma área epistemológica sobre a qual a ciência não pode dizer nada. Mas acreditar em Deus é razoável, sempre foi razoável, sempre será razoável, e o Cristianismo em seus aspectos intelectuais sempre foi assunto para gigantes, como Pascal, que não era exatamente o idiota do vilarejo e durante muito tempo se debateu justamente com o fato de que sim, é razoável acreditar em Deus – mas não é o bastante.

A ciência e a filosofia levaram Pascal, por assim dizer, ao batente de Deus, à posição intelectual em que o indivíduo percebe que é perfeitamente possível que esse negócio de Deus seja verdade mesmo. Mas apenas a ciência e a lógica não são suficientes para que atravessemos o batente e entremos na morada de Deus. O passo final é um salto na direção do desconhecido, é um ato de , que, assim como o amor, não é irracional, e sim a-racional, encontrando-se fora dos domínios que podem ser esquadrinhados pela razão.


Não Tenhais Medo: Como Salvar Sua Próxima Ceia De Natal, O Brasil E Talvez Até Sua Alma - Elton Mesquita

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Discussão e Serenidade

Em um ambiente de alta confiança, as pessoas entrariam em uma discussão com boa vontade e boa-fé, mais interessadas em aprender – e se for o caso, ensinar – do que em “vencer a discussão”. Mas discussões que partem de premissas opostas em um ambiente de baixa confiança só servem para disparar o “seqüestro da amígdala”², uma resposta emocional avassaladora que impede a capacidade de argumentação racional e transforma qualquer interlocutor em uma namorada furiosa, já que em um ambiente de baixa confiança as pessoas tendem a imaginar que todo argumento seja um pretexto para imposição de pontos de vista e obtenção de vantagens.

Já estamos tão acostumados com reações de seqüestro da amígdala que achamos que isso é o normal e nem nos lembramos de que antigamente havia um negócio chamado “serenidade das convicções”: um adulto que sabe que está certo não perde a calma ao ser confrontado com informações de má qualidade, desinformação, ignorância etc. Ele pode até engrossar o tom, mas será uma escolha (que pode ter vários motivos, da pedagogia ao tédio).


Não Tenhais Medo: Como Salvar Sua Próxima Ceia De Natal, O Brasil E Talvez Até Sua Alma -Elton Mesquita

² AMYGDALA HIJACK. https://en.wikipedia.org/wiki/Amygdala_hijack

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Jornada e Caminho

`The messengers who are sent with the Ring.'

`Exactly! And who are they to be? That seems to me what this Council has to decide, and all that it has to decide. Elves may thrive on speech alone, and Dwarves endure great weariness; but I am only an old hobbit, and I miss my meal at noon. Can't you think of some names now? Or put it off till after dinner?'

No one answered. The noon-bell rang. Still no one spoke. Frodo glanced at all the faces, but they were not turned to him. All the Council sat with downcast eyes, as if in deep thought. A great dread fell on him, as if he was awaiting the pronouncement of some doom that he had long foreseen and vainly hoped might after all never be spoken. An overwhelming longing to rest and remain at peace by Bilbo's side in Rivendell filled all his heart. At last with an effort he spoke, and wondered to hear his own words, as if some other will was using his small voice.

`I will take the Ring,' he said, `though I do not know the way.'


The Lord of The Rings: The Fellowship of the Ring - John Ronald Reuel Tolkien

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Tempo e Destino



I cannot read the fiery letters,’ said Frodo in a quavering voice.

‘No,’ said Gandalf, ‘but I can. The letters are Elvish, of an ancient mode, but the language is that of Mordor, which I will not utter here. But this in the Common Tongue is what is said, close enough:
  One Ring to rule them all, One Ring to find them,
  One Ring to bring them all and in the darkness bind them.
  It is only two lines of a verse long known in Elven-lore:
  Three Rings for the Elven-kings under the sky,
  Seven for the Dwarf-lords in their halls of stone,
  Nine for Mortal Men doomed to die,
  One for the Dark Lord on his dark throne
  In the Land of Mordor where the Shadows lie.
  One Ring to rule them all. One Ring to find them,
  One Ring to bring them all and in the darkness bind them
  In the Land of Mordor where the Shadows lie.

He paused, and then said slowly in a deep voice: ‘This is the Master-ring, the One Ring to rule them all. This is the One Ring that he lost many ages ago, to the great weakening of his power. He greatly desires it - but he must not get it.’

Frodo sat silent and motionless. Fear seemed to stretch out a vast hand, like a dark cloud rising in the East and looming up to engulf him. ‘This ring!’ he stammered. ‘How, how on earth did it come to me?’

‘Ah!’ said Gandalf. ‘That is a very long story. The beginnings lie back in the Black Years, which only the lore-masters now remember. If I were to tell you all that tale, we should still be sitting here when Spring had passed into Winter.
‘But last night I told you of Sauron the Great, the Dark Lord. The rumours that you have heard are true: he has indeed arisen again and left his hold in Mirkwood and returned to his ancient fastness in the Dark Tower of Mordor. That name even you hobbits have heard of, like a shadow on the borders of old stories. Always after a defeat and a respite, the Shadow takes another shape and grows again.’

‘I wish it need not have happened in my time,’ said Frodo.

‘So do I,’ said Gandalf, ‘and so do all who live to see such times. But that is not for them to decide. All we have to decide is what to do with the time that is given, us. And already, Frodo, our time is beginning to look black. The Enemy is fast becoming very strong. His plans are far from ripe, I think, but they are ripening. We shall be hard put to it. We should be very hard put to it, even if it were not for this dreadful chance.
‘The Enemy still lacks one thing to give him strength and knowledge to beat down all resistance, break the last defences, and cover all the lands in a second darkness. He lacks the One Ring.

The Lord of The Rings: The Fellowship of the Ring - John Ronald Reuel Tolkien