quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Possibilidade e Persuasão

De modo geral, o impossível deve se referir ou à poesia, ou ao que é melhor, ou à opinião [10] comum. Com relação à poesia, é preferível o impossível que persuade ao possível que não persuade. *** <E talvez seja impossível> que existam homens tais como Zêuxis os pintava, mas ele os fez de modo melhor, pois o paradigma deve ser excelente. Quanto às coisas irracionais, elas devem ser consideradas no contexto da opinião comum e assim, por vezes, se diz que não são irracionais, pois é verossímil que o improvável também [15] ocorra. Quanto às expressões que são ditas de modo contraditório, é necessário examiná-las como nas refutações dos argumentos, verificando se se referem ao mesmo objeto, com relação ao mesmo objeto e do mesmo modo; para que se possa saber se o poeta está em contradição com o que ele mesmo diz ou com o que sustentaria um homem prudente. Além disso, é correto criticar a irracionalidade e a maldade sempre que, não havendo qualquer necessidade, poeta se serve do irracional - como ocorre com [20] Eurípides, no caso de Egeu¹ - ou do cruel - como no Orestes, no caso de Menelau.²


¹ Medéia, de Eurípedes.
² Orestes, de Eurípedes.


Poética - Aristóteles
Tradução de Paulo Pinheiro

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Poética e Personagem

[2. Diferença segundo o objeto]

[1448a] Visto que aqueles que realizam a mimese mimetizam personagens em ação, é necessário que estes sejam de elevada ou de baixa índole (as personagens seguem quase sempre esses dois únicos tipos, pois é pelo vício e pela virtude que se diferenciam todos os caracteres),¹ em verdade ou melhores que nós, ou piores, ou tais quais - [5] assim como fazem os pintores: Polignoto retrata personagens melhores; Pauson, piores; Dionísio, semelhantes -, pois é evidente que cada uma das mimeses mencionadas se apoiará nessas distinções, e será diferente na medida em que se mimetizam, nesse sentido, objetos diferentes. De fato, essas dessemelhanças podem se apresentar [10] na dança, na aulética e na citarística, e também no que diz respeito às obras em prosa e à poesia sem acompanhamento musical: por exemplo, Homero mimetizou personagens melhores; Cleofão, semelhantes; Hegêmon de Taso, <o> primeiro a escrever paródias, e Nicócares, autor da Delíada, personagens piores. No que tange aos ditirambos e [15] aos nomos acontece da mesma forma, pois alguém poderia mimetizar como ocorre †com efeito† em Timóteo e em Filóxeno em seus Ciclopes. É sob essa mesma diferença que repousa a distinção entre comédia e tragédia, ou seja, na medida em que uma quer mimetizar personagens piores e a outra melhores do que de fato são.


¹ No original, tà éthê, que se relaciona ao modo de agir de uma personagem, seu caráter, suas características, e que ora traduzo por "as personagens", ora por "os caracteres".


Poética - Aristóteles
Tradução de Paulo Pinheiro