Girard: É possível especular sobre o que Dostoiévski diria. Stavróguin seria para ele o pior, aquele que habita as profundezas mais vis e frias do inferno, um representante do nono círculo. Vierkhoviénski ainda se encontra nas regiões mais quentes, ainda se move e abunda em energia. É disso que desconfio.
O mal é o skandalon e todos os seus frutos. Stavróguin é mais maléfico do que os outros “demônios” porque parece imune ao poder malevolente do skandalon. Ele é um skandalon para os outros, mas, por mais que tentem, os outros não conseguem se tornar um obstáculo para ele. Uma ilustração maravilhosamente cômica disso encontramos no duelo em que ele se recusa a defender a si mesmo, reforçando mimeticamente a impotência de seu adversário, homem cuja esposa Stavróguin insultara gratuitamente, numa espécie de gesto “surrealista”.
Cristo vence o skandalon por meio do amor. Stavróguin apenas sai vitorioso de tudo aquilo que se esforça para fazer. Sua posição no mundo, seu talento pessoal, seu dinheiro, sua boa aparência, sua ousadia, etc., o tornam invariavelmente bem-sucedido. Como resultado, ele é indiferente e frio como o próprio inferno. Ele é uma imagem invertida de Cristo.
Pessoas como Stavróguin nos fascinam mais do que Cristo porque sugerem ser possível vencer o skandalon sem vencer o mundo. Para os que não têm tanto sucesso quanto Stravróguin, isso parece prometer a felicidade suprema, um desfrute perfeito do mundo, algo muito superior a qualquer coisa que Jesus e seu Pai têm a oferecer; na realidade, porém, Stavróguin é incapaz de desfrutar de qualquer coisa. Sua vida é um tédio absoluto, e é por isso que ele recorre a artimanhas “surrealistas”. Stavróguin, como todo o romance, é uma profecia de nosso século. Ele é também a essência da tentação, a ilusão mundana por excelência.
Mito e Teoria Mimética. Uma Introdução ao Pensamento Girardiano - Richard J. Golsan