quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Poder e Sentido

Golsan: E se deslocássemos dos Evangelhos a discussão do bem e do mal e examinássemos o “mal” à luz de seu trabalho sobre Dostoiévski em Mentira Romântica e Verdade Romanesca? Interesso-me de modo particular por Os Demônios. Sem dúvida é verdade que, para o espírito moderno, Stavróguin seria a figura mais ambígua e sedutora desse texto. De acordo com a sua perspectiva, seria ele o personagem mais perverso, ou seria Vierkhoviénski quem melhor se encaixa nessa descrição?

Girard: É possível especular sobre o que Dostoiévski diria. Stavróguin seria para ele o pior, aquele que habita as profundezas mais vis e frias do inferno, um representante do nono círculo. Vierkhoviénski ainda se encontra nas regiões mais quentes, ainda se move e abunda em energia. É disso que desconfio.

O mal é o skandalon e todos os seus frutos. Stavróguin é mais maléfico do que os outros “demônios” porque parece imune ao poder malevolente do skandalon. Ele é um skandalon para os outros, mas, por mais que tentem, os outros não conseguem se tornar um obstáculo para ele. Uma ilustração maravilhosamente cômica disso encontramos no duelo em que ele se recusa a defender a si mesmo, reforçando mimeticamente a impotência de seu adversário, homem cuja esposa Stavróguin insultara gratuitamente, numa espécie de gesto “surrealista”.

Cristo vence o skandalon por meio do amor. Stavróguin apenas sai vitorioso de tudo aquilo que se esforça para fazer. Sua posição no mundo, seu talento pessoal, seu dinheiro, sua boa aparência, sua ousadia, etc., o tornam invariavelmente bem-sucedido. Como resultado, ele é indiferente e frio como o próprio inferno. Ele é uma imagem invertida de Cristo.

Pessoas como Stavróguin nos fascinam mais do que Cristo porque sugerem ser possível vencer o skandalon sem vencer o mundo. Para os que não têm tanto sucesso quanto Stravróguin, isso parece prometer a felicidade suprema, um desfrute perfeito do mundo, algo muito superior a qualquer coisa que Jesus e seu Pai têm a oferecer; na realidade, porém, Stavróguin é incapaz de desfrutar de qualquer coisa. Sua vida é um tédio absoluto, e é por isso que ele recorre a artimanhas “surrealistas”. Stavróguin, como todo o romance, é uma profecia de nosso século. Ele é também a essência da tentação, a ilusão mundana por excelência.



Mito e Teoria Mimética. Uma Introdução ao Pensamento Girardiano - Richard J. Golsan

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Sacrifício e Ordem

Em outros episódios do romance [Viagem ao Fim da Noite], [o protagonista] Bardamu justificará a perseguição alheia recordando-se da própria vitimação. Infelizmente, nem mesmo [o autor] Céline se furtou a empregar essa estratégia. A fim de justificar seu ódio pelos judeus, esse notório antissemita, exaltador de Hitler, insistia em que fora vitimado por eles. Segundo Girard, essa estratégia é muito comum no mundo moderno, em que os perseguidores na verdade buscam o papel de vítima a fim de justificar a perseguição a que eles mesmos submetem os chamados atormentadores¹.

Da tragédia grega ao romance moderno, o mecanismo do bode expiatório desempenha um papel crucial nos esforços da humanidade para lidar com o caos social e a violência incontrolável. O grupo social ameaçado pode ser uma cidade-estado, um império ou apenas um grupo de passageiros e tripulantes a bordo de um navio a vapor [, tema do romance de Céline]: a estratégia empregada para restaurar a ordem é sempre a mesa. Além disso, o próprio processo costuma se tornar, nas obras aqui examinadas, cada vez mais autoevidente e, enfim, menos eficiente. A condenação de Édipo, que no final é ratificada pelo próprio bode expiatório, restaura a ordem e santifica a vítima. O sacrifício de Júlio César acaba por alcançar a mesma finalidade, mas não sem antes complementar essa imolação com a morte do homem que sancionara tal sacrifício: Bruto. Bardamu impede o próprio sacrifício porque entende, muito mais que Bruto, o processo diante do qual se encontra. Ele sabe que os bodes expiatórios existem há tanto tempo quanto “Deus e o diabo”. Muito embora sejam conhecidos por todos, é difícil categorizá-los e defini-los em virtude de seu caráter “polimorfo”. A marginalidade, afinal, jamais é definida da mesma forma em duas comunidades diferentes.

Nas três obras literárias examinadas aqui, parece haver uma relação inversa entre a eficácia das práticas expiatórias e o grau em que o processo é compreendido. Quanto mais a arbitrariedade do processo expiatório é compreendida, menor é a probabilidade de o sacrifício alcançar os objetivos desejados. Em termos um pouco diferentes: o mecanismo do bode expiatório “se torna mais e mais eficaz à medida que há cada vez menos conhecimento”.² Em Viagem ao Fim da Noite, o sacrifício frustrado na verdade chama a nossa atenção para a falência, mais ampla, das práticas sacrificiais no mundo moderno. Para os nazistas, os judeus – tal como as classes inimigas para os revolucionários modernos – jamais passaram por um processo de santificação porque sua perseguição e erradicação jamais se dão por completo. As vítimas se multiplicam à medida que o escopo dessas perseguições crescem, mas uma erradicação catártica da violência não ocorre. O mecanismo não restaura mais a ordem; ele apenas cria mais bodes expiatórios. O porquê de isso acontecer será examinado nos capítulos subsequentes.


Mito e Teoria Mimética. Uma Introdução ao Pensamento Girardiano - Richard J. Golsan


¹ Ao explicar o mecanismo psicológico que pode resultar nesses fenômenos, Girard escreve que “nos sentimos tentados a transformar em nossos próprios bodes expiatórios aqueles que nos parecem fabricá-los”. René Girard, “Generative Scapegoating”, op. cit., p.78.

² Ibidem, p.94.


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Desejo e Sentido

Segundo Girard, esse destino é o destino de todos os homens do século XIX (e XX) após o anúncio da “morte de Deus” por Nietzsche. Após o falecimento de Deus, os homens supostamente tomaram Seu lugar e alcançaram um grau de autonomia espiritual e autossatisfação digno de uma divindade. Quando as aspirações divinas dos seres humanos terminam em decepção e frustração, eles olham ao redor de si e imaginam que os outros não vivenciaram um fracasso semelhante. Ao deseja-los e cobiçarem aquilo que cobiçam, eles procuram se apropriar de sua plenitude, de sua divindade. Nascido de um sentimento de inadequação espiritual, diz Girard, o desejo é ele mesmo “metafísico”, visto ser menos o desejo de possuir um objeto real do que o desejo de absorver, de tornar-se outro. Esse desejo jamais pode ser satisfeito, claro, uma vez que os indivíduos se decepcionarão mesmo quando em posse do objeto. Os outros, afinal, não são divindades, e possuir tanto eles quanto os objetos de desejo que eles cobiçam é algo incapaz de transformar o ser dos indivíduos desejantes.¹


Mito e Teoria Mimética. Uma Introdução ao Pensamento Girardiano - Richard J. Golsan


¹ Em Models of Desire: René Girard and the Psychology of Mimesis (Baltimore, Johns Hopkins University Press, 1992), Paisley Livingston afirma que o desejo mimético pode surgir a partir de outras necessidades além daquela de alcançar uma forma de transcendência por meio da imitação alheia. O comportamento mimético também pode ser visto como forma de ajudar a criar o sentimento da própria identidade ou como forma de determinar que atitude tomar em determinada circunstância. Para um exame detalhado desse e de outros estímulos possíveis ao comportamento mimético, ver Paisley Livingston, Models of Desire, op. cit., p. 4-12.