sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Atenção e Tédio

Os desempenhos culturais da humanidade, dos quais faz parte também a filosofia, devem-se a uma atenção profunda, contemplativa. A cultura pressupõe um ambiente onde seja possível uma atenção profunda. Essa atenção profunda e cada vez mais deslocada por uma forma de atenção bem distinta, a hiperatenção (hyperattention). Essa atenção dispersa se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. E visto que ele tem uma tolerância bem pequena para o tédio, também não admite aquele tédio profundo que não deixa de ser importante para um processo criativo. Walter Benjamin chama a esse tédio profundo de um "pássaro onírico, que choca o ovo da experiência"¹. Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual. Pura inquietação não gera nada de novo. Reproduz e acelera o já existente. Benjamin lamenta que esse ninho de descanso e de repouso do pássaro onírico está desaparecendo cada vez mais na modernidade. Não se "tece mais e não se fia". O tédio seria um pano cinza quente, forrado por dentro com o mais incandescente e o mais colorido revestimento de seda que já existiu" e no qual "nos enrolamos quando sonhamos". Nos "arabescos de seu revestimento estaríamos em casa"². Com o desaparecimento do descanso, teriam se perdido os "dons do escutar espreitando" e desapareceria a "'comunidade dos espreitadores". Nossa comunidade ativa é diametralmente oposta àquela. O "dom de escutar espreitando" radica-se precisamente na capacidade para a atenção profunda, contemplativa, à qual o ego hiperativo não tem acesso. Quem se entedia no andar e não tolera estar entediado ficará andando a esmo inquieto, irá se debater ou se afundará nesta ou naquela atividade. Mas quem é tolerante com o tédio, depois de um tempo irá reconhecer que possivelmente é o próprio andar que o entedia. Assim, ele será impulsionado a procurar un movimento totalmente novo. O correr ou o cavalgar não é um modo de andar novo. É um andar acelerado. A dança, por exemplo, ou balançar-se, representa um movimento totalmente distinto. Só o homem pode dançar. Possivelmente no andar é tomado por um profundo tédio, de tal modo que por essa crise o tédio transponha passo do correr para o passo da dança. Comparada com o andar linear, reto, a dança, com seus movimentos revoluteantes, é um luxo que foge totalmente do princípio do desempenho.


¹ BENJAMIN, W. Gesammelte Schriften. Vol. II /2. Frankfurt a.M., 1977, P.446.
² BENJAMIN. Passagen-Werk - Gesammelte Schriften Vol. V/1. Frankfurt a.M., 1982, p. 161.


Sociedade do Cansaço - Byung-Chul Han

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Original e Imitação

- Sim - disse Dom Quixote - porque, se voltares depressa donde te quero agora enviar, depressa acabará a minha pena, e terá princípio a minha glorificação; e como não há razão que te dilate por mais tempo suspenso, à espera do fim a que se encaminham as minhas razões, quero, Sancho, que saibas que o famoso Amadis de Gaula foi um dos mais perfeitos cavaleiros andantes. Não disse bem "foi um"; foi o único, o primeiro, o mais cabal, e o senhor de todos quantos em seu tempo no mundo houve. Não venha cá Dom Belianis, ou outro qualquer, dizer que se lhe igualou, fosse no que fosse; porque se enganam; juro em boa verdade. E é assim, sem dúvida nenhuma; e quando não, que me respondam: se quando qualquer pintor quer sair famoso em sua arte, não procura imitar os originais dos melhores pintores de que há notícia? Esta mesma regra se observa em todos os mais ofícios ou exercícios de monta com que se adornam as repúblicas. Assim o há-de fazer, e faz, quem aspira a alcançar nomeada de prudente e sofrido, imitando a Ulisses, em cuja pessoa e trabalhos nos pinta Homero um retrato vivo de prudência e sofrimento, como também nos mostrou Virgílio na pessoa de Enéias o valor de um filho piedoso e a sagacidade de um valente e entendido capitão, não pintando-os ou descrevendo-os como eles foram, mas sim como deviam ser, para deixar exemplos de suas virtudes aos homens da posteridade. Deste mesmo modo, Amadis foi o norte, o luzeiro, e o sol dos valentes e namorados cavaleiros, a quem devemos imitar, todos os que debaixo da bandeira do amor e da cavalaria militamos. Sendo, pois, isto assim, como é, acho eu, Sancho amigo, que o cavaleiro andante, que melhor o imitar, mais perto estará de alcançar a perfeição da cavalaria. Uma das coisas em que este cavaleiro melhor mostrou a sua prudência, valor, valentia, sofrimento, firmeza e amor, foi quando se retirou, desprezado pela Senhora Oriana, a fazer penitência na Penha-Pobre, trocando o seu nome pelo de Beltenebrós, nome por certo significativo e próprio para a vida que ele voluntariamente havia escolhido. Ora, mais fácil me é a mim imitá-lo nisto, que no fender gigantes, descabeçar serpentes, matar dragões, desbaratar exércitos, fracassar armadas e desfazer encantamentos; e, como estes lugares são tão azados para semelhantes efeitos, não se deve perder a boa ocasião, que ao presente com tanta comodidade me oferece suas guedelhas.


Dom Quixote Vol. I - Miguel de Cervantes

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Original e Tradução

Tomando o barbeiro outro livro, disse:

- Este é Espelho de cavalarias.

- Já conheço a Sua Mercê - disse o cura. - Aí anda o Senhor Reinaldo de Montalvão com os seus amigos e companheiros, mais ladrões que Caco, e os Doze Pares com o verídico historiador Turpin. A falar a verdade, estou em condená-los, pelo menos a desterro perpétuo, por terem parte na invenção do famoso Mateus Boiardo, donde também teceu a sua teia o cristão poeta Ludovico Ariosto. Este, se por aqui o apanho a falar-me língua que não seja a sua, não lhe hei-de guardar respeito algum; falando porém no seu próprio idioma, colocá-lo-ei sobre a cabeça.

- Em italiano tenho-o eu - disse o barbeiro - mas não o entendo.

- Nem era preciso que o entendêsseis - respondeu o cura; - de boa vontade perdoáramos ao senhor capitão que se tivesse deixado de o trazer à Espanha, pois lhe tirou muito de sua valia original; e o mesmo sucederá a todos quantos quiserem traduzir para os seus idiomas livros de versos, que, por muito cuidado que nisso ponham, e por mais habilidade que mostrem, nunca hão-de igualar ao que eles valem no original. O que eu digo é que este livro, e todos os mais que se acharem tratando destas coisas da França, se lancem e guardem num poço seco, até que mais repousadamente se veja o que se há-de fazer deles, excetuando a um Bernardo del Cárpio que por aí anda, e a outro chamado Roncesvales, que esses, em me chegando às mãos, vão direitos para as da ama, e delas para fogo, sem remissão.


Dom Quixote Vol. I - Miguel de Cervantes

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Investigação e Verdade

Sócrates: E se não as adquiriu nesta vida, não fica claro de imediato que [já] as possuía e as aprendera em alguma outra ocasião?
Mênon: É o que parece.
Sócrates: E tal ocasião deve ter sido quando ele não era um ser humano?
Mênon: Sim.
Sócrates: Portanto, se nesses dois períodos, ou seja, enquanto é e enquanto não foi um ser humano, ele teve dentro de si opiniões verdadeiras que, para se converterem em conhecimento, precisam apenas serem despertadas mediante interrogação, não terá sua alma possuído essa cognição por todo o tempo? De fato, ressalta como evidente que durante todo o tempo ele existe, ou como ser humano ou como não ser humano.
Mênon: É o que parece.
Sócrates: E se a verdade da totalidade das coisas que são¹ permanece sempre em nossa alma, então esta é imortal; assim, deves sempre esforçar-te confiantemente na tentativa de investigar e lembrar o que desconheces atualmente, ou seja, aquilo que não lembras.
Mênon: Vendo-o como tu o vês, Sócrates, embora não saiba exatamente como, sou da opinião que o que dizes é acertado.
Sócrates: Também eu experimento um certo desconforto, Mênon. Admito que a maioria dos pontos por mim aduzidos em respaldo de meu argumento não tem caráter plenamente confiável; contudo, que a crença no dever de investigar as coisas que ignoramos é algo que nos tornará melhores, mais corajosos e menos ociosos, de preferência à crença de que inexiste sequer a possibilidade de apurar as coisas que ignoramos e de que não temos o dever de investigá-las, constitui um ponto em prol do qual me empenho em lutar, na medida de minhas forças, quer nos meus discursos, quer nas minhas ações.
Mênon: Julgo que também nisso falas com acerto, Sócrates.

¹. των οντων (tôn ónton)


Mênon (ou da Virtude) - Platão

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Debate e Verdade

Mênon: [...] que resposta poderias dar a ele?

Sócrates: De minha parte, a verdadeira. E se meu perguntador fosse um hábil mestre do tipo erístico e contencioso¹, eu lhe diria: emiti minha afirmação; se está errada, compete a ti examiná-la e refutá-la. Entretanto, se, como ocorre conosco neste ensejo, estivesse entre amigos e quiséssemos debater, eu teria uma resposta num tom um tanto mais suave, mais conforme à dialética. Suponho que o modo mais dialético não consiste unicamente em responder o que é verdadeiro, mas inclui empregar os pontos reconhecidamente conhecidos pelo indivíduo interrogado. É assim que procurarei discutir contigo.


¹ A erística (palavra derivada de εριϛ [éris], luta, disputa, querela, discórdia) é a arte (distinta da retórica e da dialética) da discussão pela discussão, sem visar à verdade ou ao consenso dos debatedores. Platão a considera uma deplorável modalidade sofística e a expõe, numa crítica radical e contundente, no Eutidemo.


Mênon (ou da Virtude) - Platão

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Aparência e Essência

"A propósito, há um ponto que omiti no princípio, a saber, como seus discursos, mais do que tudo o mais, assemelham-se aos silenos ocos que se pode abrir. Se vos dispuserdes a ouvir os discursos e argumentos de Sócrates, percebereis de início que são completamente ridículos: são trajados externamente com palavras, expressões e frases tão grosseiras quanto o couro de um sátiro insolente e vulgar. Sua conversação envolve asnos carregadores de cestos, ferreiros, fabricantes de calçados e curtidores, e a impressão que temos é que se mantém empregando as mesmas palavras para as mesmas coisas; a pessoa que não tem familiaridade com ele e tola não deixará de rir desses seus discursos e argumentos. Mas se esses discursos forem abertos, de modo que se possa ter uma visão deles acessando seu interior, começa-se por descobrir que são os únicos discursos e argumentos que encerram sentido; em segundo lugar, que nenhum outro é tão divino, tão fecundo em imagens da virtude e tão amplamente, ou melhor, tão plenamente dirigido a tudo que é apropriado à investigação daquilo que nos faz alcançar a beleza e a excelência."


O Banquete - Platão

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Concórdia e Discórdia

Se houvesse um meio de compor uma cidade ou um exército de amantes e seus amados, não haveria melhor sistema possível de sociedade do que esse, porque seus componentes recuariam ante tudo que fosse vil, numa emulação mútua da honra [entre amantes e amados]; e indivíduos como esses, lutando lado a lado, mesmo num modesto contingente, poderiam quase ser considerados por nós capazes de vencer o gênero humano inteiro. De fato, um homem apaixonado preferiria suportar quaisquer outros ao seu amado observá-lo abandonando seu posto ou depondo as armas; preferiria morrer múltiplas vezes; por outro lado, quanto a deixar para trás seu jovenzinho, ou deixar de socorrê-lo no perigo, nenhum homem seria tão baixo a ponto de esquivar-se à própria influência de Eros, incutindo-lhe uma bravura que o igualaria aos mais naturalmente bravos; e incontestavelmente o que Homero denomina um "ardor insuflado"¹ por um deus em alguns heróis é o efeito produzido pelo próprio Eros nos amantes.

¹ Ilíada, Canto XV, 262.

O Banquete - Platão