sexta-feira, 12 de março de 2021

Lei e Justiça

CRÉON - E tu, dize logo, sem quaisquer rodeios:
conhecias a ordem que vedava aquilo?

ANTÍGONA – Sim. Como ignorá-la? Era público o edito.

CRÉON – Não obstante, ousaste infringir minha lei?

ANTÍGONA – Porque não foi Zeus quem a ditou, nem foi
a que vive com os deuses subterrâneos
– a Justiça – quem aos homens deu tais normas.
Nem nas tuas ordens reconheço força
que a um mortal permita violar aquelas
não-escritas e intangíveis leis dos deuses.
Estas não são de hoje, ou de ontem: são de sempre;
ninguém sabe quando foram promulgadas.
A elas não há de quem, por temor, me fizesse
transgredir, e então prestar contas aos Numes.
Bem sei, como não? Que hei de morrer um dia
mesmo sem decreto teu; e se tombar
morta antes do tempo, então tanto melhor:
para quem, como eu, vive entre tantos males,
como não será de só proveito a morte?
Para mim, morrer não é sofrer; seria
sofrimento, sim, se eu acaso deixasse
insepulto o que nasceu de minha mãe.
Isso me doeria: o resto não importa.
Posso parecer-te uma louca, talvez:
mais louco, porém, é o que me julga louca.


Antígona – Sófocles

quinta-feira, 11 de março de 2021

Ambição e Ruína

CORO – Tratas, pois assim, Créon de Meneceu,
aos amigos e inimigos da cidade.
Podes legislar, ninguém o nega, tanto
no que diz respeito aos vivos quanto aos mortos.

CRÉON – Cuidai seja à risca minha ordem cumprida.

CORO – Encarrega disso aos que sejam mais moços.

CRÉON – Junto ao morto há guardas que já estão vigiando.

CORO – Então, que outras ordens tens para nos dar?

CRÉON – Não ficar ao lado dos desobedientes.

CORO – Ninguém há tão louco que deseje a morte.

CRÉON – Seria esse o prêmio; mas é que a ambição,
alentando os homens, os arrasta à ruína.


Antígona – Sófocles

quarta-feira, 10 de março de 2021

Notícia e História

A inovação moderna que substituiu o jornalismo pela história, ou por essa tradição que é o comentário da história, teve ao menos um efeito definido. Assegurou que todos poderiam ter apenas conhecimento do fim de cada história. Os jornalistas têm o hábito de imprimir, por cima de precisamente o último capítulo das suas histórias periódicas (quando o herói e a heroína se encontram a ponto de se abraçar no último capítulo, coisa que somente uma perversidade inexplicável os impediria de fazer no primeiro), as palavras um tanto desnorteadoras: “o leitor poderá começar a história apenas daqui.” Todavia nem este paralelo é completo, pois os jornais dão, de fato, uma espécie de resumo da história, embora não apresentem nada que se assemelhe, remotamente, a uma sinopse da história. Tratam, não somente das notícias, mas de tudo, como se fosse absoluta novidade. É e exatamente da mesma forma pela qual lemos que o almirante Bangs foi alvejado com um tiro, quando essa notícia é a primeira notificação que temos de que tal indivíduo existia. Há qualquer coisa singularmente significativa no emprego que o jornalismo dá aos seus recursos biográficos. Nunca se lembra de publicar a vida enquanto não publica a morte. E do mesmo modo como cuida dos indivíduos, cuida das instituições e das idéias. Depois da Grande Guerra, o nosso público começou a ouvir que toda espécie de nação se estava emancipando. Entretanto, jamais ouvira uma só referência ao fato de terem estado escravizadas. Éramos convocados para ajuizarmos da justiça das colonizações, sem que nunca tivéssemos tido permissão de tomar conhecimento da existência de tais litígios. O povo acharia pedante falar do heroísmo sérvio, e prefere discorrer em linguagem vulgar, moderna, sobre a nova diplomacia internacional iugoslava; e todos se acendem de entusiasmo ante algo a que chamam Tchecoslováquia, sem que, aparentemente, jamais tivessem ouvido falar da Boêmia. Coisas que são antigas como a Europa assumem caráter mais novo do que as recentes novidades dos prados da América. É muito animador; como o último ato de uma peça a pessoas que entram no teatro pouco antes de fechar as cortinas. Não conduz, porém, exatamente, à compreensão do que se estivesse passando. Poder-se-ia recomendar esse modo sossegado de patrocinar o teatro àqueles que se contentam em assistir meramente a um tiro de pistola ou a um beijo apaixonado. Mas isto não satisfaz a quantos atormente a simples curiosidade intelectual de saber quem está beijando, quem foi morto, e porque razão.


São Francisco de Assis - G. K. Chesterton