quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Vida e Circunstância

“Dado que”, fórmula dos problemas de geometria, que é aplicável também ao problema do homem e ao uso do tempo: o que te é dado neste momento, aceita-o, melhora-o, aprofunda-o. Assim tu viverás.


O Trabalho Intelectual. Conselho para os que Estudam e Para os que Escrevem - Jean Guitton

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Esforço e Aprendizado

Chega um momento em que o esforço aplicado a um obstáculo exterior suscita um obstáculo interior mais insidioso que o outro, que cresce sem parar, muito mais ainda quando se tenta resisti-lo, como se vê com o gago. Os moralistas, que estudaram o mecanismo da tentação, sabem-no bem. Ser tentado é estar às voltas com uma imagem que pressentimos que agirá sobre as nossas glândulas. É evidente que uma certa maneira de orientar o esforço para dissipar a imagem corre o risco de intensifica-la. O corpo não conhece a diferença entre o sim e o não. Dizer “Não tenho medo, não quero ter medo desse projétil que passa” é aumentar as imagens que nos são adversas. Não querer tremer nos momentos de medo aumenta o estremecimento. Enrijecer para não ceder à tentação é dispor-se a ceder ainda mais depressa. É por isso que se pede a Deus para não ser tentado, e não para resistir, ato muito difícil. O velho Coué dizia em sua linguagem, geométrica demais para meu gosto, que “quando há uma luta entre a imaginação e a vontade, a imaginação aumenta ao quadrado da vontade”.

Essa lei da inversão dos esforços mal dirigidos é uma das mais profundas de nossa vida psíquica. Admiro-me de se falar tão pouco nela e de nem se saber ensiná-la. Quando, apesar de excelentes guias e de uma boa vontade sincera, não fui capaz de aprender uma arte simples (a geometria ou a equitação, por exemplo), foi porque os meus mestres ignoravam esse princípio da inversão. Contraía-me em cima do cavalo ou no teorema e o resultado era a queda ou a ignorância. Era preciso trabalhar com descanso. “Ride, ride!”, dizia o duque de Nemours aos seus filhos, quando via-os dar um passo em falso no carrossel. Conselho que Joana d’Arc dava também ao gentil duque. Bergson contava aos seus amigos que existiam duas maneiras de aprender a montar cavalo. A primeira é a maneira comum: dor, irritação, injúrias, esforço, arranhões, enfim, todo esse tipo de coisas; não creio que seja inteiramente má, pelo menos para a maioria. A outra maneira é a de simpatizar com o movimento do animal, tornando-se tão flexível e mole quanto possível, evitando perturbar esse animal flexível, abandonando-se, como dizia Bergson, à “graça da equitação”, como se ela já nos tivesse sido dada. É provável que o primeiro método, um dia, acabe por levar-nos ao segundo, como se vê na aprendizagem da valsa ou de línguas estrangeiras. É certo que para um dia merecermos fazer qualquer movimento sem esforço (incluindo o da virtude) é preciso ter feito muitos esforços.


O Trabalho Intelectual. Conselho para os que Estudam e Para os que Escrevem - Jean Guitton

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Oportunidade e Perseverança

Quando lemos a biografia de muitos homens (de todos, talvez, desde que a narrativa seja sincera), notamos que as condições de sua infância, de sua educação ou de sua vida não os predispunham para o que realizaram. Não foi por causa dessa educação, foi apesar dela muitas vezes que eles puderam desenvolver-se. Uns não tinham livros; escondiam-se para aprender... Isso leva a pensar no significado da palavra propício; sabemos nós alguma vez o que não é propício? Muitas vezes acontece que o elemento mais favorável não faz falta. É que a falta do objeto exterior faz surgir em nosso centro um impulso que o substitui; é o eu substituindo a coisa, é o gênio. Todas as vezes que substituímos um objeto por um auxílio vindo de nosso interior, estamos no caminho da renovação de nós próprios e do mundo. De modo que nunca é necessário lamentarmos demasiado pelos que sofrem de uma falta, desde que eles tenham feito o juramento de perseverarem.


O Trabalho Intelectual. Conselho para os que Estudam e Para os que Escrevem - Jean Guitton

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Oração e Tentação

Nestas moradas* raras vezes entram as criaturas peçonhentas, e caso entrem acabam gerando mais proveitos do que males; tenho para mim que é bem melhor quando elas entram e fazem guerra neste estado de oração, pois que o demônio poderia misturar seus enganos junto com os benefícios que o Senhor concede, caso a alma nunca sofra tentações, e isso lhe causaria um mal maior do que se fosse tentada; então a alma não lucrará tanto se estiver mergulhada num embevecimento contínuo e isenta de tudo que seja motivo de mérito para ela; pois não creio ser seguro viver num embevecimento constante e imutável, nem me parece possível que o espírito do Senhor permaneça inteiro em nós neste desterro.


As Moradas do Castelo Interior – Santa Teresa D’Ávila


* Quartas Moradas