sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Retórica e Persuasão

II. DISCURSO RETÓRICO

Visa, essencialmente, a persuadir alguém a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa: aprovar ou rejeitar uma lei, movera a guerra ou estabelecer a paz, eleger ou derrubar um governante, absolver ou condenar um réu. Todo discurso retórico contém, assim, de maneira mais ou menos explícita, um comando ou um apelo. Ele tenciona que esse apelo seja atendido, esse comando obedecido.

Sua influência sobre o ouvinte é portanto bem diferente daquela do discurso poético. Este operava uma transformação na alma do ouvinte, mas, como esta transformação ocorria em camadas muito profundas, não podia resultar num efeito exterior imediato e prático, traduzir-se logo numa decisão ou ação precisa e determinada. O discurso poético, na verdade, antes predispõe de longe a certas atitudes, do que as ordena ou solicita. A influência do discurso retórico é menos profunda, porém mais evidente imediata, mais traduzível em ações exteriores. Enquanto o discurso poético procura absorver a alma inteira do ouvinte, deixando nela uma marca profunda que se integre na sua personalidade “como se a própria vida falasse”, mas abdicando, por isto mesmo, de tirar disso qualquer proveito prático imediato, o discurso retórico contenta-se com influenciar o ouvinte durante um determinado período de tempo e para os fins de uma determinada decisão ou ação em particular. O advogado que discursa no foro não pretende transformar de maneira profunda e duradoura a alma dos jurados, mas apenas persuadi-los a absolver ou a condenar o réu naquela precisa circunstância. Se depois eles se arrependerem do voto, pouco importa: a influência da retórica termina no ponto exato em que a ação se desencadeou conforme o esperado.

O discurso poético não dá ao ouvinte nenhuma ordem determinada. Mesmo quando expressa mandamentos, como no caso dos épicos religiosos, o faz numa linguagem simbólica que dá margem a toda uma variedade de interpretações posteriores, e é só através destas (expressas, por sua vez, em linguagem dialética ou retórica) que os mandamentos, muito gerais, se convertem em normas determinadas. Alguns textos sacros, no entanto, contém exortações e comandos explícitos, de mistura com expressões simbólicas. Por isto alguns tratadistas, como Frye, preferem classificar esses textos num gênero intermediário, o Kerigma, misto de poético e retórico. Pode-se admitir esta denominação, com a ressalva de que, em todo discurso, os elementos poéticos e retóricos nunca estarão fundidos numa massa homogênea, mas permanecerão sempre passíveis de distinção.

O discurso retórico, por sua vez, emite sempre uma ordem ou pedido que, mesmo implícito, será sempre concreto e determinado; motivo pelo qual tem de ser inteligibilidade literal e imediata (isto é, imediatamente referida às circunstâncias práticas que lhe interessam). Um discurso poético pode ter tantas “interpretações” quantas se queira, sem que isto prejudique em nada o seu efeito, que às vezes é tanto mais profundo quanto mais variadas as interpretações. Um discurso retórico, ao contrário, não terá eficácia nenhuma. Palavras obscuras podem fascinar ou comover; mas não podem transmitir uma ordem precisa e determinada. (O que não quer dizer que um discurso retórico em particular não possa também conter virtudes poéticas e, neste sentido, reverberar numa multiplicidade de sentidos simbólicos, contanto que o literal esteja garantido.)

A credibilidade do discurso retórico consiste em sua faculdade de fazer o ouvinte querer alguma coisa (ou rejeitar alguma coisa). Este efeito se obtém por uma identificação, ao menos aparente e momentânea, da vontade do ouvinte com a vontade do orador. Este faz o ouvinte sentir que a proposta contida no discurso coincide, em última instância, com a vontade íntima do próprio ouvinte. Já não se trata portanto, somente de uma participação consentida numa certa vivência contemplativa, mas na admissão consentida de uma identidade de vontades, portanto de decisões.

O discurso retórico apela, no fundo, ao sentimento de liberdade do ouvinte, ao seu impulso de decidir, de agir por si mesmo, de afirmar sua vontade. Por isto a Retórica antiga considerava importante que o orador captasse primeiro as inclinações do auditório, para poder fazer a ponte entre essas inclinações e o objetivo desejado.

Há, é claro, pontes falsas: o orador faz o auditório imaginar que quer uma coisa, quando de fato quer outra, que o orador trata de fazê-lo esquecer por uns momentos. Mas a eficácia de tais truques é bastante limitada, e seu uso constante reduz a nada a credibilidade do orador. A retórica verdadeira se baseia sempre na autêntica vontade do auditório, procurando apenas orientá-la ou transformá-la suavemente, sem forçar mudanças nem muito menos ludibriar o auditório. Abraham Lincoln, um dos maiores oradores de todos os tempos, disse: “Você pode enganar algumas pessoas durante muito tempo ou muitas pessoas durante algum tempo, mas não pode enganar a todo mundo o tempo todo.” O retórico sabe que a vontade, em última análise, não pode ser persuadida senão a fazer precisamente o que quer, e que no máximo é possível trocar uma vontade superficial e momentânea por outra mais profunda, já latente no coração do auditório. Nesse sentido, a retórica apela para o que exista de melhor na alma do ouvinte, e tem por isto uma função moral e política, como exercício da decisão responsável.


Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos – Olavo de Carvalho

Discursos e Disposições

1. As quatro ciências do discurso tratam de quatro maneiras pelas quais o homem pode, pela palavra, influenciar a mente de outro homem (ou a sua própria). As quatro modalidades de discurso caracterizam-se por seus respectivos níveis de credibilidade:

(a) O discurso poético versa sobre o possível (δυνατος, dínatos), dirigindo-se sobretudo à imaginação, que capta aquilo que ela mesma presume (εικαστικος ,eikásticos, “presumível”; εικασια , eikasia, “imagem”, “representação”).

(b) O discurso retórico tem por objeto o verossímil (πιθανος , pithános) e por meta a produção de uma crença firme (πιστις , pístis) que supõe, para além da mera presunção imaginativa, a anuência da vontade; e o homem influencia a vontade de um outro homem por meio da persuasão (πειθω , peitho), que é uma ação psicológica fundada nas crenças comuns. Se a poesia tinha como resultado uma impressão, o discurso retórico deve produzir uma decisão, mostrando que ela é a mais adequada ou conveniente dentro de um determinado quadro de crenças admitidas.

(c) O discurso dialético já não se limita a sugerir ou impor uma crença, mas submete as crenças à prova, mediante ensaios e tentativa de traspassa-las por objeções. É o pensamento que vai e vem, por vias transversas, buscando a verdade entre os erros e o erro entre as verdades (δια, diá, = “através de” e indica também duplicidade, divisão). Por isto a dialética é também chamada periástica, da raiz peirá (πειρα = “prova”, “experiência”, de onde vem πειρασμος, peirasmos, “tentação”, e as nossas palavras empiria, empirismo, experiência etc., mas também, através de πειρατες, peirates, “pirata”: o símbolo mesmo da vida aventureira, da viagem sem rumo predeterminado). O discurso dialético mede enfim, por ensaios e erros, a probabilidade maior ou menor de uma crença ou tese, não segundo sua mera concordância com as crenças comuns, mas segundo as exigências superiores da racionalidade e da informação acurada.

(d) O discurso lógico ou analítico, finalmente, partindo sempre de premissas admitidas como indiscutivelmente certas, chega, pelo encadeamento silogístico à demonstração certa (αροδειξις, apodêixis, “prova indestrutível”) da veracidade das conclusões.

É visível que há aí uma escala de credibilidade crescente: do possível subimos ao verossímil, deste para o provável e finalmente para o certo ou verdadeiro. As palavras mesmas usadas por Aristóteles para caracterizar os objetivos de cada discurso evidenciam essa gradação: há, portanto, entre os quatro discursos, menos uma diferença de natureza que de grau.

[...]

2. Mas Aristóteles vai mais longe: ele assinala a diferente disposição psicológica correspondente ao ouvinte de cada um dos quatro discursos, e as quatro disposições formam também da maneira mais patente, uma gradação:

(a) Ao ouvinte do discurso poético cabe afrouxar sua exigência de verossimilhança, admitindo que “não é verossímil que tudo sempre aconteça de maneira verossímil”, para captar a verdade universal que pode estar sugerida mesmo por uma narrativa aparentemente inverossímil. Aristóteles, em suma, antecipa a suspension of disbelief de que falaria mais tarde Samuel Taylor Coleridge. Admitindo um critério de verossimilhança mais flexível, o leitor (ou espectador) admite que as desventuras do herói trágico poderiam ter acontecido a ele mesmo ou a qualquer outro homem, ou seja, são possibilidades humanas permanentes.

(b) Na retórica antiga, o ouvinte é chamado de juiz, porque dele se espera uma decisão, um voto, uma sentença. Aristóteles, e na esteira dele toda a tradição retórica, admite três tipos de discursos retóricos: o discurso forense, o discurso deliberativo e o discurso epidíctico ou de louvor e censura (a um personagem, a uma obra, etc.). Nos três casos, o ouvinte é chamado a decidir: sobre a culpa ou inocência de um réu, sobre a utilidade ou nocividade de uma lei, de um projeto, etc., sobre os méritos ou deméritos de alguém ou de algo. Ele é, portanto, consultado como autoridade: tem o poder de decidir. Se no ouvinte do discurso poético era importante que a imaginação tomasse as rédeas da mente, para leva-la ao mundo do possível num vôo do qual não se esperava que decorresse nenhuma consequência prática imediata, aqui é a vontade que ouve e julga o discurso, para, decidindo, criar uma situação no reino dos fatos.

(c) Já o ouvinte do discurso dialético é, interiormente ao menos, um participante do processo dialético. Este não visa a uma decisão imediata, mas a uma aproximação da verdade, aproximação que pode ser lenta, progressiva, difícil, tortuosa, e nem sempre chega a resultados satisfatórios. Neste ouvinte, o impulso de decidir deve ser adiado indefinidamente, reprimido mesmo: o dialético não deseja persuadir, como o retórico, mas chegar a uma conclusão que idealmente deva ser admitida como razoável por ambas as partes contendoras. Para tanto, ele tem de refrear o desejo de vencer, dispondo-se humildemente a mudar de opinião se os argumentos do adversário forem mais razoáveis. O dialético não defende um partido, mas investiga uma hipótese. Ora, esta investigação só é possível quando ambos os participantes do diálogo conhecem e admitem os princípios básicos com fundamento nos quais a questão será julgada, e quando ambos concordam em ater-se honestamente às regras da demonstração dialética. A atitude, aqui, é de isenção e, se preciso, de resignação autocrítica. Aristóteles adverte expressamente os discípulos que não se aventurem a terçar argumentos dialéticos com quem desconheça os princípios da ciência: seria expor-se a objeções de mera retórica, prostituindo a filosofia.

(d) Finalmente, no plano da lógica analítica, não há mais discussão: há apenas a demonstração linear de uma conclusão que, partindo de premissas admitidas como absolutamente verídicas e procedendo rigorosamente pela dedução silogística, não tem como deixar de ser certa. O discurso analítico é o monólogo do mestre: ao discípulo cabe apenas receber e admitir a verdade. Caso falhe a demonstração, o assunto volta à discussão dialética.


Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos – Olavo de Carvalho

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Literatura e Existência

São obras de fácil acesso, eram declamadas em curto período de tempo, talvez uma hora, e pouco bastava para declamar toda a Teogonia; é possível alguém pessoa memorizar toda ela. Temos que ver, porém, que não trata-se de texto sagrado; não se trata da religião dos gregos, ou de um texto usado como as Sagradas Escrituras são usadas, não se trata de dogma, ou de algo infalível e imutável. As pessoas tinham a total liberdade para discordar de Hesíodo, ou de achar aquilo uma história para boi dormir.

Não podes, pois, encarar isso como um relato da religião dos gregos, ou de suas crenças. Era mais uma obra de literatura que de fato influenciou a religiosidade das pessoas, e por conseguinte também a visão das coisas sagradas. É só uma fonte a mais que influencia tanto quanto, por exemplo, a leitura de um romance de Dostoiévski influencia um cristão; não é um texto sagrado nem um dogma, nem tampouco deve ser aceito e conhecido por todos que professam a fé cristã, embora ninguém possa negar que, para um cristão, a leitura de Dostoiévski pode fazer com que se cresça em piedade, na compreensão das coisas divinas e também humanas.

A literatura tem esse poder, essa capacidade de aproximar as pessoas do divino. Isso é assim desde sempre, fazer com que as pessoas compreendam mais as coisas de Deus e do mundo; fazer com que elas desenvolvam a sua própria percepção da realidade.


Coleção de 7 Artes Liberais – Gramática – Formação Literária e Guia de Gramática da Língua Portuguesa – Instituto Hugo de São Vitor

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Reflexão #12

"Don't use your illness as an excuse to not do something you don't want (but you can or must do)"

Essa foi a frase que me marcou em uma longa entrevista com Jordan Peterson, com o pequeno adendo entre parênteses para acrescentar o contexto.
Após anos atuando como psicólogo clínico, ele percebeu um padrão em seus pacientes e até em si mesmo: quando há algum problema grave na vida do paciente, seja de saúde, seja financeiro, social, etc. ele acaba utilizando isso como desculpa para não fazer o que tem que ser feito, mesmo que seja importante e que não seja um impeditivo.

Guardadas as devidas proporções, todos fazemos isso. Utilizamos a preguiça (illness) como desculpa (excuse) pra não lavar a louça. Mesmo assim, devemos fazer uma rápida reflexão sobre as nossas pendências, as tarefas ou obrigações que temos, e se o impeditivo para realizá-las é real, se é só um dificultador ou se é apenas uma muleta que usamos para não fazer, popularmente conhecido como "dar uma de João sem braço".

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Reflexão #11

"Uma meia-verdade é sempre um caminho perigoso em direção a uma mentira completa."

Se minha memória não falha, ouvi essa frase em alguma entrevista de de Jordan Peterson. O que me chamou a atenção e quero compartilhar aqui é a relação com a lógica de primeira ordem.

Em lógica de primeira ordem, a composição (AND) de argumentos verdadeiros com pelo menos um falso resultará na falsidade completa da afirmação. Aprendi isso, meio que superficialmente lá nos estudos pro vestibular numa aula extra do cursinho e algum tempo depois reconheci em uma daquelas questões de 3 ou 4 afirmações onde as respostas de múltipla escolha são: I e II são verdadeiras, I e III são verdadeiras, etc. A luz me apareceu em alguma afirmação matemática que era válida para quase todos os números, por exemplo divisão de inteiros, mas para um ou poucos casos é falsa, neste exemplo a divisão por zero. Isso invalida toda a afirmação, o que condiz com a lógica de primeira ordem e com argumentos que pretendem ser extremamente precisos.

No entanto, o discurso comum não exige essa rigidez, seja por falta de tempo de explicar cada mínimo detalhe, seja por ser um argumento ambíguo que levaria a outros caminhos ou até mesmo porque o interlocutor ainda não tem a capacidade para interpretar corretamente a mensagem. E por esse motivo que a frase de Peterson me marcou. Uma meia-verdade não é uma falsidade imediatamente. É um caminho perigoso, mas não necessário à mentira completa.

Portanto, quando a meia-verdade surgir, na sua boca ou na de outro, o importante é identificar por que essa verdade completa está sendo dividida.