sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Reflexão #18

Vir prūdēns bonam et malam fortunam aequō animō fert.
O homem prudente tem o espírito de igual forma na boa e na má sorte.


Esta citação é relativa à maturidade. Uma criança ou pessoa imatura facilmente tem seus sentimentos* mudados pelos eventos inesperados, seja uma felicidade por um doce surpresa ou tristeza por um tropeço. Dessa forma, temos um caminho para a prudência: a habilidade de manter sob controle estes impulsos instintivos tanto na boa quanto na má sorte, isto é, nos eventos imprevistos favoráveis e nos adversos.


* animus (substantivo masculino II declinação)
- mente
- intelecto
- alma
- sentimentos
- coração
- espírito, coragem, caráter, orgulho
- ar

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Origem e Destino

Canto XXVI


Da vossa raça refleti na altura!
Viver quais brutos veda-o vossa origem!
De glória vos impele ambição pura!'


Inferno, A Divina Comédia – Dante Alighieri

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Mestre e Motivação

Canto XXIV


Lá chegado, afã tanto o peito prema,
Que avante um passo dar eu mais não pude;
Sentei-me então na inanição suprema.

"Eia! toda a fraqueza em ti se mude!
Em ócio", disse o Mestre, "ou sobre a pluma
Prêmios ninguém conquista da virtude.

Aquele que a existência assim consuma,
Tal vestígio de si deixa na terra,
Como o fumo no ar e na água a espuma.

Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra!
Recobra o esforço que os perigos vence!
Impere alma no corpo em que se encerra!

Que vais subir muito alto a mente pense;
Desse abismo não basta haver saído.
Será teu prol, se a minha voz convence".

Alço-me então, mostrando-me impelido
De alento, que não tinha; e ao Mestre digo:
"Avante! Forte já me sinto e ardido!"

Pela rocha asperíssima prossigo
Mais estreita, inda menos acessível
Que a outra: os passos de Virgílio sigo.


Inferno, A Divina Comédia – Dante Alighieri

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Piedade e Maldade

Canto XX


Nova pena convém dizer em versos
E dar matéria ao meu vinteno canto,
Do cântico onde punem-se os perversos.

Eu era já disposto tanto quanto
Fora preciso para ver o fundo
Da cava, que banhava amargo pranto.

De almas vi turba, pelo val rotundo,
Que taciturna vinha e lacrimosa
Ao passo usado em procissões no mundo.

Mirei mais baixo e cada desditosa
Notei que fora o mento retorcido
Do colo ao começar: cousa espantosa!

Para o dorso era o rosto seu volvido:
Só recuando caminhar podia;
Que em frente olhar estava-lhe tolhido.

Talvez por força já de paralisia
De alguém o corpo ao todo se torcesse;
Não vi: crê-lo difícil me seria.

Que te seja, Leitor, a Deus prouvesse
Proveitosa a lição! Pensa, atilado,
Quanto em mim, vendo, a compaixão crescesse,

O parecer humano tão mudado,
Que o pranto que dos olhos derivava
Banhava o tergo a cada condenado.

Do rochedo eu a um ângulo chorava
Com tanta dor, que o Mestre de repente
"Insensato és também?", me interrogava.

"Aqui piedade é morte em toda mente:
Quando Deus condenou, quem mais malvado
Do que esse, que ternura por maus sente?


Inferno, A Divina Comédia – Dante Alighieri

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Retidão e Influência

ESPIÃO

[...]

Falou o vate. Ergueu sereno o escudo todo                590
em bronze. Não havia efígie no seu bojo,
pois desejava ser, não parecer, o áristos,
primaz, lavrando em sua mente o sulco fundo
do qual germinam decisões percucientes.
Louvo se lhe remeta um oponente sábio                    595
e reto: assombra quem venera o nume eterno.


ETÉOCLES

Ai! Agrura do mau agouro, que associa
o justo ao homem ímpio! o que se faça,
a companhia má é o que há de mais nefasto,
um fruto a refugar. Se alguém sem jaça embarca       600
com nautas sôfregos de ação soez, perece
com a chusma divinorrejeitada, ou,
embora justo, se anda junto com pessoas
hostis aos hóspedes, imêmores dos deuses,              605
acabará fisgado numa mesma rede
com o injusto, e o látego comum dos numes
o domará, ferido. Assim o adivinho,
refiro-me a Anfiarau, um homem reto e bom,              610
equilibrado e virtuoso, inigualável
profeta, se meteu – contrário a si mesmo –
com gente sem pudor de verve truculenta,
numa missão cujo retorno distancia-se.
Zeus decidiu: será arrastado com os outros.               615
Sou da opinião de que não se imporá nas portas,
não por ser vil ou por trazer a alma tíbia,
mas por saber que está fadado a perecer
na guerra, se viger o oráculo de Lóxias.


Sete Contra Tebas - Ésquilo


sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Ódio e Perdão

Aquele europeu diante de mim, porém, revelou-se logo um homem de outra natureza, e ganhou meu respeito e minha confiança. O diálogo que travamos ao longo daqueles dias imprimiu-se para sempre no meu coração. Posso dizer, hoje, em retrospectiva, que foi um daqueles encontros fulcrais, uma daquelas bifurcações em nossa vida, quando o destino oferece a oportunidade de abrirmos um novo caminho. Sim, este foi o tamanho do impacto que o padre Gregorio exerceu sobre mim – sobre minhas idéias e convicções. Aquele homem fascinante, que consertou minha vida, relatou que trabalhava na floresta catequizando tribos amazônicas, e que estava ali tentando terminar "cinco séculos de esforço inacabado". Dois dos seus conselhos, dados ao primeiro dia, recomendações boas e difíceis de cumprir, precisam ser registradas de imediato aqui: "reze o terço todo dia, como nos pediu a Madonna, e reze-o por Maduro também".

– Rezar por Maduro? Eu não quero, eu não consigo. Não sou tão bom assim.

– Não te iguales pelo ódio, não é este o caminho. Acredito que saibas disso.

– É mais fácil falar do que fazer, padre, o senhor deve saber disso. Tiraram tudo de mim. Chávez e Maduro destruíram a minha vida, mataram o meu irmão, destruíram a minha família. Não temos mais nada. Tive que abandonar a minha mãe sozinha naquele inferno. Olha onde eu estou. Olha onde eu vim parar. Perdi tudo, me tornei um indigente. Que futuro eu tenho pela frente? Sou um homem de quase cinquenta anos. E durmo ao relento, vivo de esmola, durmo numa rede, caminhei dezenas de quilómetros, meu pé ainda está cheio de calos, olha só – ergui o tênis, continuei – E tudo por causa Maduro. Dele e dos outros. Quero o Maduro numa forca! Faço questão de assistir. Quero o filho da puta, me desculpe, padre, quero ele sofrendo uma grande humilhação, corroendo-se de raiva, impotente. Quero ele exposto dentro de uma jaula, como um bicho do zoológico, um macaco de circo, todo mundo zombando dele, cuspindo, escarnecendo, rindo. O Fujimori fez isso o homem do Sendero Luminoso. Foi muito bem feito, até foi pouco, foi merecido. O que eu quero é que o Maduro morra feito um cão, feito um porco, humilhado, como Mussolini, como Ceausescu, como Khadafi. É isso que ele merece: a forca, um tiro na nuca, o pelotão de fuzilamento, pauladas no meio da rua. Ele e todos aqueles outros comunistas que estão ao lado dele. Todos eles, todos, malditos sejam!

Quando terminei de falar já estava agitado e febril. O padre permanecia impassível, fitando-me com o mesmo olhar paciente. Falou-me com uma calma extraordinária:

– Deus muitas vezes permite que cheguemos ao abismo do inferno – fez uma pausa, como se avaliasse a minha reação. E prosseguiu:

– Ele nos deixa ver e sentir o sofrimento e o desespero da condenação eterna. Ele faz isso por bondade, por amor – cada vez que se referia a Deus seus olhos se moviam para cima – Mas tu não estás condenado ao inferno. Podes te afastar deste lugar. Ainda há tempo. Este lugar de ódio e sofrimento, este lugar em que não existe mais alegria e onde morreu toda a esperança, não precisa ser a sua morada permanente. Os padecimentos dos tempos presentes não guardam proporção com a alegria da vida futura.


Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana




quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Argumentos e Irracionalidade

Era meu costume: tentava persuadi-lo pela repetição enfática, mas minhas palavras tinham o poder de calcificar ainda mais a sua resistência. Meu irmão era um daqueles homens fragmentados tão comuns hoje em dia, um ateísta professo que uma vez por semana praticava santeria. Em sua cabeça desorganizada se acomodavam as noções mais contraditórias sem que ele jamais se desse conta de nenhuma incompatibilidade. O seu domínio da linguagem era impreciso e, por isso, quanto mais ele lia mais deformava a sua personalidade. Todo aquele desacordo interno, quando conversávamos, deixava-me furioso. Não sabia lidar com aquilo, sentia-me trapaceado. Aquela sua irracionalidade, assim eu o via, desrespeitava as regras do jogo. Brigávamos e brigávamos sem nunca mudar as convicções iniciais. Discutíamos feito loucos para ao final continuarmos fixos na mesma posição, como numa guerra de trincheiras. Era tudo inútil. Hoje, em retrospectiva, vejo o absurdo e o ridículo da situação. Eu queria porque queria convencê-lo de que eu estava certo e ele estava errado. Não havia um pingo de sabedoria em mim.


Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Previsão e Prudência

A digressão foi deliberada. Fujo da questão e me escondo; dissimulo, finjo sabedoria e erudição. É tudo um grande teatro e uma grande conveniência. Em verdade não quero exibir minha vergonha, tenho noção do coitado que sou, da miséria em que me encerro. Contar a minha história confirmará no leitor a certeza de minha estupidez. Não passo de uma Cassandra inglória sem Virgílio para eternizar. Vaticinei tragédias durante anos, bradei aos céus como um profeta bíblico, mas cá estou, mendigando pão, vítima do mesmíssimo naufrágio de que tantas vezes alertei. De que adiantou? Qual foi o proveito? Realmente acreditava em minhas palavras, considerava-me investido com missão salvífica? Se sim, então, por que demônios não preparei a arca? Por que deixei-me soçobrar? A resposta é simples e terrível: sou um farsante; e falo demasiado de mim. Eis um exemplo simples: digo-me exilado, como se a palavra me adornasse de tons heróicos, conferisse algum protagonismo. Mas é mentira. Sou tão refugiado quanto o ignorante que ronca na barraca aqui ao meu lado e pica-me o orgulho compartilhar a sorte do vulgar dos homens.


Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Verdade e Lisonja

CI – Terminada essa outra revista, Xerxes deixou o navio mandou chamar Demarato, filho de Ariston, que o acompanhava na expedição. Ao vê-lo diante de si, falou-lhe nestes termos: "Demarato, desejo fazer-te algumas perguntas, és grego e como soube de ti mesmo e de outros gregos com quem tenho conversado, nasceste numa das maiores e mais poderosas cidades da Grécia. Dize-me, pois, agora, se os Gregos ousarão opor-se a mim. Penso que os Gregos e todos os outros povos do Ocidente reunidos num só corpo de exército seriam incapazes de sustentar os meus ataques, sobretudo por não estarem eles de acordo com relação às coisas da guerra. Quero, porém, saber a tua opinião sobre isso." "Senhor", respondeu Demarato, "devo dizer-vos a verdade ou coisas que vos lisonjeiem?" O soberano disse-lhe que podia falar com toda franqueza.

CII – "Pois bem, senhor", tornou Demarato, "já que assim o desejais, dir-vos-ei a verdade, e não duvideis jamais, daqui por diante, de quem usar da mesma linguagem. Os Gregos têm sido criados na escola da pobreza, e a virtude a ela se junta, filha da temperança e das leis estáveis, dando-nos armas contra a pobreza e a tirania. Os Gregos que habitam as regiões vizinhas aos Dórios – para citar apenas esses como exemplo – sempre se houveram com dignidade, bravura e nobreza d'alma, sendo, por isso, dignos de todos os louvores. Ouso afirmar, senhor, que eles não só não ouvirão as vossas propostas, que tem por fim submeter a Grécia, como estarão decididos a ir ao vosso encontro e oferecer-vos batalha, mesmo que os outros povos gregos disso se abstenham. Quanto ao seu número, senhor, qualquer que ele seja, não influirá na sua decisão de resistir. Tivessem eles um exército de apenas mil homens, nem por isso deixariam de oferecer-vos combate."

CIII – "Que dizes, Demarato!", exclamou o soberano, rindo. "Mil homens dariam combate a um exército tão numeroso? Dize-me, tu que foste o rei deles, ousaria combater sozinho contra dez homens? Se os teus concidadãos são realmente valorosos como afirmas, tu, representante da tua raça, poderás, de acordo com as tuas próprias afirmações, resistir ao dobro, quero dizer, se um lacedemônio vale por dez homens do meu exército, tu valerás por vinte, se é que as tuas palavras foram ditadas pela sinceridade. Se, porém, os Gregos cujas qualidades tanto exaltas não possuem estatura mais avantajada do que a tua ou a dos gregos que conheço, receio muito que tuas palavras não encerrem senão jactância e vanglória. Mostra-me de que maneira mil homens, ou dez mil, ou mesmo cinquenta mil, todos igualmente livres e fora da influência de qualquer senhor, poderiam resistir a um exército tão poderoso como o meu; pois, afinal, se eles são cinco mil, somos mais de mil contra um. Se eles agissem, como entre nós, sob as ordens de um senhor, o temor ao castigo inspirar-lhes-ia uma coragem fora do comum, e, impelidos por chicotadas, marchariam, embora fossem em pequeno número, contra tropas muito mais numerosas. Mas os teus compatriotas, independentes como são, não fariam tal coisa. Penso mesmo que, ainda que eles fossem iguais em número a nós, não levariam vantagens sobre os Persas, pois entre nós encontramos grandes exemplos de bravura. Há, entre os meus guardas, persas que se bateriam com três gregos de uma só vez; e, se tanto exaltas as qualidades pessoais dos teus concidadãos, é porque nunca viste lutar um desses homens de que te falo."

CIV – "Senhor", volveu Demarato, "eu já sabia, ao começar a falar, que a verdade não vos agradaria; mas, forçado a dizê-la, apresentei os Espartanos tal como são. Não ignorais, senhor, o quanto os detesto atualmente, a eles que não satisfeitos de me privar das honras e dos privilégios que me foram legados por meus pais, baniram-me da minha pátria. Vosso pai acolheu-me bondosamente, deu-me uma casa e cumulou-me de riquezas. Não é crível, portanto, que um homem sensato e justo responda com a ingratidão aos benefícios recebidos. Não me ufano de poder lutar contra dez homens, nem mesmo contra dois, e jamais, por minha me bateria contra um apenas. Mas se fosse necessário, se a isso me visse forçado por qualquer contingência lutaria com a maior boa vontade com qualquer desses homens que se consideram capazes de resistir, cada um deles, a três gregos. O mesmo sucede com os Lacedemônios. Num combate de homem para homem não são inferiores a ninguém, e, reunidos num corpo de exército, são os bravos de todos os homens. Na verdade, embora livres, não o são da maneira que imaginais. A lei é, para eles, um senhor absoluto, e não a temem menos que os vossos súditos a vós. Obedecem aos seus ditames, às suas determinações, que são ordens, e essas ordens impedem-nos de fugir diante do inimigo, qualquer que seja o seu número, e obriga-os a manter-se firmes no seu posto, a vencer ou morrer. Se o que vos digo vos parece destituído de senso, guardarei, de agora em diante, silêncio sobre tudo o mais. Falei apenas em obediência às vossas ordens. Possa, senhor esta expedição ser bem-sucedida, segundo os vossos desejos."

CV – Xerxes, em lugar de aborrecer-se, pôs-se a rir e despediu Demo com benevolência.


Heródoto – História

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Caminho e Maria

168. Qualquer pessoa, portanto, sem receio de ilusão comum às pessoas de oração, que quiser avançar no caminho da perfeição e achar segura e perfeitamente Jesus Cristo, abrace de todo o coração, "corde magno et animo volenti" (2Mc 1,3), esta devoção à Santíssima Virgem, que talvez ainda desconheça. Entre neste caminho excelente que não conhecia e que eu lhe mostro (1Cor 12,31). É um caminho trilhado por Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, nosso único chefe. Os fiéis que o trilharem não podem estar enganados.

É um caminho fácil devido à plenitude da graça e da unção do Espirito Santo, de que está cheio: ninguém, que marche neste caminho, se cansa, nem recua. É um caminho curto que em pouco tempo nos leva a Jesus Cristo. É um caminho perfeito, onde não há lama, nem poeira, nem a menor sujeira do pecado. É, enfim, um caminho seguro que, de um modo reto e garantido, sem voltas para a direita ou para a esquerda, nos conduz a Jesus Cristo e à vida eterna. Entremos, portanto, neste caminho, e marchemos dia e noite, até à plenitude da idade de Jesus Cristo (cf. Ef 4,13).


Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem – São Luís Maria Grignion de Montfort

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Eficiência e Deficiente

Tu, homem, que pensas como engenheiro tens um comichão da eficiência. É um bichinho que procura tornar tudo ao seu redor mais eficiente, otimizado, com menos desperdício. Tudo mesmo, exceto quando a preguiça toma conta. Neste caso, ou a eficiência está automatizada ou a ineficiência aparece.
Somos humanos, falhos. Se até as máquinas tem suas eventuais falhas - raras, sim, mas existentes ainda - que dirá os humanos, que erram sem querer, de propósito, com boas ou más intenções?

Por isso, tu, cabeça de engenheiro, não percas a cabeça quando tua esposa atuar de maneira ineficiente, quando teus filhos desperdiçarem. Nem todos têm esse comichão da eficiência, e mesmo os que têm ainda erram, pois também são humanos.

Na próxima vez que tu veres a ineficiência, reflita bem antes se é imprescindível a tua intervenção ou se tu consegues respirar fundo e aguentar a tortura com um sorriso no rosto. No máximo, e olhe lá, ofereça para ajudar a fazer, sem conselhos ou advertências.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Contrição e Redenção

Chega a Alma diante da Igreja.

Anjo    Vedes aqui a pousada
            verdadeira e mui segura
            a quem quer vida.
Igreja  Oh! Como vindes cansada
            e carregada!
Alma   Venho por minha ventura,
            amortecida.
Igreja  Quem sois? Pera onde andais?
Alma   Não sei pera onde vou;
            sou selvagem,
            sou uma alma que pecou
            culpas mortais
            contra o Deus que me criou
            à Sua imagem.

            Sou a triste, sem ventura,
            criada resplandecente
            e preciosa,
            angélica em fermosura,
            e per natura,
            como raio reluzente
            luminosa.
            E por minha triste sorte
            e diabólicas maldades
            violentas,
            estou mais morta que a morte
            sem deporte,
            carregada de vaidades
            peçonhentas.

            Sou a triste, sem mezinha,
            pecadora obstinada,
            perfiosa;
            pola triste culpa minha,
            mui mesquinha,
            a todo o mal inclinada
            e deleitosa.
            Desterrei da minha mente
            os meus perfeitos arreios
            naturais;
            não me prezei de prudente,
            mas contente
            me gozei com os trajos feios
            mundanais.

            Cada passo me perdi;
            em lugar de merecer,
            eu sou culpada.
            Havei piedade de mi,
            que não me vi;
            perdi meu inocente ser,
            e sou danada.
            E, por mais graveza, sento
            não poder me arrepender
            quanto queria;
            que meu triste pensamento,
            sendo isento,
            não me quer obedecer,
            como soía.

            Socorrei, hóspeda senhora,
            que a mão de Satanás
            me tocou,
            e sou já de mim tão fora,
            que agora
            não sei se avante, se atrás,
            nem como vou.
            Consolai minha fraqueza
            com sagrada iguaria,
            que pereço,
            por vossa santa nobreza,
            que é franqueza;
            porque o que eu merecia
            bem conheço.

            Conheço-me por culpada,
            e digo diante vós
            minha culpa.
            Senhora, quero pousada,
            dai passada,
            pois que padeceu por nós
            quem nos desculpa.
            Mandai-me ora agasalhar
            capa dos desamparados,
            Igreja Madre.


Auto da Alma – Gil Vicente

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Oração e Missão


740  Disse o anjo, e Adão por último responde:
        “Como, empíreo profeta, em breves rasgos
        O transitório Mundo e os tempos todos
        Abranger té seu termo conseguiste!
        O mais é tudo abismo, eternidade
745  Onde alcançar não pode a vista humana.
        Comigo muito em paz, mui doutrinado
        Daqui parto, de si levando dentro
        Este argiloso vaso em que consisto
        Quantos conhecimentos nele cabem;
750  Aspirar mais além fora loucura;
        Sei de hoje em diante que me cumpre à risca
        Obedecer a Deus, com susto* amá-lo,
        Portar-me sempre como estando ante ele,
        Ouvir-lhe a voz que soa íntima na alma,
755  Confiar só nele que piedoso estima
        De suas mãos os portentosos feitos,
        Que coa força do bem o mal destrói,
        Que faz com poucos meios coisas grandes,
        Que pelos fracos aniquila os fortes,
760  E que por meio de simpleza humilde
        Confunde a fátua ciência dos mundanos.
        Sei que sofrer por sustentar verdades
        É valor que me ganha alta vitória,
        E que os olhos do justo a morte encaram
765  Como porta por onde entrar lhe incumbe
        Na vida tão ditosamente eterna.
        Essas lições me deu co próprio exemplo
        Esse meu Redentor sempre bendito”.


Paraíso Perdido – John Milton


* susto: temor

terça-feira, 9 de maio de 2023

Pecado e Redenção


        Humilde Adão se curva; então, guardando
        Seu porte real, o arcanjo não se inclina,
315  E desta sorte intima-lhe a mensagem:
        “Adão, os rogos teus ouviu o Eterno.
        Logo que as leis lhe transgredir ousaste
        Sobre ti recaiu pena de morte,
        Mas prorrogada foi, e largos dias
320  Tens de viver: contrito te arrepende,
        Com mil bons feitos um mau feito encobre.
        Se procedes assim, bondoso o Númen
        Pode remir-te do eternal império
        Que havia obtido sobre ti a morte,
325  Tão grande é para ti de Deus a graça!
        Mas neste Éden morar não mais tu podes:
        Venho expulsar-te dele e encaminhar-te
        Para terra que próvido cultives,
        Teu solo próprio de que foste feito.
330  Precisas sempre são de Deus as ordens”.


Paraíso Perdido – John Milton

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Criação e Perversão

O arqui-inimigo prontamente o atalha:
“Degenerado* querubim! Faz pejo*
215   Não ter constância na paciência e lidas.
Podes seguro estar que jamais, nunca,
Fazer um bem qualquer nos é possível,
Mas que sempre será da essência nossa
Fazer todos os males que atormentam
220   A alta vontade do opressor ovante*.
Se acaso intenta a Providência sua
Algum bem extrair dos males nossos,
Busquemos perverter-lhe o fim proposto
Fazendo de tal bem fonte de males.
225   Muitas empresas destas são possíveis
Que hão de por certo o coração ralar-lhe,
E muitas vezes no estudado plano
Hão de turbar-lhe o entendimento irado.


Paraíso Perdido – John Milton


* degenerado: caído.
* pejo: vergonha.
* ovante: orgulhoso, triunfante

sexta-feira, 17 de março de 2023

Autor e Escritor

Diz M. Gaston Paris: "A Chanson de Roland não é uma obra composta d'un seul jet à un moment donné; ela encerra elementos de datas muito variadas e de fontes distintas" – baseia-se em baladas populares ou militares; acréscimos foram tecidos, por poetas experimentados, em ordem a despertar interesse. "O autor da Chanson é Legião". Concordo absolutamente: Legião é o autor de Paradise Lost, bem como autor de King Lear, ou Hamlet, ou Macbeth. Legião é o nome dos criadores de mitos desde uma época de progressiva selvageria, dos poetas e historiadores gregos, romanos e celtas, dos teólogos cristãos, dos trovadores anglo-saxões, dos versíveros neolatinos, dos plúmbeos poetas holandeses e dos folgazões poetas italianos que contribuíram às ideias e substrato de Paradise Lost. Porém, a epopeia pertence a Milton, malgrado Homero e Virgílio estejam entre os autores: não fossem a vida deles, nada seria como é. A forma é de Milton, e a forma da Ilíada é de Homero.


O Mundo de Homero  Andrew Lang

quinta-feira, 2 de março de 2023

Fruto e Paciência

Pois o gostarem ou não gostarem os ouvintes! Oh, que advertência tão digna! Que médico há que repare no gosto do enfermo, quando trata de lhe dar saúde? Sarem e não gostem; salvem-se e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas. Quais vos parece que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evan­gelho? Explicando Cristo a parábola, diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto: Hi sunt, qui cum gaudio suscipiunt verbum¹. Pois será bem que os ouvintes gostem e que no cabo fiquem pedras? Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem. Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra: Et fructum afferunt in pa­tientia², conclui Cristo. De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica a pregação que aproveita não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme: quando cada palavra do pregador é um torcedor³ para o coração do ouvint­e; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atônito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia.


Sermões do Padre Vieira – Padre Antônio Vieira


¹ "São os ouvintes da Palavra de Deus que a acolhem com alegria" (Luc 8:13)

² “E dão fruto na perseverança” (Luc 8:15)

³ Torcedor: um instrumento de tortura.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Vingança e Destino

Mήδεια


MEDEIA
Ai!

PEDAGOGO
Do revés sou núncio involuntário?
Erro? Trago notícias negativas?

MEDEIA
Mensagens são mensagens. Não te inculpo.

PEDAGOGO
Por que declinas o olho raso d'água?

MEDEIA
Não é por mero acaso. Calculando
errado, deflagrei (e os deuses) isso.

PEDAGOGO
Teus filhos hão de propiciar tua volta!

MEDEIA
Esta infeliz guiará outros abaixo.

PEDAGOGO
Das mães os filhos se desencabrestam.
E do homem suportar sensaboria.

MEDEIA
Não me furto ao destino; cuida que ambos
aufiram o que o dia-a-dia dite.
De morada e cidade, filhos, não
carecerá nenhum dos dois, ausente
a mãe, após o adeus carpido. Vou-me,
andarilha de incertas geografias,
frustrânea na visão do regozijo,
sem lhes doar adorno para o leito
nupcial, sem soerguer a tocha ao céu.
Quanta soberba a deste ser transido!
Nada valeu, meninos, meu empenho,
nada valeu sofrer as convulsões
doloridíssimas do parto. Sonhos
inúteis que nutri ao vislumbrar
nas crias meu amparo na velhice,
apuro em ritos funerários - ápice
do que pode sonhar quem vive! Ai!
Morreu-me o doce plano sem os dois,
resta a amargura, resta o dissabor,
sequestrados de mim os olhos rútilos,
distantes noutra forma de viver.
Por que cravar em mim o esgar ambíguo?
Por que sorrir-me o derradeiro riso?
O que farei? Sucumbe o coração
ao brilho do semblante dos garotos.
Mulheres, titubeio! Os planos pe-
riclitam! Vou-me, mas com meus dois filhos!
Prejudicar crianças em prejuízo
do pai não dobra o mal? Fará sentido?
Comigo não: adeus, projetos árduos!
O que se passa em mim? Aceitarei
o escárnio de inimigos impunidos?
Que infâmia ouvir de mim reclamos típicos
de gente frouxa! Ao rasgo de ousadia!
Para dentro, meninos! Se a lei veta
a presença de alguém no sacrifício,
não é problema meu. O pulso agita-se.
Ai!
Deixa de agir assim, ó coração!
Não queiras, infeliz, punir os filhos!
No exilio, o bem se aloja em nosso espírito.
Ó vingadores do ínfero, alástores!
Está para nascer alguém que agrida
um filho meu! Se ananke, o necessário,
impõe sua lei indesviável, nós
daremos fim em quem geramos. Não
existe escapatória ao prefixado.
Coroada, a noiva vestirá a túnica
– eis algo certo – e a túnica a aniquila!
Como a senda a que vou é sinistríssima
e lhes destino via mais sinistra,
desejo lhes falar: deixai, meninos,
que a mãe estreite a mão direita de ambos!
Quanto amor pela curva desses lábios,
quanto amor pelo garbo, porte e braços!
Felicidades lá, que aqui o pai
vos sonegou o regozijo! Doce
abraço, rija tez, arfar de brisa!
Dobrou-me o mal, mirar os dois não é
possível: ide, entrai! Não é que ignore
a horripilância do que perfarei,
mas a emoção derrota raciocínios
e é causa dos mais graves malefícios.


Medéia – Eurípedes
Tradução de Trajano Vieira

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Verdade e Orgulho

XXV

Homem algum me moleste, portanto, dizendo: “Moisés não pensou como dizes tu, mas como eu digo”. Pois, se me perguntassem: “Como sabes que Moisés pensou assim o que interpretas dessas palavras?”. Eu não investiria esforços e responderia talvez como respondi acima, ou com mais detalhes, se insistisse. Mas, quando me dizem: “Moisés não quis dizer o que tu dizes, mas o que eu digo”, sem negar que ambas as interpretações podem ser verdadeiras, ó meu Deus, vida dos pobres, em cujo seio não há contradição, derrama um orvalho que me refresque o coração, para que eu seja paciente para suportar esses que a mim falam. Fazem isso não porque estão cheios do Espírito divino e leram no coração de Teu servo sua intenção, mas porque são orgulhosos. Não sabem o pensamento de Moisés, mas amam o próprio, não por ser o verdadeiro, mas por ser o deles. Do contrário, amariam igualmente a opinião verdadeira de outros, como amo o que eles dizem quando falam a verdade, não porque vem deles, mas porque é verdade, da mesma forma que não é deles por ser verdade. Mas, se eles, de fato, a amassem por ser verdade, então seria tanto deles quanto minha. Contudo, contendam dizendo que Moisés não pensou como digo, mas como eles dizem: isso não aceito e não amo. Ainda que assim fosse, sua precipitação não pertence ao conhecimento, mas à audácia, e nada enxergam além de vaidade. Ó Senhor, Teu julgamento é terrível. Tua verdade nem é minha, nem deste ou daquele; a verdade pertence a todos nós, a quem Tu abertamente chamas a participar dela, advertindo-nos severamente a não nos apossarmos dela como algo exclusivo nosso, para não sermos privados dela. Quem quer que tome apenas para si aquilo que Tu propões para gozo de todos e atribui a si o que pertence a todos é retirado desse bem comum para o que é seu, isto é, da verdade para a mentira. Pois aquele que fala mentira, fala do que é seu.

Ó Deus, Tu és o juiz excelente, a própria Verdade, ouça o que direi a esse que me contradiz. Ouça, pois diante de Ti é que falo, na presença de meus irmãos, que aplicam a Tua Lei legitimamente, cujo fim é a caridade. Pois essas palavras fraternas e de paz digo a eles: “Se ambos vemos que o que dizes é verdadeiro, ou que o que digo é verdadeiro, pergunto: onde o vemos? Não é em ti, certamente, que eu a vejo, nem em mim que a vês. Mas ambos a vemos na Verdade imutável, que está acima de nossas almas”. Se não discordamos acerca da própria Luz de Deus, por que discutir sobre o pensamento do nosso próximo a quem não vemos como a Verdade imutável? Pois, se o próprio Moisés aparecesse a nós e expusesse seu verdadeiro pensamento, nem assim o veríamos, mas acreditaríamos nele. Não nos levantemos com orgulho, pois, um contra o outro acerca do que está escrito. Amemos ao Senhor nosso Deus com todo o nosso coração, com toda nossa alma, com toda nossa mente, e ao próximo como a nós mesmos. Foram esses dois preceitos da caridade que Moisés quis dizer com aquilo que escreveu em seus livros. Se duvidarmos disso, faríamos de Deus um mentiroso, imaginando contrariedades à mente de Seu servo, distintos daqueles que ele mesmo lhe revelou. Quanto tolice é afirmar que Moisés teve esse pensamento e não aquele, em meio a tantos significados verdadeiros, e com discórdias perniciosas ofender a própria caridade, razão pela qual falou todas aquelas palavras que nos esforçamos para interpretar.


Confissões – Santo Agostinho

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Arte e Possibilidade

III

Sem escrúpulos, consultei àqueles impostores, a quem chamavam de matemáticos, porque não pareciam fazer sacrifícios nem orar para qualquer espírito a fim de fazerem suas adivinhações, embora estas sejam firmemente rejeitadas e condenadas pela verdadeira piedade cristã. Pois é bom confessar perante Ti e dizer: “tenha misericórdia de mim, cure a minha alma, pois pequei contra Ti”; não abusar da Tua misericórdia como se fosse uma licença para pecar, mas trazer à memória as palavras do Senhor: “Veja que já estás curado; não voltes a pecar, para que não te aconteça coisa pior”. Eles trabalham para destruir este saudável conselho, dizendo: “a causa do teu pecado é inevitavelmente determinada no céu”; e “assim fez Vênus, Saturno ou Marte”, de forma que o homem feito de carne e sangue, orgulhoso de sua corrupção, possa ser considerado inocente, enquanto o Criador e Governador do céu e das estrelas leva a culpa. Quem é Ele senão nosso Deus? A própria doçura e a fonte da justiça, que dá a cada homem conforme suas próprias obras e não rejeita um coração quebrantado e contrito.

Havia naqueles dias um homem sábio, renomado, muito habilidoso e conhecedor da medicina, era procônsul na época e, com as próprias mãos, colocou em minha cabeça destemperada a coroa que ganhei e um concurso de Retórica. Não o fez como médico, porém, pois aquela doença somente poderia ser curada por Ti, que resistes ao orgulhoso e dás graça ao humilde. Mas terás Tu falhado comigo por meio daquele velho homem ou impedido a cura da minha alma? Na verdade, quando me tornei mais próximo dele, costumava ouvi-lo assídua e fixamente (pois, apesar de usar termos simples, seu discurso era vívido, alegre e sincero). Ele percebeu pelo meu discurso que eu era dado a livros de astrologia e gentilmente me aconselhou a me livrar deles e a não desperdiçar tempo, atenção e empenho naquelas coisas vãs. Disse que ele mesmo, quando mais jovem, havia estudado a arte da astrologia para tornar-se profissional e sobreviver daquilo. Como já entendia Hipócrates, logo entenderia um domínio como aquele; ainda assim, desistiu e voltou-se para a medicina, por razão nenhuma além de descobrir que aquelas eram completas mentiras e que ele, um homem sério, não estava disposto a ganhar a vida enganando as pessoas. “Mas tu”, disse ele, “tens a Retórica para se sustentar, então escolheste seguir essa ilusão por livre escolha, não por necessidade. Deve, portanto, dar crédito ao que digo, pois busquei conhecimento suficiente para me sustentar sozinho”. Quando o questionei como poderiam, então, tantas coisas serem preditas por meio da astrologia, ele respondeu (como podia) “que a força da possibilidade, difusa pela ordem total das coisas, promove tais coisas. Pois, quando um homem abre aleatoriamente as páginas de um poeta, que cantou e pensou algo totalmente diferente, é possível que um verso muitas vezes seja maravilhosamente compatível com a situação presente. Então, não restam dúvidas: se algo sai da mente humana, por um instinto maior, inconsciente do que acontece consigo mesma, uma resposta deve ser dada pela possiblidade, não pela arte, de acordo com a situação e as ações de quem as pede”.

Assim, de fato, seja dele ou por meio dele, Tu cuidastes de mim e pintastes tudo aquilo em minha memória para que, mais adiante, eu pudesse examiná-la por mim mesmo. No entanto, naquele tempo, nem o procônsul nem meu querido Nebrídio, um jovem esplêndido e temente que ridicularizava todo o sistema de adivinhações, foram capazes de me persuadir a desistir da astrologia, pois as autoridades da ordem astrológica me influenciavam mais do que eles. Assim, acabei por não encontrar provas concretas (não como procurava) que não deixassem dúvidas de que aquelas previsões eram resultado aleatório proveniente das possibilidades, não resultado da arte dos astrólogos.


Confissões – Santo Agostinho

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Ação e Contexto

IX

Em meio a todos esses atos ilícitos de maldade, violência e tantas iniquidades, estão também os pecados cometidos pelos homens que estão, de modo geral, progredindo em direção ao bem. Quando são julgados corretamente, perante a regra da perfeição, seus pecados são detectados. Mas devem ser elogiados por causa dos frutos que virão a dar, como a primeira folha verde de uma plantação de milho. Algumas obras assemelham-se a atos ilícitos de maldade ou violência, mas não são pecados, pois não ofendem a Ti, nosso Senhor Deus, nem a sociedade humana. Quando, por exemplo, são feitas reservas proporcionais para tempos difíceis, não podemos julgar que são feitas meramente pelo desejo de acumular. Ou, ainda, quando se pune para fins de correção, pela autoridade da constituição, não podemos julgar que se o faz meramente pelo desejo de ferir. Muitas ações reprovadas pelos homens são aprovadas pelo Teu testemunho; muitas ações elogiadas pelos homens são condenadas por Ti, pois as ações sem si, a mente daquele que as pratica e o nível de exigência variam largamente. No entanto, quando Tu, de repente, ordenas algo inusitado e impensado, sim, embora Tu o tenhas antes proibido e não justifiques o motivo pelo qual agora o ordena, ainda que seja contra o que se julga correto em meio aos homens, quem questionará se deve ser feito, considerando que a sociedade humana é apenas serva Tua? Bem-aventurados são aqueles que sabem que Tu é s a autoridade! Pois todas as coisas feitas pelos servos Teus revelam tanto algo necessário para o presente quanto aquilo que está por vir.


Confissões – Santo Agostinho

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Reflexão #17

mos maiorum
costume dos antigos, como faziam os ancestrais


Esta expressão latina revela que a tradição é valorizada desde a antiguidade.

Sim, é verdade que algumas vezes é necessário questionar o motivo pelo qual determinada ação ou processo é feito e refeito da mesma maneira, mas isto se aplica a tarefas menores e sem tanto tempo de maturação, isto é, alguma coisa que é feita a menos de um século (limite estabelecido arbitrariamente aqui).

A expressão mencionada refere-se àqueles costumes feitos desde sempre, que podem ser entendidos como lei ou regra natural, não por estar provado ser da nossa natureza, mas por ser feito há tanto tempo que a probabilidade de não ser natural é ínfima.

Por isso, esta breve reflexão tem o objetivo de venerar os veteranos, nossos "maiores", no que é devido a eles.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Ameaça e Proteção

TESEU*:

Sei que ninguém
te tirará daqui à força. Ameaças severas
não passam com frequência de palavras vazias,
produzidas pela cólera, mas a razão,
quando retorna, expele intimidações.
A arrogância pode tê-los levado a dizer que te
obrigarão a acompanhá-los, mas crê-me, mar
imenso os distancia e te garanto que não é navegável.
Ânimo! Mesmo que falhasse minha proteção
garantida, poderias contar com Febo, que te enviou.
Mesmo que eu me retire, fica certo de que meu
nome te protegerá. Nada poderá molestar-te.


Édipo em Colono – Sófocles


* falando a Édipo

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Mito E Filosofia

Ninguém pode curar a desordem spiritual de uma “era”. Um filósofo não pode fazer mais do que exercitar-se para livrar-se dos cascalhos de ídolos que, sob o nome de uma “era”, ameaça aleijá-lo e enterrá-lo; e pode esperar que o exemplo de seu esforço seja útil a outros que se encontram na mesma situação e experimentam o mesmo desejo de obter a humanidade deles sob Deus. Hegel, entretanto, queria tornar-se não um homem, mas um Grande Homem: o Grande Homem cujo nome marca uma época na história era sua obsessão. Além disso, não queria tornar-se apenas um Grande Homem qualquer na história, precedido e seguido por outros, mas o maior deles todos e esta posição ele só poderia assegurar ao tornar-se o Grande Homem que abole a história, as eras e épocas pela sua invocação da Última Era que doravante terá a sua marca. O Grande Grande Homem na história é o Grande Homem para além da história. Obter poder sobre a história, colocando um fim na história com sua dilaceração e tédio foi a força motora da feitiçaria de Hegel.

É impenetrável o que induziu um filósofo potencial a ir na excitação de tornar-se o Grande Grande Homem. Assim como no caso dos grandes sucessores de Hegel na feitiçaria, Marx e Nietzsche, que queria evocar o Übermensch¹, a doença espiritual de recusar-se a aperceber a realidade, e de fechar a própria existência pela interpretação de uma Segunda Realidade imaginária é um segredo entre o homem e Deus. Não se pode fazer mais do que descrever o fenômeno. No caso de Hegel, os cinco ou seis anos que precederam a publicação de Phänomenologie foram o período crítico em que o projeto mágico se cristalizou. Embora alguém desejasse que a documentação do processo fosse mais completa, o que foi publicado dos manuscritos até agora é suficiente para permitir uma reinterpretação.

O que cristalizou nos anos críticos foi, primeiro de tudo, o simbolismo de Geist (espírito), Gedanke (pensamento), Vorstellung (concepção) e Idee (ideia) – o instrumento para eclipsar a realidade do Mito, da Filosofia e da Revelação. Sua natureza e função tornaram-se aparentes na crítica hegeliana aos mitos de Platão: os mitos têm fascínio e são úteis pedagogicamente, tornam atrativos de ler os diálogos, mas traem a inabilidade de Platão de penetrar certas áreas do Geist pelo Gedanke. “O mito é spempre uma apresentação que introduz imagens sensuais, apelando para a concepção, não para o pensamento; é uma impotência do pensamento que não pode ainda dominar-se. Na apresentação mítica, o pensamento ainda não é livre; o Gestalt sensual é uma poluição do pensamento pois não pode expressar o que o pensamento quer expressar... Frequentemente Platão diz ser difícil expor uma matéria pelo pensamento e ele, portanto, o apresentará por um mito; mais fácil certamente isso é” ².

A passagem soa como se Hegel nunca tivesse dado conta nem mesmo transitoriamente, de que a introdução que Platão faz do mito manifesta não sua falha como pensador, mas sua compreensão crítica da análise filosófica e os limites desta. O filósofo pode esclarecer a estrutura e o processo de consciência; pode estabelecer mais claramente a realidade da consciência e a realidade de que é consciente; mas não pode nem expandir a consciência do homem na realidade em que é um acontecimento, nem contrair a realidade até o acontecimento da consciência. Platão sabe muito bem que seu mito – de Eros, da psique como o sítio da busca que o homem faz do fundamento divino de sua existência, da imortalidade da alma, de sua pré e pós-existência, sua culpa e purificação, do juízo final, da origem demiúrgica do cosmos – simboliza a experiência do Geist, mas ele também sabe que o Geist do homem não é idêntico à realidade em que esse Geist participa conscientemente mediante a experiência. A experiência de participação num cosmos divinamente ordenado estendendo-se para além do homem só pode ser expressa por meio do mito; não pode ser transformada em processos de pensamento dentro da consciência.


Ensaios Publicados 1966-1985 – Eric Voegelin


¹ Super-homem. (N.T.)

² Hegel, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie [Prefácio da História da Filosofia]

domingo, 8 de janeiro de 2023

Aflição e Desilusão

Penetrai o leitor crítico. A vida dele é afligida por uma “época” em que os aflitos são figuras públicas; ele não pode escapar da cena que elas dominam; o infortunado, como todos sabemos, pode ser muito importuno. Ainda assim, ele pode esperar. Não é obrigado a fingir que doença é saúde, ou que os homens que sofrem em público não o importunam à dormir debout. Acima de tudo, ele não precisa fingir que a perda de realidade de que eles sofrem tão brilhantemente não é um fingimento que lhes mantém o sofrimento. Ele pode até voltar-se para sua aflição com a “época” para algum lucro, ao estudar a estrutura da consciência que aflige. Ele sabe que na consciência do homem a realidade se torna luminosa a si mesma; e os casos presentes mostram que a realidade não deixa de ser luminosa, quando um homem contrai sua existência. Dentro da falta de distância crítica, o homem que sofre do defeito desenvolve uma nova distância crítica de sua deficiência. Contanto que o leitor não esteja suficientemente familiarizado com o fenômeno, ele pode esperar que esta distância crítica secundária, em algum tempo, se emparelhe com a deficiência primária dela, de tal modo que o defeito existencial se dissolverá na consciência de si mesmo. Um leitor incauto de O Castelo ou O Processo de Kafka, por exemplo, pode aguardar ansioso pelo momento quando o analista soberbo do tormento se transformará naquele que cura. Mas o momento não chega nunca, nem em Kafka, nem em Nietzsche. Este é o ponto em que o leitor crítico que, por definição, não é afligido pela contração de existência se dá conta de que está afligido junto com o autor, qualquer que possa ser a aflição do autor. Se o autor atrasa indefinidamente o momento da verdade em que a opacidade de sua consciência se deveria dissolver em luminosidade, aquele outro momento de verdade virá, quando o leitor sente o empoeiramento da obra. Tão logo se desgaste a magia lançada pela obra, ele se lembrará do dito de Karl Kraus: a perversão é divertida, mas, a longo prazo, tediosa.


Ensaios Publicados 1966-1985 – Eric Voegelin

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Base e Debate

A Summa contra Gentiles defende a verdade da fé contra os pagãos. Mas como alguém pode fazer isso, se o provável parceiro do debate não aceitar argumentos das Escrituras? Ouçamos o próprio Aquino acerca da questão. É difícil discutir a verdade da fé com os gentios, reconhece ele, porque eles não concordam conosco na aceitação da autoridade de nenhuma Escritura pela qual possam ser convencidos de seu erro. E, então, continua ele:

Assim, contra os judeus podemos discutir com o Velho Testamento, ao passo que contra os heréticos podemos discutir com o Novo Testamento. Mas os maometanos e os pagãos não aceitam nem um nem outro. Temos, portanto, de recorrer à razão natural, a que todos os homens são forçados a dar seu assentimento.

A passagem formula sucintamente o problema do debate no século XIII e, juntamente com ele, por implicação, a diferença profunda que caracteriza a situação do debate em nosso próprio tempo. Pois todo debate concernente à verdade de proposições específicas pressupõe um pano de fundo de topoi não questionados, tidos em comum pelos parceiros do debate. Num debate com os judeus, os topoi não questionados são fornecidos pelo Velho Testamento; num debate com os heréticos, pelo Novo Testamento. Mas onde os encontramos no debate com os gentios? Não me parece acidente quando na resposta a esta pergunta Aquino passa da linguagem anterior de Intelecto para a linguagem da Razão, sem maiores explicações sobre a mudança. Lembramos nossa análise de existência: tínhamos de distinguir entre várias propriedades do Intelecto, entre Iluminação, Transcendência, Ideação e Raciocínio. Se Aquino acredita poder confiar no poder da Razão para forçar o assentimento dos gentios, tacitamente supõe que o raciocínio dos gentios operará dentro da mesma estrutura noética de existência dele próprio – uma suposição muito justificada à vista do fato de que os pensadores maometanos foram exatamente os transmissores de Aristóteles para os ocidentais¹. Pois obviamente – ou seja, obviamente para nós – as operações lógicas do Intelecto como Razão chegarão a resultados muito diferentes, se a Razão tiver se desatado da condicio humana. Os topoi não questionados de que Tomás tem em comum com os gentios de seu tempo, a quem ele dirigiu sua argumentação, tão inquestionados que ele nem sequer os formula, mas os toma como dados, são os topoi de existência. Ele pode supor corretamente que seus oponentes estão tão interessados como ele no porquê e como da existência, nas questões da natureza do homem, da natureza divina, da orientação do homem para seu fim, da ordem justa nas ações do homem e da sociedade, e assim por diante.

Estas, entretanto, são precisamente as suposições que já não podemos fazer na situação de debate de nosso tempo. Voltando de novo à lista de Aquino, temos de dizer que não podemos discutir pelo Velho Testamento, nem pelo Novo, nem pela Razão. Nem mesmo pela Razão, porque o argumento racional pressupõe a comunidade de existência verdadeira; somos forçados a um passo adiante até lidar com o oponente (mesmo a palavra debate é difícil de aplicar) no nível da verdade existencial. As especulações da metafísica escolástica e clássica são edifícios de razão erigidos na base experiencial de existência na verdade; são inúteis num encontro com edifícios de razão erigidos numa base experiencial diferente. Entretanto, não podemos ficar fechados nesses edifícios e deixar o mundo passar, pois neste caso seríamos remissos em nosso dever de “debate”. O “debate” tem, portanto, de assumir as formas de (1) uma análise cuidadosa da estrutura noética da existência e (2) uma análise das Segundas Realidades, a respeito tanto de suas elaborações quanto de sua estrutura motivadora de existência na mentira. O “debate” nesta forma dificilmente é uma questão de raciocínio (embora permaneça do Intelecto), mas, ao contrário, da análise da existência que precede as elaborações racionais; é médica no caráter, pois tem de diagnosticar as síndromes de existência mentirosa e, por sua estrutura noética, iniciar, se possível, um processo de cura.


Ensaios Publicados 1966-1985 – Eric Voegelin


¹ Tese superada, ver Sylvain Gouguenheim, Aristote au Mont Saint-Michele Les Racines Grecques de l’Europe Chrétienne. Seuil, 2008. (N.T.)