sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Amor e Morte

Qual olmo, a cujo tronco corpolento
A videira tenaz se abraça e liga,
Que, se o prostra o machado ou forte vento,
Leva tambem comsigo a planta amiga,
Com seu pezo esfolhando-lhe o ornamento,
Pizando as doces uvas, e o obriga
A dôr da socia que na morte o segue
Mais á dôr, do que a sorte que o persegue.

Assim cae elle, só chorando o fado
Da companheira, a quem os céos o uniram.
Tentam fallar, mas é querer baldado;
Em logar de fallar ambos suspiram;
Olham-se, e, qual os tinha acostumado
Amor, unem-se emquanto não expiram;
Foge d'ambos a um tempo a luz do dia,
E vôam para a patria, da alegria.


A Jerusalem Libertada - Torquato Tasso
Tradução de José Ramos Coelho

(Solimão mata Eduardo e Gildipe / Solymon kills Odoardo and Gildippe)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Navegação e Exploração

Era-se já nas ondas occultado
Cadis fertil, a terra mais vizinha;
De todo a costa havia-se apartado;
Por termo os céos o pelago só tinha,
Quando Ubaldo assim diz: tu, cujo alçado
Poder por este mar nos encaminha,
Conta-me se alguem veio onde ora estamos,
E se habitado é o mundo que buscamos.

Tendo Hercules os monstros destruido
Da quente Lybia e do paiz hispano,
Torna ella, e os vossos climas submettido,
Não ousou arrostar o largo oceano.
Pôz balizas ao mundo conhecido,
Prendendo em breve espaço o genio humano;
Porém Ulysses, o saber buscando,
Os passou, taes limites desprezando.

As columnas transpoz, e pelo aberto
Pego soltou o vôo audacioso;
Mas não lhe valeu ser no mar experto,
Que elle o tragou voraz e furioso,
E jaz, qual o seu corpo, inda encoberto
O seu fim, para os homens duvidoso.
Se o vento outrem levou por essa altura
Ou não veio ou lá teve a sepultura.


A Jerusalem Libertada - Torquato Tasso
Tradução de José Ramos Coelho

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Valor e Submissão

Eu Clorinda me chamo; nomear-me
Certo ouvido terás, senhor, e venho
Para junto comtigo aventurar-me
Do reino teu, da nossa fé no empenho.
Manda, e em qualquer empreza hei de provar-me:
Prézo as grandes, as símples não desdenho;
Se em campo aberto, ou no recinto estreito
Dos muros me quizeres, nada engeito.


A Jerusalem Libertada - Torquato Tasso
Tradução de José Ramos Coelho

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Sofrimento e Propósito

Oh! fora a morte vezes mil ditosa,
E o meu martyrio por fortuna houvera,
Se, unidos peito a peito, a jubilosa,
Alma nos labios teus deixar podera!
E se, morrendo juntos, ó formosa,
O teu suspiro extremo recebera!
Tal chorando fallou, e respondendo
Ella o aconselha e meiga vae dizendo:

Outro pensar, amigo, outros lamentos
A occasião mais elevados pede.
Põe nos peccados teus os pensamentos,
E na paga que Deus aos bons concede;
Soffre em seu nome, o doces os tormentos
Serão; aspira á sempiterna séde;
Olha o céo como é bello, o sol que é vida,
Que nos consola e á gloria nos convida.


A Jerusalem Libertada - Torquato Tasso
Tradução de José Ramos Coelho

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Reflexão #23

Visualize a vida como estando em uma planície cercada de montes. Pode ser que atrás desses montes, na névoa hajam montes maiores, mas donde estamos escolhemos o mais alto e vamos até lá. Quando chegamos, na altura, pode ser que enxerguemos outros mais altos que antes não conseguíamos enxergar. Assim é a vida: acreditamos estar indo para o mais alto, mas quando chegamos percebemos que era só um degrau. Podemos, dessa forma, edificar uma torre com os materiais de construção do bom, do belo e do verdadeiro. Assim teremos uma visão melhor na altitude para enxergar o monte mais alto a que dirigiremos nossa vida.

Tive esta reflexão ao ponderar sobre o problema matemático do máximo/mínimo local e global, que normalmente é representado por essa visão de montes: o mais alto perto do ponto de referência é o máximo local, e o máximo global é o mais alto absolutamente, considerando todas as possibilidades ao infinito.
Mas esta visão matemática foi apenas a base da reflexão. A faísca veio quando, ao olhar para a bagagem de aprendizado, vemos que aquela montanha de conhecimento e habilidades que foi tão árdua de adquirir, hoje está incorporada e me faz preparado para escalar o próximo monte.
Se por um lado, isso é positivo e animador, por outro faz-me pensar que alguns montes que apenas ouvi falar são na minha imaginação mais baixos do que o são na realidade. Portanto, é a falsa sensação de dominar um tema apenas por conseguir imaginar sua altura, porém quando em face ao verdadeiro tema - depois de escalar os pequenos montes necessários para chegar lá - vejo que é bem maior do que inicialmente imaginava.

Isto remonta à questão do imaginário: às vezes, a gente não tem nem as ferramentas, as imagens, o aparato mental necessário para imaginar a coisa. E por isso não temos noção do real tamanho.
Há uma piada boba, mas ilustrativa: Havia um homem do campo, muito simples, que vivia com sua vaca, sua pequena plantação, suas coisas. Um dia um homem muito rico apareceu em sua porta e ofereceu para dar a ele tudo que quisesse. Ele respondeu que queria mais uma vaca. O homem rico então disse: "Você pode pedir muito mais! O que você conseguir imaginar, eu darei!". O camponês respondeu: "Então eu quero duas vacas!".