sexta-feira, 26 de maio de 2023

Contrição e Redenção

Chega a Alma diante da Igreja.

Anjo    Vedes aqui a pousada
            verdadeira e mui segura
            a quem quer vida.
Igreja  Oh! Como vindes cansada
            e carregada!
Alma   Venho por minha ventura,
            amortecida.
Igreja  Quem sois? Pera onde andais?
Alma   Não sei pera onde vou;
            sou selvagem,
            sou uma alma que pecou
            culpas mortais
            contra o Deus que me criou
            à Sua imagem.

            Sou a triste, sem ventura,
            criada resplandecente
            e preciosa,
            angélica em fermosura,
            e per natura,
            como raio reluzente
            luminosa.
            E por minha triste sorte
            e diabólicas maldades
            violentas,
            estou mais morta que a morte
            sem deporte,
            carregada de vaidades
            peçonhentas.

            Sou a triste, sem mezinha,
            pecadora obstinada,
            perfiosa;
            pola triste culpa minha,
            mui mesquinha,
            a todo o mal inclinada
            e deleitosa.
            Desterrei da minha mente
            os meus perfeitos arreios
            naturais;
            não me prezei de prudente,
            mas contente
            me gozei com os trajos feios
            mundanais.

            Cada passo me perdi;
            em lugar de merecer,
            eu sou culpada.
            Havei piedade de mi,
            que não me vi;
            perdi meu inocente ser,
            e sou danada.
            E, por mais graveza, sento
            não poder me arrepender
            quanto queria;
            que meu triste pensamento,
            sendo isento,
            não me quer obedecer,
            como soía.

            Socorrei, hóspeda senhora,
            que a mão de Satanás
            me tocou,
            e sou já de mim tão fora,
            que agora
            não sei se avante, se atrás,
            nem como vou.
            Consolai minha fraqueza
            com sagrada iguaria,
            que pereço,
            por vossa santa nobreza,
            que é franqueza;
            porque o que eu merecia
            bem conheço.

            Conheço-me por culpada,
            e digo diante vós
            minha culpa.
            Senhora, quero pousada,
            dai passada,
            pois que padeceu por nós
            quem nos desculpa.
            Mandai-me ora agasalhar
            capa dos desamparados,
            Igreja Madre.


Auto da Alma – Gil Vicente

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Oração e Missão


740  Disse o anjo, e Adão por último responde:
        “Como, empíreo profeta, em breves rasgos
        O transitório Mundo e os tempos todos
        Abranger té seu termo conseguiste!
        O mais é tudo abismo, eternidade
745  Onde alcançar não pode a vista humana.
        Comigo muito em paz, mui doutrinado
        Daqui parto, de si levando dentro
        Este argiloso vaso em que consisto
        Quantos conhecimentos nele cabem;
750  Aspirar mais além fora loucura;
        Sei de hoje em diante que me cumpre à risca
        Obedecer a Deus, com susto* amá-lo,
        Portar-me sempre como estando ante ele,
        Ouvir-lhe a voz que soa íntima na alma,
755  Confiar só nele que piedoso estima
        De suas mãos os portentosos feitos,
        Que coa força do bem o mal destrói,
        Que faz com poucos meios coisas grandes,
        Que pelos fracos aniquila os fortes,
760  E que por meio de simpleza humilde
        Confunde a fátua ciência dos mundanos.
        Sei que sofrer por sustentar verdades
        É valor que me ganha alta vitória,
        E que os olhos do justo a morte encaram
765  Como porta por onde entrar lhe incumbe
        Na vida tão ditosamente eterna.
        Essas lições me deu co próprio exemplo
        Esse meu Redentor sempre bendito”.


Paraíso Perdido – John Milton


* susto: temor

terça-feira, 9 de maio de 2023

Pecado e Redenção


        Humilde Adão se curva; então, guardando
        Seu porte real, o arcanjo não se inclina,
315  E desta sorte intima-lhe a mensagem:
        “Adão, os rogos teus ouviu o Eterno.
        Logo que as leis lhe transgredir ousaste
        Sobre ti recaiu pena de morte,
        Mas prorrogada foi, e largos dias
320  Tens de viver: contrito te arrepende,
        Com mil bons feitos um mau feito encobre.
        Se procedes assim, bondoso o Númen
        Pode remir-te do eternal império
        Que havia obtido sobre ti a morte,
325  Tão grande é para ti de Deus a graça!
        Mas neste Éden morar não mais tu podes:
        Venho expulsar-te dele e encaminhar-te
        Para terra que próvido cultives,
        Teu solo próprio de que foste feito.
330  Precisas sempre são de Deus as ordens”.


Paraíso Perdido – John Milton

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Criação e Perversão

O arqui-inimigo prontamente o atalha:
“Degenerado* querubim! Faz pejo*
215   Não ter constância na paciência e lidas.
Podes seguro estar que jamais, nunca,
Fazer um bem qualquer nos é possível,
Mas que sempre será da essência nossa
Fazer todos os males que atormentam
220   A alta vontade do opressor ovante*.
Se acaso intenta a Providência sua
Algum bem extrair dos males nossos,
Busquemos perverter-lhe o fim proposto
Fazendo de tal bem fonte de males.
225   Muitas empresas destas são possíveis
Que hão de por certo o coração ralar-lhe,
E muitas vezes no estudado plano
Hão de turbar-lhe o entendimento irado.


Paraíso Perdido – John Milton


* degenerado: caído.
* pejo: vergonha.
* ovante: orgulhoso, triunfante