Chega a Alma diante da Igreja.
Anjo Vedes aqui a pousada
verdadeira e mui segura
a quem quer vida.
Igreja Oh! Como vindes cansada
e carregada!
Alma Venho por minha ventura,
amortecida.
Igreja Quem sois? Pera onde andais?
Alma Não sei pera onde vou;
sou selvagem,
sou uma alma que pecou
culpas mortais
contra o Deus que me criou
à Sua imagem.
Sou a triste, sem ventura,
criada resplandecente
e preciosa,
angélica em fermosura,
e per natura,
como raio reluzente
luminosa.
E por minha triste sorte
e diabólicas maldades
violentas,
estou mais morta que a morte
sem deporte,
carregada de vaidades
peçonhentas.
Sou a triste, sem mezinha,
pecadora obstinada,
perfiosa;
pola triste culpa minha,
mui mesquinha,
a todo o mal inclinada
e deleitosa.
Desterrei da minha mente
os meus perfeitos arreios
naturais;
não me prezei de prudente,
mas contente
me gozei com os trajos feios
mundanais.
Cada passo me perdi;
em lugar de merecer,
eu sou culpada.
Havei piedade de mi,
que não me vi;
perdi meu inocente ser,
e sou danada.
E, por mais graveza, sento
não poder me arrepender
quanto queria;
que meu triste pensamento,
sendo isento,
não me quer obedecer,
como soía.
Socorrei, hóspeda senhora,
que a mão de Satanás
me tocou,
e sou já de mim tão fora,
que agora
não sei se avante, se atrás,
nem como vou.
Consolai minha fraqueza
com sagrada iguaria,
que pereço,
por vossa santa nobreza,
que é franqueza;
porque o que eu merecia
bem conheço.
Conheço-me por culpada,
e digo diante vós
minha culpa.
Senhora, quero pousada,
dai passada,
pois que padeceu por nós
quem nos desculpa.
Mandai-me ora agasalhar
capa dos desamparados,
Igreja Madre.
Auto da Alma – Gil Vicente
sexta-feira, 26 de maio de 2023
quarta-feira, 10 de maio de 2023
Oração e Missão
“Como, empíreo profeta, em breves rasgos
O transitório Mundo e os tempos todos
Abranger té seu termo conseguiste!
O mais é tudo abismo, eternidade
745 Onde alcançar não pode a vista humana.
Comigo muito em paz, mui doutrinado
Daqui parto, de si levando dentro
Este argiloso vaso em que consisto
Quantos conhecimentos nele cabem;
750 Aspirar mais além fora loucura;
Sei de hoje em diante que me cumpre à risca
Obedecer a Deus, com susto* amá-lo,
Portar-me sempre como estando ante ele,
Ouvir-lhe a voz que soa íntima na alma,
755 Confiar só nele que piedoso estima
De suas mãos os portentosos feitos,
Que coa força do bem o mal destrói,
Que faz com poucos meios coisas grandes,
Que pelos fracos aniquila os fortes,
760 E que por meio de simpleza humilde
Confunde a fátua ciência dos mundanos.
Sei que sofrer por sustentar verdades
É valor que me ganha alta vitória,
E que os olhos do justo a morte encaram
765 Como porta por onde entrar lhe incumbe
Na vida tão ditosamente eterna.
Essas lições me deu co próprio exemplo
Esse meu Redentor sempre bendito”.
Paraíso Perdido – John Milton
O transitório Mundo e os tempos todos
Abranger té seu termo conseguiste!
O mais é tudo abismo, eternidade
745 Onde alcançar não pode a vista humana.
Comigo muito em paz, mui doutrinado
Daqui parto, de si levando dentro
Este argiloso vaso em que consisto
Quantos conhecimentos nele cabem;
750 Aspirar mais além fora loucura;
Sei de hoje em diante que me cumpre à risca
Obedecer a Deus, com susto* amá-lo,
Portar-me sempre como estando ante ele,
Ouvir-lhe a voz que soa íntima na alma,
755 Confiar só nele que piedoso estima
De suas mãos os portentosos feitos,
Que coa força do bem o mal destrói,
Que faz com poucos meios coisas grandes,
Que pelos fracos aniquila os fortes,
760 E que por meio de simpleza humilde
Confunde a fátua ciência dos mundanos.
Sei que sofrer por sustentar verdades
É valor que me ganha alta vitória,
E que os olhos do justo a morte encaram
765 Como porta por onde entrar lhe incumbe
Na vida tão ditosamente eterna.
Essas lições me deu co próprio exemplo
Esse meu Redentor sempre bendito”.
Paraíso Perdido – John Milton
* susto: temor
terça-feira, 9 de maio de 2023
Pecado e Redenção
Humilde Adão se curva; então, guardando
Seu porte real, o arcanjo não se inclina,
315 E desta sorte intima-lhe a mensagem:
“Adão, os rogos teus ouviu o Eterno.
Logo que as leis lhe transgredir ousaste
Sobre ti recaiu pena de morte,
Mas prorrogada foi, e largos dias
320 Tens de viver: contrito te arrepende,
Com mil bons feitos um mau feito encobre.
Se procedes assim, bondoso o Númen
Pode remir-te do eternal império
Que havia obtido sobre ti a morte,
325 Tão grande é para ti de Deus a graça!
Mas neste Éden morar não mais tu podes:
Venho expulsar-te dele e encaminhar-te
Para terra que próvido cultives,
Teu solo próprio de que foste feito.
330 Precisas sempre são de Deus as ordens”.
Paraíso Perdido – John Milton
segunda-feira, 8 de maio de 2023
Criação e Perversão
O arqui-inimigo prontamente o atalha:215 Não ter constância na paciência e lidas.
“Degenerado* querubim! Faz pejo*
Podes seguro estar que jamais, nunca,220 A alta vontade do opressor ovante*.
Fazer um bem qualquer nos é possível,
Mas que sempre será da essência nossa
Fazer todos os males que atormentam
Se acaso intenta a Providência sua225 Muitas empresas destas são possíveis
Algum bem extrair dos males nossos,
Busquemos perverter-lhe o fim proposto
Fazendo de tal bem fonte de males.
Que hão de por certo o coração ralar-lhe,
E muitas vezes no estudado plano
Hão de turbar-lhe o entendimento irado.
Paraíso Perdido – John Milton
* degenerado: caído.
* pejo: vergonha.
* ovante: orgulhoso, triunfante
* pejo: vergonha.
* ovante: orgulhoso, triunfante
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