quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Valores e Ideologia

Uma vez que não consigo encontrar resposta para essas perguntas, chego às seguintes conclusões. Isso a que tenho chamado por conveniência de Tao, e que outros poderiam chamar Lei Natural, Moral Tradicional, Primeiros Princípios da Razão Prática ou Primeiros Lugares-comuns, não é um entre uma série de sistemas de valores possíveis. É a única fonte possível de todos os juízos de valor. Caso seja rejeitado, todos os valores serão também rejeitados. Se qualquer valor for preservado, também ele será preservado. O intuito de refutá-lo e de erigir em seu lugar um novo sistema de valores é em si mesmo contraditório. Nunca houve, e nunca haverá, um juízo de valor radicalmente novo na história do mundo. Tudo aquilo que pretende ser um novo sistema ou (como se diz agora) uma "ideologia" consiste em fragmentos do próprio Tao, arbitrariamente arrancados de seu contexto e então hipertrofiados até a loucura em seu isolamento, mas devendo ainda ao Tao, e somente a ele, a validade que possuem. Se o meu dever para com meus pais não passa de superstição, então o mesmo vale para meus deveres em relação à posteridade. Se a justiça é uma superstição, então também o é o meu dever para com o meu país ou para com a minha raça. Se a busca do conhecimento científico é um valor verdadeiro, então também o é a fidelidade conjugal. A rebeldia das novas ideologias contra o Tao é a rebeldia dos galhos contra a árvore: se os rebeldes pudessem vencer, descobririam que destruíam a si próprios. A capacidade da mente humana para inventar novos valores não é maior do que a de imaginar uma nova cor primária, ou, na verdade, a de criar um novo sol e um novo céu no qual ele se mova.


A Abolição do Homem – C. S. Lewis

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Crime e Lógica

– Olha, meu amigo, desde a tua festa de ontem que a minha cabeça... Ainda me sinto tonto – começou num tom completamente diferente, dirigindo-se a Raumíkhin.

– O quê? A reunião estava boa? Casualmente tive que sair no ponto mais interessante... Quem é que levou a melhor?

– Ninguém, naturalmente. Discutiram as eternas questões, exaltaram-se.

– Imagina, Rodka, o que chegaram a discutir: se o crime existe ou não. Fartaram-se de dizer bobagens.

– E o que tem isso de extraordinário? É uma questão social vulgar – respondeu Raskólhnikov com o ar distraído.

– Não foi assim que eles puseram a questão – observou Porfíri.

– É verdade – concordou logo Razumíkhin, atrapalhando-se e exaltando-se, conforme o seu costume. – Olha, Rodka, primeiro escuta, e depois dá a tua opinião. Gostaria que o fizesses. Ontem, eu estava numa ansiedade a tua espera, tinha prometido a eles que tu irias... A coisa começou pelo ponto de vista dos socialistas. Já se sabe qual é: o crime é um protesto contra a anormalidade do regime social... isso e só isso, e é desnecessário procurar outras causas. Acabou-se!

– Mentira! – exclamou Porfíri Pietróvitch. Era notório que estava entusiasmado, e sorria a cada instante, olhando para Razumíkhin.

– Mentira! Vou te mostrar os livros; segundo eles, todos os crimes se devem ao ambiente insalubre, e nada mais. Frase magnífica! De onde se deduz que, se a sociedade estivesse normalmente constituída, então acabariam todos os crimes, visto que já não haveria contra o que protestar e todos passariam instantaneamente a ser inocentes. Quanto à natureza, não a levam em consideração, puseram–na no olho da rua, não toleram a natureza. Para eles não é a natureza que, desenvolvendo-se de um modo histórico, vivo, até o fim, acabará por se transformar ela mesma numa sociedade normal, mas, pelo contrário, será o sistema social que, brotando de alguma cabeça matemática, procederá em seguida a estruturar toda a humanidade e, num abrir e fechar de olhos, a tornará justa e inocente, mais depressa do que qualquer processo vivo, sem seguir nenhum caminho histórico e natural. Por isso eles sentem instintivamente aversão pela história: nela só se encontra monstruosidade e estupidez; colocam todas as culpas em cima da estupidez. E por isso também não amam o processo “vital” da vida; não querem nada com a “alma viva”. A alma viva da vida tem exigências; a alma viva não obedece mecanicamente; a alma viva é suspeita; a alma viva é retrógada. E, embora cheire a mortos, eles podem construir com a alma de borracha... que não será viva nem terá vontade, será uma escrava e não se revoltará... E chegam ao ponto de idealizar um simples amontoado de tijolos, sim, a distribuição de corredores e quartos do falanstério. O falanstério está pronto, mas a vossa natureza não está preparada para o falanstério, anseia pela vida, o processo vital ainda não terminou, ainda é cedo para a cova. É simplesmente impossível saltar com a lógica por cima da natureza. A lógica pressupõe três casos, ao passo que há milhões deles. Pois façam tábua rasa desses milhões e reduzam tudo ao simples problema do conforto! Essa é a solução mais fácil do enigma. De uma clareza sedutora, e evita o incômodo de pensar. Porque o essencial é isto: não ter que pensar. Todos os mistérios da vida podem ser compendiados em duas folhas de papel impresso.

– Pronto, enlouqueceu?! É preciso botar a mão nele! – gracejou Porfíri. – Imagine seis pessoas metidas num quarto e, além disso, previamente encharcadas em álcool... Já pode fazer uma idéia! Não, meu amigo, tu mentes: o meio significa muito na criminalidade, isso eu te afirmo.

– Eu também sei que influi muito, mas me diz: um quarentão desonra uma menina de dez anos. Foi o meio que o induziu a isso?

– Sim, no estrito sentido da palavra, pode-se dizer que foi o meio – observou Porfíri com uma grave firmeza –, pode se explicar o crime, em grande parte, pela menina, e, em grande parte também, pelo meio.

Razumíkhin ficou furioso.


Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Liberdade e Responsabilidade

Não me objeteis que estou defendendo e propugnando incondicionalmente a liberdade de pensamento e sua manifestação de palavra escrita. Sou contra o “incondicionalmente”. Pois a liberdade não é a última palavra. A liberdade pode degenerar em arbitrariedade, caso não seja vivida com responsabilidade. Talvez agora compreendais por que recomendo tão frequentemente aos meus estudantes americanos que ergam uma estátua da responsabilidade junto àquela sua da liberdade.

O Sofrimento de uma Vida sem Sentido – Caminhos para encontrar a razão de viver - Viktor E.Frankl

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Sofrimento e Sentido

Em vez de fazer aqui considerações teóricas, gostaria muito mais de reportar-me a experiências práticas, particularmente a experiências concretas e reais: um dia, topei com uma sessão de terapia de grupo organizada por meu assistente, o Dr. K. Kocourek. O grupo discutia o caso de uma mulher que acabara de perder o filho de onze anos, vitimado por uma apendicite aguda, restando-lhe um filho de vinte anos, que sofria de paralisia cerebral e precisava mover-se numa cadeira de rodas. A mãe havia tentado o suicídio e, por conseguinte, fora conduzida e internada em minha clínica. Inseri-me na discussão do caso, escolhendo do grupo uma jovem a quem de improviso pedi que se imaginasse aos oitenta anos, próxima da morte, e que lançasse um olhar retrospectivo sobre a própria vida, uma vida cheia de prestígio social e sucesso amoroso, mas também nada mais do que isso:
O que dirias a ti mesma? Tive tudo de bom na vida, fui rica, mimada deixei os homens loucos de paixão, enquanto flertava com eles, e não abandonei nenhuma forma de prazer. Mas agora estou velha, não tive filhos e tenho de admitir que, rigorosamente falando, minha vida foi um fracasso, visto que não posso levar nada comigo ao túmulo. Para que estive no mundo?
Convidei então a mãe do deficiente físico a colocar-se na mesma situação e que nos dissesse o que pensava:
Eu sempre desejei ter filhos, e este meu desejo realizou-se. O mais jovem faleceu, e fiquei sozinha com o mais velho. Se não fosse eu o que lhe teria acontecido... É provável que tivesse sido levado a uma instituição para deficientes mentais; mas era eu quem estava ali e pude ajuda-lo a fazer-se homem. Minha vida não foi um fracasso. É possível que tivesse sido difícil, havia muitas tarefas para cumprir, mas consegui superá-las e tornar a minha vida plena de sentido. Agora posso morrer em paz.
Somente entre soluços ela conseguiu proferir essas palavras. Puderam delas então tirar os outros pacientes a lição de que o que importa não é tanto que a vida de um ser humano seja dolorosa ou prazerosa, mas que seja carregada de sentido.


O Sofrimento de uma Vida sem Sentido – Caminhos para encontrar a razão de viver - Viktor E.Frankl

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Juventude e Niilismo

- Bem – interrompeu Páviel Pietróvitch -, concordo provisoriamente. Convenceu-se de tudo isso e resolveu não se ocupar seriamente de coisa alguma.

- Resolvemos realmente não nos preocupar com coisa alguma – repetiu em tom lúgubre Bazárov. Invadia-o uma raiva de si mesmo pelo fato de ter-se expandido tanto com aquele aristocrata.

- E somente ofender tudo e a todos? – continuou o aristocrata.

- Ofender também.

- É o niilismo?

- É o niilismo – repetiu Bazárov com ar de desafio.

Páviel Pietróvitch fechou de leve seus olhos.

- Agora compreendo! – disse com voz esquisitamente calma. – O niilismo deve auxiliar-nos em todas as desgraças. Os senhores são nossos salvadores e heróis. Sim. Porque nesse caso acusam os próprios acusadores. Não vivem de palavras vãs como os demais.

- Podemos ter outros pecados, menos esse – disse Bazárov.

- Como? Os senhores agem? Pretendem agir?

Bazárov nada respondeu: Páviel Pietróvitch teve um estremecimento e logo reconquistou o domínio de si mesmo.

- Sim... agir, destruiur – continuou. – Destroem sem saber para quê?

- Destruímos, porque somos uma força – explicou Arcádio.

Páviel Pietróvitch olhou para seu sobrinho e sorriu.

- Sim, somos uma força que age livremente – insistiu Arcádio com veemência.

- Desgraçados! – gritou Páviel Pietróvitch. Perdeu definitivamente o controle de si mesmo. – Se ao menos pensasse no que, na Rússia, você está defendendo com essa vulgaridade! Não. Tudo isso é de fazer perder a paciência a um anjo! Força! Num selvagem, num mongol também existe força. De que nos serve ela? É-nos cara a civilização. São-nos caros os seus frutos. Não me diga que os frutos da civilização nada valem. O último dos indecentes, um barbouilleur*, um escamoteador de jogo que recebe cinco moedas por noite são mais úteis do que os senhores, porque representam a civilização e não a força brutal dos mongóis! Pensam os senhores que são homens da vanguarda. Estariam bem numa cabana de selvagens! Força! Lembrem-se, afinal, senhores da força, de que são apenas quatro pessoas e meia, e contra os senhores existem milhões que não lhes permitirão calcar aos pés suas crenças sagradas. Esmagá-los-ão!

- Se esmagarem, assim é preciso – disse Bazárov. – Mas não somos tão poucos como o senhor supõe.

- Como? Pretende chegar seriamente a um acordo com todo o povo?

- Saiba o senhor que a cidade de Moscou já foi destruída pelo incêndio causado por uma vela de 1 copeque – respondeu Bazárov.

- Vejo primeiramente um orgulho quase satânico. Depois, sacrilégio. Aí está o que preocupa a mocidade! Aí está o que domina os corações inexperientes dos meninos de hoje! Olhe este aqui que está sentado a seu lado. Só falta rezar para o senhor (Arcádio fitou-o, sério). Esse mal já se espalhou demasiado, contaminando muitos. Disseram-me que em Roma, os nossos artistas não visitam nunca o Vaticano, consideram idiota a Rafael, só porque ele é autoridade. Eles mesmos não tem talento. São verdadeiras nulidades. A sua fantasia ou imaginação não vai além da Jovem da Fonte, quando chega para tal. O senhor conhece o valor artístico desse quadro, péssimo em todos os sentidos. Segundo sua opinião, será (essa atitude) um defeito ou ótima qualidade?

- Segundo minha opinião – respondeu Bazárov -, nem Rafael vale um ceitil, nem os nossos são melhores que Rafael.

- Bravo! Ouça, Arcádio... Assim devem pensar os moços de hoje! Como, nesse caso, não hão de segui-los! Antigamente os moços eram obrigados a estudar: não queriam passar por imbecis e por isso trabalhavam. Agora basta que afirmem: “Tudo no mundo não tem valor!” E está bem. A juventude ficou satisfeita. Outrora os moços eram simples idiotas ou inúteis, hoje se tornaram de súbito niilistas.

- Traiu-o o seu sentimento, tão proclamado, da própria dignidade – observou fleumático Bazárov, enquanto Arcádio assumia um ar importante e seus olhos brilhavam. – A nossa discussão foi muito longe... É melhor termina-la. Concordarei somente com o senhor – acrescentou, levantando-se – quando me indicar uma só instituição da nossa época, social ou familiar, que não seja passível de uma negação completa e irrefutável.



Pais e Filhos – Ivan Turgueniev



* Tagarela, trapalhão.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Cultura e Religião

É difícil anunciar com precisão o pensamento de Eliot nesse campo. E vale a pena fazer um paralelo com um pensador a quem ele tinha aversão: Nietzche. Para Nietzche, a crise da modernidade se deu por causa da perda da fé cristã. Essa perda de fé é o resultado inevitável da ciência e do progresso do conhecimento. Ao mesmo tempo, não é possível que os homens vivam realmente sem fé; e para nós que herdamos todos os hábitos e conceitos de uma cultura cristã, essa fé tem de ser o cristianismo. Remova a fé e você não estará removendo apenas um corpo doutrinal; tampouco deixará um cenário limpo e sóbrio no qual as pessoas, pelo menos, podem manifestar-se como são. Você estará removendo a capacidade de perceber outras verdades e verdades ainda mais importantes – verdades sobre nossa condição que, sem o benefício da fé, não podem ser adequadamente encaradas. (Por exemplo: a verdade de nossa mortalidade, que não é apenas um “fato” científico, a ser acrescentado a nosso estoque de conhecimento, mas uma experiência pervasiva que transpassa todas as coisas e muda o aspecto do mundo.)

A solução que Nietzsche impetuosamente abraçou nesse dilema foi negar a soberania completa da verdade: dizer que “não há verdades” e construir uma filosofia de vida sobre as ruínas da ciência e da religião, em nome de um ideal puramente estético. Eliot viu o absurdo de tal resposta e notou o isolamento deliberado do homem que a deu. O paradoxo permanece. As verdades que importavam para Eliot são verdades de sentimento, verdades sobre o peso da vida humana e sobre a realidade do sentimento humano. A ciência não torna essas verdades mais facilmente perceptíveis: pelo contrário, ela lança na psique humana um rebanho de fantasias – liberalismo, humanismo, utilitarismo e o resto – que lhe desviam a atenção para a vã esperança de uma moralidade científica. O resultado é uma corrupção da própria linguagem do sentimento, uma decadência da sensibilidade para o sentimentalismo e um velamento do mundo humano. O paradoxo é, pois, este: as mentiras da fé religiosa permitem-nos perceber as verdades que importam. As verdades da ciência, dotadas de uma autoridade absoluta, escondem as verdades que importam e tornam a realidade humana imperceptível. A solução de Eliot para esse paradoxo veio no caminho que ele tomou até a descoberta: o caminho da poesia, com seus exemplos agonizantes de poetas cuja precisão, percepção e sinceridade eram os efeitos de uma fé cristã. A solução era abraçar a fé cristã – não como Tertuliano o fez, por causa do paradoxo, mas antes apesar dele.

Isso explica a crescente convicção de Eliot de que a cultura e a religião são, em última análise, indissolúveis¹. Ele acreditava que a doença do sentimentalismo poderia ser superada apenas por uma alta cultura, na qual o trabalho de purificação fosse constantemente levado adiante. Essa é a tarefa do crítico e do artista, e é uma tarefa árdua:
E assim cada risco É um novo começo, um assalto ao inarticulado Com equipamento ordinário num eterno degenerar-se Na desordem geral da imprecisão dos sentimentos, Indisciplinados esquadrões de emoção. E o que há por conquistar, Por força e submissão, já foi descoberto Uma ou duas, ou várias vezes, por homens com quem não se pode Tencionar competir – mas não há competição - Há tão só a luta por recuperar o perdido E encontrado e perdido uma e outra vez: e agora, sob condições Que não parecem nada favoráveis²

Esse trabalho de purificação é um diálogo de gerações com aqueles que pertencem à tradição: só uns poucos podem participar dele, enquanto a maior parte da humanidade anda a esmo, assaltada por aqueles “indisciplinados esquadrões de emoção”. A alta cultura dos poucos é, contudo, uma necessidade moral para a maioria: pois ela permite que a realidade humana se mostre, e assim guie nossa conduta. Mas por que a maior parte da humanidade, perdida no sentimentalismo, “distraída da distração pela distração”, deveria ser guiada por “aqueles que sabem”, como Dante colocou (loro chi sanno)? A resposta deve estar na religião, e em particular na linguagem comum que uma religião tradicional confere tanto à alta cultura da arte como à cultura comum de um povo. A religião é a força vital de uma cultura. Ela abastece o estoque de símbolos, histórias e doutrinas que nos permitem falar sobre nosso destino. E ela forma, por meio dos textos sagrados e liturgias, o ponto fixo ao qual o poeta e o crítico podem voltar – a linguagem similar dos crentes ordinários e dos poetas que precisam enfrentar as condições sempre novas de vida pós-conhecimento, a vida em um mundo decaído.


Uma Filosofia Política: Argumentos para o Conservadorismo - Roger Scruton


¹ T. S. Eliot – Notas para a Definição da Cultura

² T. S. Eliot – “East Coker”. In: Four Quartets.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Morte e Sentido

Por fim, há a perspectiva filosófica sobre a morte – a perspectiva que tenta encontrar um sentido nesse destino ao qual todos nós estamos fadados. Agora, não há consenso entre os filósofos sobre como devemos abordar a morte ou sobre qual o significado que ela tem para nós enquanto ainda vivemos. Mas há uma hipótese compartilhada por todos os que já trataram do assunto: a verdade sobre a morte não está exaustivamente contida na visão que a ciência tem dela e, para ser considerada de modo apropriado por seres racionais como nós, a morte precisa ser entendida, da forma como a vida é entendida por aquele que busca viver com retidão. A tarefa da filosofia é descobrir um sentido para a morte, e tirar desse sentido alguma orientação sobre como devemos conviver com nossa mortalidade e parar de nos desesperarmos ao pensar nela.

Talvez a primeira coisa que um filósofo observe seja a grande diferença que existe entre uma sociedade em que a morte é aceita e os mortos são devidamente atendidos e uma em que a morte é um tabu e os mortos são esquecidos. No primeiro tipo de sociedade, os mortos ainda estão presentes entre os vivos – seus túmulos recebem cuidados, seus conselhos ainda são procurados e sua memória é reverenciada como sagrada. Oferecem-lhes libações, e para todas as cerimônias em que a vida é celebrada eles também são convidados. Tais sociedades não olham para a morte com o horror com que a olhamos, e a presença dos mortos parece conferir dignidade e decoro aos eventos sociais organizados pelos vivos. Uma sociedade que nega a morte – e a nossa parece estar caminhando nessa direção – perde-se em prazeres sensuais, deixa de cultivar as virtudes, vê a morte como algo inabordável e a tentativa de enfrentá-la como absurda.

Por essa observação, o filósofo despertará para o papel da morte de conferir sentido e continuidade às instituições sociais humanas. Pessoas que se dão conta da presença dos mortos e do dever de respeitá-los veem sua própria vida de maneira diferente. Elas são administradoras dos benefícios que devem aos mortos. Sua postura diante deles se vê refletida em sua postura diante dos nascituros: gerações ausentes, para eles, merecem respeito, e o fato de estar vivo carrega consigo uma obrigação de transmitir à próxima geração o que foi recebido da última. Em suma, o respeito pelos mortos é um alicerce da responsabilidade social e um motivo para cuidar do futuro.

A segunda coisa que um filósofo provavelmente observará é que a visão científica da morte não nos torna impotentes diante dela. Afinal, temos uma visão científica da vida e, contudo, a vida ainda tem sentido para nós. Podemos ver os seres humanos como a ciência os vê, como um agrupamento de células governado por uma rede de neurônios, e a inda assim reconhecer que eles são distintos do resto da natureza por serem objetos de juízo com atributos morais e pessoais que não podem ser sintetizados em termos meramente biológicos. É justamente desse modo que podemos ver a morte como o cessar de um processo orgânico e, ao mesmo tempo, como um evento na vida de um ser moral – um evento sobre o qual tanto ele quanto nós podemos tomar uma posição pessoal. Numa tragédia, a morte do herói é um evento biológico; mas é também um evento moral, com um sentido complexo que precisa ser entendido por meio de ideias morais. E tragédias nos mostram que podemos encontrar, na morte de outrem, tanto o fim quanto o sentido de sua vida – assim como encontramos sentido na morte de Romeu e Julieta. Os dois amantes da peça de Shakespeare dão prova de seu amor por meio da morte e, como resultado, tornam-se belos a nossos olhos. A morte deles lança uma luz sobre sua vida e enobrece o amor que conduziu a ela. Talvez possamos todos viver desse modo e talvez, se pudermos, devamos ver a morte não como uma cessação, mas como uma fronteira, um limite que dá sentido aos eventos que conduzem a ela.


Uma Filosofia Política: Argumentos para o Conservadorismo - Roger Scruton

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Autocontrole e Legado

Parece-me que a maior fraqueza no ambientalismo radical tem sido seu fracasso em explorar a questão da motivação humana. Há uma razão preponderante para a degradação do meio ambiente: o desejo humano. Nas regiões mais ricas do mundo as pessoas são muitas, preocupam-se bastante com a mobilidade e são ávidas por satisfazer cada um de seus desejos, são muito indiferentes a respeito do estrago causado por elas e estão demasiadamente preparadas – segundo o jargão econômico – para exteriorizar seus gastos. A maioria de nossos problemas ambientais são casos particulares desse problema geral. E o problema pode ser descrito de modo mais simples como o triunfo do desejo sobre a moderação. Ele só poderá ser resolvido quando a moderação prevalecer sobre o desejo; em outras palavras, somente quando as pessoas tiverem reaprendido o hábito do sacrifício. As pessoas se sacrificam pelo quê? Pelas coisas que amam. E quando esses sacrifícios beneficiam o nascituro? Quando são feitos pelos mortos. Foi esse sentimento fundamental que Burke e De Maistre invocaram.

Há na esquerda uma tendência a escolher os grandes agentes do mercado como principais culpados: imputam o crime ambiental àqueles (petroleiras, fabricantes de motores, empresas de desmatamento, agronegócios, supermercados) que lucram com a exportação de suas despesas para as gerações futuras. Mas isso significa confundir o efeito com a causa. Num mercado livre, essas modalidades de geração de dinheiro surgem, por meio de uma mão invisível, com base em escolhas feitas por todos nós. A demanda por carros, petróleo, comida barata e luxos dispensáveis é a verdadeira causa das indústrias que fornecem essas coisas. Naturalmente, é verdade que os grandes agentes exteriorizam seus gastos sempre que podem. Mas nós também o fazemos. Sempre que viajamos de avião ou vamos ao supermercado, consumimos combustíveis fósseis, exportamos nossos custos para as gerações futuras. Uma economia livre é aquela guiada pela demanda individual. A solução adequada não é a socialista (isto é, a abolição da economia livre), já que isso apenas coloca o grande poder econômico nas mãos de burocratas irresponsáveis, que igualmente estão no negócio de exportação de seus custos. A solução é a retificação das nossas demandas, de modo que nós mesmos possamos arcar com os custos delas. Em suma, precisamos mudar nossa vida. E só poderemos muda-la se tivermos uma motivação para fazê-lo – uma motivação suficientemente forte para reprimir nossos desejos.


Uma Filosofia Política: Argumentos para o Conservadorismo - Roger Scruton

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Direito e Indivíduo

A velocidade com que uma doutrina dos direitos ainda mais expandida foi aceita é impressionante (ao menos para mim). Ela não é apenas inquestionada, mas inquestionável. Certa vez, perguntei a uma paciente de dezessete anos qual era a sua ambição. Ela me disse que queria ser advogada, e perguntei se havia algum ramo do direito que a interessava mais.

- Direitos humanos – ela respondeu com um sorriso beatífico se desenhando nos lábios, como se fosse uma garota devota anunciando sua vocação. Embora ela ainda não soubesse, aquilo era 100% filantropia.

- Ah sim - eu disse. – E de onde vêm os direitos humanos?

Ela olhou para mim com horror, como se eu tivesse cometido um terrível faux pas social.

- O que você quer dizer? – perguntou.

- Bem – eu disse -, eles estavam lá para ser descobertos, como Colombo descobriu a América, ou foram inventados como Hans Christian Andersen inventou suas histórias, ou são apenas concedidos pelos governos, podendo, nesse último caso, ser facilmente revogados pelos governantes?

- Você não pode me perguntar isso – ela disse, como se sentisse dor.

Não insisti no assunto, mas basta dizer que eu não esperava que meu ceticismo tivesse muito efeito sobre a fé dela, uma mistura de idealismo juvenil, presunção e avaliação sagaz das possibilidades de carreira.

A população, no entanto, não tem dúvidas quanto à origem metafísica dos direitos humanos: eles estão inscritos na constituição do universo. Um direito não pode ser revogado, pois, do contrário, não seria um direito em primeiro lugar; nem pode ser limitado por qualquer tipo de restrição, ou do contrário, de novo, não seria um direito. Se eu tenho o direito de ouvir minha música, eu o tenho aqui e agora, e no volume que quiser. Se alguém que estiver por perto reivindicar seu direito ao silêncio, a diferença entre nós pode ser resolvida mediante uma competição de rispidez na reinvindicação de nossos respectivos direitos. Não surpreende que nesse contexto é a pessoa mais violenta que consegue o que quer. Pessoas revestidas de direitos – e quase todos os dias sabemos de novos direitos – são naturalmente inclinadas a pensar em si mesmas como seres supremamente importantes. Primeiro, a teoria heliocêntrica do sistema solar e, depois, a teoria da evolução podem ter tirado o homem do pedestal que ele mesmo erigiu, mas a doutrina dos direitos humanos o colocou de volta, ainda que com uma diferença: antes, era a humanidade que estava no pedestal; agora, o indivíduo.


Lixo – Como a sujeira dos outros molda a nossa vida – Theodore Dalrymple


Publicado no Facebook em 30 de Maio, 2019

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Autocontenção e Autoexpressão

Há, é claro, outras explicações para as bebedeiras em massa nas grandes e pequenas cidades britânicas além da perda coletiva de autocontrole a que recorri. Não são, contudo, explicações alternativas, no sentido de estarem em completa contradição com a minha explicação favorita. Por exemplo, há o preço do álcool. Quando o preço diminui, o consumo aumenta (economistas clássicos esperariam isso em relação a qualquer produto). E, de fato, o preço do álcool caiu significativamente em relação às horas de trabalho necessárias para produzi-lo, apesar dos altos impostos. Os rendimentos discricionários aumentaram precisamente no momento em que a própria discrição diminuiu.

Além disso, a regulamentação dos licenciamentos foi progressivamente afrouxada. Costumava ser proibida uma aglomeração de bares em uma pequena área, mas agora isso não é apenas permitido, como também positivamente, encorajado. Não só o número, mas o tamanho dos bares aumentou. Muitos deles acomodam centenas e até mesmo milhares de pessoas. O barulho gerado ali é tão grande (ao qual se soma a música agitada) que a noção de beber socialmente enquanto se conversa torna-se risível. Desse modo, todos bebem em maior quantidade e rapidez, quase como se competissem uns com os outros.

Mas, não obstante o preço baixo das bebidas e o tamanho e o estilo dos bares, a pergunta permanece: por que centenas de milhares e talvez milhões de jovens britânicos optaram por se comportar da maneira como se comportam? Por que eles não só vão a esses bares, mas consideram isso o ponto alto de suas existências, pelo qual mal podem esperar? Por que eles se reúnem em grandes rebanhos, nos quais se mostram incapazes de um discurso distinguível, a única coisa que nos torna humanos?

Eles fazem isso especificamente para ter uma desculpa, um pretexto, para perder o autocontrole. Perder o controle individualmente ainda seria arriscado, mas perde-lo em meio a uma multidão de milhares de pessoas confere imunidade e mesmo absolvição moral. Um indivíduo em uma rua à noite pode ser preso por estar bêbado e causando desordem, mas não mil indivíduos. Há segurança na quantidade.

Mas por que alguém na Grã-Bretanha desejaria perder ou ao menos deixar de lado o autocontrole? Por que alguém desejaria perder ou deixar de lado suas inibições sociais e se comportar de forma tola, perigosa e pouco atraente?

Já vimos que a autocontenção deixou de ser uma virtude e se tornou um defeito. Uma pessoa que se contém é suspeita do crime de estar fora de moda, uma adversária do novo modo de ser britânico, uma inimiga do povo.

O oposto da autocontenção é a autoexpressão espontânea. Não surpreende, então, que as pessoas comam onde e como querem. Baseadas em quê, além de suas inclinações pessoais, elas decidiram isso? Quem, além do indivíduo em questão, tem o direito de decidir a esse respeito? Uma sociedade na qual as pessoas não tivessem o direito de fazer essa escolha não seria intoleravelmente autoritária?


Lixo – Como a sujeira dos outros molda a nossa vida – Theodore Dalrymple


Publicado no Facebook em 29 de Março, 2019

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Science and Religion

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"Science can purify religion from error and superstition; religion can purify science from idolatry and false absolutes. Each can draw one another into a wider world, a world in which each can flourish."


St. John Paul II, 1988


Source: Society of Catholic Scientists


Publicado no Facebook em 28 de Maio, 2019

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Preço e Preferência

Certa vez, almocei com um economista defensor do livre-mercado que afirmou que o hábito de comer alimentos prontos era, ao menos para os mais pobres, uma escolha economicamente racional. Eu disse que tinha muitas dúvidas quanto a isso, e suspeitei que ele tivesse comprometimento ideológico com a noção de homo economicus, o homem que responde às circunstâncias conforme um cálculo racional de custos e benefícios econômicos, e a nenhum outro estímulo. Em resposta, ele disse que estudos científicos tinham comprovado o que afirmava. Contudo, na área em que eu vivia na época, havia mercados cujos donos e fregueses eram asiáticos, nos quais era possível comprar dez quilos de cebolas por dois terços do preço de um hambúrguer do McDonald’s, e outros produtos tinham preços similarmente baixos. Eram os asiáticos economicamente irracionais por comprarem lá?

Passei a desconfiar dos cálculos dos economistas desde que visitei a Romênia, de Ceauscu, quando eles estimavam que o crescimento do país fora, por muitos anos, vertiginoso. No entanto ainda não havia batatas nos mercados, e, quando acontecia de elas aparecerem, coisa rara, uma fila, na qual as pessoas estavam preparadas a esperar por muitas horas, formava-se de imediato.

De qualquer forma, o economista com quem conversei presumia que a racionalidade econômica era a racionalidade pura. Uma vez que ficara estabelecido que comer alimentos prontos era a forma mais barata de encher o estômago, não havia mais nada a ser dito sobre o assunto. Mas é verdade que, se as pessoas escolhem os meios mais baratos para atingir seus objetivos, suas escolhas são, portanto, indiscutíveis? É mesmo verdade que 40 milhões de porcalhões e preguiçosos não podem estar errados? Por extensão, só porque suas escolhas parecem economicamente racionais, elas estão fora da esfera do debate?

Mas, nesse caso, o que eu quero dizer com “errado”? O que é uma escolha errada em se tratando de comida? O que nós comemos não é uma mera questão de preferência pessoal e, por essa razão, está além do bem e do mal? Não é mais uma questão de aceitar que, no que concerne à escolha da comida, bem como em outras questões de gosto, o que quer que seja, está certo? Uma escolha, como Gertrude Stein¹ poderia colocar, é uma escolha. O livre-mercado é tanto moral quanto esteticamente neutro.


Lixo – Como a sujeira dos outros molda a nossa vida – Theodore Dalrymple

¹ Dalrymple parafraseia um verso do pema “Sacred Family” (1913), de Gertrude Stein (1874-1946): “Rose is a rose is a rose is a rose”.


Publicado no Facebook em 28 de Maio, 2019

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Religião e Espírito

Além das necessidades corporais e da atividade categorizadora da mente, existem os desejos puramente mentais ou desejos superiores da alma, como o amor à verdade, o conhecimento do bem e a alegria na beleza. Esses desejos são supridos, por exemplo, na leitura, na meditação, no contato com obras de arte, em viagens e na visão da natureza, no sacrifício por aqueles que verdadeiramente amamos etc., e nada têm a ver com necessidades ou desejos físicos, pois não existe uma necessidade física de contemplar o belo; é um desejo da mente, da alma. Quando se está diante de algo verdadeiro, como a história de um herói honrado, é possível captar a verdade dela. Algo é despertado na mente ou no espírito; quem a lê ou assiste quer estar ali, sente o desejo de se sacrificar como aquele herói. Essa inclinação de, ao ver o bem, querer agir à sua altura, não é uma inclinação corporal, não há necessidade corporal nesse movimento. Há apenas uma inclinação da mente, da alma. É evidente, portanto, a existência desses dois extremos.

Há uma tendência de colocar esses dois pólos sempre em oposição, como se o corpo estivesse eternamente sujeito ao movimento de queda e o espírito, ao contrário, sempre em elevação. Mas não funciona assim; muitas vezes a mente também deseja coisas simplórias, e o corpo pode necessitar de elevação. Esse pensamento gera muito sofrimento às pessoas que buscam orientação espiritual nos dias de hoje. Às vezes, por uma falta de compreensão dos termos próprios de análise do espírito, muitos conselhos espirituais acabam sendo cruéis, simplificando toda a profundidade da existência na dicotomia "o corpo é mau e a alma é boa". Quando as necessidades, seja do corpo ou da mente, são atendidas, é comum sentir-se satisfeito e alegre. A satisfação das necessidades cria nos indivíduos a expectativa de conseguir se instalar dentro desse domínio de alegria, mas isso não acontece todas as vezes, e é justamente nesse balanço entre expectativa atendida e frustração que se insere a dedicação a uma "vida espiritual". É neste ponto que está inscrita a dinâmica da religião, muitas vezes ignorada.

Quando nos aproximamos do tema munidos das perguntas "o que é religião?" ou "o que é a vida espiritual?", é difícil encontrar uma resposta precisa. Normalmente nos dizem que se trata do "amor de Deus", ou de "ajudar o próximo", "freqüentar os cultos", e "cumprir os preceitos". São respostas possíveis, mas que correspondem tão somente a elementos componentes da realidade da religião ou da vida espiritual propriamente dita. A melhor pergunta a ser feita num primeiro momento seria não só "o que é a religião ou a vida espiritual?" mas "quais os efeitos que ela causa em nós?". As pessoas costumam duvidar se a prática de sua religião está produzindo os efeitos esperados. Isso acontece porque elas não sabem quais são os efeitos que a religião traz e qual é sua dinâmica até a conquista dos objetivos. Sem a noção exata dos movimentos em curso em nossas almas é muito fácil passar décadas se enganando e, no fim das contas, nutrir secretamente uma tristeza e uma decepção em relação à prática relgiosa, porque já faz anos que o indivíduo age da mesma maneira e se comporta do mesmo modo diante das situações que a vida lhe apresenta.

Ora, a religião é uma prática, um conjunto de práticas. As virtudes espirituais, como a fé e a esperança, vêm num segundo momento, mas a religião é, sobretudo, uma seqüência de ações. Para gerar efeitos na alma e na vida do praticante, uma parte importantíssima da religião diz respeito justamente à relação entre o corpo e a mente. É fundamental, portanto, observar nossos movimentos internos na relação com as práticas religiosas, com os ritos, os textos da Escritura etc. Buscar uma religião é ter alguma pretensão de eternidade, compreendendo que há coisas que continuam existindo mesmo sem o corpo, sem a matéria. Na morte, o corpo e a matéria se esvaem, e se não há outras necessidades além destas alimentadas em vida, se o sujeito deu atenção apenas às necessidades físicas e palpáveis, o elemento imaterial que subsiste, a alma, também se voltará para esses desejos e necessidades, e viverá em eterna frustração. A mente vai continuar desejando aquelas coisas, mas já não será possível atendê-la, e sua vida eterna será, literalmente, um inferno. Como foi dito, há dois tipos de desejos da mente: os inferiores, relacionados ao corpo e aos impulsos físicos, e os superiores, relacionados à necessidade e ao amor à verdade, ao conhecimento do bem e à alegria na beleza. Este é o espaço que a religião ocupa na vida: ela é o esforço virtuoso por acostumar a mente a desejar as coisas que subsistem mesmo sem o corpo. A verdade segue sendo verdade sem corpo; a beleza segue sendo beleza. A prática da religião deve fazer com que, nesta vida, cada pessoa se acostume a desejar a verdade, o bem e a beleza.

Agora, para alcançar este fim, o que a religião nos oferece é uma "técnica espiritual", que torna possível às pessoas concentrar as atividades da mente no conhecimento do bem, no amor à verdade e na alegria da beleza, e dominá-la é fundamental para que a religião tenha o efeito correto no dia-a-dia. Não basta apenas confiar na misericórdia de Deus; este é um ponto fundamental da religião, sem o qual os outros perdem o fundamento, mas não é o único, e o apego irrefletido a ele pode impedir a evolução da alma, caso se conclua, a partir dele, que não é necessário se esforçar.

Os 4 Temperamentos na Educação dos Filhos - Dr. Ítalo Marsili

Publicado no Facebook em 23 de Abril, 2019

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Motivação e Propósito

Junto da palavra "motivação" estão as palavras "responsabilidade" e "liberdade". Para um ato ser bom, ele precisa ter um objetivo positivo e um meio de ação também positivo. Caso contrário, o ato será apenas parcialmente bom. Sem esta idéia em mente, a tendência é acreditar que está tudo bem com a educação dos filhos se entregarem bons resultados. Se acordam na hora certa, fazem o dever de casa e interagem com os outros, os pais acreditam que está tudo bem, porque o objetivo final está sendo alcançado. Contudo, fazendo uma avaliação da rotina dos filhos, é preciso se perguntar se o meio através do qual eles executam as ações e conquistam o objetivo é um meio bom - responsável e livre. A criança faz essas coisas, por assim dizer, em primeira pessoa? Pois isso seria uma ação responsável, e é isso que os pais devem buscar. Num primeiro momento pode parecer um ideal muito distante, mas se a única maneira de fazer um filho obedecer é a ameaça e a intimidação, as coisas não andam bem, e é na adolescência que os pais colherão os piores frutos - amargos, azedos, imaturos.

O objetivo dos pais não deve ser uma educação de quartel, com as crianças marchando, perfiladas, pois isso mina a espontaneidade e a graça da vida. Mas também não pode ser uma zona completamente disforme sem nenhum princípio de hierarquia. É muito difícil para os pais escapar de um dos extremos: a casa será um quartel ou uma bagunça. Eles precisam notar que a educação por meio de ameaças funciona por muito pouco tempo, e sua validade expira no momento em que a criança entende que os pais não vão puni-lo ou agredi-lo fatalmente. Quando a criança entende que o pai mais late do que morde, pára de obedecer, e os pais perdem sua autoridade. O resultado da perda da autoridade é perderem também a capacidade de motivar os filhos.

Outra forma comum utilizada para motivar as crianças é através de prêmios ou compensações. Esse tipo de motivação pode parecer eficaz por algum tempo - muitos manuais de motivação o indicam -, mas logo perde a eficácia e a validade, pois o impulso para realizar a ação não é intrínseco, mas externo a ela. Além disso, esse tipo de motivação gera efeitos bastante nocivos: o de não aprender a valorizar o que se está fazendo e o que se tem, já que, colocando o prêmio como algo mais valioso do que todas as outras coisas, a criança vislumbra apenas o prêmio, e não a ação. Dessa maneira será necessário aumentar o prêmio indefinidamente, pois a criança se dá conta de como obter tudo o que quer, e os pais viram presas desse ciclo.

A motivação que os pais devem dar aos filhos não deve provir da ordem, do comando, e nem dos desejos imediatos. Deve, sim, ser uma motivação transcendente, um ideal que mova a criança por atração. A criança tem de querer o bem simplesmente porque é o bem - tem de querer comer tudo porque é melhor para a sua saúde, tem de querer estudar por compreender que o conhecimento é bom, privar-se de bater nos irmãos porque isso é mau, etc. Como alcançar isso? Ordenadas em direção a esse ideal é que se articulam as punições e os prêmios, não utilizados extrinsecamente, mas como um anexo, mas intrinsecamente, como estímulo em vista do próprio bem - do bem da família, da saúde, do outro. Pode-se usar, aí, motivações que ajudem a criança a querer querer; de preferência algo não-material, como dizer: "se você fizer o que precisa, teremos tempo para uma história antes de dormir", ou para "uma partida de xadrez", "para você poder fazer um desenho", etc., e não "uma barra de chocolate se terminar a comida". Assim as crianças percebem o valor intrínseco de suas atitudes, e passam a fazer de bom grado o que os pais pedem. Evidencia-se assim valor do afeto e como ele é importante na vida da casa; elas aprendem que o que importa de fato é o convívio familiar, e se tornam mais doces e maleáveis.

Estas são as duas noções fundamentais para se motivar ou educar os filhos: um agir responsável, pelo qual respondam em primeira pessoa, e a liberdade de ação, de modo que a criança tenha a opção de não fazer aquilo, mas faça, no entanto, por entender que há ali um objetivo nobre e bom, que ela quer atingir por meios também nobres e bons. Nisso os pais verão que seu propósito de educar os filhos foi cumprido. Sabendo o que se quer da educação, é preciso pensar o que fazer para motivar cada temperamento, pois as suas fontes de motivação e inspiração são diferentes. Não é possível, como já deduziu o leitor, motivar um colérico do mesmo modo que um fleumático, ou atrair um melancólico da mesma maneira que um sangüíneo.


Os 4 Temperamentos na Educação dos Filhos - Dr. Ítalo Marsili

Publicado no Facebook em 16 de Abril, 2019

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

People and Deeds

Four score and seven years ago our fathers brought forth on this continent, a new nation, conceived in Liberty, and dedicated to the proposition that all men are created equal.

Now we are engaged in a great civil war, testing whether that nation, or any nation so conceived and so dedicated, can long endure. We are met on a great battle-field of that war. We have come to dedicate a portion of that field, as a final resting place for those who here gave their lives that that nation might live. It is altogether fitting and proper that we should do this.

But, in a larger sense, we can not dedicate -- we can not consecrate -- we can not hallow -- this ground. The brave men, living and dead, who struggled here, have consecrated it, far above our poor power to add or detract. The world will little note, nor long remember what we say here, but it can never forget what they did here. It is for us the living, rather, to be dedicated here to the unfinished work which they who fought here have thus far so nobly advanced. It is rather for us to be here dedicated to the great task remaining before us -- that from these honored dead we take increased devotion to that cause for which they gave the last full measure of devotion -- that we here highly resolve that these dead shall not have died in vain -- that this nation, under God, shall have a new birth of freedom -- and that government of the people, by the people, for the people, shall not perish from the earth.


Abraham Lincoln, November 19, 1863

Source: http://www.abrahamlincolnonline.org/lincoln/speeches/gettysburg.htm


Publicado no Facebook em 4 de Abril, 2019

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Linguagem e Liberdade

Eu disse que uma pessoa cercada de publicitários - ou de políticos em época de eleições - nem acredita em tudo literalmente nem rejeita tudo integralmente, mas escolhe de acordo com sua visão da sociedade. O essencial é o poder de escolha. Em tempos de guerra esse poder é enormemente restringindo, e resignamo-nos a viver de acordo com meias verdades até segunda ordem. Num estado totalitário a competição de discursos políticos míngua e, com isso, veda-se o poder de escolha imaginativa. Intrínseca ao nosso medo e ódio da guerra e dos governos totalitários é a sensação de claustrofobia que a imaginação provoca quando impedida de funcionar como deve. É este o aspecto da tirania que Orwell retratou com tanta proeminência em 1984, chegando a sugerir que o único meio de construir uma tirania permanente e inabalável - ou, por outra, o único meio de criar um inferno na terra - seria pela deliberada degradação da linguagem, transformando nossa fala numa espécie de palavrório automático. É genuíno o medo de ser rebaixado a uma vida assim; mas, tão logo o exprimimos em clichês histéricos, rebaixamo-nos a esse estado por conta própria. Já dizia o poeta William Blake, ao descrever um fenômeno similar: tornamo-nos aquilo que contemplamos.

É muito comum pensar no estudo da literatura, ou mesmo no estudo de uma língua, como uma espécie de métier elegante, uma questão de ser bom em gramática ou de manter as leituras em dia. Estou tentando mostrar que o assunto é um pouco mais sério que isso. Não vejo separação possível entre o estudo da língua ou da literatura e a questão da liberdade de expressão, que todos sabemos ser fundamental para nossa sociedade. O âmbito da fala corriqueira, na minha visão, é um campo de batalha entre duas formas de discurso social: o discurso de uma turba e o discurso de uma sociedade livre. O da turba representa o clichê, a idéia pré-fabricada e o falatório automático, e leva-nos inevitavelmente da ilusão à histeria. Numa turba não pode haver liberdade de expressão: é coisa que ela não suporta. As pessoas que deixam seu medo do comunismo tornar-se histérico uma hora ou outra desembestam a acusar de comunista qualquer homem são que lhes passe pela frente. Liberdade de expressão, ademais, não é resmungar e reclamar que o país está um caos e que todo político é corrupto, mentiroso, etc. etc. O resmungo nunca vai além de clichês dessa espécie, e o cinismo vago que eles exprimem é a atitude de quem anda procurando alguma turba a que se juntar.


A Imaginação Educada - Northrop Frye


Publicado no Facebook em 3 de Abril, 2019

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Imaginação e Tolerância

[...] No domínio da crença a nossa contínua preocupação é com questões de realidade ou verdade: não se pode crer em nada enquanto não se possa dizer "isto é assim". Mas a literatura, recordamos, jamais faz afirmações desse tipo: aquilo que o poeta e o romancista dizem está mais para "suponhamos esta situação". Daí a impossibilidade de haver uma religião da poesia ou qualquer sistema de crenças fundado na literatura. Quando deixamos de crer numa religião, como o mundo romano deixou de crer em Júpiter e Vênus, os deuses dela convertem-se em personagens literários e retornam para o mundo da imaginação. Porém, uma crença só pode ser substituída por outra. Os escritores têm, é claro, suas crenças pessoais, e é natural sentirmos afeição especial por aqueles que parecem ver o mundo sob a mesma ótica que nós; mas todos sabemos, ou logo percebemos, que a verdadeira grandeza de um escritor mora em outra parte. O mundo da imaginação é um mundo de crenças nascituras ou embrionárias. Se vocês acreditarem no que lerem em literatura, poderão, literalmente, acreditar em tudo.

Vocês podem perguntar, então, qual é a utilidade de estudar um mundo de imaginação onde tudo é possível e tudo é admissível, onde não há certo e errado e onde todos os argumentos têm o mesmo valor. Uma das utilidades mais óbvias, penso eu, é o incentivo à tolerância: na imaginação as nossas próprias crenças são simples possibilidades, e ainda enxergamos as possibilidades das crenças alheias. Fanáticos e preconceituosos raramente tentam tirar algum proveito da arte - estão obcecados demais por suas crenças e ações para enxergá-las como talvez simples possibilidades. Também há o outro extremo: o do diletante eternamente entretido por possibilidades e, assim, desprovido de convicções e poder de ação. Mas estes são bem menos comuns que os fanáticos e, no nosso mundo, bem menos perigosos.

O que produz a tolerância é o poder do distanciamento imaginativo, que nos permite tirar as coisas do alcance da ação e da crença. A experiência é quase sempre trivial; o presente não é tão romântico quanto o passado; os ideais e as grandes visões teimam em tornar-se cafonas e sórdidos na vida prática. A literatura reverte este processo.


A Imaginação Educada - Northrop Frye


Publicado no Facebook em 1 de Abril, 2019

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Evento e Essência

Apesar disso, entende-se por que o poeta ganhou a reputação de mentiroso autorizado: o próprio termo poeta quer dizer "mentiroso" em algumas línguas, e os termos que usamos em crítica literária, fábula, ficção, mito, vieram todos a significar algo em que não se pode acreditar. Na era vitoriana, muitos pais proibiam os filos de ler romances por não dizerem "a verdade". Hoje, porém, não encontraremos muitas pessoas razoáveis que neguem aos poetas a prerrogativa de alterar os fatos a seu bel-prazer quando tomam um tema da história ou da vida corrente. Um historiador faz afirmações específicas e particulares, como "A batalha de Hastings ocorreu no ano de 1066", e é julgado pela veracidade ou falsidade do que afirma - ou ocorreu a tal batalha na tal data ou não. Já o poeta, diz Aristóteles, nunca faz afirmações factuais, muito menos particulares ou específicas. Não é a função do poeta informar-nos o que aconteceu, mas o que acontece. Ele não nos conta aquilo que se deu, mas aquilo que se dá sempre - o evento típico, recorrente ou, como chama Aristóteles, universal. Não leríamos Macbeth para aprender sobre a história escocesa - lemos Macbeth para descobrir o que se passa com um homem que conquista um reino à custa de sua alma. Quando, no David Copperfield, de Dickens, encontramos um personagem como Micawber, nossa sensação não é que Dickens chegou a conhecer um homem tal e qual, mas sim que há algo de Micawber em todas as pessoas que conhecemos e em nós mesmos. Nossas impressões sobre a vida humana vão acumulando-se uma a uma e, para a maioria de nós, permanecem vagas e desorganizadas. Na literatura, porém, muitas dessas impressões de repente ganham ordem e foco. Isto é parte do que Aristóteles quer dizer quando fala em evento humano típico ou universal.


A Imaginação Educada - Northrop Frye


Publicado no Facebook em 29 de Março, 2019

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Fim e Sentido

"Só queria acabar com o sofrimento e a angústia de ter uma existência medíocre e sem sentido.

E, adivinhe, existe outro modo!

Se tornar alguém mais forte e dar um sentido para vida.

Aliás, essa é a única tarefa a qual ninguém consegue fugir. Você recebe uma vida e precisa escolher o que fazer com ela.

E isso não é fácil. Aposto que você sabe."

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Texto original na íntegra: http://teoriadokrawlz.com.br/?p=69


março 27, 2019

O SEGREDO PARA PARAR O TEMPO.


“They lied to us, Bill! It’s water.”


Sabe como é, bate e volta, você vai até o litoral, aproveita o dia e retorna no final dele.

Eu poderia não ter voltado.

O dia estava sensacional. Sol e calor. Muitas pessoas na beira da praia. Tomando Sol. Comendo e bebendo. Jogando lixo em lugares inapropriados. Várias escolhas de roupa de banho de gosto duvidoso. Um incrível número de culotes. Sungas brancas.

Um grupo de terraplanistas em férias observando o horizonte e comparando o planeta com os limões que usavam para fazer suas caipirinhas. Concluíram que, definitivamente, fazia muito mais sentido que a terra fosse como uma rodela de limão e não o limão inteiro e a única dúvida é se as pessoas seriam mais felizes se o mar fosse feito de vodka ou cachaça.

Eu estava lá, tomando algumas cervejas de garrafas verdes e usando uma bermuda que era grande demais para mim, nitidamente.

Não era a melhor época da minha vida. Eu estar participando de um bate e volta até a praia é um grande sinal de que o mundo poderia desmoronar a qualquer momento. Não morro de amores por praia e, além disso, a expressão em si “bate e volta” já me causa um pouco de desconforto.

Quando escuto alguém dizer “vamos fazer um bate e volta”, imediatamente sinto cheiro de vodka e arrependimento. “Hey! Pessoal, vamos fugir da realidade? Não temos recursos para ficar muito tempo, mas ao menos sairemos da nossa rotina miserável, afogaremos nossas frustrações em álcool e teremos vários dias depois para nos arrependermos de ter gasto o que não deveríamos com futilidades. Mas hey! YOLO! Só se vive uma vez. Vamo dale!”

Você bate com a cara na parede e volta para a realidade, com dor de cabeça.

Tenho quase certeza que neste dia deveria estar no trabalho. Era vendedor na época, em um shopping. Um péssimo vendedor. Foi uma época que decidi que deveria fazer as coisas como todo mundo faz ao invés de fazer o que eu acreditava. Afinal de contas, quem eu era pra questionar o sistema? Um sonhador fracassado. Uma falha da Matrix.

Mas tudo bem. Eu estava lá, então melhor aproveitar. Vamos pro mar que ele cura todos os males.

Estava ótimo. Refrescante. Divertido. Relaxante. As ondas batendo e passando, levando meu mau humor embora. As risadas e brincadeiras com os amigos fazendo efeito. É impressionante o poder do mar. Gigante. Banhando a terra. Embalando com suas ondas aqueles que se aventuram nas suas entranhas. Reanimando. Lavando as preocupações. Levando elas embora.

Eu estava mais relaxado e alegre. Todo mundo conhece a sensação da irresponsabilidade, é ótima.

Uma onda mais. Eu fecho meus olhos e vou no ritmo dela. Deixo ela me levar. Subindo. Abro os olhos e vejo a praia. Descendo. Descendo demais. Meus pés não tocam no chão, pelo menos não antes da minha cabeça ficar quase coberta. Eu piso, pego um impulso e subo novamente. Desço. Dessa vez afundo um pouco mais.

Eu já contei para você que não sei nadar?

Não sei. Nunca aprendi. Nunca gostei de mar. Uma das razões de não gostar é culpa dos meus pais. Quando era jovem, toda vez que entrava no mar, eles ficavam gritando “Volta pra cá! Tá muito longe! Sai dai! Volta! O mar vai te levar, praguedo!” E me ameaçando dizendo que iriamos embora se eu não parasse de ficar “indo longe”.

O que seria muito compreensível se a altura da água não estive na minha cintura ou menos, o tempo todo. Se fosse para molhar as canelas preferia ficar em casa e usar uma bacia. Lá pelo menos não teria águas vivas.

E foi o que fiz. Assim que tive a opção de não ir a praia junto com a família, já adolescente, não fui mais.

Detesto praia, até hoje. E sempre que vou é por conta das pessoas, não do lugar.

Mas não se preocupe com meus traumas. Eu pretendo curar isso sobre a praia e mar, afinal de contas, preciso aprender a surfar. Está na minha lista de coisas a fazer antes de morrer.

Falando em morrer, estava lá eu, no mar, morrendo…

Houve um momento em que tive um clic. Uma separação da sensação de “Ops! Acho que fiz merda.” para “Fuck! Eu vou morrer.”

Porém, eu decidi que não queria.

O que pensei na hora lembra muito a lição de Syrio Forel para Arya, em Game of Thrones:

“There is only one God. It’s called Death. And there is only one thing we say to Death – Not Today.”(Só existe um Deus. E se chama Morte. E só há uma coisa que dizemos para Morte – Hoje não.)

Depois daquele clique o tempo ficou muito lento, só faltou uma trilha sonora dramática para fazer fundo a todas as coisas que pensei em uma fração de segundo.

Eu pensei em todas as vezes que cogitei o suicídio durante a minha vida. E não foram poucas vezes. Pensei que a uns quilômetros dali meus pais poderiam estar nesse mesmo mar, nessa mesma hora, enquanto eu me afogava, pois eles estão sempre no litoral. E pensei como eles ficariam tristes quando recebessem a notícia, e por finalmente estarem certos sobre eu não dever ir pro fundo. Eu pensei nas pessoas de quem não poderia me despedir e no que não havia dito ainda a elas. Eu pensei sobre não ter um filho ainda.

E pensei que iria morrer como um completo fracasso. Fazendo um bate e volta, depois de beber cerveja na beira da praia, usando uma bermuda que me fazia parecer ridículo, em um dia que deveria estar no trabalho.

Honestamente, eu não pensei sobre a bermuda. Você não pensa sobre bermudas, antes de morrer, a menos que esteja prestes a ser sufocado por uma carga de bermudas que tombou em você.

Depois do clique, depois de todo esse processo de avaliação e pensamento, eu estava absolutamente, calmo. Já viu aquelas cenas de pessoas se debatendo, apavoradas, enquanto se afogam, por não saberem o que fazer? Não era eu.

Aspirava o ar, pisava no chão, pegava impulso e fazia o melhor para me manter na superfície pela máximo de tempo, com o pouco que sabia sobre como fazer isso.

Movia braços e pernas no melhor estilo tijolinho sincronizado.

Em uma dessas emergidas casuais, percebi que os salva vidas estavam a caminho. Um dos meus amigos havia gritado por socorro. Tudo que precisava fazer era não morrer até me resgatarem. Nesse momento apareceu um tubarão e tive que lutar com ele.

Mentira. Eu respirava. Engolia água. Subia e afundava. Me senti um pacotinho de chá em uma xícara. Sendo mergulhado, uma e outra vez, a fim de tirarem minha essência.

E quase perdi a consciência, nesse processo. As coisas estavam ficando escuras e o oxigênio estava tendo dificuldades de chegar até meus pulmões. Já que meus pulmões estavam comigo, embaixo d’água.

Um salva vidas chegou até mim, de Jetski. E nesse momento eu me senti como um pedestre, já que Jetskis são como motos. E me senti a salvo.

E estava. Ganhei uma carona até a beira e sai caminhando. Recebi uma salva de palmas pela minha tranquilidade e desempenho atlético, e claro, pelo meu look.

Isso também é mentira. Os salva vidas receberam uma salva de palmas. Muito merecida, afinal de contas me salvaram e isso é de um valor inestimável para o mundo.

Sentei com meus amigos, que estavam chorando. Ainda nervosos. Eu calmo e tranquilo como alguém que vence um debate que sabia estar ganho. Hoje não! Havia sido meu argumento final.

Abri uma cerveja.

E, cara, como aquela cerveja estava incrível. Sem dúvida, a melhor cerveja da minha vida.

Aqui você descobre que tudo isso era uma propaganda da Heineken. Pensa no roteiro:

“Sujeito triste vai a praia com amigos. Ele não quer, mas vai. Lá vê uma garota linda. Trocam olhares. Ela entra no mar, ele entra no mar. Ele quase se afoga. É salvo. Chega na areia, a garota aflita o recebe. Eles se beijam. Ele, amigos, garota brindam, cada um com sua Heineken na mão. Na tela o slongan: Heineken. Tastes like life! ou Heineken. Gostosa como a vida!”

Podem usar minha história. Faço um precinho camarada.

Essa é uma história real.

Aconteceu assim mesmo. Na época eu estava passando por um momento difícil. Meu coração estava em mais pedaços que o gelo da caixa de isopor. Eu não gostava do trabalho que tinha. Estava mega deprimido. Fraco. Não treinava direito. Não comia direito Não dormia bem. Estava com cerca de 10Kg a menos do que hoje. 10Kg a menos de músculos. Eu, definitivamente não tinha o pensamento mais positivo do mundo, mas percebi que preferia viver.

A vida não mudou de uma hora para outra. A única coisa que quase me afogar fez foi me tornar menos hipócrita e nunca mais pensar em suicídio. A natureza me ofereceu uma chance, ia parecer um acidente, tudo combinado. E me recusei.

Opa! Parece que não queria morrer, não. Só queria acabar com o sofrimento e a angústia de ter uma existência medíocre e sem sentido.

E, adivinhe, existe outro modo!

Se tornar alguém mais forte e dar um sentido para vida.

Aliás, essa é a única tarefa a qual ninguém consegue fugir. Você recebe uma vida e precisa escolher o que fazer com ela.

E isso não é fácil. Aposto que você sabe. Existem milhões de empecilhos entre você e o que você, do fundo do coração, quer.

Mas temos tempo e todo dia uma nova chance. Escolha algo e vá fazer, caramba.

Não estou dizendo para largar seu emprego, sua família ou seja lá quais são suas responsabilidades de uma hora para outra. Dê uma passo de cada vez. Se prepare. Se programe.

Melhore quem você é, dia após dia para se tornar a pessoa que você precisa ser para conseguir o que deseja.

Novamente, não é fácil. Mas que outra coisa você pretende fazer?

Passar o tempo fazendo palavras cruzadas e pensando como seria ter isso ou aquilo e como seria bom se essa ou aquela outra coisa tivesse acontecido?

Se fosse estivesse se afogando, agora, você estaria satisfeito(a) com a sua vida?

Pois, se você ainda quer mais, o que está esperando?

Não espere até ser tarde demais.

O tempo pode até ficar mais lento, mas a verdade é que ele não para.

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RICARDO KRAWLZ

Publicado no Facebook em 28 de Março, 2019