E governo maçônico quer dizer o seguinte: todos os conflitos abertos, todas as disputas políticas travadas diante do público, que constituem a pulsação mesma da vida democrática, não são senão a exteriorização de divergências nascidas e elaboradas dentro da Maçonaria. A espuma democrática encobre e disfarça a luta interna no seio de uma nova aristocracia, cuja unidade espiritual repousa nas mãos de um novo sacerdócio. Logo em seguida, quando o Brasil imitar o exemplo norte-americano e proclamar sua independência da Europa, a vida parlamentar do Império não consistirá de outra coisa senão de debates entre maçons, cujas divergências se erguiam sobre o fundo comum de um pacto de lealdades secretas. São maçons os conservadores, são maçons os liberais, é maçom o Imperador, são maçons os agitadores republicanos. Pairando invisivelmente sobre todas as forças em luta, a Maçonaria sai vencedora em qualquer hipótese. Muito mais que o Imperador, ela é o verdadeiro “poder moderador” — a autoridade espiritual que acolhe em seu seio maternal os partidos em disputa e unge a fronte do vencedor com o óleo bento da legitimidade. É um simplismo grosseiro, portanto, atribuir à Maçonaria a responsabilidade pelos movimentos revolucionários, porque ela não se compromete com aqueles a quem auxilia, do mesmo modo que a Igreja medieval não se comprometia em conflitos dinásticos: sua função é eclesial, não real ou imperial. Como a Igreja, ela dá nascimento a uma aristocracia, a uma casta governante, e, sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo, influencia decisivamente o curso das coisas, ensinando, orientando, estimulando, conciliando ou dividindo, e equilibrando enfim — ao menos idealmente — o movimento do conjunto. O que a diferencia da Igreja é menos a sua ideologia — vaga, indefinida e elástica o bastante para comportar todos os arranjos e acomodações — do que a sua invisibilidade.
O Jardim das Aflições - De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 14 de Setembro, 2017
quarta-feira, 31 de julho de 2019
terça-feira, 30 de julho de 2019
União e Império
A história política do Ocidente pode ser, sem erro, facilmente resumida como a história das lutas pelo direito de sucessão do Império Romano. Século após século, vemos sucederem-se tentativas de renovar o feito máximo de Roma: unificar, sob uma mesma legislação e um mesmo governo, uma multiplicidade de povos, convivendo na harmonia de suas diferenças e todos contribuindo para a riqueza e grandeza do Império.
Em volta desse tema dominante, reinos e dinastias que surgem e se desvanecem, revoluções políticas e culturais que se sucedem, líderes que vêem sua estrela brilhar por um instante para depois desaparecer para sempre, conflitos religiosos, viagens e descobertas, guerras e crises, não são senão ecos, reflexos, a agitação na superfície das águas, que oculta e revela, a um tempo, o movimento profundo: a luta pela formação do Império.
O Jardim das Aflições - De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 2 de Setembro, 2017
Em volta desse tema dominante, reinos e dinastias que surgem e se desvanecem, revoluções políticas e culturais que se sucedem, líderes que vêem sua estrela brilhar por um instante para depois desaparecer para sempre, conflitos religiosos, viagens e descobertas, guerras e crises, não são senão ecos, reflexos, a agitação na superfície das águas, que oculta e revela, a um tempo, o movimento profundo: a luta pela formação do Império.
O Jardim das Aflições - De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 2 de Setembro, 2017
segunda-feira, 29 de julho de 2019
Ilusão e Utopia
Trata-se de neutralizar a inteligência humana, colocando-a no encalço de metas utópicas que, pela dialética infernal que transfigura cada derrota em sinal da vitória próxima, a absorverão tanto mais completamente quanto mais os resultados obtidos no esforço forem cair longe das finalidades sonhadas. É somente isto que explica o fenômeno de milhares de intelectuais se recusarem, durante quase um século, a enxergar os males do comunismo, ou, depois da queda do Muro de Berlim, a reconhecer qualquer conexão entre esses males e o ideal socialista. Não é realmente o efeito de um singular escotoma que a intelectualidade esquerdista veja em todo movimento de direita, mesmo tímido, a marca de um ressurgimento nazifascista, e de outro lado possa crer que o ideal socialista emergiu do Gulag isento de toda mácula? Não é uma estranha morbidade que a ideologia que reduz a ação dos indivíduos a mera expressão das correntes ideológicas profundas explique as sessenta milhões de vítimas de Stálin como resultado da maldade fortuita de um só homem, sem qualquer raiz na ideologia por ele professada? Que os defensores intransigentes do conceito da sociedade como um todo substancial, como bloco orgânico onde se fundem inseparadamente ideologia e prática, expliquem os crimes do governo soviético como desvios acidentais totalmente alheios à ideologia marxista? Não é mesmo demente a obstinação de manter a imagem de Karl Marx — ou mesmo a de Lênin — limpa de todo contágio com os crimes da ditadura soviética, quando nem mesmo Jesus Cristo deixou de ser responsabilizado pelas crueldades da Inquisição? Não é estranho que após tudo o que se revelou sobre a tirania comunista o socialismo ainda continue a ser um ideal respeitável, quando crimes de muito menor escala bastaram para manchar de sangue para sempre a imagem do fascismo italiano, do franquismo ou das ditaduras latino-americanas? Não é enfim uma anomalia intelectual que aquela filosofia que mais enfatizou o arraigamento histórico-social dos conceitos abstratos — condenando como “metafísica” toda admissão de essências a-históricas ou supra-históricas — apresente agora o socialismo como essência pura incontaminada por um século de experiência comunista? Como explicar a cegueira obstinada de filósofos, de intelectuais, de artistas, entre os mais notáveis do século, se não pela formidável potência ilusionista inerente à raiz mesma do marxismo, pela sua capacidade quase diabólica de transfigurar o quadro das aparências e levar as pessoas a verem as coisas diferentes do que são?
Que Marx tivesse, pessoalmente, um tremendo senso do teatro, do fingimento, da prestidigitação, é coisa que os biógrafos já estabeleceram com certeza suficiente. Mas isto não bastaria para dar à sua filosofia tamanho poder de ludibriar as consciências. Quando, no entanto, notamos que o primeiro interesse acadêmico do jovem Marx foi devotado ao estudo do príncipe dos ilusionistas filosóficos, e em seguida constatamos ser idêntica, em Epicuro e nele, a mixórdia proposital e alucinógena da teoria na prática e da prática na teoria, então compreendemos a virulência inesgotável da herança epicurista, capaz de atravessar os milênios e ressurgir a cada novo empenho cíclico de instaurar em alguma parte do mundo o reinado da impostura.
O Jardim das Aflições - De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 2 de Setembro, 2017
Que Marx tivesse, pessoalmente, um tremendo senso do teatro, do fingimento, da prestidigitação, é coisa que os biógrafos já estabeleceram com certeza suficiente. Mas isto não bastaria para dar à sua filosofia tamanho poder de ludibriar as consciências. Quando, no entanto, notamos que o primeiro interesse acadêmico do jovem Marx foi devotado ao estudo do príncipe dos ilusionistas filosóficos, e em seguida constatamos ser idêntica, em Epicuro e nele, a mixórdia proposital e alucinógena da teoria na prática e da prática na teoria, então compreendemos a virulência inesgotável da herança epicurista, capaz de atravessar os milênios e ressurgir a cada novo empenho cíclico de instaurar em alguma parte do mundo o reinado da impostura.
O Jardim das Aflições - De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 2 de Setembro, 2017
sexta-feira, 26 de julho de 2019
Propaganda e Imaginação
Como foi possível chegar a esse ponto? Quais as causas e os agentes que se encontram por trás desse fenômeno, que diferencia radicalmente o mundo atual de todas as civilizações precedentes?
A resposta é decepcionantemente simples e pavloviana: o homem moderno foi submetido a uma dose de estimulação contraditória superior a tudo quanto seus antepassados poderiam sequer imaginar; ele já passou da fase ultraparadoxal, todas as suas cadeias de reflexos foram invertidas ou pervertidas, e agora ele só crê naquilo que seja flagrantemente contrário às evidências. Um campo fértil para os abusos da estimulação paradoxal é a propaganda. Os slogans, as figuras, os jingles e logotipos da propaganda povoam a imaginação do homem de hoje exatamente como outrora os anjos, demônios, heróis e duendes do imaginário tradicional. Eles formam o vocabulário básico no qual o habitante das grandes cidades expressa seus desejos, aspirações e temores. O homo urbanus está preso no círculo da linguagem publicitária, já que sua imaginação não tem outra fonte para buscar inspiração e modelos de conduta além das comunicações de massa. Assim, ao mesmo tempo que distingue conscientemente entre propaganda e verdade, sabendo que a propaganda é um universo de enganos, ele não pode deixar de se guiar por ela na prática, de vez que a inteligência não pode por em movimento a vontade senão por intermédio da imaginação e que sua imaginação não tem outros conteúdos senão os que nela foram inoculados pela propaganda. Daí que ele aja continuamente contra aquilo que sabe. Ele sabe por exemplo que dirigir em alta velocidade é uma imprudência estúpida, mas não tem outro modelo do homem forte que deseja ser senão o de Ayrton Senna. Ele sabe que os cigarros de baixos teores de nicotina podem ser perigosamente radioativos, mas sua imaginação — pelo efeito conjugado da campanha contra a nicotina e da propaganda de cigarros — associou a eles um sentimento de higiene e segurança perfeitamente imbecil. A ruptura entre conduta e crença, inócua em casos isolados, ao generalizar-se para todos os setores e momentos da vida provoca uma angústia insuportável, que tem de ser reprimida a todo custo. Mas reprimir essa angústia é abdicar, no ato, de todo senso profundo da realidade, é condenar-se a um vaivém incessante entre a fantasia desesperançada e o desesperançado cinismo. Levado a agir como se acreditasse naquilo que nega, o homem das grandes cidades é hoje um esquizóide, que só pode acreditar na realidade quando ela não tem sentido e só pode enxergar um sentido na negação da realidade. Boa parte do que hoje se chama cultura é apenas a reprodução elaborada e pedante desse estado de espírito.
O Jardim das Aflições - De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 2 de Setembro, 2017
A resposta é decepcionantemente simples e pavloviana: o homem moderno foi submetido a uma dose de estimulação contraditória superior a tudo quanto seus antepassados poderiam sequer imaginar; ele já passou da fase ultraparadoxal, todas as suas cadeias de reflexos foram invertidas ou pervertidas, e agora ele só crê naquilo que seja flagrantemente contrário às evidências. Um campo fértil para os abusos da estimulação paradoxal é a propaganda. Os slogans, as figuras, os jingles e logotipos da propaganda povoam a imaginação do homem de hoje exatamente como outrora os anjos, demônios, heróis e duendes do imaginário tradicional. Eles formam o vocabulário básico no qual o habitante das grandes cidades expressa seus desejos, aspirações e temores. O homo urbanus está preso no círculo da linguagem publicitária, já que sua imaginação não tem outra fonte para buscar inspiração e modelos de conduta além das comunicações de massa. Assim, ao mesmo tempo que distingue conscientemente entre propaganda e verdade, sabendo que a propaganda é um universo de enganos, ele não pode deixar de se guiar por ela na prática, de vez que a inteligência não pode por em movimento a vontade senão por intermédio da imaginação e que sua imaginação não tem outros conteúdos senão os que nela foram inoculados pela propaganda. Daí que ele aja continuamente contra aquilo que sabe. Ele sabe por exemplo que dirigir em alta velocidade é uma imprudência estúpida, mas não tem outro modelo do homem forte que deseja ser senão o de Ayrton Senna. Ele sabe que os cigarros de baixos teores de nicotina podem ser perigosamente radioativos, mas sua imaginação — pelo efeito conjugado da campanha contra a nicotina e da propaganda de cigarros — associou a eles um sentimento de higiene e segurança perfeitamente imbecil. A ruptura entre conduta e crença, inócua em casos isolados, ao generalizar-se para todos os setores e momentos da vida provoca uma angústia insuportável, que tem de ser reprimida a todo custo. Mas reprimir essa angústia é abdicar, no ato, de todo senso profundo da realidade, é condenar-se a um vaivém incessante entre a fantasia desesperançada e o desesperançado cinismo. Levado a agir como se acreditasse naquilo que nega, o homem das grandes cidades é hoje um esquizóide, que só pode acreditar na realidade quando ela não tem sentido e só pode enxergar um sentido na negação da realidade. Boa parte do que hoje se chama cultura é apenas a reprodução elaborada e pedante desse estado de espírito.
O Jardim das Aflições - De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 2 de Setembro, 2017
quinta-feira, 25 de julho de 2019
Informação e Manipulação
Não há talvez no mundo um setor de pesquisas em que governos, partidos políticos, organizações religiosas e pseudo-religiosas, empresas e sindicatos tenham investido mais do que no dos meios de subjugar a mente humana. O rol das técnicas que o século XX concebeu para esse fim é de fazer inveja aos cientistas de outros ramos: reflexos condicionados, lavagem cerebral, guerra psicológica, influência subliminar, controle do imaginário, engenharia comportamental, informação dirigida, Programação Neurolingüística, hipnose instantânea, estimulação por feromônios, a lista não tem mais fim. O domador de homens tem hoje à sua disposição um arsenal de recursos mais vasto e eficaz que o dos técnicos de qualquer outro campo de atividade.
Esses conhecimentos não estão guardados em arquivos e bibliotecas, para consulta de raros pesquisadores e curiosos: estão todos sendo usados na prática, em muitos países do mundo, para as mais variadas finalidades. Não há disputa política, campanha publicitária, propaganda ideológica ou religiosa que não faça amplo uso deles, submetendo a mente humana a um bombardeio atordoante, que impossibilita o exercício normal do discernimento e predispõe as massas a uma nova patologia que recebeu a denominação, muito pertinente, de psicose informática.
A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a onipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. Sem ela, os grandes movimentos de massa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir. É impossível imaginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses; o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorganizavam a sociedade civil; como teriam se desenrolado os dois conflitos mundiais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica; o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitalistas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre populações que não têm disto a menor suspeita; que fim teriam levado as organizações esotéricas e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo; qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o uso da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jovem de todos os países.
O Jardim das Aflições - De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 2 de Setembro, 2017
Esses conhecimentos não estão guardados em arquivos e bibliotecas, para consulta de raros pesquisadores e curiosos: estão todos sendo usados na prática, em muitos países do mundo, para as mais variadas finalidades. Não há disputa política, campanha publicitária, propaganda ideológica ou religiosa que não faça amplo uso deles, submetendo a mente humana a um bombardeio atordoante, que impossibilita o exercício normal do discernimento e predispõe as massas a uma nova patologia que recebeu a denominação, muito pertinente, de psicose informática.
A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a onipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. Sem ela, os grandes movimentos de massa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir. É impossível imaginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses; o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorganizavam a sociedade civil; como teriam se desenrolado os dois conflitos mundiais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica; o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitalistas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre populações que não têm disto a menor suspeita; que fim teriam levado as organizações esotéricas e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo; qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o uso da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jovem de todos os países.
O Jardim das Aflições - De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
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quarta-feira, 24 de julho de 2019
Poder e Dominação
Esta identificação entre socialismo e liberdade resulta, em parte, de uma obsessão pelo poder, e de uma confusão entre questões de liberdade e questões de poder. Por toda a parte, o radical vê dominação: do homem pelo homem, de um grupo por outro grupo e de uma classe sobre outra classe. Ele tem em vista um futuro sem dominação, no qual não haverá poder para assegurar a obediência dos despossuídos. E ele imagina que esta condição não só é possível, mas também que se trata de um estado de liberdade universal. Em outras palavras, ele vê igualdade e liberdade como profundamente compatíveis, e realizáveis por meio da destruição do poder.
Este anseio por um mundo “sem poderes" - que encontra sua expressão mais eloquente nos escritos de Foucault - é incoerente. A condição da sociedade é essencialmente uma condição de dominação, na qual pessoas estão vinculadas umas às outras por emoções e lealdades, e discernidas por poderes e rivalidades. Não há sociedade que abra mão destas realidades humanas, nem deveríamos ansiar por uma, já que é destes componentes que nossas satisfações mundanas são compostas. Mas onde há lealdade há poder; e onde há rivalidade há necessidade de governo. Como Kenneth Minogue colocou:
Nossa preocupação como seres políticos não deveria ser abolir esses poderes que unem a sociedade, mas garantir que eles não serão usados também para dividi-la. Deveríamos visar não a um mundo sem poder, mas a um mundo onde o poder é pacificamente exercido e no qual os conflitos são resolvidos de acordo com uma concepção de justiça aceitável àqueles que se engajaram neles.
O radical é impaciente com esta “justiça natural” que habita silente no intercurso social humano. Ou ele a descarta, como o marxista, como uma ficção de “ideologia burguesa", ou ele a desvia de seu curso natural, insistindo que a prioridade deve ser dada para o oprimido, e os frutos da adjudicação, removidos das mãos do “opressor". Esta segue da postura - ilustrada em sua forma mais sutil na obra de Dori - é antirrevolucionária em seus métodos, mas revolucionária em seus os letivos. O americano liberal está tão convencido do mal da dominação quanto está o parisiense gauchiste. Ele só se distingue por reconhecer que as instituições são, no fim, necessárias para seu propósito, e que a ideologia não é um substituto para o trabalho paciente da lei.
Pensadores da Nova Esquerda - Roger Scruton
¹ Kenneth Minogue, Alien Powers: The Pure Theory of ideology. London, 1985, p. 226.
Este anseio por um mundo “sem poderes" - que encontra sua expressão mais eloquente nos escritos de Foucault - é incoerente. A condição da sociedade é essencialmente uma condição de dominação, na qual pessoas estão vinculadas umas às outras por emoções e lealdades, e discernidas por poderes e rivalidades. Não há sociedade que abra mão destas realidades humanas, nem deveríamos ansiar por uma, já que é destes componentes que nossas satisfações mundanas são compostas. Mas onde há lealdade há poder; e onde há rivalidade há necessidade de governo. Como Kenneth Minogue colocou:
[ ... ] o germe da dominação mora no coração do que é humano, e a conclusão que salta à vista é que a tentativa de superar a dominação, tal como esta ideia é metafisicamente entendida na ideologia, é a tentativa de destruir a humanidade.¹
Nossa preocupação como seres políticos não deveria ser abolir esses poderes que unem a sociedade, mas garantir que eles não serão usados também para dividi-la. Deveríamos visar não a um mundo sem poder, mas a um mundo onde o poder é pacificamente exercido e no qual os conflitos são resolvidos de acordo com uma concepção de justiça aceitável àqueles que se engajaram neles.
O radical é impaciente com esta “justiça natural” que habita silente no intercurso social humano. Ou ele a descarta, como o marxista, como uma ficção de “ideologia burguesa", ou ele a desvia de seu curso natural, insistindo que a prioridade deve ser dada para o oprimido, e os frutos da adjudicação, removidos das mãos do “opressor". Esta segue da postura - ilustrada em sua forma mais sutil na obra de Dori - é antirrevolucionária em seus métodos, mas revolucionária em seus os letivos. O americano liberal está tão convencido do mal da dominação quanto está o parisiense gauchiste. Ele só se distingue por reconhecer que as instituições são, no fim, necessárias para seu propósito, e que a ideologia não é um substituto para o trabalho paciente da lei.
Pensadores da Nova Esquerda - Roger Scruton
¹ Kenneth Minogue, Alien Powers: The Pure Theory of ideology. London, 1985, p. 226.
Publicado no Facebook em 31 de Agosto, 2017
terça-feira, 23 de julho de 2019
Art and Meaning
A large number of influences, which no one could hope to find own completely, led to further explorations of the symbol-object dualism in art. There is no doubt that John Cage, with his interest in Zen, had a profound influence on art as well on music. His friends Jasper Johns and Robert Rauschenberg both explored the distinction between objects and symbols by using objects as symbols for themselves - or, to flip the coin, by using symbols as objects for themselves. All of this was perhaps intended to break down the notion that art is one step removed from reality - that art speaks in “code”, for which the viewer must act as interpreter. The idea was to eliminate the step of interpretation and let the naked object simply be, period. (“Period” - a curious case of use-mention blur.) However, if this was the intention, it was a monumental flop, and perhaps had to be.
Any time an object is exhibited in a gallery or dubbed a “work”, it acquires an aura of deep inner significance - no matter how much the viewer has been warned not to look for meaning. In fact, there is a backfiring effect whereby the more that viewers are told to look at these objects without mystification, the more mystified the viewers get. After all, if a wooden crate on a museum floor is just a wooden crate on a museum floor, then why doesn’t the janitor haul it out back and throw it in the garbage? Why is the name of an artist attached to it? Why did the artist want to demystify art? Why isn’t that dirt clod out front labeled with an artist’s name? Is this a hoax? Am I crazy, or are artists crazy? More and more questions flood into the viewer’s mind; he can’t help it. This is the “frame effect” which art - Art - automatically creates. There is no way to suppress the wonderings in the minds of the curious.
Göedel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid - Douglas R. Hofstadter
Publicado no Facebook em 15 de Agosto, 2017
Any time an object is exhibited in a gallery or dubbed a “work”, it acquires an aura of deep inner significance - no matter how much the viewer has been warned not to look for meaning. In fact, there is a backfiring effect whereby the more that viewers are told to look at these objects without mystification, the more mystified the viewers get. After all, if a wooden crate on a museum floor is just a wooden crate on a museum floor, then why doesn’t the janitor haul it out back and throw it in the garbage? Why is the name of an artist attached to it? Why did the artist want to demystify art? Why isn’t that dirt clod out front labeled with an artist’s name? Is this a hoax? Am I crazy, or are artists crazy? More and more questions flood into the viewer’s mind; he can’t help it. This is the “frame effect” which art - Art - automatically creates. There is no way to suppress the wonderings in the minds of the curious.
Göedel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid - Douglas R. Hofstadter
Publicado no Facebook em 15 de Agosto, 2017
segunda-feira, 22 de julho de 2019
Memory and Melody
In most people there coexists, along with a powerful procedural representation of the grammar of their native language, a weaker declarative representation of it. The two may easily be in conflict, so that a native speaker will often instruct a foreigner to say things he himself would never say, but which agree with the declarative “book learning” he acquired in school sometime. The intuitive or chunked laws of physics and other disciplines mentioned earlier fall mainly on the procedural side; the knowledge that an octopus has eight tentacles falls mainly on the declarative side.
In between the declarative and procedural extremes, there are all possible shades. Consider the recall of a melody. Is the melody stored in your brain, note by note? Could a surgeon extract a winding neural filaments from your brain, then stretch it straight, and finally proceed to pinpoint along it the successively stored notes, almost as if it were a piece of magnetic tape? If so, then melodies are stored declaratively. Or is the recall of a melody mediated by the interaction of a large number of symbols, some of which represent tonal relationships, others of which represent emotional qualities, others of which represent rhythmic devices, and so on? If so, then melodies are stored procedurally. In reality, there is probably a mixture of these extremes in the way a melody is stored and recalled.
It is interesting that, in pulling a melody out of memory, most people do not discriminate as to key, so that they are as likely to sing “Happy Birthday” in the key of F-sharp as in the key of C. This indicates that tone relationships, rather than absolute tones, are stored. But there is no reason that tone relationships could not be stored quite declaratively. On the other hand, some melodies are very easy to memorize, whereas others are extremely elusive. If it were just a matter of storing successive notes, any melody could be stored as easily as any other. The fact that some melodies are catchy and others are not seems to indicate that the brain has a certain repertoire of familiar patterns which are activated as the melody is heard. So, to “play back” the melody, those patterns would have to be activated in the same order. This returns us to the concept of symbols triggering one another, rather than a simple linear sequence of declaratively stored notes or tone relationships.
Göedel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid - Douglas R Hofstadter
Publicado no Facebook em 15 de Agosto, 2017
In between the declarative and procedural extremes, there are all possible shades. Consider the recall of a melody. Is the melody stored in your brain, note by note? Could a surgeon extract a winding neural filaments from your brain, then stretch it straight, and finally proceed to pinpoint along it the successively stored notes, almost as if it were a piece of magnetic tape? If so, then melodies are stored declaratively. Or is the recall of a melody mediated by the interaction of a large number of symbols, some of which represent tonal relationships, others of which represent emotional qualities, others of which represent rhythmic devices, and so on? If so, then melodies are stored procedurally. In reality, there is probably a mixture of these extremes in the way a melody is stored and recalled.
It is interesting that, in pulling a melody out of memory, most people do not discriminate as to key, so that they are as likely to sing “Happy Birthday” in the key of F-sharp as in the key of C. This indicates that tone relationships, rather than absolute tones, are stored. But there is no reason that tone relationships could not be stored quite declaratively. On the other hand, some melodies are very easy to memorize, whereas others are extremely elusive. If it were just a matter of storing successive notes, any melody could be stored as easily as any other. The fact that some melodies are catchy and others are not seems to indicate that the brain has a certain repertoire of familiar patterns which are activated as the melody is heard. So, to “play back” the melody, those patterns would have to be activated in the same order. This returns us to the concept of symbols triggering one another, rather than a simple linear sequence of declaratively stored notes or tone relationships.
Göedel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid - Douglas R Hofstadter
Publicado no Facebook em 15 de Agosto, 2017
sexta-feira, 19 de julho de 2019
Reflexão #3
quinta-feira, 18 de julho de 2019
Reflexão #2
quarta-feira, 17 de julho de 2019
Estado e Classe
É justamente desta visão¹ do processo político que o radical pretende se esquivar. Visto que nada que não seja a revolução (a morte do Estado) pode satisfazê-lo, toda e qualquer mudança constitucional precisa ser descartada ab initio. E também é preciso deixar claro desde o começo que nenhuma mudança no repertório da burguesia é capaz de satisfazer suas exigências. É por estas razões que o radical direciona o seu ressentimento não para o Estado, mas para a classe que é supostamente representada por ele, e acredita que todas as grandes batalhas ocorrem entre as classes. (Este é o motivo verdadeiro pelo qual ele descreve os Estados ocidentais como "capitalistas" . Não importa que eles tenham, como Espanha e França, governos socialistas; tudo isso é muito superficial para ser percebido pelo ponto de vista radical - que enxerga apenas as profundezas inacessíveis aos iludidos). Pondo isto em prática, o radical não precisa se dar o trabalho de se relacionar com seus opositores, e concede-se o direito de rejeitar qualquer mudança ou compromisso que lhe seja oferecido. Por isso, quando as instituições de ensino " burguês" produziram suas visões esclarecidas e "universalistas " do homem, contrastando-as com o "racismo" de que a sociedade burguesa tinha com tanta frequência sido acusada, os radicais antirracistas não puderam perceber esta mudança como uma virtude. Afinal, é uma demonstração de que os corações burgueses podem mudar, mas os burgueses não podem ter corações:
Em outras palavras, não importa o que mude no Estado, as intenções da classe dominante permanecem inalteradas. A conclusão acertada que decorre desta mudança não é esta, mas uma que os radicais não conseguem admitir. A conclusão correta é que a classe dominante não é, no fim das contas, idêntica ao Estado: ela é diferente da personalidade jurídica que se pode culpar, e, nesse caso, o ressentimento pode ser razoavelmente aplicável. A classe dominante é revelada, nesse implacável ódio radical, pelo que ela é: uma força material que não faz sentido condenar ou louvar, um fato econômico a ser avaliado não por aquilo que ele faz (porque ele não faz nada), mas por aquilo que ele faz acontecer. Sendo assim, apesar da necessidade radical em personificar a classe, também se lhe exige preservar no cerne de seu pensamento a imagem da classe como algo essencialmente impessoal, além da esfera do julgamento moral. A contradição (que existe de forma análoga no pensamento sobre o "racismo") só pode ser evitada se houver o reconhecimento da diferença fundamental entre classe e Estado. Só que reconhecê-la, e atribuir-lhe o significado moral que ela demanda, é derrubar as bases do terceiro-mundismo. Se mesmo diante de tudo isso continuamos culpando os Estados ocidentais - qualquer que seja a casuística - pelo empobrecimento do bom selvagem, não podemos culpá-los por conta de seu "capitalismo", por conta disto que não pertence ao âmbito superficial da tomada de decisão política, mas apenas à estrutura "profunda " que está além do louvor e da culpa.
Podemos lamentar a confusão intelectual manifesta nesta contradição. No entanto, seu efeito moral é muito mais grave. Ela encoraja o radical a direcionar seu ódio àquilo que não possui nem vontade nem racionalidade. Motiva-o a se engajar não com o mundo real das negociações políticas e da tomada de compromisso, mas com o mundo ilusório e "profundo" das forças intransigentes, em que luz e trevas lutam por uma ascendência metafísica que não pode ser atingida por mera vontade humana. Este pensamento maniqueísta destrói no radical tanto o espírito de comprometimento em si quanto a habilidade de perceber o compromisso como um valor político. Deixa-o pronto para aceitar como sua forma predileta de política - uma que só pode ser "superficialmente" diferente daquela contra a qual ele se revolta-os procedimentos do governo totalitário, dos quais o compromisso, os ajustes, o criticismo e a reforma foram finalmente eliminados por uma mudança "irreversível".
Pensadores da Nova Esquerda - Roger Scruton
¹ “o objeto do ódio radical seja primordialmente identificado como uma classe, e não como um Estado”
Publicado no Facebook em 7 de Julho, 2017
O Universalismo foi oferecido ao mundo como um presente do poderoso ao fraco. Timeo Danaos et dona ferentes! [sic] O presente em si mesmo abrigava racismo, pois ele dava ao que o recebia duas escolhas: aceitar o presente, assim reconhecendo que alguém estava abaixo na hierarquia de sabedoria adquirida; ou recusar o presente, assim negando a si mesmo as armas que poderiam reverter a desigual situação de poder real.
Em outras palavras, não importa o que mude no Estado, as intenções da classe dominante permanecem inalteradas. A conclusão acertada que decorre desta mudança não é esta, mas uma que os radicais não conseguem admitir. A conclusão correta é que a classe dominante não é, no fim das contas, idêntica ao Estado: ela é diferente da personalidade jurídica que se pode culpar, e, nesse caso, o ressentimento pode ser razoavelmente aplicável. A classe dominante é revelada, nesse implacável ódio radical, pelo que ela é: uma força material que não faz sentido condenar ou louvar, um fato econômico a ser avaliado não por aquilo que ele faz (porque ele não faz nada), mas por aquilo que ele faz acontecer. Sendo assim, apesar da necessidade radical em personificar a classe, também se lhe exige preservar no cerne de seu pensamento a imagem da classe como algo essencialmente impessoal, além da esfera do julgamento moral. A contradição (que existe de forma análoga no pensamento sobre o "racismo") só pode ser evitada se houver o reconhecimento da diferença fundamental entre classe e Estado. Só que reconhecê-la, e atribuir-lhe o significado moral que ela demanda, é derrubar as bases do terceiro-mundismo. Se mesmo diante de tudo isso continuamos culpando os Estados ocidentais - qualquer que seja a casuística - pelo empobrecimento do bom selvagem, não podemos culpá-los por conta de seu "capitalismo", por conta disto que não pertence ao âmbito superficial da tomada de decisão política, mas apenas à estrutura "profunda " que está além do louvor e da culpa.
Podemos lamentar a confusão intelectual manifesta nesta contradição. No entanto, seu efeito moral é muito mais grave. Ela encoraja o radical a direcionar seu ódio àquilo que não possui nem vontade nem racionalidade. Motiva-o a se engajar não com o mundo real das negociações políticas e da tomada de compromisso, mas com o mundo ilusório e "profundo" das forças intransigentes, em que luz e trevas lutam por uma ascendência metafísica que não pode ser atingida por mera vontade humana. Este pensamento maniqueísta destrói no radical tanto o espírito de comprometimento em si quanto a habilidade de perceber o compromisso como um valor político. Deixa-o pronto para aceitar como sua forma predileta de política - uma que só pode ser "superficialmente" diferente daquela contra a qual ele se revolta-os procedimentos do governo totalitário, dos quais o compromisso, os ajustes, o criticismo e a reforma foram finalmente eliminados por uma mudança "irreversível".
Pensadores da Nova Esquerda - Roger Scruton
¹ “o objeto do ódio radical seja primordialmente identificado como uma classe, e não como um Estado”
Publicado no Facebook em 7 de Julho, 2017
terça-feira, 16 de julho de 2019
Fantasy and Fact
Suppose a friend who has borrowed your car telephones you to say that your car skidded off a wet mountain road, careened against a bank, and overturned, and she narrowly escaped death. You conjure up a series of images in your mind, which get progressively more vivid as she adds details, and in the end you “see it all in your mind’s eye”. Then she tells you that it’s all been an April Fool’s joke, and both she and the car are fine! In many ways that is irrelevant. The story and the images lose nothing of their vividness, and the memory will stay with you for a long, long time. Later, you may even think of her as an unsafe driver because of the strength of the first impression, which should have been wiped out when you learned it was all untrue. Fantasy and fact intermingle very closely in our minds, and this is because thinking involves the manufacture and manipulation of complex descriptions, which need in no way be tied down to real events or things.
Gödel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid - Douglas R. Hofstadter
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Fantasia e Fato
Suponha uma amiga que tenha pego seu carro emprestado o telefona para dizer que seu carro derrapou de uma estrada molhada em uma montanha, carenou contra a ribanceira, e capotou, e ela escapou da morte por pouco. Você forma uma série de imagens em sua cabeça, que ficam progressivamente mais vívidas ao passo que ela dá mais detalhes, e no fim você “vê tudo no seu olho da mente”. Então, ela conta que foi tudo uma piada de primeiro de Abril, e tanto ela quanto o carro estão bem! De várias maneiras isso é irrelevante. A história e as imagens não perdem nada de sua vivacidade, e a memória vai permanecer com você por um bom tempo. Mais tarde, você pode até considerá-la uma motorista imprudente por causa da força da primeira impressão, que deveria ter sido apagada quando você soube que era tudo mentira. Fantasia e fato confundem-se em nossas mentes, e isso é porque pensar envolve a manufatura e manipulação de descrições complexas, que não precisam de maneira nenhuma estar atreladas a coisas ou eventos reais.
Publicado no Facebook em 27 de Julho, 2017
Gödel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid - Douglas R. Hofstadter
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Fantasia e Fato
Suponha uma amiga que tenha pego seu carro emprestado o telefona para dizer que seu carro derrapou de uma estrada molhada em uma montanha, carenou contra a ribanceira, e capotou, e ela escapou da morte por pouco. Você forma uma série de imagens em sua cabeça, que ficam progressivamente mais vívidas ao passo que ela dá mais detalhes, e no fim você “vê tudo no seu olho da mente”. Então, ela conta que foi tudo uma piada de primeiro de Abril, e tanto ela quanto o carro estão bem! De várias maneiras isso é irrelevante. A história e as imagens não perdem nada de sua vivacidade, e a memória vai permanecer com você por um bom tempo. Mais tarde, você pode até considerá-la uma motorista imprudente por causa da força da primeira impressão, que deveria ter sido apagada quando você soube que era tudo mentira. Fantasia e fato confundem-se em nossas mentes, e isso é porque pensar envolve a manufatura e manipulação de descrições complexas, que não precisam de maneira nenhuma estar atreladas a coisas ou eventos reais.
Publicado no Facebook em 27 de Julho, 2017
segunda-feira, 15 de julho de 2019
Tempo e Cultura
O que perdura no tempo não é a sociocultura, documental e antropológica, mas os produtos superiores, de alcance universal. Da China antiga, conservam-se o I Ching e o taoismo, não os ritos de fertilidade e as festas populares. Da Grécia conservam-se a poesia e a filosofia, não os usos e costumes. Do mesmo modo, compare-se a durabilidade sempre idêntica dos ritos judaicos à variedade dos costumes locais e das crenças políticas que os judeus foram adotando e abandonando nas terras por que passavam. Do Brasil há de conservar-se não aquilo que faça “referência” à nossa identidade presente, mas aquilo que, do nosso presente e do nosso passado, tenha para os homens do futuro o valor de uma mensagem salvadora, de um sinal do sentido da vida e da força com que a inteligência humana salta por cima das condições locais e se integra na compreensão do universo total. Se queremos que os outros se interessem por nós, devemos antes de tudo nos interessar por eles. O homem de hoje, salvo dever profissional ou interesse erudito, não lê o I Ching para conhecer a China antiga, mas para conhecer-se a si mesmo. Ninguém estuda Platão e Aristóteles por mera curiosidade histórica, mas porque neles encontra guiamento, ajuda, sabedoria. Se queremos saber o que do Brasil sobreviverá, devemos perguntar-nos o que, nele, tem valor supratemporal, o que, nele, não fala de nós, mas fala aos homens do futuro sobre algo que para eles seja de importância vital. Uma cultura sobrevive por aquilo que dá aos homens do futuro, não por aquilo que guarda, narcisisticamente, da sua própria imagem.
O Futuro do Pensamento Brasileiro - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 3 de Maio, 2017
O Futuro do Pensamento Brasileiro - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 3 de Maio, 2017
sexta-feira, 12 de julho de 2019
Progresso e Amnésia
Noventa por cento da impressão de progresso advém do puro esquecimento, que apaga os termos de comparação e cria um passado sob medida para a vaidade e as ilusões do dia. Por definição, ninguém jamais dá pela falta do conhecimento perdido. O crepúsculo da consciência vem quase que invariavelmente acompanhado de um sentimento de ascensão luminosa.
Só o homem que sai deliberadamente em busca do que foi esquecido tem a medida da miséria da sua época. Se a História é um processo de auto-esclarecimento, como pretende Eric Voegelin, ela só o é desde o ponto de vista daqueles para os quais a História existe - e eles são cada vez mais raros. Para os demais, o passado humano é apenas uma galeria de imagens paradas, totalmente fantasiosas, nas quais creem enxergar ora o inverso, ora a antecipação do glorioso presente. Essas imagens governam a mente dos nossos contemporâneos com uma onipotência mágica. Isso é assim por toda parte. No Brasil, elas são apenas mais simples, mais esquemáticas, mais caricaturais - na medida exata da atrofia progressiva da imaginação nacional.
O Futuro do Pensamento Brasileiro - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 3 de Maio, 2017
Só o homem que sai deliberadamente em busca do que foi esquecido tem a medida da miséria da sua época. Se a História é um processo de auto-esclarecimento, como pretende Eric Voegelin, ela só o é desde o ponto de vista daqueles para os quais a História existe - e eles são cada vez mais raros. Para os demais, o passado humano é apenas uma galeria de imagens paradas, totalmente fantasiosas, nas quais creem enxergar ora o inverso, ora a antecipação do glorioso presente. Essas imagens governam a mente dos nossos contemporâneos com uma onipotência mágica. Isso é assim por toda parte. No Brasil, elas são apenas mais simples, mais esquemáticas, mais caricaturais - na medida exata da atrofia progressiva da imaginação nacional.
O Futuro do Pensamento Brasileiro - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 3 de Maio, 2017
quinta-feira, 11 de julho de 2019
Reflexão #1
quarta-feira, 10 de julho de 2019
Consciência e Propósito
Existe um instinto natural em pessoas que não refletem - as quais, ao tolerar os fardos que a vida lhes oferece e sem querer deixar a culpa onde elas não veem solução, buscam realização no mundo como ele é. Esse instinto é o de aceitar e apoiar, por meio de seus atos, as instituições e as práticas nas quais elas nasceram. Esse instinto, que tentei traduzir na linguagem autoconsciente da doutrina política, está enraizado na natureza humana; e, ao elaborar seus fundamentos, eu também estou sugerindo uma filosofia especulativa do homem. Essa filosofia distingue das atividades dos animais o comportamento peculiar que reconhecemos como humano: o comportamento de uma criatura que não tem somente instintos, desejos e necessidades, mas também valores; que existe não somente no presente, mas ainda no passado e no futuro; que não apenas se submete à realidade, mas que também faz de si parte dela e imprime no mundo a marca de sua vontade.
Agora, porém, a tarefa encontra um obstáculo. Defender o preconceito não refletido de uma pessoa ativa e normal era fácil em uma época em que preconceitos derivavam diretamente dos dogmas da religião recebida, ou quando a continuidade social garantia que aqueles que ascendiam para a autoconsciência ainda assim se afastavam apenas nas questões menores dos mortais mais felizes, que eram determinados a nunca questionar o que sabiam. Agora, entretanto, nós nos encontramos confrontados com esta entidade monstruosa, o homem moderno, a pessoa para quem qualquer conexão com uma ordem maior do que si mesmo tem que ser alcançada pelo próprio esforço, e que procura por essa ordem não necessariamente naquilo que existe ou existiu, mas mais frequentemente no que será ou poderá ser. Seu desejo inquieto de livrar-se do aqui e agora não é insuflado por nenhuma fé religiosa nem por nenhuma crença na imperfeição necessária das coisas mortais. Seu impulso transcendental se traduz em uma nostalgia que tudo consome, uma nostalgia não pelo passado, mas por um futuro que - como o paraíso - só pode ser descrito negativamente.
O que é Conservadorismo - Roger Scruton
Publicado no Facebook em 6 de Março, 2017
Agora, porém, a tarefa encontra um obstáculo. Defender o preconceito não refletido de uma pessoa ativa e normal era fácil em uma época em que preconceitos derivavam diretamente dos dogmas da religião recebida, ou quando a continuidade social garantia que aqueles que ascendiam para a autoconsciência ainda assim se afastavam apenas nas questões menores dos mortais mais felizes, que eram determinados a nunca questionar o que sabiam. Agora, entretanto, nós nos encontramos confrontados com esta entidade monstruosa, o homem moderno, a pessoa para quem qualquer conexão com uma ordem maior do que si mesmo tem que ser alcançada pelo próprio esforço, e que procura por essa ordem não necessariamente naquilo que existe ou existiu, mas mais frequentemente no que será ou poderá ser. Seu desejo inquieto de livrar-se do aqui e agora não é insuflado por nenhuma fé religiosa nem por nenhuma crença na imperfeição necessária das coisas mortais. Seu impulso transcendental se traduz em uma nostalgia que tudo consome, uma nostalgia não pelo passado, mas por um futuro que - como o paraíso - só pode ser descrito negativamente.
O que é Conservadorismo - Roger Scruton
Publicado no Facebook em 6 de Março, 2017
terça-feira, 9 de julho de 2019
Poesia e Veracidade
Ao ouvinte do discurso poético cabe afrouxar sua exigência de verossimilhança, admitindo que “não é verossímil que tudo sempre aconteça de maneira verossímil”, para captar a verdade universal que pode estar sugerida mesmo por uma narrativa aparentemente inverossímil. Aristóteles, em suma, antecipa a suspension of disbelief de que falaria mais tarde Samuel Taylor Coleridge. Admitindo um critério de verossimilhança mais flexível, o leitor (ou espectador) admite que as desventuras do herói trágico poderiam ter acontecido a ele mesmo ou a qualquer outro homem, ou seja, são possibilidades humanas permanentes.
Aristóteles em nova perspectiva - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 26 de Janeiro, 2017
Aristóteles em nova perspectiva - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 26 de Janeiro, 2017
segunda-feira, 8 de julho de 2019
Notícias e Desinformação
Quanto maior a frequência com que consultamos as informações, mais desproporcionalmente propensos estamos a captar ruídos (em vez da parte valiosa, chamada de sinal); portanto, maior será a relação ruído-sinal. E há uma confusão nem um pouco psicológica, e sim inerente às próprias informações. Digamos que você consulte anualmente as informações sobre os preços de ações, as vendas de fertilizantes da fábrica de seu sogro ou os números de inflação em Vladivostok. Suponha, ainda, que a relação sinal-ruído do que está sendo observado com frequência anual é de cerca de um para um (metade ruído, metade sinal) — o que significa que cerca de metade das mudanças são melhorias ou degradações reais, e a outra metade provém da aleatoriedade. Essa relação é aquela obtida com base em observações anuais. Mas, se você olhar para as mesmíssimas informações diariamente, a composição mudaria para 95% de ruído e 5% de sinal. E, se você observar as informações de hora em hora, como fazem as pessoas imersas nos noticiários e nas variações de preço do mercado, a diferença passa a ser de 99,5% de ruído e 0,5% de sinal. Ou seja, há duzentas vezes mais ruído do que sinal — é por isso que qualquer pessoa que leve em consideração os noticiários (exceto quando acontecimentos muitíssimo significativos ocorrem) está a apenas um passo da imbecilidade.
Antifrágil - Nassim Nicholas Taleb
Publicado no Facebook em 26 de Dezembro, 2016
Antifrágil - Nassim Nicholas Taleb
Publicado no Facebook em 26 de Dezembro, 2016
quinta-feira, 4 de julho de 2019
Ser e Conservar
Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o facto ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica. As relações e lealdades familiares serão preferíveis ao fascínio de vínculos mais proveitosos; comprar e expandir será menos importante que conservar, cultivar e desfrutar; a dor da perda será maior que a excitação da novidade ou da promessa. É ser igual ao nosso próprio destino, é viver ao nível dos meios, contentar-se com a necessidade de maior perfeição pessoal como com as circunstâncias que nos rodeiam.
Rationalism in Politics and Other Essays - Michael Oakeshott
Li esta citação em: http://sensoincomum.org/2016/11/06/deturparam-marx-milesima-edicao/
Há também um artigo do Bruno Garschagen na Gazeta do Povo com essa mesma citação.
Publicado no Facebook em 7 de Novembro, 2016
Rationalism in Politics and Other Essays - Michael Oakeshott
Li esta citação em: http://sensoincomum.org/2016/11/06/deturparam-marx-milesima-edicao/
Há também um artigo do Bruno Garschagen na Gazeta do Povo com essa mesma citação.
Publicado no Facebook em 7 de Novembro, 2016
quarta-feira, 3 de julho de 2019
Erro e Aprimoramento
Vejo um perdedor como alguém que, depois de cometer um erro, não reflete sobre o ocorrido, não o explora, sente-se envergonhado e defensivo, em vez de se aprimorar com a nova informação, e tenta explicar por que cometeu o erro, em vez de seguir em frente. Esses tipos muitas vezes se consideram “vítimas” de algum grande complô, de um chefe ruim ou do mau tempo.
Finalmente, uma reflexão. Aquele que nunca pecou é menos confiável do que aquele que só pecou uma vez. E alguém que tenha cometido muitos erros — embora nunca o mesmo erro mais de uma vez — é mais confiável do que alguém que nunca cometeu nenhum.
Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos - Nassim Nicholas Taleb
Publicado no Facebook em 1 de Outubro, 2016
Finalmente, uma reflexão. Aquele que nunca pecou é menos confiável do que aquele que só pecou uma vez. E alguém que tenha cometido muitos erros — embora nunca o mesmo erro mais de uma vez — é mais confiável do que alguém que nunca cometeu nenhum.
Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos - Nassim Nicholas Taleb
Publicado no Facebook em 1 de Outubro, 2016
terça-feira, 2 de julho de 2019
Lei e Punição
A evolução contemporânea dos conceitos legais e da moralidade social democrática está orientada para desmantelar as tradições antigas de manutenção da ordem e da lei por meio da repressão punitiva. Muitos países abandonaram a pena capital, incomodados com os abusos genocidas durante a última guerra mundial. Outras punições e os métodos de sua execução também têm sido mitigados, levando em consideração as motivações psicológicas e as circunstâncias do crime. A consciência das nações civilizadas protesta contra o princípio do direito romano - Dura lex, sed lex¹ - e ao mesmo tempo os psicólogos compreendem a possibilidade de que muitas pessoas atualmente desequilibradas possam reverter sua situação para uma vida social normal, graças a medidas pedagógicas apropriadas. Contudo, a prática só confirma essa possibilidade parcialmente.
A razão é que a mitigação da lei não foi balanceada com os métodos correspondentes de repressão dos processos da gênese do mal, com base em sua compreensão. Isso provoca uma crise na área de proteção da sociedade contra o crime e torna mais fácil para que os círculos de patocratas utilizem o terrorismo a fim de atingir os seus objetivos expansionistas. Sob tais condições, muitas pessoas sentem que o retorno à tradição de maior rigor legal é o único meio de proteger a sociedade de um excesso do mal. Outros acreditam que esse comportamento tradicional nos enfraquece moralmente e abre a porta para abusos irrevogáveis. Eles então subordinam a vida e a saúde dos outros aos valores humanistas.
A fim de sair dessa crise, nós devemos iniciar todos os nossos esforços na busca por uma nova via, que ao mesmo tempo seria mais humanitária, mas também protegeria efetivamente as sociedades e os indivíduos indefesos. Tal possibilidade existe e pode ser implementada com base na compreensão objetiva da gênese do mal.
Ponerologia: Psicopatas no Poder - Andrew Lobaczewski
¹ Latim: a lei é dura, porém é a lei
Publicado no Facebook em 19 de Outubro, 2016
A razão é que a mitigação da lei não foi balanceada com os métodos correspondentes de repressão dos processos da gênese do mal, com base em sua compreensão. Isso provoca uma crise na área de proteção da sociedade contra o crime e torna mais fácil para que os círculos de patocratas utilizem o terrorismo a fim de atingir os seus objetivos expansionistas. Sob tais condições, muitas pessoas sentem que o retorno à tradição de maior rigor legal é o único meio de proteger a sociedade de um excesso do mal. Outros acreditam que esse comportamento tradicional nos enfraquece moralmente e abre a porta para abusos irrevogáveis. Eles então subordinam a vida e a saúde dos outros aos valores humanistas.
A fim de sair dessa crise, nós devemos iniciar todos os nossos esforços na busca por uma nova via, que ao mesmo tempo seria mais humanitária, mas também protegeria efetivamente as sociedades e os indivíduos indefesos. Tal possibilidade existe e pode ser implementada com base na compreensão objetiva da gênese do mal.
Ponerologia: Psicopatas no Poder - Andrew Lobaczewski
¹ Latim: a lei é dura, porém é a lei
Publicado no Facebook em 19 de Outubro, 2016
segunda-feira, 1 de julho de 2019
Psicopatia e Dissimulação
Nosso primeiro contato com o psicopata é caracterizado por um fluxo de palavras que sai com facilidade, evitando assuntos realmente importantes com igual facilidade se estes não forem confortáveis para o interlocutor. Sua linha de pensamento também evita aqueles assuntos abstratos sobre sentimentos humanos e valores cuja representação é ausente na visão de mundo do psicopata, a menos que, é claro, ele esteja sendo deliberadamente enganador, e neste caso usará muitas palavras “sentimentais” que, cuidadosamente analisadas, revelarão que ele não entende essas palavras do mesmo jeito que as pessoas normais o fazem. Nós, então, também sentimos que estamos lidando com uma imitação dos padrões de pensamento de uma pessoa normal, na qual alguma outra coisa é, na verdade, “normal”. Do ponto de vista lógico, o fluxo de pensamento é aparentemente correto, embora talvez removido dos critérios comumente aceitos. Uma análise formal mais detalhada, contudo, evidencia o uso de muitos paralogismos sugestivos.
Ponerologia: Psicopatas no Poder - Andrew Lobaczewski
Publicado no Facebook em 4 de Outubro, 2016
Ponerologia: Psicopatas no Poder - Andrew Lobaczewski
Publicado no Facebook em 4 de Outubro, 2016
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