quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Ulisses e Penélope

Claro, se Ulisses continuar na ilha de Calipso, não haverá Odisseia, e por conseguinte não haverá mais Ulisses. Então, o dilema permanece o mesmo: ou a imortalidade anônima – o que significa que, embora mantendo-se vivo para sempre, Ulisses terminará parecido com os mortos do Hades, que são chamados sem-nome, porque perderam sua identidade –, ou, se fizer a escolha oposta, uma existência mortal, é verdade, mas na qual Ulisses será ele mesmo, memorável, coroado de glória. Ulisses diz a Calipso que prefere voltar para casa.

Não há mais desejo, nem hímeros [desejo, ânsia] nem éros [amor, desejo], por essa Ninfa cacheada com quem ele vive há dez anos. E, se vai dormir com ela essa noite, é porque assim quer Calipso. Ele não quer mais. Seu único desejo é reencontrar a vida mortal, e inclusive deseja morrer. Seu hímeros se dirige para a vida mortal; quer concluir sua vida. Diz-lhe Calipso: “És tão afeiçoado a Penélope, preferes Penélope a mim? Achas que ela é mais bonita?”. “Ora essa, de jeito nenhum”, responde Ulisses, “és uma deusa, és a mais bela, a maior, mais maravilhosa que Penélope, bem sei. Mas Penélope é Penélope, é minha vida, é minha esposa, é minha terra”. “Muito bem”, diz Calipso, “compreendo.” E então ela cumpre as ordens e o ajuda a construir uma jangada. Juntos abatem as árvores, ligam os troncos para formar uma jangada sólida com um mastro. Assim Ulisses deixa Calipso e tem início uma nova série de aventuras.


O Universo, Os Deuses, Os Homens – Jean-Pierre Vernant

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Mulher e Humanidade

A mulher é dupla. Ela é essa barriga que engole tudo o que o esposo colheu a duras penas, à custa do suor de seu rosto, de seu cansaço e de seu trabalho, mas esse ventre é também o único que pode produzir o que prolonga a vida de um homem, isto é, um filho. O ventre da mulher representa, contraditoriamente, a parte noturna da vida humana, o esgotamento, mas também a parte de Afrodite, esta que traz nascimentos novos. A esposa encarna a voracidade que destrói e a fecundidade que produz. Resume todas as contradições de nossa existência. Como o fogo, é a marca do que é propriamente humano, pois só os homens se casam. O casamento diferencia os homens dos animais, os quais se acasalam assim como se alimentam, ao acaso dos encontros, de qualquer jeito. Portanto, a mulher é a marca de uma vida civilizada; ao mesmo tempo, foi criada à imagem das deusas imortais. Quando se olha uma mulher, vê-se Afrodite, Hera, Atena. Ela é de certa maneira a presença do divino nesta terra, por sua beleza, sedução, por sua kháris [graça]. A mulher reúne as desgraças da vida humana e seu aspecto divino. Oscila entre os deuses e os bichos, o que é próprio da humanidade.


O Universo, Os Deuses, Os Homens – Jean-Pierre Vernant

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Beleza e Encarnação

O exame da Vênus de Ticiano indica qual a razão pela qual a pornografia não pertence à esfera da arte, por que ela é incapaz da beleza em si e por que dessacraliza a beleza das pessoas que retrata. A imagem pornográfica é como uma varinha mágica que transforma sujeitos em objetos e pessoas em coisas; assim, acaba por tirar-lhes o encanto e destruir a fonte de sua beleza. Ela faz as pessoas se esconderem por trás de seus corpos como marionetes manejadas por cordões ocultos. Desde o cogito de Descartes, a ideia do eu como homúnculo interior influenciou nossas opiniões acerca da pessoa humana. A imagem cartesiana nos instiga a crer que passamos a vida conduzindo um animal numa coleira, forçando-o a fazer o que queremos até ele entrar em colapso e morrer. Sou um sujeito; meu corpo, um objeto: eu sou eu, ele é ele. Assim, o corpo torna-se mais uma coisa entre tantas outras, e a única forma que tenho de resgatá-lo é assegurando meu direito de propriedade, afirmando que este corpo não é apenas um objeto velho, mas um objeto que pertence a mim. É precisamente desse modo que a relação entre alma e corpo é vista na imagem pornográfica.

Existe, contudo, uma forma melhor de ver as coisas, a qual explica boa parte daquela velha moralidade que muitos, hoje, consideram inquietante. De acordo com essa perspectiva, meu corpo não é propriedade minha, mas – para empregarmos o termo teológico – minha encarnação. Meu corpo é um sujeito tanto quanto eu, e não um objeto. Eu o possuo na mesma medida em que possuo a mim mesmo. Estou inextricavelmente ligado a ele, e tudo aquilo que é feito com meu corpo é feito comigo. Além disso, há formas de tratá-lo que me levam a pensar e sentir de modo diferente, a perder meu senso moral, a tornar-me frio ou indiferente aos outros, a cessar meus julgamentos ou seguir princípios e ideais. Quando isso acontece, não sou apenas eu quem se vê prejudicado, mas também todos aqueles que me amam, necessitam de mim e travam relações comigo. Afinal, fiz mal àquela parte sobre a qual relacionamentos se edificam.

A velha moralidade, para a qual vender o corpo era incompatível com a doação do eu, tocava uma verdade. O sentimento sexual não é uma sensação que pode ser acionada e interrompida à vontade; antes, é o tributo que um eu presta a outro e que, em seu ápice, proporciona a incandescente revelação de quem você é. Tratá-lo como bem passível de ser comprado e vendido como qualquer outro é prejudicar tanto o eu presente como o outro futuro. A condenação da prostituição não era apenas beatice puritana; tratava-se do reconhecimento de uma verdade profunda, qual seja: a de que você e seu corpo não são duas coisas distintas, de modo que vender o corpo endurece a alma. E aquilo que se aplica à prostituição, aplica-se também à pornografia. Ela não é um tributo à beleza humana, mas sua dessacralização.


Beleza – Roger Scruton

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Imaginação e Fantasia

Fantasia e realidade


Essa distinção pode ser reformulada como a distinção entre imaginação e fantasia. A verdadeira arte encanta a primeira, ao passo que os efeitos instigam a segunda. As coisas imaginárias são ponderadas; as fantasias, desempenhadas. Tanto a fantasia como a imaginação dizem respeito a irrealidades; no entanto, enquanto as irrealidades da fantasia penetram e poluem nosso mundo, as irrealidades da imaginação existem num mundo que lhes é próprio e no qual vagueamos livremente com um complacente desapego.

A sociedade moderna está repleta de objetos fantasiosos, visto que as imagens realistas da fotografia, do cinema e da TV oferecem uma satisfação substituta a nossos desejos proibidos, legitimando-os, portanto, dessa forma. Um desejo fantasioso não busca nem uma descrição literária, nem a pintura delicada de um objeto, e sim um simulacro – uma imagem em que todos os véus da hesitação foram rasgados. Esse desejo se abstém do estilo e da convenção porque ambos impedem a formação do substituto e o submetem a um julgamento. A fantasia ideal é perfeitamente realizada e perfeitamente irreal – um objeto imaginário que nada deixa a cargo da imaginação. As propagandas comercializam tais objetos, os quais pairam no pano de fundo da vida moderna e a todo momento nos instigam a realizar nossos sonhos em vez de buscar as realidades.

As cenas imaginadas, por sua vez, não são realizadas, mas representadas; elas se apresentam imbuídas de pensamento e estão longe de ser substitutos colocados no lugar do inalcançável. Antes, são deliberadamente postas à distância, num mundo próprio. A convenção, o enquadramento e a coibição são partes integrantes do processo imaginativo. Nós só adentramos uma pintura por meio da moldura que afasta dela o mundo em que vivemos. A convenção e o estilo são mais importantes que a realização; e, quando os pintores adornam suas imagens com um trompe-l’oeil realista, muitas vezes questionamos o resultado, declarando-os insípidos ou kitsch.


Beleza – Roger Scruton

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Reflexão #7

Não é verossímil que tudo sempre aconteça de maneira verossímil

Esta é uma frase que me guia sempre que leio um romance, especialmente um clássico, ou quando escuto uma história, mito, conto, fábula ou até mesmo um causo. Mesmo no fato mais corriqueiro, há a possibilidade do real e factível estar velado por um evento improvável, absurdo ou fantástico.

----

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Meditação e Presença

À hora da sesta fui sentar-me num escuro souto de castanheiros e meditei.

Estava o estômago no mais ativo de sua chilificação. Havia uma insólita claridade no meu espírito. Nenhum devaneio dos que arroubam poetas em ermos e sombras me perturbava o cozimento das pingues substâncias em que abundara o jantar. As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.

Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desborda o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.

E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.

E a meditar assim adormeci, reclinado sobre uma moita de malmequeres e boninas.


Coração, Cabeça e Estômago - Camilo Castelo Branco