Jamais pretendi orientar o tipo de educação moral que os pais desejam dar aos filhos, e a palavra final sobre o que ler será sempre da própria família. O que sempre enfatizo, no entanto, é que a leitura em voz alta é justamente uma oportunidade de dialogar sobre as histórias, de reagir a elas e de modelar uma certa maneira de reagir às coisas que vemos e ouvimos. Reagimos às histórias como reagimos à vida, e toda a pedagogia moral subjacente a uma história dependerá da maneira como o adulto responde ao que acontece nos eventos narrados. Freqüentemente, por exemplo, ao reler com meus filhos uma história favorita, pergunto: “Será que ele fez a coisa certa?”, e suas respostas nos dão uma boa oportunidade de falar sobre o comportamento humano, os erros, os enganos, as falhas humanas.
O Mínimo sobre Leitura em Voz Alta – Marcela Saint Martin
segunda-feira, 20 de junho de 2022
quarta-feira, 15 de junho de 2022
Afeição e Afetação
CXXV – UMA COMPARAÇÃO¹
Príamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. Homero é que relata isto, e é um bom autor, não obstante contá-lo em verso, mas há narrações exatas em verso, e até mau verso. Compara tu a situação de Príamo com a minha; eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera defunto aqueles olhos... É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito, ou quando menos, igual. Nem digas que nos faltam Homeros, pela causa apontada em Camões; não senhor, falta-nos, é certo, mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. As lágrimas, se as têm, são enxugadas atrás da porta, para que as caras apareçam limpas e serenas; os discursos são antes de alegria que de melancolia, e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor.
¹ Uma comparação: O narrador compara a sua história, no momento do enterro de Escobar, com a da Ilíada, de Homero, no episódio em que Príamo, o último rei de Tróia, chora ao ser obrigado a beijar a mão de Aquiles, guerreiro grego que matou seu filho, o troiano Heitor. Acontece que, ao contrário do mundo épico, em que os conflitos se dão às claras o mundo narrado em Dom Casmurro é camuflado, e os conflitos são recobertos pelas conveniências sociais. Esta é, segundo o narrador, a razão pela qual não existem mais Homeros como antigamente, e não a razão apontada por Camões n’Os Lusíadas (Canto V, estrofes 97-98): segundo ele, os portugueses não sabiam valorizar a cultura e as letras (“Por isso, e não por falta de natura, / Não há também Vergílios nem Homeros”). (N.E.)
Dom Casmurro – Machado de Assis
Príamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. Homero é que relata isto, e é um bom autor, não obstante contá-lo em verso, mas há narrações exatas em verso, e até mau verso. Compara tu a situação de Príamo com a minha; eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera defunto aqueles olhos... É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito, ou quando menos, igual. Nem digas que nos faltam Homeros, pela causa apontada em Camões; não senhor, falta-nos, é certo, mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. As lágrimas, se as têm, são enxugadas atrás da porta, para que as caras apareçam limpas e serenas; os discursos são antes de alegria que de melancolia, e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor.
¹ Uma comparação: O narrador compara a sua história, no momento do enterro de Escobar, com a da Ilíada, de Homero, no episódio em que Príamo, o último rei de Tróia, chora ao ser obrigado a beijar a mão de Aquiles, guerreiro grego que matou seu filho, o troiano Heitor. Acontece que, ao contrário do mundo épico, em que os conflitos se dão às claras o mundo narrado em Dom Casmurro é camuflado, e os conflitos são recobertos pelas conveniências sociais. Esta é, segundo o narrador, a razão pela qual não existem mais Homeros como antigamente, e não a razão apontada por Camões n’Os Lusíadas (Canto V, estrofes 97-98): segundo ele, os portugueses não sabiam valorizar a cultura e as letras (“Por isso, e não por falta de natura, / Não há também Vergílios nem Homeros”). (N.E.)
Dom Casmurro – Machado de Assis
terça-feira, 14 de junho de 2022
Memória e Imaginação
LIX – CONVIVAS DE BOA MEMÓRIA
Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. A vida é cheia de tais convivas, e eu sou acaso um deles, conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.
Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão.
E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos livros confusos, mas todo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista.
É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.
Dom Casmurro – Machado de Assis
Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. A vida é cheia de tais convivas, e eu sou acaso um deles, conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.
Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão.
E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos livros confusos, mas todo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista.
É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.
Dom Casmurro – Machado de Assis
segunda-feira, 6 de junho de 2022
Presunção e Correção
Si defendere delictum quam vertere malles,
nullum ultra verbum aut operam insumebat inanem,
quin sine rivali teque et tua solus amares.
E se via que tu mais te inclinavas
A defender os erros que emendá-los,
Não gastava contigo mais palavra,
Como trabalho vão, e liberdade
Te dava para amares a teu salvo,
Sem susto de rival, os teus escritos.
442. Si defendere delictum, etc.: com esta liberdade e exação lia Quintílio e fazia juízo das obras alheias; porém se via que seus autores não eram dóceis em receber as emendas, antes presumidos, queriam defender seus erros; neste caso não lhes dizia mais palavra, como coisa inútil (vista a sua presunção) e deixava-os na amorosa cegueira de seus versos, com a certeza de que não teriam competidor que os perturbasse invejando-lhes suas inclinações. Com efeito, esta indocilidade e presunção nos engenhos é a peste dos estudos; porque daqui nasce a cega pertinácia de defenderem muitos a todo o custo certos lugares de suas obras, precisamente porque foram censurados. Estes só buscam louvores e não sofrem emenda; e deles bem se queixa nosso Bernardes a Pedro de Andrade Caminha:
E o que sobre tudo mais me ofende,
É tratar com poetas que me pedem
Que suas obras veja, e lhas emende:
Que mude ou risque os versos que procedem
Sem arte e sem medida livremente,
Que poder para tudo me concedem.
Sendo a sua tenção mui diferente;
Que não querem emenda, mas louvor;
Que de emenda não há quem se contente.
Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio
nullum ultra verbum aut operam insumebat inanem,
quin sine rivali teque et tua solus amares.
E se via que tu mais te inclinavas
A defender os erros que emendá-los,
Não gastava contigo mais palavra,
Como trabalho vão, e liberdade
Te dava para amares a teu salvo,
Sem susto de rival, os teus escritos.
442. Si defendere delictum, etc.: com esta liberdade e exação lia Quintílio e fazia juízo das obras alheias; porém se via que seus autores não eram dóceis em receber as emendas, antes presumidos, queriam defender seus erros; neste caso não lhes dizia mais palavra, como coisa inútil (vista a sua presunção) e deixava-os na amorosa cegueira de seus versos, com a certeza de que não teriam competidor que os perturbasse invejando-lhes suas inclinações. Com efeito, esta indocilidade e presunção nos engenhos é a peste dos estudos; porque daqui nasce a cega pertinácia de defenderem muitos a todo o custo certos lugares de suas obras, precisamente porque foram censurados. Estes só buscam louvores e não sofrem emenda; e deles bem se queixa nosso Bernardes a Pedro de Andrade Caminha:
E o que sobre tudo mais me ofende,
É tratar com poetas que me pedem
Que suas obras veja, e lhas emende:
Que mude ou risque os versos que procedem
Sem arte e sem medida livremente,
Que poder para tudo me concedem.
Sendo a sua tenção mui diferente;
Que não querem emenda, mas louvor;
Que de emenda não há quem se contente.
Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio
sexta-feira, 3 de junho de 2022
Palavras e Coisas
Rem tibi Socraticae poterunt ostendere chartae
verbaque provisam rem non invita sequentur.
Descobrirás de Sócrates nas obras:
E uma vez que tiveres um assunto
Bem conhecido, as vozes sem violência
Verás, que não te faltam no discurso.
311. Verbaque provisam rem, etc.: quando nós temos bem concebido uma coisa é fácil exprimi-la, e para este fim prontamente ocorrem as palavras, como dizia Cícero: ipsa res verba rapiunt¹; e Asínio Polião², citado pelos dois antigos intérpretes de Porfirião, e Acrão: Male hercle eveniat verbis, nisi rem sequantur³. O mesmo deixou escrito Sócrates, dizendo: De re non satis perspecta neminem recte iudicaturum, et oratione explicaturum4. Reparem bem nestas doutrinas aqueles que em suas composições não buscam vocábulos para o sentido, mas arrastam o sentido para os vocábulos. E destes quantos há!
¹ “As coisas de que se fala recrutam por si suas palavras.”
² Caio Asínio Polião (65 a.C.-4 d.C.), político, orador, poeta, dramaturgo, crítico literário e historiador romano.
³ “Perigam as palavras que não acompanharem em tudo a realidade.”
4 “Ninguém será capaz de avaliar com bom juízo ou exprimir em palavras o que não tiver percebido claramente.”
Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio
verbaque provisam rem non invita sequentur.
Descobrirás de Sócrates nas obras:
E uma vez que tiveres um assunto
Bem conhecido, as vozes sem violência
Verás, que não te faltam no discurso.
311. Verbaque provisam rem, etc.: quando nós temos bem concebido uma coisa é fácil exprimi-la, e para este fim prontamente ocorrem as palavras, como dizia Cícero: ipsa res verba rapiunt¹; e Asínio Polião², citado pelos dois antigos intérpretes de Porfirião, e Acrão: Male hercle eveniat verbis, nisi rem sequantur³. O mesmo deixou escrito Sócrates, dizendo: De re non satis perspecta neminem recte iudicaturum, et oratione explicaturum4. Reparem bem nestas doutrinas aqueles que em suas composições não buscam vocábulos para o sentido, mas arrastam o sentido para os vocábulos. E destes quantos há!
¹ “As coisas de que se fala recrutam por si suas palavras.”
² Caio Asínio Polião (65 a.C.-4 d.C.), político, orador, poeta, dramaturgo, crítico literário e historiador romano.
³ “Perigam as palavras que não acompanharem em tudo a realidade.”
4 “Ninguém será capaz de avaliar com bom juízo ou exprimir em palavras o que não tiver percebido claramente.”
Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio
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