quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Moderação e Descomedimento

Moderação, comedimento, ética rigorosa, eis aí como a doutrina apolínea do μηδέν άγαν (medèn ágan), do “nada em demasia”, e do γνώθι σ’αύτόν (gnôthi s’autón), do “conhece-te a ti mesmo”, acabou por se apossar da tragédia e da poesia em geral.

Até o esquema trágico, o caminhar do ánthropos, do “simples mortal”, ultrapassando o métron, a sua medida, e tornando-se, por isso mesmo, anér, “herói”, que, em consequência, acabará, fatalmente, nos braços da Morîa, do destino cego, é tipicamente uma lição apolínea: “todas as coisas têm a sua medida...” Vejamos, mais de perto, como Apolo, com seu comedimento, com seu gnôthi s’autón, se apossou da tragédia e fez do homo dionysiacus uma presa fácil da Morîa, valendo o esquema trágico para o ánthropos, como se fora um aviso prévio: não te “dionizes”, não ultrapasses a medida da miséria mortal, porque se o fizeres, encontrarás os braços de bronze da fatalidade cega...

Os devotos de Dioniso, após a dança vertiginosa de que se falou, caíam semidesfalecidos. Nesse estado acreditavam sair de si pelo processo do έκστασις (ékstasis), “êxtase”. O sair de si implicava um mergulho de Dioniso em seu adorador através do ένθουσιασμός (enthusiasmós), “entusiasmo”. O homem, simples mortal, άνθρωπος (ánthropos), em êxtase e entusiasmo, comungando com a imortalidade, tornava-se άνήρ (anér), isto é, herói, um varão que ultrapassou o μέτρον (métron), a medida de cada um. Tendo ultrapassado sua medida mortal, o anér, o herói, transforma-se em ΰποκριτής (hypokrités), aquele que responde em êxtase e entusiasmo, a saber, o ator.

Em ultrapassagem do métron pelo hypokrités se configura como ΰβρρις (hýbris), um descomedimento, uma “démesure”, uma violência, feita a si próprio e aos deuses imortais, o que desencadeia a νέμεσις (nêmesis), a punição pela injustiça praticada, o ciúme divino; o hypokrités, o anér torna-se êmulo dos deuses, o que vai provocar a άτη (áte), a cegueira da razão; tudo quanto o hypokrités fizer, daqui para diante e terá que fazê-lo, realiza-lo-á contra si mesmo. Mais um passo e fechar-se-ão sobre ele as garras da Μοϊρα (Moîra), o destino cego.

No fundo, a tragédia grega, como encenação religiosa, é o suplício do leito de Procrusto contra todas as “démesures”.

Esquematizando:

Métron (medida de cada um)

Ánthropos (simples mortal) … ultrapassagem (êxtase e entusiasmo) ... Anér = ATOR

hýbris (descomedimento, violência)

nêmesis (castigo pela injustiça praticada, ciúme divino)

áte (cegueira da razão)

Moîra (destino cego, punição)


Mitologia Grega Vol. II - Junito de Souza Brandão

 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Dioniso e Divindade

Dois fatos aqui expostos chamam logo a nossa atenção. O primeiro deles é a tenaz perseguição da ciumenta Hera contra o filho de Sêmele e o segundo, a morte de Sêmele pelo fogo e a coxa de Zeus como segundo ventre de Dioniso. Quanto ao primeiro, é suficiente lembrar que a inimizade entre o deus do êxtase e do entusiasmo e a rainha dos deuses era um fato consumado no mito grego. Através de um fragmento de Plutarco, concernente às antigas festas beócias das Δαίδαλα (Daídala), “Dédalas”, em honra de Hera, ficamos sabendo que em Atenas, e possivelmente na Beócia, se evitava cuidadosamente todo e qualquer contato entre os objetos que pertenciam ao culto de Hera e aqueles pertencentes ao de Dioniso. Até mesmo as sacerdotisas das duas divindades não se cumprimentavam. A verdadeira muralha que separava os dois cultos era certamente consequência das características muito diferentes desse par antitético: de um lado, Hera, a teleia, a saber, a protetora dos casamentos, de outro, Dioniso, o deus das orgias, dos “desregramentos”. O mais sério é que tanto as orgias báquicas como as práticas coletivas das mulheres de Plateias, em homenagem a Hera Teleia, tinham por cenário o monte Citerão, o que inevitavelmente contribuía para açular os ânimos dos adeptos de uma e de outra divindade e aumentar a tradicional rivalidade entre os dois imortais Olimpo. O segundo fato é a morte trágica de Sêmele e o nascimento de Dioniso, da coxa de Zeus. Até mesmo à época tardia, Dioniso ainda era chamado Pyriguenés, Pyrisporos, quer dizer, “nascido ou concebido do fogo”, a saber, do raio. O próprio nome do deus parece estar ligado a uma filiação com o deus celeste indo-europeu Ζεύς (Dzeús), Zeus, genitivo Διός (Diós), que apareceria no primeiro elemento do composto Dioniso. Reunindo estas simples indicações, pode-se tentar reconstruir um mito naturalista elementar: a Terra-Mãe (Sêmele) fecundada pelo raio celeste do deus do Céu (Zeus) gerou uma divindade, cuja essência se confunde com a vida que brota das entranhas da terra. Acontece, no entanto, que, no mito tradicional, Sêmele não é mais uma Grande Mão, e sim uma princesa tebana, uma simples mortal. O raio de Zeus, que fulminou a mãe de Dioniso, embora possa ser interpretado como sinal de um hieròs gámos, que liga duas entidades míticas, o deus do Céu e a deusa Terra, no caso em pauta perde todo o seu conteúdo, porque se trata da união, clandestina por sinal, do deus supremo com uma virgem mortal. O mito, por isso mesmo, foi inteiramente refundido: enganada pela astúcia da ciumenta Hera e desejosa de responder, à altura, aos gracejos de suas irmãos, que não acreditavam estivesse ela grávida de um deus, Sêmele, concebeu o projeto louco de pedir a Zeus que se lhe apresentasse em todo o esplendor de sua majestade divina. A vaidosa princesa tebana sucumbiu fulminada e fez que o filho nascesse precocemente. Esse nascimento prematuro da criança teve por finalidade conferir a Dioniso uma divindade que a simples ascendência paterna não lhe poderia outorgar. No mito grego é de regra que a união de deuses e de mulheres mortais gere normalmente um varão, dotado de qualidades extraordinárias, de areté e time, mas partícipe da natureza humana, donde um mero ser mortal. Salvo por Zeus e completada a gestação na coxa divina, Dioniso será uma emanação direta do pai, donde um imortal, figurando a coxa do deus como o segundo ventre de Dioniso, tal qual o foi a cabeça do mesmo Zeus em relação a Atená.


Mitologia Grega Vol. II - Junito de Souza Brandão

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Sabedoria e Verdade

Dá-me a mão, disse eu, pois, se bem te recordas, é isso que ontem te prometi demonstrar, e a gora me alegro, pois não fui eu que cheguei a essa conclusão mas tu mesmo ma ofereces. Eu afirmei que o que se interpõe entre mim e os acadêmicos é o fato de eles acharem ser provável que não se pode compreender a verdade, e eu, mesmo ainda não tendo encontrado a verdade, ser de opinião que é possível ao sábio encontrar a verdade; mas tu, urdido por minha pergunta, a saber, se o sábio não conhece a sabedoria, respondeste parecer-te que é possível ele conhecer a sabedoria. E o que se deduz disso, disse Alípio? Porque, disse eu, se eles são de opinião que podem conhecer a sabedoria, não podem achar que o sábio nada poderá saber. Ou então, quero que afirmes tu, se a sabedoria nada é.

Contra os Acadêmicos - Santo Agostinho

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Dever e Glória

“Ótimo rei, venerando senhor” No meu próprio interesse
não me defendas; concede-me o prêmio da morte gloriosa.¹
Eu também sei, caro pai, desferir duros golpes com a destra.
Sangue também espadana das grandes feridas que eu abro.
Uma vez ou outra sua mãe divinal não virá ocultá-lo
nalguma nuvem, enquanto ela própria na sobra se esconde”.²


“Quam pro me curam geris, hanc precor, optime, pro me
deponas letumque sinas pro laude pacisci.
Et nos tela, pater, ferrumque haud debile dextra
spargimus; et nostro sequitur de vulnere sanguis.
Longe illi dea mater erit, quae nube fugacem
feminea tegat et vanis sese occulat umbris”.


Livro XII

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes


¹ Morte gloriosa: a bela morte dos guerreiros.

² Alusão à capacidade de Vênus, mãe de Eneias, de ocultá-lo no meio das batalhas.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Audácia e Fortuna

Turno audacioso porém não perdeu a esperança de a praia
vir a ocupar e impedir aos troianos saltarem dos barcos.
Para dar ânimo aos seus, da seguinte maneira increpou-os:
“Tendes à mão justamente o que tanto almejáveis, amigos;
Marte em pessoa vos traz. Cumpre a todos agora lembrar-se
da cara esposa, do lar abençoado. Evocai à memória
os grandes feitos dos nossos avós. Ataquemo-los prestes,
enquanto os pés vacilantes não firmam nos nossos domínios.
Aos audaciosos ajuda a Fortuna”.


Haud tamen audaci Turno fiducia cessit
litora praecipere et venientes pellere terra.
Ultro animos tollit dictis atque increpat ultro:
“Quod votis optastis, adest, perfringere dextra;
in manibus Mars ipse viris. Nunc coniugis esto
quisque suae tectique memor, nunc magna referto
facta, patrum laudes. Ultro occurramus ad undam,
dum trepidi egressisque labant vestigia prima.
Audentes Fortuna iuvat”.


Livro X

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes