O encontro de Édipo com Laio merece um comentário mais preciso. Mesmo que se levasse em conta apenas o relato mítico, sem aprofundá-lo simbolicamente, a vaidade de Édipo está bem retratada. A ordem de afastar-se para que a carruagem do rei pudesse passar o põe de tal maneira colérico, que o futuro rei de Tebas perde completamente o controle. É de se supor que o rei viajasse sem as insígnias do poder; caso contrário, Laio estaria acompanhado de sua guarda e a ação criminosa teria sido repelida ou vingada. Nesse encontro fatídico, por conseguinte, o rei aparece como ‘um qualquer’, o que naturalmente intensifica ainda mais a cólera do jovem príncipe. Em função de seus pés mutilados, o vencedor da Esfinge não pôde afastar-se com a rapidez ordenada. A enfermidade contraída em seus primeiros dias de vida desperta com toda a amargura acumulada e com toda a vaidade gerada pelo recalque da consciência de sua mutilação e de sua supercompensação imaginativa. Além do mais, ter que ceder sempre ‘o caminho’ a não-importa-quem, a todos, enfim, deve ter sido o tormento e a humilhação mais profunda da criança adotada, mais ou menos tolerada. Se se substitui o estado de pé mutilado, que impede o filho de Jocasta de ceder rapidamente o caminho pelo simbolismo da significação psicológica, aparece com nitidez a situação de um neurótico, não importa qual. Seu ódio latente é alimentado por sua psiqué mutilada desde a juventude. A incapacidade de movimentar-se livremente pela estrada da vida, ‘a enfermidade’, torna-se suportável tão somente pelo consolo falso e imaginativo da vaidade. Sua alma machucada, no entanto, apresenta-se vulnerável a toda e qualquer afronta e nada fere mais profundamente a psiqué doentia de um neurótico que ser tratada, não importa por quem, sem a devida consideração. Eis por que Édipo não permitirá ser tratado com desprezo e responderá a semelhante ofensa com incrível violência, em razão de um motivo suplementar, que, por mais decisivo que seja, reflete apenas o outro lado de sua hipersensibilidade nervosa. Tendo decidido confrontar-se com a Esfinge, Édipo se deleita em sua imaginação por desempenhar o papel de herói, persuadido de que fadado a escalar o mais alto grau de realização espiritual: acredita-se um libertador da cidade, símbolo do mundo. Este é um traço marcante, talvez o mais característico do neurótico adolescente: reprimido e sofredor em função de sua própria deficiência, projeta sua enfermidade psíquica no meio circundante, exagerando assim, através da denúncia, a insatisfação sempre atual da vida humana. Transformando a própria incapacidade em autossuficiência, arvora-se em um predestinado reformador do mundo. Explica-se, destarte, por que o herói não cedeu espaço à carruagem de Laio nem permitiu que o menosprezassem. Afinal, alimenta secretamente o projeto de realizar o que ninguém tentara antes: defrontar-se com a Esfinge, libertar a cidade e o mundo do flagelo que os oprimia.
Junito de Souza Brandão – Mitologia Grega Vol. III
quarta-feira, 20 de abril de 2022
terça-feira, 19 de abril de 2022
Coragem e Bravura
Canto X – 147-148
Olhai que ledos vão por várias vias,
Quais rompentes leões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros;
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolatras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a peixes, ao profundo:
Por vos servir a tudo aparelhados,
De vós tão longe, sempre obedientes
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar resposta, prontos e contentes;
Só com saber que são de vós olhados,
Demônios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido,
Que vencedor vos façam, não vencido.
Olhai que os vossos vassalos vão ledos por várias vias, quais rompentes leões e bravos touros, dando os corpos: a fomes e a vigílias; a ferro e a fogo; a setas e a pelouros; a regiões quentes e plagas frias; a golpes de idólatras e de mouros; a perigos incógnitos do mundo; a naufrágios, a peixes, e ao profundo sono [à morte] (1).
(1) O poeta tem mostrado já anteriormente que os antigos portugueses se mostravam sempre alegres, para, em obediência ao seu rei e para glória dele, se exporem a toda espécie de perigos, em terra e no mar (I, 51, VI, 98, X, 149). Na presente estância repete o poeta a mesma idéia, sumariamente, dirigindo-se a el-rei, para que atenda ao mérito, evitando que a falta de atenção régia para os vassalos, com a falta de estímulo, faça cair a sociedade em “tristeza vil” (est. 145).
No verso 6 “idolátras”: II, 51; VII, 73.
No verso 2 “rompentes” é termo de heráldica: “animal rompente” é o que no alto dos escudos se pinta, aparecendo só a cabeça, ou que se pinta de pé ocupando uma parte do escudo: aqui: tem a significação de “dilacerantes”.
Para vos servirem, os vossos vassalos, a tudo aparelhados [dispostos para tudo], ainda que estejam muito longe de vós, serão sempre obedientes a quaisquer ásperos (1) mandados vossos, sem darem resposta (2), e sempre prontos e contentes; e, só com o saberem que são olhados por vós, acometerão convosco (3), negros e ardentes demônios infernais (4); e não duvido [e tenho a certeza] que vos farão vencedor e não vencido.
(1) “Ásperos mandados”, ordens rigorosas, de difícil execução; devendo entender-se que o rigor não seria de tirano, mas da observância de princípios de justiça, em harmonia com as conveniências da pátria. (2) “Sem resposta”: obedeceriam calados sem apresentarem objecções. (3) “Convosco”, por vossa causa. (4) “Demônios infernais”: hipérbole (igual em IV, 80); teriam coragem para investir com o poder infernal.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
Olhai que ledos vão por várias vias,
Quais rompentes leões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros;
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolatras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a peixes, ao profundo:
Por vos servir a tudo aparelhados,
De vós tão longe, sempre obedientes
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar resposta, prontos e contentes;
Só com saber que são de vós olhados,
Demônios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido,
Que vencedor vos façam, não vencido.
Olhai que os vossos vassalos vão ledos por várias vias, quais rompentes leões e bravos touros, dando os corpos: a fomes e a vigílias; a ferro e a fogo; a setas e a pelouros; a regiões quentes e plagas frias; a golpes de idólatras e de mouros; a perigos incógnitos do mundo; a naufrágios, a peixes, e ao profundo sono [à morte] (1).
(1) O poeta tem mostrado já anteriormente que os antigos portugueses se mostravam sempre alegres, para, em obediência ao seu rei e para glória dele, se exporem a toda espécie de perigos, em terra e no mar (I, 51, VI, 98, X, 149). Na presente estância repete o poeta a mesma idéia, sumariamente, dirigindo-se a el-rei, para que atenda ao mérito, evitando que a falta de atenção régia para os vassalos, com a falta de estímulo, faça cair a sociedade em “tristeza vil” (est. 145).
No verso 6 “idolátras”: II, 51; VII, 73.
No verso 2 “rompentes” é termo de heráldica: “animal rompente” é o que no alto dos escudos se pinta, aparecendo só a cabeça, ou que se pinta de pé ocupando uma parte do escudo: aqui: tem a significação de “dilacerantes”.
Para vos servirem, os vossos vassalos, a tudo aparelhados [dispostos para tudo], ainda que estejam muito longe de vós, serão sempre obedientes a quaisquer ásperos (1) mandados vossos, sem darem resposta (2), e sempre prontos e contentes; e, só com o saberem que são olhados por vós, acometerão convosco (3), negros e ardentes demônios infernais (4); e não duvido [e tenho a certeza] que vos farão vencedor e não vencido.
(1) “Ásperos mandados”, ordens rigorosas, de difícil execução; devendo entender-se que o rigor não seria de tirano, mas da observância de princípios de justiça, em harmonia com as conveniências da pátria. (2) “Sem resposta”: obedeceriam calados sem apresentarem objecções. (3) “Convosco”, por vossa causa. (4) “Demônios infernais”: hipérbole (igual em IV, 80); teriam coragem para investir com o poder infernal.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
segunda-feira, 18 de abril de 2022
Deus e Máquina
Canto X – 80
Vês aqui a grande máquina do mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do saber alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende;
Que a tanto o engenho humano não se estende.
Aqui vês a grande máquina etérea (1) e elementar (2) do mundo, que foi fabricada assim pelo alto e profundo Saber (3), que é [existe] sem principio e sem meta limitada (4). Quem cerca em redor este globo rotundo, e a sua tão limada [lisa] superfície é Deus (5); mas o que é Deus, ninguém o entende, pois a tanto não se estende [não chega] o engenho humano (6).
(1) Dos céus. (2) Dos elementos; segundo a astronomia antiga, consideravam-se elementos o ar e o fogo, e supunha-se que estes formavam as primeiras camadas celestes em volta da terra; supondo-se também esta o centro do universo; cfr. Advertência. (3) “Alto Saber”, a Sabedoria divina, Deus. (4) “Meta limitada”, marco de limite; fim (sem princípio nem fim). (5) “Quem cerca”, etc; era doutrina corrente que o último céu era o Empíreo, superior à esfera era que estavam fixadas as estrelas; e que, segundo o paganismo, era a morada dos deuses; e, no catolicismo, o lugar dos bem-aventurados, dos santos, o Céu. (6) “O que é Deus”, etc; afirma Faria e Sousa que os dois últimos versos contêm doutrina pregada por S. Paulo, S. Crisóstomo, e outros doutores da Igreja.
Observações de A astronomia dos Lusíadas (pp.39, 43, 57) sobre a presente estância:
“A superfície deste rotundo globo, superfície tão ‘limada’ como se diz na est. 80, é uma superfície esférica. Leia-se a definição de esfera, com que abre o capítulo I do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes.”
“No Tratado da Esfera lê-se, na parte do capítulo I, intitulada ‘Da redondeza do céu’: ‘Que o céu seja redondo há três razões: semelhança, proveito e necessidade. Pela semelhança se prova o céu ser redondo, porque este mundo sensível é feito à semelhança do mundo arquetípico, no qual não há princípio nem fim. E por isso o mundo sensível tem figura redonda, na qual não há princípio nem fim.
“A máquina do mundo, assim mostrada ao Gama, como transunto reduzido do universo, tal qual o concebia a ciência do tempo, divide-se em duas regiões: etérea e elemental.
“Na tradução de Pedro Nunes [do texto latino de Sacrobosco] lê-se: ‘A universal máquina do mundo se divide em duas partes: celestial e elemental. A parte elemental é sujeita a contínua alteração e divide-se em quatro, a saber: terra, a qual está como centro do mundo no meio assentada; segue-se logo a água, e por derredor dela o ar; e logo o fogo que chega ao céu da Lua, segundo diz Aristóteles no livro dos meteoros; porque assim os assentou Deus glorioso e alto. E estes quatro são chamados elementos, os quais uns dos outros se alteram e corrompem e tornam a gerar [...]. Junto da região dos elementos está logo a região celestial lúcida, e pelo seu ser imudável é livre de toda a mudança, tem contínuo movimento circular, e chamam-lhe os filósofos Quinta essência”.
Cfr. as transcrições de A Astrononomia, etc. nas notas à est 78.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
Vês aqui a grande máquina do mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do saber alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende;
Que a tanto o engenho humano não se estende.
Aqui vês a grande máquina etérea (1) e elementar (2) do mundo, que foi fabricada assim pelo alto e profundo Saber (3), que é [existe] sem principio e sem meta limitada (4). Quem cerca em redor este globo rotundo, e a sua tão limada [lisa] superfície é Deus (5); mas o que é Deus, ninguém o entende, pois a tanto não se estende [não chega] o engenho humano (6).
(1) Dos céus. (2) Dos elementos; segundo a astronomia antiga, consideravam-se elementos o ar e o fogo, e supunha-se que estes formavam as primeiras camadas celestes em volta da terra; supondo-se também esta o centro do universo; cfr. Advertência. (3) “Alto Saber”, a Sabedoria divina, Deus. (4) “Meta limitada”, marco de limite; fim (sem princípio nem fim). (5) “Quem cerca”, etc; era doutrina corrente que o último céu era o Empíreo, superior à esfera era que estavam fixadas as estrelas; e que, segundo o paganismo, era a morada dos deuses; e, no catolicismo, o lugar dos bem-aventurados, dos santos, o Céu. (6) “O que é Deus”, etc; afirma Faria e Sousa que os dois últimos versos contêm doutrina pregada por S. Paulo, S. Crisóstomo, e outros doutores da Igreja.
Observações de A astronomia dos Lusíadas (pp.39, 43, 57) sobre a presente estância:
“A superfície deste rotundo globo, superfície tão ‘limada’ como se diz na est. 80, é uma superfície esférica. Leia-se a definição de esfera, com que abre o capítulo I do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes.”
“No Tratado da Esfera lê-se, na parte do capítulo I, intitulada ‘Da redondeza do céu’: ‘Que o céu seja redondo há três razões: semelhança, proveito e necessidade. Pela semelhança se prova o céu ser redondo, porque este mundo sensível é feito à semelhança do mundo arquetípico, no qual não há princípio nem fim. E por isso o mundo sensível tem figura redonda, na qual não há princípio nem fim.
“A máquina do mundo, assim mostrada ao Gama, como transunto reduzido do universo, tal qual o concebia a ciência do tempo, divide-se em duas regiões: etérea e elemental.
“Na tradução de Pedro Nunes [do texto latino de Sacrobosco] lê-se: ‘A universal máquina do mundo se divide em duas partes: celestial e elemental. A parte elemental é sujeita a contínua alteração e divide-se em quatro, a saber: terra, a qual está como centro do mundo no meio assentada; segue-se logo a água, e por derredor dela o ar; e logo o fogo que chega ao céu da Lua, segundo diz Aristóteles no livro dos meteoros; porque assim os assentou Deus glorioso e alto. E estes quatro são chamados elementos, os quais uns dos outros se alteram e corrompem e tornam a gerar [...]. Junto da região dos elementos está logo a região celestial lúcida, e pelo seu ser imudável é livre de toda a mudança, tem contínuo movimento circular, e chamam-lhe os filósofos Quinta essência”.
Cfr. as transcrições de A Astrononomia, etc. nas notas à est 78.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
quinta-feira, 14 de abril de 2022
Cobiça e Justiça
Canto X – 58
“Mas na Índia cobiça e ambição,
Que claramente põe aberto o rosto
Contra Deus e justiça, te farão
Vitupério nenhum, mas só desgosto.
Quem faz injuria vil e sem razão,
Com forças e poder em que está posto,
Não vence; que a vitória verdadeira
É saber ter justiça nua e inteira.
“Mas na Índia a cobiça e a ambição (1) [os ambiciosos], que põem o rosto aberto claramente contra Deus e a justiça (2), nenhum vitupério te farão mas só desgosto (3). Quem faz injúria vil, e sem razão, com as forças e com o poder em que está posto [investido], não vence (4), que [pois] a verdadeira vitória é saber ter justiça nua (5) e inteira.
(1) Alusão à cobiça de altos funcionários da Índia, de quem Diogo de Castro dizia que, em certa época, os portugueses, esquecendo-se de si próprios, procediam de maneira que pareciam naturais da Ásia, entregando-se a toda sorte de ambições e de prazeres. (2) “Rosto aberto”, etc; sem vergonha, descaradamente (na cegueira da cobiça). “Neste nosso oriente, a que chamamos de Índia, reina mais a cegueira da fortuna, que a luz da razão” (João de Barros). (3) “Nenhum vitupério”, etc; os ambiciosos, injuriando Mascarenhas, não produziram o seu descrédito, somente lhe causaram desgosto. (4) “Injúria vil” etc; aqueles que têm nas mãos o poder e deste se servem para praticarem injustiças, a si próprios se afrontam mais do que ao ofendido. Vencer é ter razão; e ser justo, não é estar com o poder na mão para usar dele em detrimento alheio. (5) Simples; decisões justas que sejam facilmente compreendidas, sem refolhos, sem artifícios: Lopo Vaz, apossando-se indevidamente do poder que devia ser exercido por D. Pedro de Mascarenhas, simulava proceder com justiça (justiça artificial).
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
“Mas na Índia cobiça e ambição,
Que claramente põe aberto o rosto
Contra Deus e justiça, te farão
Vitupério nenhum, mas só desgosto.
Quem faz injuria vil e sem razão,
Com forças e poder em que está posto,
Não vence; que a vitória verdadeira
É saber ter justiça nua e inteira.
“Mas na Índia a cobiça e a ambição (1) [os ambiciosos], que põem o rosto aberto claramente contra Deus e a justiça (2), nenhum vitupério te farão mas só desgosto (3). Quem faz injúria vil, e sem razão, com as forças e com o poder em que está posto [investido], não vence (4), que [pois] a verdadeira vitória é saber ter justiça nua (5) e inteira.
(1) Alusão à cobiça de altos funcionários da Índia, de quem Diogo de Castro dizia que, em certa época, os portugueses, esquecendo-se de si próprios, procediam de maneira que pareciam naturais da Ásia, entregando-se a toda sorte de ambições e de prazeres. (2) “Rosto aberto”, etc; sem vergonha, descaradamente (na cegueira da cobiça). “Neste nosso oriente, a que chamamos de Índia, reina mais a cegueira da fortuna, que a luz da razão” (João de Barros). (3) “Nenhum vitupério”, etc; os ambiciosos, injuriando Mascarenhas, não produziram o seu descrédito, somente lhe causaram desgosto. (4) “Injúria vil” etc; aqueles que têm nas mãos o poder e deste se servem para praticarem injustiças, a si próprios se afrontam mais do que ao ofendido. Vencer é ter razão; e ser justo, não é estar com o poder na mão para usar dele em detrimento alheio. (5) Simples; decisões justas que sejam facilmente compreendidas, sem refolhos, sem artifícios: Lopo Vaz, apossando-se indevidamente do poder que devia ser exercido por D. Pedro de Mascarenhas, simulava proceder com justiça (justiça artificial).
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
quarta-feira, 13 de abril de 2022
Conselho e Aparência
Canto VIII – 54-55
Ó quanto deve o rei, que bem governa,
De olhar que os conselheiros ou privados,
De consciência e de virtude interna,
E de sincero amor sejam dotados!
Porque, como este posto na superna
Cadeira, pode mal dos apartados
Negócios ter notícia mais inteira
Do que lhe der a língua conselheira.
Nem tão pouco direi que tome tanto
Em grosso a consciência limpa e certa,
Que se enleve num pobre e humilde manto,
Onde ambição a caso ande encoberta.
E quando um bom em tudo é justo e santo,
Em negócios do mundo pouco acerta;
Que mal com eles poderá ter conta
A quieta inocência, em só Deus pronta.
Oh! O rei que governa bem (1), quanto deve olhar, para que os seus conselheiros ou privados (2) sejam dotados de consciência, de virtude interna e de sincero amor! Porque, como esteja posto da cadeira suprema (3) mal pode, dos apartados (4) negócios, ter notícia mais inteira do que a notícia que lhe der a língua conselheira.
(1) O poeta interrompe a narrativa, fazendo reflexões, continuadas na estância seguinte, sobre a necessidade de os reis se rodearem de pessoas virtuosas, que lhes dêem informações verdadeiras. (2) “Conselheiros”, os que, por natureza do cargo oficial, tenham de dar parecer sobre os negócios; “privados” os que, por natureza de cargo particular, tenham freqüentes ocasiões de se aproximarem dos reis. Não se confundam os vocábulos “privado” e “valido”; este último aplica-se geralmente a quem é benquisto e protegido dos reis, mesmo sem o merecer. (3) Superior; o sólido régio. (4) “Negócios apartados”, fatos que se passam em sítios distantes da corte ou que, por conterem demasiadas minúcias, estão muito abaixo das regiões em que o rei vive; só por intermédio dos ministros pode ele conhecer tais negócios.
Nem tão pouco direi (1), que o rei tome tanto em grosso (2) a consciência limpa e certa, que se enleve num pobre e humilde manto (3), onde acaso ande ambição encoberta. E um homem bom, quando é justo e santo em tudo, pouco acerta em negócios do mundo; que [pois] a quieta inocência (4) – só pronta [confiada] em Deus – mal poderá ter conta com eles [neles, nos negócios do mundo].
(1) Também não direi. (2) Avalie tanto por alto, tão superficialmente, as aparências de santidade. (3) “Humilde manto”, o vestuário, a exterioridade, com aparências de humildade: a hipocrisia, ocultando orgulho e cobiça. (4) “Quieta inocência”, repetição, por outras palavras, da idéia dos versos 5 e 6; o santo varão, atento em Deus não sabe descortinar a maldade desenvolvida pelo astucioso hipócrita nos negócios mundanos.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
Ó quanto deve o rei, que bem governa,
De olhar que os conselheiros ou privados,
De consciência e de virtude interna,
E de sincero amor sejam dotados!
Porque, como este posto na superna
Cadeira, pode mal dos apartados
Negócios ter notícia mais inteira
Do que lhe der a língua conselheira.
Nem tão pouco direi que tome tanto
Em grosso a consciência limpa e certa,
Que se enleve num pobre e humilde manto,
Onde ambição a caso ande encoberta.
E quando um bom em tudo é justo e santo,
Em negócios do mundo pouco acerta;
Que mal com eles poderá ter conta
A quieta inocência, em só Deus pronta.
Oh! O rei que governa bem (1), quanto deve olhar, para que os seus conselheiros ou privados (2) sejam dotados de consciência, de virtude interna e de sincero amor! Porque, como esteja posto da cadeira suprema (3) mal pode, dos apartados (4) negócios, ter notícia mais inteira do que a notícia que lhe der a língua conselheira.
(1) O poeta interrompe a narrativa, fazendo reflexões, continuadas na estância seguinte, sobre a necessidade de os reis se rodearem de pessoas virtuosas, que lhes dêem informações verdadeiras. (2) “Conselheiros”, os que, por natureza do cargo oficial, tenham de dar parecer sobre os negócios; “privados” os que, por natureza de cargo particular, tenham freqüentes ocasiões de se aproximarem dos reis. Não se confundam os vocábulos “privado” e “valido”; este último aplica-se geralmente a quem é benquisto e protegido dos reis, mesmo sem o merecer. (3) Superior; o sólido régio. (4) “Negócios apartados”, fatos que se passam em sítios distantes da corte ou que, por conterem demasiadas minúcias, estão muito abaixo das regiões em que o rei vive; só por intermédio dos ministros pode ele conhecer tais negócios.
Nem tão pouco direi (1), que o rei tome tanto em grosso (2) a consciência limpa e certa, que se enleve num pobre e humilde manto (3), onde acaso ande ambição encoberta. E um homem bom, quando é justo e santo em tudo, pouco acerta em negócios do mundo; que [pois] a quieta inocência (4) – só pronta [confiada] em Deus – mal poderá ter conta com eles [neles, nos negócios do mundo].
(1) Também não direi. (2) Avalie tanto por alto, tão superficialmente, as aparências de santidade. (3) “Humilde manto”, o vestuário, a exterioridade, com aparências de humildade: a hipocrisia, ocultando orgulho e cobiça. (4) “Quieta inocência”, repetição, por outras palavras, da idéia dos versos 5 e 6; o santo varão, atento em Deus não sabe descortinar a maldade desenvolvida pelo astucioso hipócrita nos negócios mundanos.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
terça-feira, 12 de abril de 2022
Heróis e Bardos
Canto V – 97-98
Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da lácia, grega, ou bárbara nação,
Senão da portuguesa tão somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
D’algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima:
Porque quem não sabe arte não-na estima.
Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Enéas, nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os faz e tão austeros,
Tão rudos e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.
Enfim não houve, senão tão-somente na nação portuguesa, capitão forte (1), que não fosse também douto e ciente [instruído], como foram os capitães fortes da nação Lácia (2), da nação grega ou de nação bárbara [estrangeira]. Não o digo sem vergonha [envergonho-me de o dizer], que [pois] a razão dalgum dos nossos patrícios não ser excelente por versos, é não se ver [ver-se que não é] prezado o verso e nem a rima, porque quem não sabe a arte poética não na estima (3).
(1) General valoroso. (2) Latina, romana. (3) “Quem não sabe...”, a falta do apreço pelas letras provém da ignorância dos homens poderosos do nosso país.
Por isso (1) – e não por falta de natura (2) não há em Portugal também Virgílios nem Homeros (3); nem haverá, pios (4) Enéas (5) nem feros (6) Aquiles (7), se dura este costume (8). Mas o pior de tudo é, que a ventura (9) tão ásperos (10) os fez, aos capitães portugueses, tão austeros, tão rudes (11) e de tão remisso engenho (12), que, a muitos, pouco lhes dá, ou nada (13) disso.
(1) Pelo fato de não serem animados e favorecidos os homens de talento. (2) Natureza; (fig.), talento, dotes naturais. (3) “Vergílios...”, poetas notáveis como Vergílio e Homero. (4) Virtuosos, de admirável afeição filial. (5) O herói da Eneida. (6) Guerreiros valorosos. (7) O herói da Ilíada. (8) Se continua o costume de não serem estimados os homens de letras. (9) Felicidade (na guerra). (10) Severos. (11) Incultos. (12) Frouxa sagacidade. (13) Na sua rudeza pouco lhes importa, ou nada, o deixarem de ser celebrados pelos poetas.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da lácia, grega, ou bárbara nação,
Senão da portuguesa tão somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
D’algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima:
Porque quem não sabe arte não-na estima.
Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Enéas, nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os faz e tão austeros,
Tão rudos e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.
Enfim não houve, senão tão-somente na nação portuguesa, capitão forte (1), que não fosse também douto e ciente [instruído], como foram os capitães fortes da nação Lácia (2), da nação grega ou de nação bárbara [estrangeira]. Não o digo sem vergonha [envergonho-me de o dizer], que [pois] a razão dalgum dos nossos patrícios não ser excelente por versos, é não se ver [ver-se que não é] prezado o verso e nem a rima, porque quem não sabe a arte poética não na estima (3).
(1) General valoroso. (2) Latina, romana. (3) “Quem não sabe...”, a falta do apreço pelas letras provém da ignorância dos homens poderosos do nosso país.
Por isso (1) – e não por falta de natura (2) não há em Portugal também Virgílios nem Homeros (3); nem haverá, pios (4) Enéas (5) nem feros (6) Aquiles (7), se dura este costume (8). Mas o pior de tudo é, que a ventura (9) tão ásperos (10) os fez, aos capitães portugueses, tão austeros, tão rudes (11) e de tão remisso engenho (12), que, a muitos, pouco lhes dá, ou nada (13) disso.
(1) Pelo fato de não serem animados e favorecidos os homens de talento. (2) Natureza; (fig.), talento, dotes naturais. (3) “Vergílios...”, poetas notáveis como Vergílio e Homero. (4) Virtuosos, de admirável afeição filial. (5) O herói da Eneida. (6) Guerreiros valorosos. (7) O herói da Ilíada. (8) Se continua o costume de não serem estimados os homens de letras. (9) Felicidade (na guerra). (10) Severos. (11) Incultos. (12) Frouxa sagacidade. (13) Na sua rudeza pouco lhes importa, ou nada, o deixarem de ser celebrados pelos poetas.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
segunda-feira, 11 de abril de 2022
Poesia e Humor
Canto V – 35
Disse então a Veloso um companheiro,
(Começando-se todos a sorrir):
“Oulá! Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer, que de subir?”
– “Sim, é, responde o ousado aventureiro;
Mas quando eu para cá vi tantos vir
Daqueles cães, depressa um pouco vim,
Por me lembrar que estáveis cá sem mim.”
Disse então (1), a Veloso, um companheiro – começando todos a sorrir-se: “Olá! Veloso amigo, aquele outeiro é melhor de descer que de subir (2) ?” – “É sim! – respondeu o ousado aventureiro – mas, quando eu vi para cá virem tantos daqueles cães (3), vim um pouco de pressa (4), por me lembrar que estáveis cá sem mim.”
(1) Depois de estarem a bordo das naus, entraram os soldados a conversar sobre o perigo em que estivera Fernão Veloso, começando um deles com os seus ditos a provocar o riso dos outros. (2) “Melhor de descer...”; não contendo novidade esse dito, havia nele engraçada ironia: Veloso subira o monte devagar, confiado em si; descera depressa, porque vinha fugindo. (3) Epíteto para deprimir aquela “bruta gente”. (4) “Vim depressa...”, resposta de ironia também engraçada: o aventureiro vinha a correr para acudir aos seus companheiros, não era para fugir dos pretos.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
Disse então a Veloso um companheiro,
(Começando-se todos a sorrir):
“Oulá! Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer, que de subir?”
– “Sim, é, responde o ousado aventureiro;
Mas quando eu para cá vi tantos vir
Daqueles cães, depressa um pouco vim,
Por me lembrar que estáveis cá sem mim.”
Disse então (1), a Veloso, um companheiro – começando todos a sorrir-se: “Olá! Veloso amigo, aquele outeiro é melhor de descer que de subir (2) ?” – “É sim! – respondeu o ousado aventureiro – mas, quando eu vi para cá virem tantos daqueles cães (3), vim um pouco de pressa (4), por me lembrar que estáveis cá sem mim.”
(1) Depois de estarem a bordo das naus, entraram os soldados a conversar sobre o perigo em que estivera Fernão Veloso, começando um deles com os seus ditos a provocar o riso dos outros. (2) “Melhor de descer...”; não contendo novidade esse dito, havia nele engraçada ironia: Veloso subira o monte devagar, confiado em si; descera depressa, porque vinha fugindo. (3) Epíteto para deprimir aquela “bruta gente”. (4) “Vim depressa...”, resposta de ironia também engraçada: o aventureiro vinha a correr para acudir aos seus companheiros, não era para fugir dos pretos.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
quarta-feira, 6 de abril de 2022
Ambição e Condição
Canto IV - 104
“Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitetor co’o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio!
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio.
Deixa intentado a humana geração!
Mísera sorte! Estranha condição!”
“Se não fora esse fogo roubado do céu (1), o miserando moço não cometeria o alto carro do pai (2); nem o grande arquiteto cometeria, com o filho, o vazio ar (3) – dando, um, nome ao mar, e o outro fama ao rio (4). A geração humana nenhum alto e nefando cometimento (5) deixa intentado [=intacto] (6) por meio de fogo, ferro, água, calma e frio! Mísera sorte! Estranha condição (7)!
(1) Subentendem-se estas palavras ou outras semelhantes, porque na presente estância prossegue o pensamento da precedente: se não fosse a ambição, ... (2) “Miserando”, etc.; o moço é o atrevido Faetonte, que pretendeu governar o carro do Sol, o carro de seu pai, Apolo; cfr I, 46 e passim; “cometera”, tentara, intentara; acometera, apoderara-se do..., lançara-se sobre o carro do Sol, para o guiar. (3) “Arquitetor”, etc.; forma antiga de “arquiteto”, no sentido de “engenhoso” – aplicado este epíteto elipticamente ao Dédalo da fábula, que pretendeu com asas artificiais voar como as aves, lançando-se no ar (“vazio por ser a atmosfera, na aparência, o vácuo) e lança-se no ar com seu filho Ícaro. (4) “nome ao mar”, etc.; segundo a fábula, caindo Ícaro no mar, este ficou tendo o nome de Icário; e caindo Faetonte no rio Pado, ficou este célebre por essa queda; cfr. I, 46. (5) “Cometimento”, empreendimento – quer seja “alto” (subido, digno de louvor), quer seja “nefando” (torpe, de natureza tal que não se possa ou deva dele falar). (6) “Intentado” = não tentado = intacto; não há empresa que os homens não realizem – quando movidos pela ambição, umas vezes praticando ações nobres, outras vezes praticando atos nefandos – ainda que tenham de padecer fogo e ferro (a guerra), água (a inclemência dos mares), calma e frio (as vicissitudes dos climas que padeceram os navegantes na zona tórrida e no mar Antártico). (7) “Mísera sorte”, etc.; epifonema, lastimando intensamente a infelicidade de Portugal, que arriscava, sem correspondente proveito, tantas vidas na Índia; e admirando a estranha (extraordinária, admirável, por incoerente) condição humana; cfr. Est. 95 e 97.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
“Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitetor co’o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio!
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio.
Deixa intentado a humana geração!
Mísera sorte! Estranha condição!”
“Se não fora esse fogo roubado do céu (1), o miserando moço não cometeria o alto carro do pai (2); nem o grande arquiteto cometeria, com o filho, o vazio ar (3) – dando, um, nome ao mar, e o outro fama ao rio (4). A geração humana nenhum alto e nefando cometimento (5) deixa intentado [=intacto] (6) por meio de fogo, ferro, água, calma e frio! Mísera sorte! Estranha condição (7)!
(1) Subentendem-se estas palavras ou outras semelhantes, porque na presente estância prossegue o pensamento da precedente: se não fosse a ambição, ... (2) “Miserando”, etc.; o moço é o atrevido Faetonte, que pretendeu governar o carro do Sol, o carro de seu pai, Apolo; cfr I, 46 e passim; “cometera”, tentara, intentara; acometera, apoderara-se do..., lançara-se sobre o carro do Sol, para o guiar. (3) “Arquitetor”, etc.; forma antiga de “arquiteto”, no sentido de “engenhoso” – aplicado este epíteto elipticamente ao Dédalo da fábula, que pretendeu com asas artificiais voar como as aves, lançando-se no ar (“vazio por ser a atmosfera, na aparência, o vácuo) e lança-se no ar com seu filho Ícaro. (4) “nome ao mar”, etc.; segundo a fábula, caindo Ícaro no mar, este ficou tendo o nome de Icário; e caindo Faetonte no rio Pado, ficou este célebre por essa queda; cfr. I, 46. (5) “Cometimento”, empreendimento – quer seja “alto” (subido, digno de louvor), quer seja “nefando” (torpe, de natureza tal que não se possa ou deva dele falar). (6) “Intentado” = não tentado = intacto; não há empresa que os homens não realizem – quando movidos pela ambição, umas vezes praticando ações nobres, outras vezes praticando atos nefandos – ainda que tenham de padecer fogo e ferro (a guerra), água (a inclemência dos mares), calma e frio (as vicissitudes dos climas que padeceram os navegantes na zona tórrida e no mar Antártico). (7) “Mísera sorte”, etc.; epifonema, lastimando intensamente a infelicidade de Portugal, que arriscava, sem correspondente proveito, tantas vidas na Índia; e admirando a estranha (extraordinária, admirável, por incoerente) condição humana; cfr. Est. 95 e 97.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
terça-feira, 5 de abril de 2022
Malícia e Receio
Canto II - 9
E, despois que ao rei apresentaram
Co’o recado os presentes que traziam,
A cidade correram e notaram
Muito menos daquilo que queriam;
Que os Mouros cautelosos se guardaram
De lhe mostrarem tudo o que pediam:
Que onde reina a malícia, está o receio,
Que a faz imaginar no peito alheio.
E – depois que apresentaram [=depois de apresentarem], ao rei, os presentes, com o [=mais o] recado (1) que traziam – correram a cidade (2), e notaram [=tomaram conhecimento de] muito menos daquilo que queriam saber; que [=pois] os mouros, cautelosos, guardaram-se (3) de mostrar-lhes tudo o que os dois enviados pediram [=buscavam]; que [=porque], onde [em quem] reina [=domina] a malícia (4), está o receio, que a faz imaginar no peito alheio (5).
(1) Mensagem. (2) Andaram pela cidade rapidamente, de modo que não podiam observar tudo com minudência. (3) “Guardara-se de” = evitaram. (4) “Onde reina...”, quem tem malícia, tem receio de que as outras pessoas sejam igualmente maliciosas. (5) O coração de outrem; o perverso está sempre desassossegado; tudo quanto esse premedita contra o próximo, isto mesmo imagina e receia que lhe façam.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
E, despois que ao rei apresentaram
Co’o recado os presentes que traziam,
A cidade correram e notaram
Muito menos daquilo que queriam;
Que os Mouros cautelosos se guardaram
De lhe mostrarem tudo o que pediam:
Que onde reina a malícia, está o receio,
Que a faz imaginar no peito alheio.
E – depois que apresentaram [=depois de apresentarem], ao rei, os presentes, com o [=mais o] recado (1) que traziam – correram a cidade (2), e notaram [=tomaram conhecimento de] muito menos daquilo que queriam saber; que [=pois] os mouros, cautelosos, guardaram-se (3) de mostrar-lhes tudo o que os dois enviados pediram [=buscavam]; que [=porque], onde [em quem] reina [=domina] a malícia (4), está o receio, que a faz imaginar no peito alheio (5).
(1) Mensagem. (2) Andaram pela cidade rapidamente, de modo que não podiam observar tudo com minudência. (3) “Guardara-se de” = evitaram. (4) “Onde reina...”, quem tem malícia, tem receio de que as outras pessoas sejam igualmente maliciosas. (5) O coração de outrem; o perverso está sempre desassossegado; tudo quanto esse premedita contra o próximo, isto mesmo imagina e receia que lhe façam.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
segunda-feira, 4 de abril de 2022
Aparência e Intenção
Canto I - 105
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho da vida nunca certo!
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!
O recado (1), que trazem aqueles homens dos batéis, é de amigos; mas, debaixo desse recado, vem coberto [= encoberto] o veneno [= a perfídia]; que [=pois] os pensamentos [as intenções] eram de inimigos, segundo veio a saber-se, quando (2) o engano [a traição] foi descoberto. Oh! Grandes e gravíssimos são os perigos, a que a humanidade anda exposta! Oh! Nunca é certo [seguro] o caminho da vida (3)! É para lastimar, que, onde a gente (4) põe a sua esperança, tenha a vida tão pouca segurança! (5)
(1) Cfr. I, 104. (2) Elipse anacolútica. (3) Fig., nunca é seguro o destino de cada homem; apóstrofe semelhante em I, 71-5. (4) “A gente”, a humanidade; nós e os outros homens. (5) Continuando a apóstrofe com esta moralidade: no lugar para onde nos encaminharmos com maior segurança, e na esperança do alcançar felicidade, é justamente aí que às vezes recebemos os maiores danos.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho da vida nunca certo!
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!
O recado (1), que trazem aqueles homens dos batéis, é de amigos; mas, debaixo desse recado, vem coberto [= encoberto] o veneno [= a perfídia]; que [=pois] os pensamentos [as intenções] eram de inimigos, segundo veio a saber-se, quando (2) o engano [a traição] foi descoberto. Oh! Grandes e gravíssimos são os perigos, a que a humanidade anda exposta! Oh! Nunca é certo [seguro] o caminho da vida (3)! É para lastimar, que, onde a gente (4) põe a sua esperança, tenha a vida tão pouca segurança! (5)
(1) Cfr. I, 104. (2) Elipse anacolútica. (3) Fig., nunca é seguro o destino de cada homem; apóstrofe semelhante em I, 71-5. (4) “A gente”, a humanidade; nós e os outros homens. (5) Continuando a apóstrofe com esta moralidade: no lugar para onde nos encaminharmos com maior segurança, e na esperança do alcançar felicidade, é justamente aí que às vezes recebemos os maiores danos.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
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