terça-feira, 24 de março de 2026

Reflexão #24

omne tulit punctum qui miscuit utile dulci
Horatio
Aquele que mistura o útil ao doce leva todo ponto (tradução literal)
Aquele que une o útil ao agradável ganha todos os votos (tradução livre)
Quintus Horatius Flaccus


O ditado popular unir o útil ao agradável talvez tenha tido sua origem aqui, ou talvez já fosse popular na época de Horácio (século I a.C.). O interessante aqui é que este trecho é retirado da Ars Poetica, a Arte Poética, onde o autor instrui como bem escrever.
Dito isso, podemos entender como os poetas não só buscam uma métrica e sons, mas também um referente que ressoe com o humano que irá ler. Procuram uma combinação entre uma boa metrificação (útil) e expressão de sentimento (agradável), ou uma combinação entre experiência de vida (útil) e sonoridade (agradável).

quinta-feira, 19 de março de 2026

Auto-imagem e Terapia

A auto-imagem, ainda mais quando reforçada por falsas autobiografias como a de Rousseau, torna-se uma prisão. E chegamos a tal situação, no mundo burguês, em que existem terapias para que você melhore sua auto-imagem: de certo modo, sua auto-imagem irá melhorar, ao passo que você irá piorar substancialmente. O culto da auto-imagem é, no fim das contas, uma opção pelo mental e uma ruptura com a realidade. Ao contrário, ao tomar consciência do seu eu substancial, você desde logo se convence de que ele jamais poderá ser um conteúdo de sua consciência a ser fixado numa auto-imagem.


A Consciência de Imortalidade - Olavo de Carvalho

quinta-feira, 12 de março de 2026

Virtude e Recompensa

Prosa 3

1 Disse a Filosofia: "Tu não vês. pois, a imundície em que se revolve a maldade e a luz com que resplandece a virtude? Isso fará com que tu compreendas que ao bem sempre chega o seu prêmio, assim como o castigo sempre chega para o vício.

2 "Pois é racionalmente certo considerarmos que a recompensa de uma ação é o próprio objeto que a motivou: como a coroa conferida ao corredor que chega ao primeiro lugar numa competição de velocidade.

3 "E como já ficou demonstrado que a felicidade é a mesma coisa que o bem, o qual, por sua vez, é o verdadeiro objetivo de todos os atos praticados no mundo, é inevitável que consideremos o bem como a recompensa comum a todos os atos humanos.

4 "Porém, o bem é inseparável das pessoas boas, pois não poderíamos chamar de 'bom' a alguém que carecesse do bem; de modo que uma conduta virtuosa sempre alcança a recompensa que merece.

5 "Os homens maus podem ficar irritados o quanto o desejarem, isso não afeta em nada a recompensa dos bons, porque a maldade alheia não tem o poder de diminuir a glória do homem honrado.

6 "Se as honrarias externas fossem a fonte de sua glória, é óbvio que elas poderiam ser facilmente roubadas por qualquer pessoa - até mesmo por quem as tenha conferido; mas quando a recompensa de um homem é a sua própria virtude (algo que está dentro dele), ele só pode perdê-la se acaso deixar de ser virtuoso.

7 "Por fim, se uma recompensa é buscada por ser considerada um bem, ninguém pode pensar que um homem bom está desprovido de sua recompensa.

8 "Que recompensa é essa? Trata-se da mais bela e grandiosa dentre todas: lembra-te daquele importantíssimo corolário que demonstrei há pouco, e raciocina a partir dele.

9 "Se a felicidade é o próprio bem, está claro que os homens bons são felizes pelo mero fato de serem bons.

[...]

A Consolação da Filosofia - Boécio

quarta-feira, 11 de março de 2026

Homem e Propósito

Prosa 6

1 "Permite-me, pois, que te faça algumas perguntas para provar o teu espirito e saber qual é o tratamento que te devo aplicar?".

2 Respondi: "Pergunta-me tudo o que quiseres! Estou dis posto a responder a qualquer pergunta".

3 E ela perguntou: "Tu pensas que o nosso mundo é movido pelas forças cegas da Fortuna ou crês que é dirigido por uma Razão?".

4 Respondi: "A mim seria impossível imaginar que um conjunto tão bem ordenado pudesse depender das forças cegas do acaso; pelo contrário, estou persuadido de que é Deus que dirige a obra que Ele mesmo criou, e jamais poderei pensar de outro modo".

5 "Sim, expressaste isso muito bem nos teus versos. Deploraste a solidão dos homens que se declaram independentes da vontade divina, e não hesitaste em declarar que todo o resto da criação é governado por um poder inteligente.

6 "Ora! Fico extremamente surpreendida que estejas doente da alma apresentando pensamentos assim tão elevados. Contudo, sondemos essa alma mais a fundo: tenho a impressão de que te falta algo.

7 "Diga-me: se não duvidas de que Deus é quem governa o mundo, tu sabes quais são os meios que ele empregue para governá-lo?".

8 Então eu disse: "Compreendo apenas o sentido da tua pergunta, mas não é tão fácil assim responder ao que desejas saber".

9 Prosseguiu ela: Eu já havia observado que havia um vazio em ti; foi por aí que, como por uma pequena fenda aberta numa muralha, penetrou em tua alma a violenta perturbação das paixões.

10 "Dize: porventura te esqueceste de qual é o fim de todas as coisas e o objetivo para o qual se dirigem todos os esforços da natureza inteira?". A essa pergunta, respondi "Aprendi tudo isso, mas agora minha memória está muito afetada pela dor".

11 E ela: "E tu sabes qual é o princípio do qual provêm todas as Coisas?", "Sim. É Deus', respondi, "isso já sei, como lhe disse ainda há pouco".

12 Ela retorquiu: "Como é possível que conheças o princípio de todas as coisas e ignores o seu fim?

13 "Assim são as paixões: embora sejam capazes de comover o homem, não conseguem arrancá-lo totalmente de si mesmo.

14 "Contudo, eu gostaria que me respondesses a outra pergunta: tu te lembras de que és um homem?". Respondi "Como não me lembraria?". E ela perguntou:

15 "Poderias explicar o que é um homem?". E eu disse-lhe "Sei que pretendes ver se sei que o homem é um anima racional e mortal. Sei muito bem o que sou e compreendo que não sou outra coisa".

16 Disse ela: "Tens certeza de não ser nenhuma outra coisa?". "Tenho certeza", respondi.

17 Então ela disse: "Vejo agora que existe outra causa para o teu mal. E ela é, sem dúvida, a causa mais influente: tu não sabes quem tu és. Acabo de encontrar a origem de todo o teu mal e também o meio para te devolver a saúde.

18 "Sim, o que te cegou foi o esquecimento de si mesmo: por isso te queixaste do teu exílio e do despojo dos teus bens.

19 "Por ignorar o fim de todas as coisas, tu crês que os homens perversos são poderosos e felizes. Por teres te esquecido das leis invisíveis que regem o universo, julgas que a Fortuna e seus caprichos caminham livremente no mundo. Bem, essas são causas que, além de enfermidade, poderiam provocar até a morte... Portanto, demos graças ao Autor da vida porque a natureza não te abandonou completamente.

20 "Temos aqui ao nosso alcance a centelha que acenderá a tua salvação: é a noção correta que tens do mundo e de quem o governa, tu compreendes que o universo não está sujeito às forças cegas da Fortuna, mas respeita uma ordem divina. Então, não é preciso temer mais nada: essa pequena centelha se converterá numa chama tão poderosa que te devolverá o calor da vida.

21 "Entretanto, ainda não está no tempo de aplicarmos os remédios mais fortes, pois bem sabemos que a alma humana, que em outras condições estaria completamente esclarecida, quando se afasta da verdade se vê obscurecida pela nuvens das paixões que perturbam a sua inteligência; por isso, primeiro tratarei de apaziguar a tua alma com os sedativos mais suaves; mais tarde, quando as nuvens do engano já viverem sido dissipadas, tu poderás encontrar novamente o esplendor da verdadeira luz.


A Consolação da Filosofia - Boécio

terça-feira, 10 de março de 2026

Sorte e Preocupação

Metro 4

"Quem leva a vida assim bem ordenada
despreza do destino as artimanhas:
enfrenta sóbrio a boa e a má Fortuna
mantendo sua aparência imperturbável.
Nao lhe atordoa a fúria ameaçadora
das ondas mais profundas do oceano;
nem o vórtex de fumo do Vesúvio
que explode em turbilhões de fogo e brasa:
muito menos o raio cintilante
que abala até as torres mais altivas.
Por que então os desgraçados se impressionam
com o poder ilusório dos tiranos?
Renuncia igual ao medo e à esperança
e o adversário perderá as suas armas.
Os que vacilam por temer ou esperar
pela falta de firmeza e de domínio
assolam a sua defesa e, desolados,
forjam a própria prisão em que se arruínam".


A Consolação da Filosofia - Boécio

segunda-feira, 9 de março de 2026

Motivação e Temperamentos

Motivação e temperamentos

Agora que temos uma estrutura psicológica na qual basear nosso entendimento da motivação, como podemos aplicar isso ao nosso entendimento dos diferentes temperamentos?

Alguns dos temperamentos, à primeira vista, parecem ser mais automotivados ou mais facilmente motivados do que outros. Alguns exibem fraqueza em aspectos particulares da motivação - na prontidão, vontade ou habilidade. Quando identificamos essas áreas particulares de fraqueza e compreendemos como fortalecer cada área específica, somos muito mais capazes de motivar a nós mesmos e aos outros. Isso será um benefício não apenas no nível natural, mas também em nossas vidas espirituais.

Parece evidente que os temperamentos colérico e sangüíneo são os mais facilmente motivados - pelo menos no início. Não há dúvidas de que pessoas com as reações mais rápidas e fortes esteiam mais prontas para mudar: o colérico e o sangüíneo estão quase sempre prontos. Além disso, tanto os coléricos quanto os sangüíneos, com sua confiança e otimismo, geralmente se consideram capazes. A vontade, uma questão de perceber a importância da mudança, geralmente é rapidamente apreendida pelo intelecto pragmático do colérico. O sangüíneo, também, com sua abertura e entusiasmo, muitas vezes compreende rapidamente a importância de um empreendimento específico ou de uma nova idéia e está pronto para seguir com ela.

Esses temperamentos não são isentos de fraquezas, no entanto, quando se trata de motivação. O colérico pode sofrer de uma superabundância de confiança, o que pode resultar na minimização da importância da mudança. ("Eu estudo tão rápido, não preciso ler as instruções; eu mesmo posso descobrir"). Essa confiança também pode resultar em uma incapacidade de escolher o objetivo certo, receber instruções, ou trabalhar em equipe - novamente, impactando a motivação para mudar negando sua importância. Isso pode ser uma falha séria quando se reflete na vida espiritual do colérico.

A fraqueza do sangüíneo é que, devido à sua alta sensibilidade, ele é facilmente distraído de seu objetivo e será rapidamente motivado a perseguir outro objetivo, outra estrela brilhante, outro capricho. O sangüíneo está freqüentemente pronto para mudar, mas podem faltar o comprometimento e o foco necessários para alcançar seu objetivo. Na falta de confiança em sua capacidade de perseverar até o fim, a sangüíneo pode ser tentado a racionalizar ("não estou nem aí em fazer parte do time") ou a culpar ("não é minha culpa que eu não tenha conseguido uma boa nota no teste; o professor não explicou direito"). O sangüíneo deve se esforçar para perseverar.

Tanto o temperamento melancólico quanto o fleumático tendem a reagir lentamente. O melancólico tende a colocar uma ênfase maior na análise e na contemplação e, portanto, talvez nunca chegue à ação. Ele sofre de falta de prontidão. O intelecto abomina a ação, e o melancólico depende muito do intelecto. Como resultado, o temperamento melancólico geralmente precisa de um pontapé inicial. Mais do que os outros temperamentos, o melancólico cético e analítico precisa ser convencido sobre a importância do objetivo. Além disso, sua tendência à autocrítica pode minar sua confiança - nele e nos outros. Com a falta de confiança, o melancólico pode procrastinar, resultando em uma diminuição ainda maior da motivação.

O fleumático também sofrerá com a falta de prontidão. Ele pode inicialmente ser tomado por uma falta de confiança, o que afetará sua capacidade de fazer as alterações necessárias. Além disso, o fleumático, com sua natureza adaptável e pacífica, gosta muito de negligenciar qualquer discordância; portanto, não toma consciência da importância da mudança. Parece muito satisfeito com o status quo, disposto a se adaptar a fim de acomodar contratempos e falhas, propenso demais a descartar a necessidade de mudança.

Por esse motivo, a tentação de incomodar e impulsionar um fleumático é extremamente forte; é uma tentativa compreensível de aumentar sua discordância, para conscientizá-lo da importância de mudar, mas provocar o fleumático só o desanima e amedronta, diminuindo a confiança de que pode alcançar seu objetivo. Ele se torna ainda menos motivado do que era antes.


O Temperamento Que Deus Lhe Deu - Art & Laraine Bennett