Esse aspecto subjetivo, que é a obrigação de se ter sempre a plateia em mente, é a explicação também de outro aspecto da retórica: o embelezamento e a ordenação do discurso.
Algumas mentes de índole fortemente dialética torcem o nariz para esse aspecto, pois pensam que a verdade e a objetividade de uma afirmação são o que importa, e que qualquer adorno discursivo servirá apenas para desviar a atenção do foco. Tais pessoas, é força dizer, dificilmente vencerão uma eleição ou um concurso que requeira apresentação de qualidades amáveis e urbanas; ou, pelo contrário, dificilmente conseguirão mover um exército de pessoas a bater-se contra um inimigo que esteja prestes a destruir sua civilização.
É um fato que o homem não é razão calculante apenas; mas, também, e muitas vezes principalmente, desejo e paixão. Ignorar estas dimensões, e viver no aguardo da era em que a humanidade vá finalmente estar livre delas, é tentativa de fuga da realidade. Devemos admitir, assim, que o homem é vir desiderorum e que ama o belo e o prazenteiro – bem como sente repulsa pelo feio e pelo doloroso. Por isso, no âmbito do discurso retórico, a beleza e a organização serão inevitavelmente parta da ordem do dia.
Trivium e Quadrivium – A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 – Instituto Hugo de São Vitor
quinta-feira, 15 de julho de 2021
quarta-feira, 14 de julho de 2021
Estudo e Hábito
Não apenas, portanto, a alma discente deve receber informações e noções, mas também ter exemplos a copiar. Seriam apenas modelos de conduta moral mais ou menos reta, como hoje se pensa? Não, pois isso praticamente toda cidade possui. Basta selecionar bem o ambiente a ser frequentado. Porém, no caso, Cícero referia-se à eminência da cidade de Atenas, onde seu filho estava aprendendo filosofia. Em outras palavras, ele claramente afirma que, além de conhecer regras e preceitos de determinada técnica ou ciência, é necessário ter diante dos olhos o exemplo de pessoas que as praticam bem.
E aí surgem os problemas. Em um ambiente como o Brasil, os professores ( que também devem dar o exemplo, sabendo manejar com apuro as técnicas das Artes Liberais) são escassíssimos, e nem as cidades possuem a atmosfera intelectual ideal para uma vida de estudos. E não é de hoje. As coisas já estiveram piores, todavia. É possível notarmos núcleos de vida intelectual formando-se aqui e ali, e a internet tem feito muito para aproximar os estudantes sérios, que antes se viam ilhados e isolados.
Primeiro, então, para que haja um estudo proveitoso do Trivium, é necessário levar em consideração a questão do meio ambiente. Estar em contato com mestres e com outros estudantes. Se possível, também, é salutar criar ou participar de grupos de estudo, cuidando para que não degenerem em falatório oco nem em mera ocasião de expor vaidosamente as próprias ideias. Importante, também, é mapear as obras que serão necessárias, para saber onde encontrá-las, assim que necessário.
Em segundo lugar, vem a questão dos hábitos de um estudante sério. Passaremos longe da pregação moral. Contudo, o caso é que certos hábitos, bastante enraizados no Brasil, são abertamente deletérios. Começando pelo hábito de se nutrir apenas de cultura pop ou popular. Sem pregar o abandono irrestrito de gostos pessoais, é preciso que o aluno se disponha a buscar alimento mais sólido e rico em proteínas também. Os gostos pessoais são apenas isso: gostos pessoais. As culturas pop e popular, embora muitas vezes bebam da fonte dos clássicos e da mitologia, têm como característica serem menos exigentes intelectualmente, mais apelativas e mais compactas, demandando uma atenção menos duradoura e/ou de menor intensidade. Isso, levado ao extremo, é muito daninho para a capacidade intelectual que uma vida de estudos pede. Ao mesmo tempo, elas são mais formalistas e repetitivas, e seus simbolismos tendem a ser mutilados; de modo que elas acabam por criar um imaginário depauperado, quando são a única fonte que o abasteça.
Trivium e Quadrivium – A Doutrina das 7 Artes Liberais – Coleção de Artes Liberais Volume 1 – Instituto Hugo de São Vitor
E aí surgem os problemas. Em um ambiente como o Brasil, os professores ( que também devem dar o exemplo, sabendo manejar com apuro as técnicas das Artes Liberais) são escassíssimos, e nem as cidades possuem a atmosfera intelectual ideal para uma vida de estudos. E não é de hoje. As coisas já estiveram piores, todavia. É possível notarmos núcleos de vida intelectual formando-se aqui e ali, e a internet tem feito muito para aproximar os estudantes sérios, que antes se viam ilhados e isolados.
Primeiro, então, para que haja um estudo proveitoso do Trivium, é necessário levar em consideração a questão do meio ambiente. Estar em contato com mestres e com outros estudantes. Se possível, também, é salutar criar ou participar de grupos de estudo, cuidando para que não degenerem em falatório oco nem em mera ocasião de expor vaidosamente as próprias ideias. Importante, também, é mapear as obras que serão necessárias, para saber onde encontrá-las, assim que necessário.
Em segundo lugar, vem a questão dos hábitos de um estudante sério. Passaremos longe da pregação moral. Contudo, o caso é que certos hábitos, bastante enraizados no Brasil, são abertamente deletérios. Começando pelo hábito de se nutrir apenas de cultura pop ou popular. Sem pregar o abandono irrestrito de gostos pessoais, é preciso que o aluno se disponha a buscar alimento mais sólido e rico em proteínas também. Os gostos pessoais são apenas isso: gostos pessoais. As culturas pop e popular, embora muitas vezes bebam da fonte dos clássicos e da mitologia, têm como característica serem menos exigentes intelectualmente, mais apelativas e mais compactas, demandando uma atenção menos duradoura e/ou de menor intensidade. Isso, levado ao extremo, é muito daninho para a capacidade intelectual que uma vida de estudos pede. Ao mesmo tempo, elas são mais formalistas e repetitivas, e seus simbolismos tendem a ser mutilados; de modo que elas acabam por criar um imaginário depauperado, quando são a única fonte que o abasteça.
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terça-feira, 13 de julho de 2021
Língua e Escrita
Escrever tornou-se necessário para o aprimoramento da atividade econômica mais ou menos como quem escreve uma lista para ir ao supermercado. Os mais antigos fragmentos egípcios, mesopotâmicos ou as escritas lineares micênica e cretense comprovam isso. Somente quando esta técnica de simbolizar as palavras está bem desenvolvida é que algum destes burocratas antigos decide registrar as vidas dos faraós, ou o poema sobre o rei Gilgamesh, ou as epopeias que havia séculos muitos rapsodos cantavam em uma língua morta e que eram atribuídas a um poeta cego e vagabundo. Estes textos já existiam, mas só na memória dos cantores ou poetas, que eram, até pouco tempo atrás, a mesma pessoa.
A coisa não para por aí, uma língua tão nova como o alemão moderno, por exemplo, foi primeiramente usada por burocratas e funcionários públicos antes de ser imortalizada na pena de Lutero e se tornar uma das maiores línguas literárias do ocidente. Vemos aí, com a história da escrita, que há um abismo entre, de um lado, catalogar a última safra de olivas e, de outro, escrever sobre feitos heróicos. De um lado do abismo há um negócio e do outro um ócio. Hoje, diríamos que de um lado há o trabalho, algo útil e imprescindível, de outro, há só lazer, um hobby, puro entretenimento. A questão é, por incrível que pareça aos olhos do homem moderno, que não foram as listas de compras que ergueram e derrubaram impérios, nem foram os textos dos burocratas que moveram as construções das pirâmides ou das catedrais. Impérios ergueram-se e caíram bem como pirâmides e catedrais quase tocam os céus por causa daquilo que achamos ser só entretenimento, uma forma de descanso e relaxamento, diversão, coisa de criança. É isso mesmo, coisa de criança, é um jogo, ludus, é ócio, não negócio, é o menino a pegar num galho e dizer ser o seu rifle e que com ele defenderá sua mãe e seus irmãos na ausência do pai.
Mas não foi só a escrita que deixou de servir somente a coisas úteis, como listas de compras, e passou a prestar-se a inutilidades como a Ilíada, a Odisseia ou a Bíblia em alemão. Fazer contas também passou a ser praticado por gente que nada ou muito pouco precisava contar para administrar seus bens. Discutir caiu no gosto de gente que não precisava tomar decisões políticas ou militares. Olhar para o céu fascinou até mesmo gente a quem pouco importava as mudanças climáticas ou que direção seguir para chegar à Etiópia. Conhecer os fundamentos da harmonia dos sons interessou gente desafinada e tímida que nunca emitiu, com a voz ou com os dedos, nem sequer duas notas. Medir a área de um círculo obcecou muita gente que nunca dera uma martelada sequer numa pedra para erguer uma casa. E, no fim das contas, foram as ideias de gente assim que chegaram até nós e que determinam o que somos e ensinamos aos jovens, determinando o que eles serão, por mais que hoje nossa expectativa seja de que se tornem capazes de compor bem as listas de compras; raramente esperamos que transcrevam a Odisseia.
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A coisa não para por aí, uma língua tão nova como o alemão moderno, por exemplo, foi primeiramente usada por burocratas e funcionários públicos antes de ser imortalizada na pena de Lutero e se tornar uma das maiores línguas literárias do ocidente. Vemos aí, com a história da escrita, que há um abismo entre, de um lado, catalogar a última safra de olivas e, de outro, escrever sobre feitos heróicos. De um lado do abismo há um negócio e do outro um ócio. Hoje, diríamos que de um lado há o trabalho, algo útil e imprescindível, de outro, há só lazer, um hobby, puro entretenimento. A questão é, por incrível que pareça aos olhos do homem moderno, que não foram as listas de compras que ergueram e derrubaram impérios, nem foram os textos dos burocratas que moveram as construções das pirâmides ou das catedrais. Impérios ergueram-se e caíram bem como pirâmides e catedrais quase tocam os céus por causa daquilo que achamos ser só entretenimento, uma forma de descanso e relaxamento, diversão, coisa de criança. É isso mesmo, coisa de criança, é um jogo, ludus, é ócio, não negócio, é o menino a pegar num galho e dizer ser o seu rifle e que com ele defenderá sua mãe e seus irmãos na ausência do pai.
Mas não foi só a escrita que deixou de servir somente a coisas úteis, como listas de compras, e passou a prestar-se a inutilidades como a Ilíada, a Odisseia ou a Bíblia em alemão. Fazer contas também passou a ser praticado por gente que nada ou muito pouco precisava contar para administrar seus bens. Discutir caiu no gosto de gente que não precisava tomar decisões políticas ou militares. Olhar para o céu fascinou até mesmo gente a quem pouco importava as mudanças climáticas ou que direção seguir para chegar à Etiópia. Conhecer os fundamentos da harmonia dos sons interessou gente desafinada e tímida que nunca emitiu, com a voz ou com os dedos, nem sequer duas notas. Medir a área de um círculo obcecou muita gente que nunca dera uma martelada sequer numa pedra para erguer uma casa. E, no fim das contas, foram as ideias de gente assim que chegaram até nós e que determinam o que somos e ensinamos aos jovens, determinando o que eles serão, por mais que hoje nossa expectativa seja de que se tornem capazes de compor bem as listas de compras; raramente esperamos que transcrevam a Odisseia.
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