sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Trabalho e Oração

Sim, pois durante trinta anos
Trabalha como artesão
E nisto já a redenção
Começa, para que
De costumes tão profanos
Se sacrifiquem na lida
Que nunca é dita perdida
A quem o suor oferece:
A labuta é como prece
Se como cruz é entendida.


Catábase e Anábase - Magister Clisthenes

Ceia e Política

O Administrador pulou. Oh Diabo! E ele, às nove horas da manhã, com comissão de recenseamento!... Para esmagar bem o amuo, cingiu Gonçalo num rijo abraço. E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz com o Videirinha (que nestas noites de Vila Clara o acompanhava sempre pela estrada até ao portão da Torre), João gouveia ainda se voltou, pendurado do braço do Titó no meio da Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral “de não sei que filósofo”:

- “Não vale a pena estragar boa ceia por causa de má política...” Creio que é de Aristóteles!

E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados harpejos:

- Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não vale a pena, porque em Política hoje é branco, amanhã é negro, e depois, zás, tudo é nada.


A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queirós

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Pátria e Tradição

Parou – ondeou o braço magro, como a correia dum látego, num gesto que açoitava o Rossio, a Cidade, toda a Nação. Sabia o amigo Gonçalinho o segredo desta borracheira sinistra? É que, dos Portugueses, os piores desprezavam a Pátria – e os melhores ignoravam a Pátria. O remédio? ... Revelar Portugal, vulgarizar Portugal. Sim, amiguinho! Organizar, com estrondo, o reclamo de Portugal, de modo que todos o conheçam – ao menos como se conhece o Xarope Peitoral de James, hem? E que todos o adotem – ao menos como se adotou o sabão do Congo, hem? E conhecido, adotado, que todos o amem enfim, nos seus heróis, nos seus feitos, mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padrões, e até nas veras pedrinhas das suas calçadas! Para esse fim, o maior empreender neste apagado século da nossa História, fundava ele os Anais. Para berrar! Para atroar Portugal, aos bramidos sobre os telhados, com a notícia inesperada da sua grandeza! E aos descendentes dos que outrora fizeram o Reino incumbia, mais que aos outros, o cuidado piedoso de o refazer... Como? Reatando a tradição, caramba!


A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queirós