LOURENÇO
Que lindo luar! Foi decerto por uma noite destas, enquanto a brisa beijava carinhosamente as árvores, que nem rumorejavam, que Troilo subiu as muralhas de Tróia e exalou a sua alma em suspiros em face das tendas gregas onde dormia Créssida.
JÉSSICA
Numa noite como esta foi também que Tisbe, caminhando a medo através do orvalho, viu a sombra do leão antes que visse o próprio leão, fugiu espavorida.
LOURENÇO
Foi numa noite assim que Dido, com o ramo de salgueiro na mão conservando-se de pé na praia deserta, suplicava com seus gestos ao amante que voltasse para Cartago.
JÉSSICA
Medeia procurou uma noite igual para colher as ervas mágicas que rejuvenesceram o velho Éson.
LOURENÇO
Foi numa noite assim bela que Jéssica fugiu da casa do velho judeu, e, acompanhada por um estouvado amante, se refugiou em Belmonte, vinda de Veneza.
JÉSSICA
Sim. Foi nessa noite que um jovem Lourenço lhe jurou que a havia de amar sempre e lhe roubou a alma com mil juramentos de fidelidade, dos quais nenhum era verdadeiro...
LOURENÇO
Numa noite tal como a de hoje, a gentil Jéssica, uma pequena travessa, caluniou o seu amante que lhe perdoou...
JÉSSICA
Havia de me bater contigo em dueto sobre esta linda noite, se não viesse ninguém, mas... caluda! Ouço passos de homem.
O Mercador de Veneza – William Shakespeare
terça-feira, 20 de setembro de 2022
Aparência e Verdade
The first, of gold, who this inscription bears,
“Who chooseth me shall gain what many men desire.”
The second, silver, which this promise carries,
“Who chooseth me shall get as much as he deserves.”
This third, dull lead, with warning all as blunt,
“Who chooseth me must give and hazard all he hath.”
How shall I know if I do choose the right?
Gold:
All that glisters is not gold,
Often have you heard that told.
Many a man his life hath sold
But my outside to behold.
Gilded tombs do worms infold.
Had you been as wise as bold,
Young in limbs, in judgment old,
Your answer had not been inscroll’d,
Fare you well, your suit is cold.
Ouro:
Trad. Dr. Domingos Ramos
Nem tudo que luz é ouro!
É bem sabido o ditado.
O meu aspecto põe medo;
A muitos já tem matado...
Em campas áureas há vermes.
É sempre d’ouro a prudência:
Antes ser velho em juízo
Do que novo sem ciência.
Foi assim que tu tiveste
Resposta à tua ousadia...
- Vai em paz e tem saúde
A tua esperança é bem fria.
Trad. El-rei D. Luís I:
Nem tudo o que luz é ouro
Reza o ditado vulgar,
Que bem se pode afirmar
É do bom-senso tesouro.
Quantos, com raro candor,
Têm dado a própria existência
Pela enganosa aparência,
Do meu externo fulgor!
Pois nestas urnas que cerra
O lavor d’áureo metal
Tem morada sepulcral
Os torpes vermes da terra.
Ó vós, quem quer que seja
Que trouxe aqui o destino,
Se houvésseis prudência e ti
À vossa ousadia iguais;
Se houvésseis na mocidade
Mostrado com precisão
Que idade já da razão
Fora da energia a idade.
Nestes caracteres meus
Não veríeis hoje escrito
Por desengano expedito
Perdeis tempo; i-vos com Deus.
Silver:
The fire seven times tried this;
Seven times tried that judgment is
That did never choose amiss.
Some there be that shadows kiss;
Such have but a shadow’s bliss.
There be fools alive, I wis,
Silver’d o’er, and so was this.
Take what wife you will to bed,
I will ever be your head:
So be gone; you are sped.
“Who chooseth me shall gain what many men desire.”
The second, silver, which this promise carries,
“Who chooseth me shall get as much as he deserves.”
This third, dull lead, with warning all as blunt,
“Who chooseth me must give and hazard all he hath.”
How shall I know if I do choose the right?
Gold:
All that glisters is not gold,
Often have you heard that told.
Many a man his life hath sold
But my outside to behold.
Gilded tombs do worms infold.
Had you been as wise as bold,
Young in limbs, in judgment old,
Your answer had not been inscroll’d,
Fare you well, your suit is cold.
Ouro:
Trad. Dr. Domingos Ramos
Nem tudo que luz é ouro!
É bem sabido o ditado.
O meu aspecto põe medo;
A muitos já tem matado...
Em campas áureas há vermes.
É sempre d’ouro a prudência:
Antes ser velho em juízo
Do que novo sem ciência.
Foi assim que tu tiveste
Resposta à tua ousadia...
- Vai em paz e tem saúde
A tua esperança é bem fria.
Trad. El-rei D. Luís I:
Nem tudo o que luz é ouro
Reza o ditado vulgar,
Que bem se pode afirmar
É do bom-senso tesouro.
Quantos, com raro candor,
Têm dado a própria existência
Pela enganosa aparência,
Do meu externo fulgor!
Pois nestas urnas que cerra
O lavor d’áureo metal
Tem morada sepulcral
Os torpes vermes da terra.
Ó vós, quem quer que seja
Que trouxe aqui o destino,
Se houvésseis prudência e ti
À vossa ousadia iguais;
Se houvésseis na mocidade
Mostrado com precisão
Que idade já da razão
Fora da energia a idade.
Nestes caracteres meus
Não veríeis hoje escrito
Por desengano expedito
Perdeis tempo; i-vos com Deus.
Silver:
The fire seven times tried this;
Seven times tried that judgment is
That did never choose amiss.
Some there be that shadows kiss;
Such have but a shadow’s bliss.
There be fools alive, I wis,
Silver’d o’er, and so was this.
Take what wife you will to bed,
I will ever be your head:
So be gone; you are sped.
Prata:
Trad. Dr. Domingos Ramos
O fogo derreteu-me sete vezes...
E, para um pensamento nascer forte,
Outras sete em cadinho se fundiu
Para não ser entregue à simples sorte.
A sombra que se abraça é sempre sombra;
E mesmo sombra vã duma ventura,
Coberta d’ilusões, d’argênteas vestes,
Que importa, se isso tudo for loucura?
Desposai a mulher que vos agrade...
Esta imagem que tendes bem presente
É a vossa, parti: não mais vos deixa...
Há de seguir-vos sempre, eternamente.
Trad. El-rei D. Luís I:
Sete vezes sucessivas
Fui ao fogo temperar;
Outras tantas, no seu lar
Curte o sábio alternativas.
Poderá gabar-se alguém
Nas andanças do seu fado
De mão ter jamais errado
A escolha entre o mau e o bem?
Através de névoa escura,
Tomam não poucos varões
O espectro das ilusões
Pela imagem da ventura.
Sobram néscios magistrais
Donde a rudez se evapora,
Bem que de prata por fora;
Eu, por mim, sou desses tais.
Que busques no burburinho
Ruiva ou loura ou de outra cor,
É cópia minha, senhor
Entrouxa e põe-te a caminho.
Lead:
You that choose not by the view
Chance as fair and choose as true!
Since this fortune falls to you,
Be content and seek no new.
If you be well pleas’d with this,
And hold your fortune for your bliss,
Turn to where your lady is,
And claim her with a loving kiss.
O fogo derreteu-me sete vezes...
E, para um pensamento nascer forte,
Outras sete em cadinho se fundiu
Para não ser entregue à simples sorte.
A sombra que se abraça é sempre sombra;
E mesmo sombra vã duma ventura,
Coberta d’ilusões, d’argênteas vestes,
Que importa, se isso tudo for loucura?
Desposai a mulher que vos agrade...
Esta imagem que tendes bem presente
É a vossa, parti: não mais vos deixa...
Há de seguir-vos sempre, eternamente.
Trad. El-rei D. Luís I:
Sete vezes sucessivas
Fui ao fogo temperar;
Outras tantas, no seu lar
Curte o sábio alternativas.
Poderá gabar-se alguém
Nas andanças do seu fado
De mão ter jamais errado
A escolha entre o mau e o bem?
Através de névoa escura,
Tomam não poucos varões
O espectro das ilusões
Pela imagem da ventura.
Sobram néscios magistrais
Donde a rudez se evapora,
Bem que de prata por fora;
Eu, por mim, sou desses tais.
Que busques no burburinho
Ruiva ou loura ou de outra cor,
É cópia minha, senhor
Entrouxa e põe-te a caminho.
Lead:
You that choose not by the view
Chance as fair and choose as true!
Since this fortune falls to you,
Be content and seek no new.
If you be well pleas’d with this,
And hold your fortune for your bliss,
Turn to where your lady is,
And claim her with a loving kiss.
Chumbo:
Trad. Dr. Domingos Ramos
Nem sempre há alegria em novidade:
Não quiseste saber das aparências,
E alcançaste assim felicidade;
Contenta-te com ela e mais não queiras;
Se te julgas feliz com tua sorte,
Serás fiel àquela que te chama,
Beijando-a e amando-a como tua.
É o eterno amor que tal reclama.
Trad. El-rei D. Luís I:
Tu que não olhas somente
Aos atraentes ardis,
Aplaude a escolha feliz
Do teu juízo prudente.
Se te leva ao galarim
A tua sorte ditosa,
Alegre a fortuna goza
Do que o céu te dota enfim.
Da ventura que te cabe
Se te contenta o quinhão,
Se entender esta lição
O teu espírito sabe.
Volve os olhos com ardor
A quem anela a tua alma,
E acharás triunfo e palma
Num beijo – beijo d’amor.
O Mercador de Veneza – William Shakespeare
Nem sempre há alegria em novidade:
Não quiseste saber das aparências,
E alcançaste assim felicidade;
Contenta-te com ela e mais não queiras;
Se te julgas feliz com tua sorte,
Serás fiel àquela que te chama,
Beijando-a e amando-a como tua.
É o eterno amor que tal reclama.
Trad. El-rei D. Luís I:
Tu que não olhas somente
Aos atraentes ardis,
Aplaude a escolha feliz
Do teu juízo prudente.
Se te leva ao galarim
A tua sorte ditosa,
Alegre a fortuna goza
Do que o céu te dota enfim.
Da ventura que te cabe
Se te contenta o quinhão,
Se entender esta lição
O teu espírito sabe.
Volve os olhos com ardor
A quem anela a tua alma,
E acharás triunfo e palma
Num beijo – beijo d’amor.
O Mercador de Veneza – William Shakespeare
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
Destino e Perspectiva
ROMEU
Tal como se esse nome semelhante a uma bala arremessada pelo canhão mortal a assassinasse; tal como se a mão maldita do que tem esse nome assassinasse o parente. – Oh! Dizei-me, irmão, dizei-me em que vil parte do meu corpo se aloja esse nome! Dizei-mo para que eu possa destruir este odioso edifício da minha existência. (Desembainha a espada).
FREI LOURENÇO
Oh! Desesperado! Reprime a tua cólera! És tu um homem? O teu aspecto grita que sim, mas as tuas lágrimas são de mulher e as tuas ações insensatas são dum irracional furioso. Oh! Homem mulheril, ou antes, oh! Animal feroz com a forma humana! Estou espantado! Pela minha sagrada ordem, nunca julguei que a tua alma fosse assim desiquilibrada! Depois de haveres morto Teobaldo, vais matar-te a ti? Vais matar também essa pobre senhora que vive da tua vida, cometendo contra ti mesmo esse danado ato de ódio? Por que razão amaldiçoas a tua existência? Amaldiçoas o céu? Amaldiçoas a Terra? Nascimento, Terra e céu, tudo se encontrou em ti e tu queres perder tudo ao mesmo tempo? Tu ultrajas a tua beleza, teu amor, o teu espírito! Todos esses bens abundam em ti, e tu, à maneira dum usurário deformas cada um desses bens do legítimo uso que melhor poderiam ornar a tua beleza, o teu amor, o teu espírito! O teu nobre aspecto não passa duma figura de cera, porque está em contradição com a força moral do homem; o teu amor, que juraste, não passa dum perjúrio oco, porque quer matar aquela bem-amada a quem fizeste voto de bem-amar; o teu espírito, esse ornamento da beleza e do amor, desnaturado pelo teu proceder, é como pólvora contida na cartucheira do soldado desastrado, que a própria ignorância inflama! Tu mutilas-te com os próprios meios de defesa. Vamos, levanta-te, homem, Julieta vive! Essa Julieta é aquela por amor de quem tu estavas ainda há pouco como morto! Vês como és feliz por esse lado? Teobaldo quis matar-te e foste tu quem o matou. Também foste feliz por isso. A lei que te ameaçava de morte mostrou-se tua amiga e transformou a morte em exílio; ainda por isso és feliz. Sobre a tua cabeça chove uma tempestade de bênçãos; a felicidade namora-te com o seu mais belo vestuário; mas tu, como se fosses criança mal-educada e amuada, fazes esgares à fortuna e ao amor. Tem cautela, tem cautela, porque os homens que assim procedem morrem miseráveis. Vai, vai para junto da tua bem-amada, como tínheis combinado, sobe ao seu quarto, consola-a, mas tem cuidado, não fiques até à hora do toque de alvorada, porque então não poderias sair da cidade, para ires para Mântua, onde deves viver até que eu veja ocasião de revelar o teu casamento de reconciliar os vossos pais, de implorar o perdão ao príncipe, de te trazer para aqui dois milhões de vezes mais feliz do que partes infeliz. Oh! Ama, vá adiante; dê os meus cumprimentos à sua senhora. Recomende-lhe que mandei deitar cedo todos, porque os desgostos porque têm passado hão de dispô-los ao descanso. Romeu já lá vai.
Romeu e Julieta – William Shakespeare
Tal como se esse nome semelhante a uma bala arremessada pelo canhão mortal a assassinasse; tal como se a mão maldita do que tem esse nome assassinasse o parente. – Oh! Dizei-me, irmão, dizei-me em que vil parte do meu corpo se aloja esse nome! Dizei-mo para que eu possa destruir este odioso edifício da minha existência. (Desembainha a espada).
FREI LOURENÇO
Oh! Desesperado! Reprime a tua cólera! És tu um homem? O teu aspecto grita que sim, mas as tuas lágrimas são de mulher e as tuas ações insensatas são dum irracional furioso. Oh! Homem mulheril, ou antes, oh! Animal feroz com a forma humana! Estou espantado! Pela minha sagrada ordem, nunca julguei que a tua alma fosse assim desiquilibrada! Depois de haveres morto Teobaldo, vais matar-te a ti? Vais matar também essa pobre senhora que vive da tua vida, cometendo contra ti mesmo esse danado ato de ódio? Por que razão amaldiçoas a tua existência? Amaldiçoas o céu? Amaldiçoas a Terra? Nascimento, Terra e céu, tudo se encontrou em ti e tu queres perder tudo ao mesmo tempo? Tu ultrajas a tua beleza, teu amor, o teu espírito! Todos esses bens abundam em ti, e tu, à maneira dum usurário deformas cada um desses bens do legítimo uso que melhor poderiam ornar a tua beleza, o teu amor, o teu espírito! O teu nobre aspecto não passa duma figura de cera, porque está em contradição com a força moral do homem; o teu amor, que juraste, não passa dum perjúrio oco, porque quer matar aquela bem-amada a quem fizeste voto de bem-amar; o teu espírito, esse ornamento da beleza e do amor, desnaturado pelo teu proceder, é como pólvora contida na cartucheira do soldado desastrado, que a própria ignorância inflama! Tu mutilas-te com os próprios meios de defesa. Vamos, levanta-te, homem, Julieta vive! Essa Julieta é aquela por amor de quem tu estavas ainda há pouco como morto! Vês como és feliz por esse lado? Teobaldo quis matar-te e foste tu quem o matou. Também foste feliz por isso. A lei que te ameaçava de morte mostrou-se tua amiga e transformou a morte em exílio; ainda por isso és feliz. Sobre a tua cabeça chove uma tempestade de bênçãos; a felicidade namora-te com o seu mais belo vestuário; mas tu, como se fosses criança mal-educada e amuada, fazes esgares à fortuna e ao amor. Tem cautela, tem cautela, porque os homens que assim procedem morrem miseráveis. Vai, vai para junto da tua bem-amada, como tínheis combinado, sobe ao seu quarto, consola-a, mas tem cuidado, não fiques até à hora do toque de alvorada, porque então não poderias sair da cidade, para ires para Mântua, onde deves viver até que eu veja ocasião de revelar o teu casamento de reconciliar os vossos pais, de implorar o perdão ao príncipe, de te trazer para aqui dois milhões de vezes mais feliz do que partes infeliz. Oh! Ama, vá adiante; dê os meus cumprimentos à sua senhora. Recomende-lhe que mandei deitar cedo todos, porque os desgostos porque têm passado hão de dispô-los ao descanso. Romeu já lá vai.
Romeu e Julieta – William Shakespeare
terça-feira, 13 de setembro de 2022
Clemência e Culpa
SENHORA CAPULETO
É um parente de Montecchio; a afeição arrasta-o à mentira; ele não diz a verdade: foram vinte os conjurados para este sinistro combate! Foram precisos vinte para matar um! Peço justiça! Deveis concedê-la, oh! Príncipe; Romeu matou Teobaldo, não deve permitir-se que Romeu viva!...
PRÍNCIPE
Romeu matou-o, mas ele tinha morto Mercucio. Quem me deverá pagar o valor do seu sangue precioso?
MONTECCHIO
Não deve ser Romeu, príncipe, porque ele era amigo de Mercucio. O seu crime foi simplesmente ter executado o que a lei havia de decidir – a morte de Teobaldo.
PRÍNCIPE
E por essa ofensa exilamo-lo imediatamente da cidade; eu mesmo sou vítima dos vossos ódios; o meu sangue corre por causa dessas ferozes disputas; mas eu vos condenarei a uma tal pena que vos haveis de arrepender todos da perda que eu sofro; ficarei surdo a discursos, a desculpas, a lágrimas, a súplicas; nada disto resgatará as violações da lei; portanto, não empregueis nenhum desses meios; que Romeu parta imediatamente, porquanto se for encontrado, essa hora será a última da sua vida. Levai daqui este corpo. A nossa vontade deve ser executada. A clemência para com assassinos é assassina também. (Saem).
Romeu e Julieta – William Shakespeare
terça-feira, 6 de setembro de 2022
Literatura e Pátria
Escolhendo Os Lusíadas para objeto de meus estudos, acredito que tomei um assunto nacional. Os Lusíadas é a obra-prima da literatura portuguesa, que é a nossa.
Vários ensaios, e alguns de grande merecimento, fizeram-se entre nós com o intuito de dar-nos uma literatura própria, mas ela ainda não existe. De duas sortes foram os trabalhos, que se conhecem, feitos com essa intenção. De uns o assunto era a vida de nossos indígenas, de outros era o estado atual de nossa sociedade.
Uma literatura, inspirada pela vida errante das tribos primitivas, que se servisse amplamente de seu rude vocabulário, que não nos descrevesse senão os seus costumes, seria bem uma literatura tupi ou guarani, mas não a brasileira. A poesia pode idealizar o caráter, o coração, as guerras, a civilização até desses ferozes habitantes de nossos sertões; mas a poesia, que se impuser essa aliás bela missão, será uma poesia fantástica, sem direito a ser nacional.
A sociedade brasileira, da qual a literatura deve ser a expressão, é exatamente aquela que substituiu no gozo deste país os seus habitantes primitivos. Tornarmo-nos nós os cantores dessa vida, que só tem poesia para aquele que não aceita plenamente a teoria de progresso moral, é, já não digo, levantarmo-nos contra nossa própria existência neste lado do Atlântico, mas, sermos os poetas de uma raça que não é nossa. Pode isentar-se o poeta de qualquer servidão de sentimento, mesmo da do patriotismo, mas não pode querer ser o poeta natural de uma sociedade, que ele nega radicalmente. A vida do Brasil começou em 1500; antes existia o seu solo, mas com outro nome e povoado por outra raça. O domínio dessa desapareceu, barbaramente perseguido, é certo, e refugiou-se no interior ainda virgem do país. Nada ficou sobre o solo atestando a antiga existência das tribos primitivas; nenhuma forma de sociedade estável havia entre elas, enquanto no Peru os Incas tinham o seu trono firmado no coração de uma raça, cujos monumentos e construções maravilharam os conquistadores.
Aquele que contasse da vida errante, que povoasse o deserto de ilusões, que pusesse no coração de nosso índio os sentimentos mais ternos do seu, que fizesse-o muitas vezes eco de suas próprias dores, que lhe desse a eloqüência de um tribuno e a imaginação de um poeta, esse poderia fazer uma obra admirável de fantasia; faria mesmo uma obra da mais verdadeira e ideal poesia. O Uraguai dá-nos testemunho disso; mas o poeta, por maior que fosse o seu gênio, não faria um poema nacional. “A literatura, frase de um dos mais profundos espíritos da Restauração, de Royer-Collard, é a expressão acidental da sociedade”, e o que tem a sociedade brasileira com as tribos indígenas?
Gonçalves Dias, por exemplo, nos seus Cantos compreendeu bem isso; eis porque parece-nos ter tão pouca razão o Sr. Alexandre Herculano em chamar às Poesias americanas a verdadeira poesia nacional do Brasil, quanta teve ele em lamentar que elas não ocupassem maior espaço no volume. Gonçalves Dias é um dos poetas que mais tiveram o sentimento americano; mas suas poesias indígenas seriam menos facilmente da poesia tupi do que seriam do cancioneiro espanhol suas sextilhas de Fr. Antão. A cor local não constitui a originalidade de uma literatura. Se a cor local bastasse para isso, Gonçalves Dias seria andaluz do tempo dos sarracenos, Byron seria veneziano ou grego e Shakespeare seria ao mesmo tempo bretão, romano e mouro.
Camões e os Lusíadas – Joaquim Nabuco
Vários ensaios, e alguns de grande merecimento, fizeram-se entre nós com o intuito de dar-nos uma literatura própria, mas ela ainda não existe. De duas sortes foram os trabalhos, que se conhecem, feitos com essa intenção. De uns o assunto era a vida de nossos indígenas, de outros era o estado atual de nossa sociedade.
Uma literatura, inspirada pela vida errante das tribos primitivas, que se servisse amplamente de seu rude vocabulário, que não nos descrevesse senão os seus costumes, seria bem uma literatura tupi ou guarani, mas não a brasileira. A poesia pode idealizar o caráter, o coração, as guerras, a civilização até desses ferozes habitantes de nossos sertões; mas a poesia, que se impuser essa aliás bela missão, será uma poesia fantástica, sem direito a ser nacional.
A sociedade brasileira, da qual a literatura deve ser a expressão, é exatamente aquela que substituiu no gozo deste país os seus habitantes primitivos. Tornarmo-nos nós os cantores dessa vida, que só tem poesia para aquele que não aceita plenamente a teoria de progresso moral, é, já não digo, levantarmo-nos contra nossa própria existência neste lado do Atlântico, mas, sermos os poetas de uma raça que não é nossa. Pode isentar-se o poeta de qualquer servidão de sentimento, mesmo da do patriotismo, mas não pode querer ser o poeta natural de uma sociedade, que ele nega radicalmente. A vida do Brasil começou em 1500; antes existia o seu solo, mas com outro nome e povoado por outra raça. O domínio dessa desapareceu, barbaramente perseguido, é certo, e refugiou-se no interior ainda virgem do país. Nada ficou sobre o solo atestando a antiga existência das tribos primitivas; nenhuma forma de sociedade estável havia entre elas, enquanto no Peru os Incas tinham o seu trono firmado no coração de uma raça, cujos monumentos e construções maravilharam os conquistadores.
Aquele que contasse da vida errante, que povoasse o deserto de ilusões, que pusesse no coração de nosso índio os sentimentos mais ternos do seu, que fizesse-o muitas vezes eco de suas próprias dores, que lhe desse a eloqüência de um tribuno e a imaginação de um poeta, esse poderia fazer uma obra admirável de fantasia; faria mesmo uma obra da mais verdadeira e ideal poesia. O Uraguai dá-nos testemunho disso; mas o poeta, por maior que fosse o seu gênio, não faria um poema nacional. “A literatura, frase de um dos mais profundos espíritos da Restauração, de Royer-Collard, é a expressão acidental da sociedade”, e o que tem a sociedade brasileira com as tribos indígenas?
Gonçalves Dias, por exemplo, nos seus Cantos compreendeu bem isso; eis porque parece-nos ter tão pouca razão o Sr. Alexandre Herculano em chamar às Poesias americanas a verdadeira poesia nacional do Brasil, quanta teve ele em lamentar que elas não ocupassem maior espaço no volume. Gonçalves Dias é um dos poetas que mais tiveram o sentimento americano; mas suas poesias indígenas seriam menos facilmente da poesia tupi do que seriam do cancioneiro espanhol suas sextilhas de Fr. Antão. A cor local não constitui a originalidade de uma literatura. Se a cor local bastasse para isso, Gonçalves Dias seria andaluz do tempo dos sarracenos, Byron seria veneziano ou grego e Shakespeare seria ao mesmo tempo bretão, romano e mouro.
Camões e os Lusíadas – Joaquim Nabuco
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