Afirmamos que uma das razões oferecidas para ser um progressista é que as coisas naturalmente tendem a melhorar. Mas a única razão para se ser um progressista é que as coisas tendem naturalmente a piorar. A corrupção não é somente o único argumento para ser progressista; é também o único argumento contra ser conservador. A teoria conservadora seria realmente dramática e irrespondível se não fosse por esse fato. Mas todo o conservadorismo é baseado na ideia de que se deixarmos as coisas sozinhas elas permanecem o que são. Mas as coisas não se passam assim. Se deixarmos algo sozinho o abandonamos a uma torrente de mudança. Se deixarmos um poste branco sozinho, logo ele será um poste negro. Se se deseja que ele seja branco, é preciso sempre pintá-lo novamente; isto é, uma revolução é sempre necessária. Em suma, se se deseja o antigo poste branco é preciso um novo poste branco. Mas isso que é verdadeiro até mesmo das coisas inanimadas é, em um sentido muito especial e terrível, verdadeiro para todas as coisas humanas. Uma vigilância quase antinatural é realmente exigida do cidadão devido à horrível rapidez com que as instituições humanas envelhecem. É costume no romance e no jornalismo ligeiro falar dos homens que sofrem sob as antigas tiranias. Mas, de fato, os homens quase sempre sofreram sob novas tiranias; sob tiranias que tinham defendido as liberdades públicas há menos de vinte anos. Foi assim que a Inglaterra se encheu de júbilo sobre a monarquia patriótica de Elizabete (I 1533-1603); e então, quase que imediatamente após o júbilo, caiu cheia de fúria na armadilha tirânica do primeiro Carlos (I 1600-1649). Da mesma forma, na França a monarquia se tornou intolerável, não simplesmente depois de ter sido tolerada, mas logo após ter sido adorada. O neto de Luís, o amado (XV 1710-1774), se tornou Luís, o guilhotinado (XVI 1754-1793). Na Inglaterra do século XIX, o industrial radical recebeu a inteira confiança como um simples tribuno do povo, até que subitamente ouvimos o brado socialista de que era um tirano a devorar o povo como pão. Nós também confiamos até o último instante nos jornais como órgão da opinião pública. E só muito recentemente alguns de nós viram - não lentamente, mas como um súbito esclarecimento - que obviamente não são nada disso. São por natureza, os hobbies de alguns poucos bilionários. Não temos a menor necessidade de nos rebelar contra a antiguidade; a rebelião deve se erguer contra a novidade. São os novos reis, o capitalista ou o editor, que realmente atrasam o mundo moderno. Não há o menor temor de que um rei moderno irá se sobrepor à constituição; é bem mais possível que ele a ignore e trabalhe nos bastidores contra ela; ele não irá se aproveitar de seu poder real, mas sim, ao contrário, de sua impotência real, do fato de estar livre da crítica e da publicidade. Pois esse novo rei é a figura mais privada de nosso tempo. Não será necessário que alguém lute contra a proposta de censura da imprensa. Não precisamos da censura da imprensa, pois já temos a censura pela imprensa.
Ortodoxia - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 27 de Março, 2019
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
quinta-feira, 26 de setembro de 2019
Fé e Ceticismo
A ameaça consiste no fato de que o intelecto humano é livre para se autodestruir. Assim como uma geração pode evitar a existência da próxima geração, bastando que todos entrem em monastérios ou pulem no mar, também um conjunto de pensadores pode, em certa medida, impedir todo pensamento posterior ao ensinar à próxima geração que não há qualquer validade no pensamento humano. É ocioso sempre falar da escolha entre fé e razão. A própria razão é questão de fé. É um ato de fé afirmar que nossos pensamentos têm qualquer relação com a realidade. Se você é meramente um cético, deve, mais dia menos dia, se perguntar: "Por que ALGO deveria dar certo, inclusive a observação e a dedução? Por que a boa lógica não pode ser tão enganadora quanto a má lógica? Não são ambas movimentos no cérebro de um macaco perplexo?" O jovem cético diria: "Tenho o direito de pensar com meus próprios miolos". Mas o antigo cético, o cético completo, diria: "Não tenho o direito de pensar com meus próprios miolos. Não tenho sequer o direito de pensar."
Ortodoxia - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 26 de Março, 2019
Ortodoxia - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 26 de Março, 2019
quarta-feira, 25 de setembro de 2019
Loucura e Percepção
É verdade que alguns falam de forma leviana e vaga da insanidade como se fosse algo em si mesmo atraente. Mas um breve raciocínio mostrará que se a doença é bela, geralmente trata-se da doença alheia. Um homem cego pode ser pitoresco, mas dois olhos são necessários para ver a pintura. Da mesma forma, até mesmo a mais selvagem poesia de um louco só pode ser apreciada pelo homem são. Para o louco sua insanidade é bem prosaica, porque é bem verdadeira. Um homem que acredita ser uma galinha se enxerga como algo tão ordinário quanto uma galinha. Aquele que acredita ser um pedaço de vidro é para si mesmo tão pouco atraente quanto um pedaço de vidro. É a homogeneidade da mente que o torna ao mesmo tempo tedioso e louco. É somente porque enxergamos a ironia dessa ideia que o consideramos interessante; e é somente porque ele não vê a ironia de sua ideia que está em Hanwell. Em resumo, esquisitices só impressionam pessoas comuns. Esquisitices nunca impressionam pessoas esquisitas. É por isso que pessoas comuns podem se divertir tanto, enquanto os esquisitos estão sempre reclamando do tédio da vida. Também é por isso que os novos romances são esquecidos tão rapidamente, e os antigos contos de fadas duram pra sempre. Os antigos contos de fadas fazem do herói um rapaz comum, pois são suas aventuras que são surpreendentes, e elas surpreendem porque ele é comum. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Dessa forma, as mais ferozes aventuras nunca o afetam adequadamente, e o livro é monótono. É possível criar a estória de um herói entre dragões; mas não de dragões entre dragões. O conto de fadas discute o que um homem são fará em um mundo louco. A novela realista e sóbria dos dias atuais discute o que alguém essencialmente lunático irá fazer em um mundo tedioso.
Ortodoxia - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 25 de Março, 2019
Ortodoxia - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 25 de Março, 2019
terça-feira, 24 de setembro de 2019
Heresia e Ortodoxia
Pois se este livro é uma piada, o feitiço se volta contra o feiticeiro. Sou eu o homem que com a mais completa ousadia descobriu o que já fora descoberto. Se há um elemento farsesco no que segue, a farsa deverá ser debitada de minha conta; pois este livro explica como tive o devaneio de ser o primeiro homem a colocar os pés em Brighton, somente para depois descobrir que fui o último; narra minhas pantagruélicas aventuras em busca do óbvio. Ninguém pode considerá-las mais patéticas do que eu; nenhum leitor pode acusar-me de tentar fazê-lo de tolo; sou eu o bobo da corte da estória, e nenhum rebelde poderá me tirar desse trono. Confesso livremente todas as ambições idiotas do fim do século XIX. Tentei, como todos os outros rapazotes solenes, estar à frente do meu tempo. Como eles, tentei estar alguns minutos adiante da verdade. E descobri que estava mil e oitocentos anos atrasado; afetei uma voz de exagero dolorosamente juvenil ao proferir minhas verdades, e fui punido da forma mais justa e irônica, pois mantive minhas verdades: só que descobri, não que não eram verdades, mas que simplesmente não eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho, na verdade encontrava-me na ridícula posição de ser sustentado por toda a Cristandade. Pode ser, e os céus me perdoem por isto, que tenha de fato tentado ser original; mas só consegui inventar uma cópia inferior das tradições já existentes da religião civilizada. O homem do iate pensou que era o primeiro a descobrir a Inglaterra; eu pensei que era o primeiro a descobrir a Europa; Tentei realmente fundar a minha própria heresia; e quando tinha dado os últimos retoques a essa obra, descobri que era a ortodoxia.
Ortodoxia – G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 22 de Março, 2019
Ortodoxia – G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 22 de Março, 2019
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Rumor e Razão
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
Dúvida e Incerteza
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Parlamentarismo e Presidencialismo
$3 Vantagens do Parlamentarismo
Se o parlamentarismo nos anos 40 que funcionou entre nós (de 1847 a 1889), permitiu aquele ambiente de paz, de ordem, de liberdade, de bom gosto, de reformas sociais ousadas, mas sem desordem, de política honesta, de moeda forte, que foi o Império, e se sua abolição nos atirou num caos de ditaduras, revoluções, corrupção, desordens de que não saímos até hoje, apesar do muito que progrediu o país, isto seria suficiente para justificá-lo. E se recordamos o espanto que nos provoca o estudo da política norte-americana, quando vemos um povo de tão elevado padrão de moralidade sujeito a práticas políticas tão pouco edificantes, ainda ficamos mais convencidos.
Podemos escalonar algumas vantagens do governo de gabinete, postas em ordem de preferência:
a) Elimina o perigo de, periodicamente, ficar o país à mercê de uma aventura em que a propaganda, o dinheiro, os conchavos, a mistificação e a demagogia decidem da sorte das eleições, num ambiente em que a mera possibilidade de uma escolha racional é de antemão eliminada, como sabemos todos por nossas experiências eleitorais;
b) Diminuir o risco de cair o poder supremo nas mãos de um demagogo irresponsável, de um homem sem escrúpulos, de um inimigo da democracia, mal que, para ocorrer no parlamentarismo, precisa de conivência do chefe de Estado;
c) Permite uma política moderada e mais honestidade administrativa, já que o spoil system¹ é, tradicionalmente, uma moléstia presidencialista - um primeiro ministro não precisa prometer empregos para chegar ao poder, pois ele o alcança a convite, e não por meio de luta;
d) Acaba com uma das maiores pragas da política brasileira, a dos “testamentos” que, periodicamente, acumulam os orçamentos com empregos desnecessários, de puro favoritismo, e contratos lesivos;
e) Permite uma política de reformas moderadas, mas continuadas, como demonstra a política social nos países de governo parlamentar, que, metodicamente, foram abolindo a miséria;
f) Torna possível a mudança de governo, a organização de um governo de conciliação, sem que isto signifique adesão a uma pessoa, ou a permanência de um governo no posto por longos anos, se assim o exigir o bem comum, como demonstram vários casos conhecidos, como o da formação do gabinete Churchill, na crise da guerra, a permanência de Adenauer no posto até hoje, etc.
g) Transfere a política da competição entre homens, para a luta entre idéias;
h) Estabelece a unidade entre a elaboração legislativa e a execução dos programas de governo, pois o mesmo homem, o primeiro ministro, é o líder do parlamento - e uma coisa pela outra.
Conclusão: o governo de gabinete estabelece uma distinção real entre a chefia do Estado, que permanece, e que é a cabeça do corpo político, primeiro magistrado, comandante supremo das forças armadas, líder da política exterior e chefe do funcionalismo, e a chefia do governo, que dirige a política, e é partidário e transitório. Por outro lado, unifica a liderança parlamentar e a direção do governo, de modo a simplificar a marcha legislativa, torná-la eficiente e em conformidade com a linha do governo. Ao contrário do que geralmente se pensa, o parlamentarismo não faz do gabinete um joguete das câmaras, mas, ao contrário, dá ao premier o controle da elaboração legislativa. Na Inglaterra, cerca de 80% dos bills aprovados são propostos pelo governo: segundo uma estatística de Sir Ivor Jennings, em 1936-7, apenas 12 em 70 leis nasceram de private members, na maioria coisas líricas acerca de crueldade com animais.
Observação: a defesa da verdade não deve esconder situações difíceis, mesmo que não sejam recordadas pelos adversários. Com relação ao item “b” acima, poderão alegar os casos de Hitler e Mussolini. Além da conivência dos chefes de Estado, Hindenburg² e Vitor Manuel³, há o seguinte: ambos fizeram uma campanha em estilo presidencialista; na verdade, teriam chegado ao poder pelo voto, num país presidencial. Podemos dizer que criaram o mesmo clima que, habitualmente, ocorre numa campanha presidencial; e, na verdade, esvaziaram o sistema de todo o conteúdo próprio e assumiram o poder. A partir da “marcha sobre Roma”, a Itália era uma república presidencial, embora o pálido rei continuasse a figurar nas cerimônias. Aliás, não há nenhuma contradição entre o fato de ser o país uma república presidencial e gozar a antiga família reinante de uma certa deferência - é o que se vê, presentemente, no Brasil.
¹ O spoil system, ou clientelismo, identifica o uso da nomeação para cargos públicos para recompensar aqueles que deram apoio ao partido vencedor.
² Hitler foi indicado chanceler federal pelo então presidente Paul von Hindenburg e assumiu o poder na Alemanha, no dia 30 de janeiro de 1933, prometendo resolver os graves problemas econômicos do país.
³ Mussolini marcha sobre Roma e o Rei Vitor Emanuel III, temoroso por uma guerra civil, no dia 29 de outubro, oferece-lhe o cargo de primeiro-ministro, e assim dar-se o início do governo fascista italiano.
Publicado em: O Parlamentarismo no Brasil - Revista A Ordem, Vol. LXIV, Novembro de 1960, n 5.
O Elogio do Conservadorismo e Outros Escritos - João Camilo de Oliveira Torres
Publicado no Facebook em 16 de Janeiro, 2019
Se o parlamentarismo nos anos 40 que funcionou entre nós (de 1847 a 1889), permitiu aquele ambiente de paz, de ordem, de liberdade, de bom gosto, de reformas sociais ousadas, mas sem desordem, de política honesta, de moeda forte, que foi o Império, e se sua abolição nos atirou num caos de ditaduras, revoluções, corrupção, desordens de que não saímos até hoje, apesar do muito que progrediu o país, isto seria suficiente para justificá-lo. E se recordamos o espanto que nos provoca o estudo da política norte-americana, quando vemos um povo de tão elevado padrão de moralidade sujeito a práticas políticas tão pouco edificantes, ainda ficamos mais convencidos.
Podemos escalonar algumas vantagens do governo de gabinete, postas em ordem de preferência:
a) Elimina o perigo de, periodicamente, ficar o país à mercê de uma aventura em que a propaganda, o dinheiro, os conchavos, a mistificação e a demagogia decidem da sorte das eleições, num ambiente em que a mera possibilidade de uma escolha racional é de antemão eliminada, como sabemos todos por nossas experiências eleitorais;
b) Diminuir o risco de cair o poder supremo nas mãos de um demagogo irresponsável, de um homem sem escrúpulos, de um inimigo da democracia, mal que, para ocorrer no parlamentarismo, precisa de conivência do chefe de Estado;
c) Permite uma política moderada e mais honestidade administrativa, já que o spoil system¹ é, tradicionalmente, uma moléstia presidencialista - um primeiro ministro não precisa prometer empregos para chegar ao poder, pois ele o alcança a convite, e não por meio de luta;
d) Acaba com uma das maiores pragas da política brasileira, a dos “testamentos” que, periodicamente, acumulam os orçamentos com empregos desnecessários, de puro favoritismo, e contratos lesivos;
e) Permite uma política de reformas moderadas, mas continuadas, como demonstra a política social nos países de governo parlamentar, que, metodicamente, foram abolindo a miséria;
f) Torna possível a mudança de governo, a organização de um governo de conciliação, sem que isto signifique adesão a uma pessoa, ou a permanência de um governo no posto por longos anos, se assim o exigir o bem comum, como demonstram vários casos conhecidos, como o da formação do gabinete Churchill, na crise da guerra, a permanência de Adenauer no posto até hoje, etc.
g) Transfere a política da competição entre homens, para a luta entre idéias;
h) Estabelece a unidade entre a elaboração legislativa e a execução dos programas de governo, pois o mesmo homem, o primeiro ministro, é o líder do parlamento - e uma coisa pela outra.
Conclusão: o governo de gabinete estabelece uma distinção real entre a chefia do Estado, que permanece, e que é a cabeça do corpo político, primeiro magistrado, comandante supremo das forças armadas, líder da política exterior e chefe do funcionalismo, e a chefia do governo, que dirige a política, e é partidário e transitório. Por outro lado, unifica a liderança parlamentar e a direção do governo, de modo a simplificar a marcha legislativa, torná-la eficiente e em conformidade com a linha do governo. Ao contrário do que geralmente se pensa, o parlamentarismo não faz do gabinete um joguete das câmaras, mas, ao contrário, dá ao premier o controle da elaboração legislativa. Na Inglaterra, cerca de 80% dos bills aprovados são propostos pelo governo: segundo uma estatística de Sir Ivor Jennings, em 1936-7, apenas 12 em 70 leis nasceram de private members, na maioria coisas líricas acerca de crueldade com animais.
Observação: a defesa da verdade não deve esconder situações difíceis, mesmo que não sejam recordadas pelos adversários. Com relação ao item “b” acima, poderão alegar os casos de Hitler e Mussolini. Além da conivência dos chefes de Estado, Hindenburg² e Vitor Manuel³, há o seguinte: ambos fizeram uma campanha em estilo presidencialista; na verdade, teriam chegado ao poder pelo voto, num país presidencial. Podemos dizer que criaram o mesmo clima que, habitualmente, ocorre numa campanha presidencial; e, na verdade, esvaziaram o sistema de todo o conteúdo próprio e assumiram o poder. A partir da “marcha sobre Roma”, a Itália era uma república presidencial, embora o pálido rei continuasse a figurar nas cerimônias. Aliás, não há nenhuma contradição entre o fato de ser o país uma república presidencial e gozar a antiga família reinante de uma certa deferência - é o que se vê, presentemente, no Brasil.
¹ O spoil system, ou clientelismo, identifica o uso da nomeação para cargos públicos para recompensar aqueles que deram apoio ao partido vencedor.
² Hitler foi indicado chanceler federal pelo então presidente Paul von Hindenburg e assumiu o poder na Alemanha, no dia 30 de janeiro de 1933, prometendo resolver os graves problemas econômicos do país.
³ Mussolini marcha sobre Roma e o Rei Vitor Emanuel III, temoroso por uma guerra civil, no dia 29 de outubro, oferece-lhe o cargo de primeiro-ministro, e assim dar-se o início do governo fascista italiano.
Publicado em: O Parlamentarismo no Brasil - Revista A Ordem, Vol. LXIV, Novembro de 1960, n 5.
O Elogio do Conservadorismo e Outros Escritos - João Camilo de Oliveira Torres
Publicado no Facebook em 16 de Janeiro, 2019
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Reflexão #6
Para começar 2019, segue uma lição um uma boa dose de humor com o clássico "rir para não chorar".
Peter Kreeft - Como vencer a guerra cultural
(legendado)
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Culpa e Responsabilidade
Ao enfocar o segundo aspecto da tríade trágica*, a saber, a culpa, gostaria de partir de um conceito teológico que para mim sempre foi fascinante. Refiro-me ao chamado mysterium iniquitatis, que significa, segundo minha visão, que em última análise um crime permanece inexplicável na medida em que não pode ser completamente investigado em suas origens biológicas, psicológicas e/ou sociológicas. Explicar totalmente o crime de alguém seria o mesmo que eliminar sua culpa e vê-lo não como uma pessoa livre e responsável, mas como uma máquina a ser consertada. Até os próprios criminosos detestam esse tratamento e preferem ser considerados responsáveis pelo que fizeram. Um preso cumprindo sua sentença numa penitenciária de Illinois mandou-me uma carta na qual lamentava que "o criminoso nunca tem uma chance de se explicar. Ele recebe uma variedade de desculpas entre as quais pode escolher. A sociedade é acusada, e, em muitos casos, a acusação é feita contra a vítima". Além disso, quando falei aos presos em San Quentin, disse a eles: "Vocês são seres humanos como eu, e como tais tiveram a liberdade de cometer um crime, de tornar-se culpados. Agora, no entanto, vocês têm a responsabilidade de superar a culpa erguendo-se acima dela, crescendo para além de vocês mesmos e mudando pessoalmente para melhor". Eles se sentiram compreendidos. E Frank E. W., ex-preso, mandou-me um bilhete dizendo que havia começado um grupo de logoterapia para ex-criminosos. "Somos 27, e os mais novos estão permanecendo fora da prisão através da força solidária do grupo inicial. Só um voltou - e agora já está livre".
Quanto ao conceito de culpa coletiva, penso pessoalmente que é totalmente injustificado responsabilizar uma pessoa pelo comportamento de outra ou de um grupo de pessoas. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, não canso de argumentar publicamente contra o conceito de culpa coletiva. Às vezes, no entanto, é necessária uma boa quantidade de truques didáticos para afastar as pessoas das suas superstições. Uma mulher norte-americana, uma vez, me lançou uma crítica: "Como é que você consegue escrever livros em alemão, se é a língua de Adolf Hitler?". Em resposta, perguntei a ela se usava facas em sua cozinha. Quando respondeu que sim, mostrei-me espantado e chocado, e exclamei: "Como é que você consegue usar facas se tantos assassinos já as usaram para apunhalar e matar suas vítimas?". Então ela desistiu de me criticar por escrever livros em alemão.
Em Busca de Sentido - Viktor E. Frankl
* Dor, culpa e morte.
Publicado no Facebook em 9 de Novembro, 2018
Quanto ao conceito de culpa coletiva, penso pessoalmente que é totalmente injustificado responsabilizar uma pessoa pelo comportamento de outra ou de um grupo de pessoas. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, não canso de argumentar publicamente contra o conceito de culpa coletiva. Às vezes, no entanto, é necessária uma boa quantidade de truques didáticos para afastar as pessoas das suas superstições. Uma mulher norte-americana, uma vez, me lançou uma crítica: "Como é que você consegue escrever livros em alemão, se é a língua de Adolf Hitler?". Em resposta, perguntei a ela se usava facas em sua cozinha. Quando respondeu que sim, mostrei-me espantado e chocado, e exclamei: "Como é que você consegue usar facas se tantos assassinos já as usaram para apunhalar e matar suas vítimas?". Então ela desistiu de me criticar por escrever livros em alemão.
Em Busca de Sentido - Viktor E. Frankl
* Dor, culpa e morte.
Publicado no Facebook em 9 de Novembro, 2018
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Neurose e Liberdade
A NEUROSE COLETIVA
Cada época tem sua própria neurose coletiva, e cada época necessita de sua própria psicoterapia para enfrentá-la. O vazio existencial, que é a neurose em massa da atualidade, pode ser descrito como forma privada e pessoal de niilismo; o niilismo, por sua vez, pode ser definido como a posição que diz não ter sentido o ser. Quanto à psicoterapia, porém, ela jamais será capaz de enfrentar esse estado de coisas em escala maciça se não se mantiver livre do impacto e da influência das tendências contemporâneas de uma filosofia niilista; caso contrário, ela mesma representará um sintoma da neurose de massa, ao invés de sua possível cura. A psicoterapia não só refletiria uma filosofia niilista, mas, mesmo sem saber e sem querer, também transmitiria ao paciente o que na verdade é uma caricatura, e não uma imagem verdadeira do ser humano.
Antes de mais nada, há um perigo inerente na doutrina do "nada mais que" aplicado à pessoa; a teoria de que o ser humano é "nada mais que" o resultado de condicionantes biológicos, psicológicos e sociológicos, ou produto da hereditariedade e do meio ambiente. Semelhante visão do ser humano faz o neurótico acreditar no que ele já tende a pensar de qualquer forma, a saber, que é um fantoche, vítima de influências externas ou circunstâncias internas. Esse fatalismo neurótico é fomentado e reforçado por uma psicoterapia que nega a liberdade à pessoa.
Sem dúvida, o ser humano é um ser finito e sua liberdade é restrita. Não se trata de estar livre dos fatores condicionantes, mas sim da liberdade de tomar uma posição frente aos condicionamentos. Como eu disse certa vez: "Sendo professor em dois campos, neurologia e psiquiatria, sou plenamente consciente de até que ponto o ser humano está sujeito às condições biológicas, psicológicas e sociológicas. Mas além de ser professor nessas duas áreas, sou um sobrevivente de quatro campos - campos de concentração - e como tal também sou testemunha da surpreendente capacidade humana de desafiar e vencer até mesmo as piores condições concebíveis".
Em Busca de Sentido - Viktor E. Frankl
Publicado no Facebook em 9 de Novembro, 2018
Cada época tem sua própria neurose coletiva, e cada época necessita de sua própria psicoterapia para enfrentá-la. O vazio existencial, que é a neurose em massa da atualidade, pode ser descrito como forma privada e pessoal de niilismo; o niilismo, por sua vez, pode ser definido como a posição que diz não ter sentido o ser. Quanto à psicoterapia, porém, ela jamais será capaz de enfrentar esse estado de coisas em escala maciça se não se mantiver livre do impacto e da influência das tendências contemporâneas de uma filosofia niilista; caso contrário, ela mesma representará um sintoma da neurose de massa, ao invés de sua possível cura. A psicoterapia não só refletiria uma filosofia niilista, mas, mesmo sem saber e sem querer, também transmitiria ao paciente o que na verdade é uma caricatura, e não uma imagem verdadeira do ser humano.
Antes de mais nada, há um perigo inerente na doutrina do "nada mais que" aplicado à pessoa; a teoria de que o ser humano é "nada mais que" o resultado de condicionantes biológicos, psicológicos e sociológicos, ou produto da hereditariedade e do meio ambiente. Semelhante visão do ser humano faz o neurótico acreditar no que ele já tende a pensar de qualquer forma, a saber, que é um fantoche, vítima de influências externas ou circunstâncias internas. Esse fatalismo neurótico é fomentado e reforçado por uma psicoterapia que nega a liberdade à pessoa.
Sem dúvida, o ser humano é um ser finito e sua liberdade é restrita. Não se trata de estar livre dos fatores condicionantes, mas sim da liberdade de tomar uma posição frente aos condicionamentos. Como eu disse certa vez: "Sendo professor em dois campos, neurologia e psiquiatria, sou plenamente consciente de até que ponto o ser humano está sujeito às condições biológicas, psicológicas e sociológicas. Mas além de ser professor nessas duas áreas, sou um sobrevivente de quatro campos - campos de concentração - e como tal também sou testemunha da surpreendente capacidade humana de desafiar e vencer até mesmo as piores condições concebíveis".
Em Busca de Sentido - Viktor E. Frankl
Publicado no Facebook em 9 de Novembro, 2018
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Instinto e Psique
FOME
Face ao estado de extrema subnutrição em que se encontravam os prisioneiros, é compreensível que, entre os instintos primitivos que representam a "regressão" da vida psicológica no campo, o instinto de alimentação ocupasse o lugar principal. Observemos os prisioneiros de um modo geral quando estão juntos no lugar de trabalho, num momento em que não estão sendo tão rigorosamente vigiados. A primeira coisa de que começam a falar é comida. Imediatamente alguém começará por perguntar ao colega que trabalha a seu lado na vala qual seu prato favorito. Começam a trocar receitas e compor menus para o dia em que pretendem convidar-se mutuamente para um reencontro, futuramente, depois de libertos e de volta em casa. Esse assunto fascina-os tanto, que não conseguem largá-lo antes do convencionado sinal de aviso, geralmente dissimulado pela menção de um número, por exemplo, alertando os que estão na vala da chegada do guarda.
Eu pessoalmente sempre tive minhas reservas com relação a essa conversa constante, quase obsessiva, sobre comida (no campo costumava-se chamá-la de "onanismo estomacal"). Não se deve provocar o organismo com essas imagens de iguarias, muito intensas e carregadas de sentimento, quando ele já conseguiu, em termos, adaptar-se de alguma maneira às reduzidíssimas rações e quantidades de calorias. O alívio psíquico é produzido por ilusões que certamente podem ser perigosas na área fisiológica.
Em Busca de Sentido - Viktor E. Frankl
Publicado no Facebook em 9 de Novembro, 2018
Face ao estado de extrema subnutrição em que se encontravam os prisioneiros, é compreensível que, entre os instintos primitivos que representam a "regressão" da vida psicológica no campo, o instinto de alimentação ocupasse o lugar principal. Observemos os prisioneiros de um modo geral quando estão juntos no lugar de trabalho, num momento em que não estão sendo tão rigorosamente vigiados. A primeira coisa de que começam a falar é comida. Imediatamente alguém começará por perguntar ao colega que trabalha a seu lado na vala qual seu prato favorito. Começam a trocar receitas e compor menus para o dia em que pretendem convidar-se mutuamente para um reencontro, futuramente, depois de libertos e de volta em casa. Esse assunto fascina-os tanto, que não conseguem largá-lo antes do convencionado sinal de aviso, geralmente dissimulado pela menção de um número, por exemplo, alertando os que estão na vala da chegada do guarda.
Eu pessoalmente sempre tive minhas reservas com relação a essa conversa constante, quase obsessiva, sobre comida (no campo costumava-se chamá-la de "onanismo estomacal"). Não se deve provocar o organismo com essas imagens de iguarias, muito intensas e carregadas de sentimento, quando ele já conseguiu, em termos, adaptar-se de alguma maneira às reduzidíssimas rações e quantidades de calorias. O alívio psíquico é produzido por ilusões que certamente podem ser perigosas na área fisiológica.
Em Busca de Sentido - Viktor E. Frankl
Publicado no Facebook em 9 de Novembro, 2018
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Imposto e Direito
Os impostos funcionam como um perverso gatilho da servidão voluntária que é acionado toda toda vez que se fala em direitos que não são cumpridos pelo Estado. “Pago impostos, logo tenho direito” é a corruptela do mote cartesiano que serve para justificar - e aqui reside a perversidade sobre a qual ninguém se dá conta - a farsa da concessão indiscriminada de direitos e privilégios, mas também a existência do perverso sistema tributário. Como uma coisa legitima e preserva a outra, uma reforma tributária torna-se tão difícil quanto superar esse tipo de mentalidade.
A lógica é: se eu já pago muitos impostos, o Estado deve cumprir o que prometeu. Sendo assim, e aqui é o drama que não se vê, não importa o quanto eu pago, não importa como eu pago, não importa as consequências do sistema que me obriga a pagar o percentual em vigor em tributos. Se o governo retribuísse o que eu pago em serviços, não importaria o quão perversos pudessem ser para a vida em sociedade os reflexos psicológicos e culturais que estão por trás de um sistema tributário.
No caso do Brasil, o drama é mais complexo e profundo e isso se reflete na própria complexidade, confusão, contradição e perversidade do sistema tributário, que é, no fundo, a representação, de um país que pede que o Estado seja um grande provedor e conceda uma série de privilégios, mas que depois se recusa a pagar a conta.
Para minimizar is danos da violência sistemática que é a carga tributária num país onde os impostos são mais um dos graves problemas estruturais, o governo opta por aliviar as tensões (e prevenir reações) com reduções eventuais, anistias e programas de refinanciamento de dívidas tributárias. Isso acontece porque, como bem observou o economista Thomas Sowell, “o propósito da política não é solucionar problemas, mas encontrá-los para justificar a expansão do poder do governo e o aumento dos impostos”.
Direitos Máximos, Deveres Mínimos: O festival de privilégios que assola o Brasil - Bruno Garschagen
A lógica é: se eu já pago muitos impostos, o Estado deve cumprir o que prometeu. Sendo assim, e aqui é o drama que não se vê, não importa o quanto eu pago, não importa como eu pago, não importa as consequências do sistema que me obriga a pagar o percentual em vigor em tributos. Se o governo retribuísse o que eu pago em serviços, não importaria o quão perversos pudessem ser para a vida em sociedade os reflexos psicológicos e culturais que estão por trás de um sistema tributário.
No caso do Brasil, o drama é mais complexo e profundo e isso se reflete na própria complexidade, confusão, contradição e perversidade do sistema tributário, que é, no fundo, a representação, de um país que pede que o Estado seja um grande provedor e conceda uma série de privilégios, mas que depois se recusa a pagar a conta.
Para minimizar is danos da violência sistemática que é a carga tributária num país onde os impostos são mais um dos graves problemas estruturais, o governo opta por aliviar as tensões (e prevenir reações) com reduções eventuais, anistias e programas de refinanciamento de dívidas tributárias. Isso acontece porque, como bem observou o economista Thomas Sowell, “o propósito da política não é solucionar problemas, mas encontrá-los para justificar a expansão do poder do governo e o aumento dos impostos”.
Direitos Máximos, Deveres Mínimos: O festival de privilégios que assola o Brasil - Bruno Garschagen
Publicado no Facebook em 30 de Outubro, 2018
terça-feira, 10 de setembro de 2019
Fraqueza e Responsabilidade
"Don't use your illness as an excuse to avoid doing something you don't want to"
Não use sua doença, deficiência ou condição limitante para deixar de fazer algo que não quer, mas pode ou até mesmo precisa fazer.
Assista a entrevista completa em: https://youtu.be/otsOXNidluo
Publicado no Facebook em 29 de Outubro, 2018
Não use sua doença, deficiência ou condição limitante para deixar de fazer algo que não quer, mas pode ou até mesmo precisa fazer.
Assista a entrevista completa em: https://youtu.be/otsOXNidluo
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Amizade e Virtude
Texto de Paulo Cruz sobre Amizade e Virtude.
https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/paulo-cruz/o-dom-da-amizade/
“A amizade perfeita é a dos homens que são bons e afins na virtude, pois esses desejam igualmente bem um ao outro enquanto bons, e são bons em si mesmos. Ora, os que desejam bem aos seus amigos por eles mesmos são os mais verdadeiramente amigos, porque o fazem em razão da sua própria natureza e não acidentalmente”. (Aristóteles, Ética à Nicômaco)
No final de A Sociedade do Anel – primeiro volume da espetacular saga O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien –, me comove sobremaneira o nascimento da verdadeira amizade entre Frodo Bolseiro e seu companheiro de jornada, Samwise Gamgi. Sam, inicialmente o ingênuo jardineiro de Frodo, ao ser flagrado por Gandalf ouvindo sua conversa sobre a necessidade de destruir o Um Anel na Montanha da Perdição, é recrutado para assumir a missão junto a seu senhor. Sam vibra, pois tudo o que deseja é “ver Elfos”. Porém, no desenrolar da história, Sam vai se tornando cada vez mais necessário a Frodo, cada vez mais indispensável, e entre eles surge uma das amizades mais comoventes da literatura.
Após Boromir cair em tentação e tentar tomar o Anel de Frodo, este decide abandonar os companheiros e seguir sozinho, pois “a maldade do Anel já está operando até mesmo na Comitiva, e o Anel deve abandoná-los antes que lhes cause mais danos”. Coloca o Anel no dedo e segue rumo ao Grande Rio. Quando a Comitiva sente a sua falta e Boromir confessa o seu mal, todos saem à procura do portador do Anel; Sam tem um sobressalto e se dá conta de que ele fugira para o rio. Desde a colina correndo ao encontro de seu senhor. Chegando à margem do rio, vê um barco já um pouco distante, aparentemente sozinho (Frodo estava com o Anel no dedo); Sam grita desesperadamente – “Estou indo, Sr. Frodo! Estou indo!” – e, mesmo sem saber nadar, se joga na água, numa demonstração de coragem (voltarei a essa virtude cardeal em artigo futuro) e lealdade sublimes. Quase se afoga e é salvo por Frodo. O diálogo é comovente:
– Ó, Sr. Frodo, isso é duro! – disse Sam tremendo. – Isso é duro, tentar ir embora sem mim e tudo mais. Se eu não tivesse adivinhado certo, onde o senhor estaria agora?
– A caminho e a salvo.
– A salvo! – disse Sam. – Completamente sozinho sem mim para ajudá-lo? Eu não aguentaria, seria a morte para mim.
– Seria a morte para você ir comigo, Sam – disse Frodo. – E eu não aguentaria isso.
– Não seria uma morte tão certa quanto a de ser deixado para trás disse Sam.
– Mas estou indo para Mordor.
– Sei muito bem disso, Sr. Frodo. Claro que o senhor vai. E eu vou também.
– Agora, Sam – disse Frodo –, não me atrase! Os outros estarão de volta num minuto. Se me pegarem aqui, terei de discutir e explicar, e nunca terei a coragem ou a oportunidade de escapar. Mas preciso partir imediatamente. É o único jeito.
– Claro que é – disse Sam. – Mas não sozinho. Também vou, ou nenhum de nós vai. Vou fazer buracos em todos os barcos primeiro.
Frodo riu de verdade. Um calor e uma alegria súbitos encheram-lhe o coração. – Deixe um inteiro! – disse ele. – Vamos precisar dele. (Martins Fontes, p. 433)
Na adaptação cinematográfica de Peter Jackson, essa tomada é de arrancar lágrimas!
Esse é o momento, julgo eu, em que ocorre aquilo que Aristóteles chama de “disposição do caráter” (Ética à Nicômaco, UnB, 1157b). Frodo e Sam são duas almas virtuosas que se dispõe um ao outro, passando de uma relação de mera dependência (que Aristóteles chama de amizade por interesse) para uma admiração mútua pelo caráter virtuoso de ambos. A simplicidade servil de Sam, somada à inteligência corajosa de Frodo vão se alternando e complementando mutuamente, tornando a Demanda do Anel menos tortuosa. E a intuição de Gandalf, que na escolha da Comitiva havia dito a Elrond que era “melhor confiar na grande amizade entre os Hobbits do que na grande sabedoria” (p. 293), começa a se cumprir nesse evento.
A amizade era um dom valioso para Tolkien, e isso é maravilhosamente demonstrado em O Senhor dos Anéis. Mas também personificado em sua própria vida, na amizade com aquele que seria seu grande companheiro, não só de afinidade e de virtude, mas o grande incentivador de sua obra: Clive Staples Lewis – C. S. Lewis ou simplesmente Jack. Tolkien revela, em carta enviada à Tolkien Society of America:
“A dívida impagável que tenho para com ele não foi ‘influência’ como é comumente compreendida, mas puro encorajamento. Por muito tempo ele foi meu único público. Apenas a partir dele tive noção de que meu “material” poderia ser mais do que um passatempo particular. Se não fosse por seu interesse e avidez incessante por mais, eu jamais teria concluído O Senhor dos Anéis”. (As cartas de J. R. R. Tolkien, Martins Fontes)
Os dois foram um para o outro uma fonte quase inesgotável de influências e incentivo. Colin Duriez, em O dom da amizade (Nova Fronteira), diz que “Lewis gradativamente assumiu muitas das preocupações de Tolkien, tais como a escrita séria de fantasia e contos de fadas, e compartilhava seu amor apaixonado pela linguagem” (p. 52). Nas reuniões da confraria que girava em torno deles – Os Inklings – ou no apartamento de Lewis, no Magdalen College, às quintas-feiras pela manhã, foram gestadas boa parte de suas obras. Lewis caracteriza bem o aspecto exclusivo da amizade em seu ensaio Os quatro amores (Martins Fontes). Mesmo considerando a amizade o menos necessário e natural dos amores, ela se manifesta de maneira privada, “no momento em que dois homens se tornam amigos, de certo modo eles se afastam da multidão” (p. 83), tratando-se de “uma relação entre homens no seu mais alto grau de individualidade” (p. 85).
Lewis foi o maior entusiasta da obra de Tolkien, e este, talvez, o maior crítico de Lewis, pois não gostava nem do modo como Lewis escrevia fantasia – achava excessivamente alegórico, não obstante a defesa de Lewis e sua teoria da “suposição” – e nem de seus escritos teológicos, dizendo que a teologia deveria ser deixada ao encargo dos teólogos profissionais. Por outro lado, gostou muito da Trilogia Cósmica – exceto de Aquela força medonha, por acha-lo excessivamente influenciado por Charles Williams –, de O grande abismo e de Cartas de um diabo a seu aprendiz. Foram, de fato, inseparáveis, até que a aproximação entre Lewis e Charles Williams, e, posteriormente, seu casamento do Joy Davidman (em 1956), de certo modo os afastou; mas jamais deixaram de se admirar e ajudar, mantendo a máxima de Aristóteles: “a amizade [verdadeira] durará enquanto as pessoas forem boas, e ser bom é uma coisa duradoura” (1156b). Tolkien e Lewis compartilhavam, segundo diz acertadamente Owen Barfield, da mesma Weltanschauung (visão de mundo). Foi Tolkien, também, que encorajou Lewis a reconsiderar sua recusa anterior e aceitar a cátedra de Inglês em Cambridge, em 1954.
Lewis tem uma descrição bastante admirável da amizade, que resume perfeitamente esse amor – vale a longa citação:
“Ninguém nos conhece tão bem quanto nosso ‘camarada’. Cada passo a Jornada em comum é um teste de sua fibra – e nós compreendemos perfeitamente esses testes, porque nós também estamos passando por eles. Assim, cada vez que ele é aprovado, nossa confiança, respeito e admiração crescem como um Amor Apreciativo de um tipo singularmente sólido e bem informado […] Numa Amizade perfeita, esse Amor Apreciativo é muitas vezes, na minha opinião, tão grande e tão solidamente alicerçado que cada membro do círculo se sente, em seu íntimo, humilde diante dos demais. Às vezes ele se pergunta o que está fazendo ali, entre pessoas melhores que ele. Estar na companhia deles é uma sorte que não merece. Especialmente quando o grupo inteiro está junto, com cada um despertando tudo o que há de melhor, de mais sábio ou de mais engraçado em todos os outros. São aquelas reuniões especiais – quando quatro ou cinco de nós nos reunimos na estalagem, depois de um dia cansativo; quando calçamos nossas pantufas e estendemos os pés na direção do fogo, cada um com sua bebida no braço da poltrona; quando o mundo inteiro, e algo além do mundo, se abre para nossas mentes enquanto conversamos; e quando ninguém tem nada para exigir ou cobrar de ninguém, mas estamos todos livres e iguais, como se tivéssemos nos conhecido há uma hora, e ao mesmo tempo uma Afeição, amadurecida pelos anos, nos envolve. É o melhor presente que a vida – a vida natural – tem para nos dar. Quem poderia merecê-lo?” (p. 101-102)
Creio que esse pequeno excerto descreve a essência da amizade. Lewis conseguiu traduzir, em palavras, com maestria, o que ela tem de mais sagrado: a comunhão. Nela se manifesta plenamente o dom da amizade. Porém, arrisco dizer que só quem já teve essa experiência é capaz de compreender a profundidade do que Lewis escreveu. E não há nada esotérico nisso.
Tolkien, também, foi um dos responsáveis por levar Lewis de volta à fé da infância. Numa conversa entre eles e Hugo Dyson (outro Inkling), foi que Lewis foi levado a cogitar a possibilidade do nascimento de Cristo ser a convergência de todas as mitologias que ele tanto amava. Cristo é o mito que se tornou fato. Ele tenta explicar isso numa carta a seu amigo de infância, Arthur Greeves, em 1931:
“[…] o que Dyson e Tolkien me mostraram foi o seguinte: se eu encontrasse a ideia de sacrifício em uma história pagã, não me importaria em nada: novamente, se eu encontrasse a ideia de um deus sacrificando a si mesmo […], eu teria gostado muito e sido misteriosamente tocado por ela: novamente, que a ideia do deus que estava morrendo e revivendo (Balder, Adonis, Bacchus) também me comovia desde que a encontrasse em qualquer lugar, exceto nos Evangelhos. A razão era que, nas histórias pagãs, eu estava preparado para sentir o mito como algo profundo e sugestivo, cheio de significados além do meu alcance, mesmo que eu não pudesse dizer, em prosa fria, ‘o que significava’. Agora, a história de Cristo é simplesmente um verdadeiro mito: um mito trabalhando em nós da mesma maneira que os outros, mas com essa tremenda diferença, que realmente aconteceu”. (Letters of C. S. Lewis, vol I, tradução nossa)
A profundidade da amizade entre eles foi capaz de auxiliá-lo, após décadas de um ateísmo quase militante, no retorno ao cristianismo – embora tenha optado pelo protestantismo, e não pelo catolicismo de Tolkien. Só uma amizade profunda, segundo Lewis, “o mais feliz e mais plenamente humano dos amores – coroa da vida e escola de virtudes”, é capaz disso.
Outra característica das verdadeiras amizades é que elas jamais arrefecem. Um testemunho pessoal tratará de provar o que digo: dias atrás reencontrei amigos que não via há muitos anos. Foi como se nunca nos tivéssemos separado: o carinho, a consideração, o respeito… enfim, a chama da amizade reascendeu imediatamente. Com um acréscimo: um grande baú de memórias que, ao ser aberto, trouxe muitas lembranças revigorantes. Uma verdadeira bênção!
Porém, uma das constatações de Lewis quando escreveu Os quatro amores, ainda no final da década de 1950, é que o mundo moderno ignora o valor da verdadeira Amizade. E tenho certeza que, de lá para cá, piorou muito. Se minha geração ainda pode guardar no peito o valor das verdadeiras amizades, a geração atual vive num verdadeiro deserto de amigos. Muito provavelmente por um motivo muito simples, que confirma a tese de Aristóteles de dois mil e trezentos anos atrás: de que se não há virtude, não pode haver verdadeira amizade. Assim como a virtude deixou de ser uma aspiração, as amizades se resumem à mera utilidade – o prazer e à necessidade. Sem contar as amizades que a ganância, o egoísmo e as ideologias destroem. O Um Anel da modernidade está sempre em disputa, e não é fácil resistir aos seus encantos.
Que não sejamos como Gollum, cuja alma mesquinha sucumbiu ao mal irreversível e fratricida; tampouco como Boromir, que, tentado pelo desejo de fazer o bem, foi dominado pelo poder do Anel e pagou um alto preço por isso. O Brasil precisa de verdadeiros amigos!
Paulo Cruz
Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/paulo-cruz/o-dom-da-amizade/
Copyright © 2019, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.
Publicado no Facebook em 10 de Setembro, 2018
https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/paulo-cruz/o-dom-da-amizade/
“A amizade perfeita é a dos homens que são bons e afins na virtude, pois esses desejam igualmente bem um ao outro enquanto bons, e são bons em si mesmos. Ora, os que desejam bem aos seus amigos por eles mesmos são os mais verdadeiramente amigos, porque o fazem em razão da sua própria natureza e não acidentalmente”. (Aristóteles, Ética à Nicômaco)
No final de A Sociedade do Anel – primeiro volume da espetacular saga O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien –, me comove sobremaneira o nascimento da verdadeira amizade entre Frodo Bolseiro e seu companheiro de jornada, Samwise Gamgi. Sam, inicialmente o ingênuo jardineiro de Frodo, ao ser flagrado por Gandalf ouvindo sua conversa sobre a necessidade de destruir o Um Anel na Montanha da Perdição, é recrutado para assumir a missão junto a seu senhor. Sam vibra, pois tudo o que deseja é “ver Elfos”. Porém, no desenrolar da história, Sam vai se tornando cada vez mais necessário a Frodo, cada vez mais indispensável, e entre eles surge uma das amizades mais comoventes da literatura.
Após Boromir cair em tentação e tentar tomar o Anel de Frodo, este decide abandonar os companheiros e seguir sozinho, pois “a maldade do Anel já está operando até mesmo na Comitiva, e o Anel deve abandoná-los antes que lhes cause mais danos”. Coloca o Anel no dedo e segue rumo ao Grande Rio. Quando a Comitiva sente a sua falta e Boromir confessa o seu mal, todos saem à procura do portador do Anel; Sam tem um sobressalto e se dá conta de que ele fugira para o rio. Desde a colina correndo ao encontro de seu senhor. Chegando à margem do rio, vê um barco já um pouco distante, aparentemente sozinho (Frodo estava com o Anel no dedo); Sam grita desesperadamente – “Estou indo, Sr. Frodo! Estou indo!” – e, mesmo sem saber nadar, se joga na água, numa demonstração de coragem (voltarei a essa virtude cardeal em artigo futuro) e lealdade sublimes. Quase se afoga e é salvo por Frodo. O diálogo é comovente:
– Ó, Sr. Frodo, isso é duro! – disse Sam tremendo. – Isso é duro, tentar ir embora sem mim e tudo mais. Se eu não tivesse adivinhado certo, onde o senhor estaria agora?
– A caminho e a salvo.
– A salvo! – disse Sam. – Completamente sozinho sem mim para ajudá-lo? Eu não aguentaria, seria a morte para mim.
– Seria a morte para você ir comigo, Sam – disse Frodo. – E eu não aguentaria isso.
– Não seria uma morte tão certa quanto a de ser deixado para trás disse Sam.
– Mas estou indo para Mordor.
– Sei muito bem disso, Sr. Frodo. Claro que o senhor vai. E eu vou também.
– Agora, Sam – disse Frodo –, não me atrase! Os outros estarão de volta num minuto. Se me pegarem aqui, terei de discutir e explicar, e nunca terei a coragem ou a oportunidade de escapar. Mas preciso partir imediatamente. É o único jeito.
– Claro que é – disse Sam. – Mas não sozinho. Também vou, ou nenhum de nós vai. Vou fazer buracos em todos os barcos primeiro.
Frodo riu de verdade. Um calor e uma alegria súbitos encheram-lhe o coração. – Deixe um inteiro! – disse ele. – Vamos precisar dele. (Martins Fontes, p. 433)
Na adaptação cinematográfica de Peter Jackson, essa tomada é de arrancar lágrimas!
Esse é o momento, julgo eu, em que ocorre aquilo que Aristóteles chama de “disposição do caráter” (Ética à Nicômaco, UnB, 1157b). Frodo e Sam são duas almas virtuosas que se dispõe um ao outro, passando de uma relação de mera dependência (que Aristóteles chama de amizade por interesse) para uma admiração mútua pelo caráter virtuoso de ambos. A simplicidade servil de Sam, somada à inteligência corajosa de Frodo vão se alternando e complementando mutuamente, tornando a Demanda do Anel menos tortuosa. E a intuição de Gandalf, que na escolha da Comitiva havia dito a Elrond que era “melhor confiar na grande amizade entre os Hobbits do que na grande sabedoria” (p. 293), começa a se cumprir nesse evento.
A amizade era um dom valioso para Tolkien, e isso é maravilhosamente demonstrado em O Senhor dos Anéis. Mas também personificado em sua própria vida, na amizade com aquele que seria seu grande companheiro, não só de afinidade e de virtude, mas o grande incentivador de sua obra: Clive Staples Lewis – C. S. Lewis ou simplesmente Jack. Tolkien revela, em carta enviada à Tolkien Society of America:
“A dívida impagável que tenho para com ele não foi ‘influência’ como é comumente compreendida, mas puro encorajamento. Por muito tempo ele foi meu único público. Apenas a partir dele tive noção de que meu “material” poderia ser mais do que um passatempo particular. Se não fosse por seu interesse e avidez incessante por mais, eu jamais teria concluído O Senhor dos Anéis”. (As cartas de J. R. R. Tolkien, Martins Fontes)
Os dois foram um para o outro uma fonte quase inesgotável de influências e incentivo. Colin Duriez, em O dom da amizade (Nova Fronteira), diz que “Lewis gradativamente assumiu muitas das preocupações de Tolkien, tais como a escrita séria de fantasia e contos de fadas, e compartilhava seu amor apaixonado pela linguagem” (p. 52). Nas reuniões da confraria que girava em torno deles – Os Inklings – ou no apartamento de Lewis, no Magdalen College, às quintas-feiras pela manhã, foram gestadas boa parte de suas obras. Lewis caracteriza bem o aspecto exclusivo da amizade em seu ensaio Os quatro amores (Martins Fontes). Mesmo considerando a amizade o menos necessário e natural dos amores, ela se manifesta de maneira privada, “no momento em que dois homens se tornam amigos, de certo modo eles se afastam da multidão” (p. 83), tratando-se de “uma relação entre homens no seu mais alto grau de individualidade” (p. 85).
Lewis foi o maior entusiasta da obra de Tolkien, e este, talvez, o maior crítico de Lewis, pois não gostava nem do modo como Lewis escrevia fantasia – achava excessivamente alegórico, não obstante a defesa de Lewis e sua teoria da “suposição” – e nem de seus escritos teológicos, dizendo que a teologia deveria ser deixada ao encargo dos teólogos profissionais. Por outro lado, gostou muito da Trilogia Cósmica – exceto de Aquela força medonha, por acha-lo excessivamente influenciado por Charles Williams –, de O grande abismo e de Cartas de um diabo a seu aprendiz. Foram, de fato, inseparáveis, até que a aproximação entre Lewis e Charles Williams, e, posteriormente, seu casamento do Joy Davidman (em 1956), de certo modo os afastou; mas jamais deixaram de se admirar e ajudar, mantendo a máxima de Aristóteles: “a amizade [verdadeira] durará enquanto as pessoas forem boas, e ser bom é uma coisa duradoura” (1156b). Tolkien e Lewis compartilhavam, segundo diz acertadamente Owen Barfield, da mesma Weltanschauung (visão de mundo). Foi Tolkien, também, que encorajou Lewis a reconsiderar sua recusa anterior e aceitar a cátedra de Inglês em Cambridge, em 1954.
Lewis tem uma descrição bastante admirável da amizade, que resume perfeitamente esse amor – vale a longa citação:
“Ninguém nos conhece tão bem quanto nosso ‘camarada’. Cada passo a Jornada em comum é um teste de sua fibra – e nós compreendemos perfeitamente esses testes, porque nós também estamos passando por eles. Assim, cada vez que ele é aprovado, nossa confiança, respeito e admiração crescem como um Amor Apreciativo de um tipo singularmente sólido e bem informado […] Numa Amizade perfeita, esse Amor Apreciativo é muitas vezes, na minha opinião, tão grande e tão solidamente alicerçado que cada membro do círculo se sente, em seu íntimo, humilde diante dos demais. Às vezes ele se pergunta o que está fazendo ali, entre pessoas melhores que ele. Estar na companhia deles é uma sorte que não merece. Especialmente quando o grupo inteiro está junto, com cada um despertando tudo o que há de melhor, de mais sábio ou de mais engraçado em todos os outros. São aquelas reuniões especiais – quando quatro ou cinco de nós nos reunimos na estalagem, depois de um dia cansativo; quando calçamos nossas pantufas e estendemos os pés na direção do fogo, cada um com sua bebida no braço da poltrona; quando o mundo inteiro, e algo além do mundo, se abre para nossas mentes enquanto conversamos; e quando ninguém tem nada para exigir ou cobrar de ninguém, mas estamos todos livres e iguais, como se tivéssemos nos conhecido há uma hora, e ao mesmo tempo uma Afeição, amadurecida pelos anos, nos envolve. É o melhor presente que a vida – a vida natural – tem para nos dar. Quem poderia merecê-lo?” (p. 101-102)
Creio que esse pequeno excerto descreve a essência da amizade. Lewis conseguiu traduzir, em palavras, com maestria, o que ela tem de mais sagrado: a comunhão. Nela se manifesta plenamente o dom da amizade. Porém, arrisco dizer que só quem já teve essa experiência é capaz de compreender a profundidade do que Lewis escreveu. E não há nada esotérico nisso.
Tolkien, também, foi um dos responsáveis por levar Lewis de volta à fé da infância. Numa conversa entre eles e Hugo Dyson (outro Inkling), foi que Lewis foi levado a cogitar a possibilidade do nascimento de Cristo ser a convergência de todas as mitologias que ele tanto amava. Cristo é o mito que se tornou fato. Ele tenta explicar isso numa carta a seu amigo de infância, Arthur Greeves, em 1931:
“[…] o que Dyson e Tolkien me mostraram foi o seguinte: se eu encontrasse a ideia de sacrifício em uma história pagã, não me importaria em nada: novamente, se eu encontrasse a ideia de um deus sacrificando a si mesmo […], eu teria gostado muito e sido misteriosamente tocado por ela: novamente, que a ideia do deus que estava morrendo e revivendo (Balder, Adonis, Bacchus) também me comovia desde que a encontrasse em qualquer lugar, exceto nos Evangelhos. A razão era que, nas histórias pagãs, eu estava preparado para sentir o mito como algo profundo e sugestivo, cheio de significados além do meu alcance, mesmo que eu não pudesse dizer, em prosa fria, ‘o que significava’. Agora, a história de Cristo é simplesmente um verdadeiro mito: um mito trabalhando em nós da mesma maneira que os outros, mas com essa tremenda diferença, que realmente aconteceu”. (Letters of C. S. Lewis, vol I, tradução nossa)
A profundidade da amizade entre eles foi capaz de auxiliá-lo, após décadas de um ateísmo quase militante, no retorno ao cristianismo – embora tenha optado pelo protestantismo, e não pelo catolicismo de Tolkien. Só uma amizade profunda, segundo Lewis, “o mais feliz e mais plenamente humano dos amores – coroa da vida e escola de virtudes”, é capaz disso.
Outra característica das verdadeiras amizades é que elas jamais arrefecem. Um testemunho pessoal tratará de provar o que digo: dias atrás reencontrei amigos que não via há muitos anos. Foi como se nunca nos tivéssemos separado: o carinho, a consideração, o respeito… enfim, a chama da amizade reascendeu imediatamente. Com um acréscimo: um grande baú de memórias que, ao ser aberto, trouxe muitas lembranças revigorantes. Uma verdadeira bênção!
Porém, uma das constatações de Lewis quando escreveu Os quatro amores, ainda no final da década de 1950, é que o mundo moderno ignora o valor da verdadeira Amizade. E tenho certeza que, de lá para cá, piorou muito. Se minha geração ainda pode guardar no peito o valor das verdadeiras amizades, a geração atual vive num verdadeiro deserto de amigos. Muito provavelmente por um motivo muito simples, que confirma a tese de Aristóteles de dois mil e trezentos anos atrás: de que se não há virtude, não pode haver verdadeira amizade. Assim como a virtude deixou de ser uma aspiração, as amizades se resumem à mera utilidade – o prazer e à necessidade. Sem contar as amizades que a ganância, o egoísmo e as ideologias destroem. O Um Anel da modernidade está sempre em disputa, e não é fácil resistir aos seus encantos.
Que não sejamos como Gollum, cuja alma mesquinha sucumbiu ao mal irreversível e fratricida; tampouco como Boromir, que, tentado pelo desejo de fazer o bem, foi dominado pelo poder do Anel e pagou um alto preço por isso. O Brasil precisa de verdadeiros amigos!
Paulo Cruz
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Publicado no Facebook em 10 de Setembro, 2018
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
Moral e Marxismo
Pois os fatos, para a mente educada nos cânones do marxismo, são apenas a espuma ilusória que encobre as estruturas profundas: o mundo real não é o de todos os dias, onde vemos agitarem-se personagens de carne e osso, mas aquele que está por trás e onde o enredo é protagonizado por atores invisíveis, denominados Causas da História. É nesse etéreo pano de fundo — similar, sob mais de um aspecto, ao mundo platônico das Ideias — que se desenrola a verdadeira luta entre o Bem e o Mal, da qual as ações humanas não são mais que uma enganosa aparência exterior. Logo, os atos bons podem ser maus, se favorecem ainda que involuntariamente a causa do Bem, e vice-versa. Daí que, para a mentalidade marxista, a bondade e a maldade já não sejam aquelas qualidades ambíguas e flutuantes que vemos aparecer e desaparecer nas circunstâncias mais imprevistas, mas sim atributos essenciais e permanentes, colados de uma vez para sempre em determinados grupos humanos, independentemente da qualidade dos atos concretos dos indivíduos que os compõem: o homem de esquerda é bom, ainda que trapaceie, minta, roube e mate; o da direita é mau, mesmo ao salvar um mosquito que se afoga. O critério de julgamento aí já não está na escala dos atos e intenções individuais, mas no da oportunidade histórica pela qual um ato, qualquer que seja sua motivação subjetiva, favorece ou desfavorece a causa da esquerda: por mais imoral que isto pareça aos demais seres humanos, o marxista não vê nada de mais em julgar um ato antes por suas consequências acidentais do que pela sua natureza e pela sua intenção.
É ilusório pensar que um cérebro humano, tendo absorvido esse critério, pode livrar-se dele da noite para o dia, mediante simples ato público de abjuração. Uma vez aprendido, ele se incrusta nas estruturas profundas da mente, marcando com sua tonalidade característica as subcorrentes emocionais, e continua a determinar as reações e julgamentos, como um hábito automatizado e tornado inconsciente, muito tempo depois de seu portador ter rejeitado formalmente o marxismo. Ninguém se livra de um complexo com a facilidade de quem devolve uma carteirinha de clube.
O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 19 de Agosto, 2018
É ilusório pensar que um cérebro humano, tendo absorvido esse critério, pode livrar-se dele da noite para o dia, mediante simples ato público de abjuração. Uma vez aprendido, ele se incrusta nas estruturas profundas da mente, marcando com sua tonalidade característica as subcorrentes emocionais, e continua a determinar as reações e julgamentos, como um hábito automatizado e tornado inconsciente, muito tempo depois de seu portador ter rejeitado formalmente o marxismo. Ninguém se livra de um complexo com a facilidade de quem devolve uma carteirinha de clube.
O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 19 de Agosto, 2018
quinta-feira, 5 de setembro de 2019
Reinvindicação e Renúncia
Reivindicar do governo, mesmo aquilo que é teoricamente justo, resulta sempre, na prática, em rebaixamento moral: um homem que entre por esse caminho acaba por não enxergar outra forma de ação senão a reclamação. Por trás da vociferação raivosa, não haverá dentro dele senão a passividade atônita de um bebê que chora e que nada pode fazer por si mesmo. Um governo que se mete em tudo obriga as pessoas a tudo reivindicarem dele: avilta o povo ao atender às suas demandas, premiando a indisciplina e o protesto, e também ao não as atender, semeando a desesperança e o cinismo.
O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 19 de Agosto, 2018
O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 19 de Agosto, 2018
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
Poder e Impotência
Essas razões podem resumir-se numa só pergunta: Se o esquema de corrupção nas altas esferas é tão poderoso a ponto de fazer presidentes, moldar a seu gosto o Orçamento da República, manipular o Congresso, desviar dos cofres públicos o equivalente à dívida externa do país, subornar altos funcionários da polícia, exercer quase, como disse o senador Bisol, as funções de um governo paralelo, então como será possível que ele não tenha meios de subornar e calar a imprensa? Como será possível que, dentre todos os poderes que decidem a vida nacional, somente a imprensa tenha escapado das malhas da influência corruptora e agora se encontre livre para denunciá-la?
O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 19 de Agosto, 2018
O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 19 de Agosto, 2018
terça-feira, 3 de setembro de 2019
Indignação e Moral
“Combater as injustiças” parece ser de fato a mais elevada conduta ética que se concebe nesta parte do mundo. O estado normal do homem ético, segundo essa perspectiva, é a indignação; sua arma, a denúncia. Mas não tem sentido mover combate a um mal ou denunciá-lo quando se tem o poder de impedir que se realize. Excetuando-se a improvável hipótese de uma antevisão profética das más intenções ocultas, só é possível denunciar injustiças depois de cometidas. E como um homem, sendo senhor de seus atos, tem sempre o poder de se abster de cometer injustiças, segue-se a conclusão fatal: uma ética que enfatize acima de tudo o combate e a denúncia é uma ética que induz cada indivíduo antes a fiscalizar os outros do que a dominar-se a si mesmo. É uma antiética, que, adotada em escala nacional, terá como resultado transformar o povo brasileiro numa horda de irresponsáveis indignados. Indignados com os outros e perfeitamente satisfeitos consigo mesmos, na tranquilidade da falsa consciência que, ao denunciar, acredita ter cumprido o seu máximo dever. Uma ética de espiões e fofoqueiros, maliciosos até a medula e totalmente destituídos de autoconsciência crítica. Uma ética de bandidos, pois o suprassumo da indignação moral é a do quadrilheiro traído por seus sequazes.
[...]
E mesmo na remotíssima eventualidade de que se chegue a punir um bom número de calhordas, resta perguntar se esse resultado vale o efeito psicológico perverso que tudo isso produz na mente do povo, deseducando-o para a prática da autoconsciência e substituindo-a por esse Ersatz de moralidade que é o espírito de denúncia.
Pois a moral, quando o é de fato e não um mero sistema de pretextos, consiste primariamente, essencialmente, fundamentalmente num sistema de normas para que cada qual regre sua própria conduta, e só secundariamente, acidentalmente e por exceção, numa tábua de critérios para julgar a conduta alheia. Proceder corretamente, abster-se do mal, é por definição um dever de todos, um dever absoluto e incondicional. Desse dever decorre a obrigação de cada qual se dominar a si mesmo, sondar e julgar severamente suas próprias intenções antes de tomá-las dogmaticamente como boas e, investido da convicção da própria pureza, sair berrando contra as injustiças alheias. Denunciar quem age errado é um ato fundamentalmente ambíguo, que só se torna bom em determinadas circunstâncias especiais e que, no mais das vezes, deve ser evitado. O desprezo universal do senso comum aos alcaguetes e delatores pode tornar-se um preconceito obstrutivo naquelas situações excepcionais em que o silêncio é crime. Mas, em regra geral, ele expressa uma profunda verdade moral e psicológica, que não pode ser desarraigada da alma popular sem que isto desencadeie temíveis consequências, entre as quais a de agravar o estado de confusão moral e de anomia que é uma das causas manifestas da criminalidade crescente. Se é talvez admissível apelar para a alcaguetagem generalizada em casos extremos como o da epidemia de sequestros, é no entanto um erro e uma perversidade colocar a denúncia e a acusação no centro e no topo da conduta moral. Inverter as proporções de uma sã moralidade, transformando a exceção em regra máxima e dando incentivo a uma hipocrisia enragée que alimenta o mal sob o pretexto de combatê-lo, é um desastrado casuísmo psicológico pelo qual os próceres da nossa campanha moralizante terão de prestar contas ante o tribunal das consequências históricas, algumas das quais já estão bem à nossa vista.
O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 13 de Agosto, 2018
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E mesmo na remotíssima eventualidade de que se chegue a punir um bom número de calhordas, resta perguntar se esse resultado vale o efeito psicológico perverso que tudo isso produz na mente do povo, deseducando-o para a prática da autoconsciência e substituindo-a por esse Ersatz de moralidade que é o espírito de denúncia.
Pois a moral, quando o é de fato e não um mero sistema de pretextos, consiste primariamente, essencialmente, fundamentalmente num sistema de normas para que cada qual regre sua própria conduta, e só secundariamente, acidentalmente e por exceção, numa tábua de critérios para julgar a conduta alheia. Proceder corretamente, abster-se do mal, é por definição um dever de todos, um dever absoluto e incondicional. Desse dever decorre a obrigação de cada qual se dominar a si mesmo, sondar e julgar severamente suas próprias intenções antes de tomá-las dogmaticamente como boas e, investido da convicção da própria pureza, sair berrando contra as injustiças alheias. Denunciar quem age errado é um ato fundamentalmente ambíguo, que só se torna bom em determinadas circunstâncias especiais e que, no mais das vezes, deve ser evitado. O desprezo universal do senso comum aos alcaguetes e delatores pode tornar-se um preconceito obstrutivo naquelas situações excepcionais em que o silêncio é crime. Mas, em regra geral, ele expressa uma profunda verdade moral e psicológica, que não pode ser desarraigada da alma popular sem que isto desencadeie temíveis consequências, entre as quais a de agravar o estado de confusão moral e de anomia que é uma das causas manifestas da criminalidade crescente. Se é talvez admissível apelar para a alcaguetagem generalizada em casos extremos como o da epidemia de sequestros, é no entanto um erro e uma perversidade colocar a denúncia e a acusação no centro e no topo da conduta moral. Inverter as proporções de uma sã moralidade, transformando a exceção em regra máxima e dando incentivo a uma hipocrisia enragée que alimenta o mal sob o pretexto de combatê-lo, é um desastrado casuísmo psicológico pelo qual os próceres da nossa campanha moralizante terão de prestar contas ante o tribunal das consequências históricas, algumas das quais já estão bem à nossa vista.
O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 13 de Agosto, 2018
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
Casa e Poesia
Gosto de pesquisar a etimologia das palavras (ainda mais agora que estou começando a estudar latim)! E pensando na palavra *decorar*, dei-me conta de que ela possui dois significados. Um deles vem de "decor", que em latim significa "beleza"; e o outro vem de "de+cor", que traduz-se por "de coração".
Quando *decoramos* um ambiente, estamos o enchendo de beleza, de adornos e acessórios que comunicam a personalidade do lugar. Quanto mais bem decorada for uma casa, mais "madura" será a personalidade dela - no sentido de conseguir, através da decoração, contar uma verdadeira história sobre quem vive nela.
Quando *decoramos* uma oração, uma poesia, estamos guardando-a no coração - no órgão que, antigamente, era relacionado à memória. Para saber "de cor" é preciso repetir, repetir, repetir, até que a coisa chegue ao coração e fique lá guardada.
Já faz um tempo que, na educação, a repetição é tratada de um jeito pejorativo, sendo chamada de "decoreba". Como se, por ser "decoreba", não fosse um real aprendizado. Só que, na experiência humana, é justamente na repetição que conseguimos aprender e apreender verdadeiramente a realidade e seus fragmentos. [Para verificar isto, basta observar uma criança brincando e perceber o quanto ela repete os mesmos movimentos, palavras, o quanto ela deseja ver os mesmos filmes, dançar as mesmas músicas, etc.]
✨
Este texto é um lembrete àqueles que esqueceram da importância de DECORAR - a casa e as poesias.
✨
Personaliza o lugar em que vives com objetos cheios de história e cor. Repete as orações que aprendeste quando pequeno. Guarda uma linda poesia no coração e ponha-te a declamá-la ao teu amor!
...
Faz isso e depois me conta se a vida decorada não é ainda mais bela!🐳🙏🌈
Quando *decoramos* um ambiente, estamos o enchendo de beleza, de adornos e acessórios que comunicam a personalidade do lugar. Quanto mais bem decorada for uma casa, mais "madura" será a personalidade dela - no sentido de conseguir, através da decoração, contar uma verdadeira história sobre quem vive nela.
Quando *decoramos* uma oração, uma poesia, estamos guardando-a no coração - no órgão que, antigamente, era relacionado à memória. Para saber "de cor" é preciso repetir, repetir, repetir, até que a coisa chegue ao coração e fique lá guardada.
Já faz um tempo que, na educação, a repetição é tratada de um jeito pejorativo, sendo chamada de "decoreba". Como se, por ser "decoreba", não fosse um real aprendizado. Só que, na experiência humana, é justamente na repetição que conseguimos aprender e apreender verdadeiramente a realidade e seus fragmentos. [Para verificar isto, basta observar uma criança brincando e perceber o quanto ela repete os mesmos movimentos, palavras, o quanto ela deseja ver os mesmos filmes, dançar as mesmas músicas, etc.]
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Este texto é um lembrete àqueles que esqueceram da importância de DECORAR - a casa e as poesias.
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Personaliza o lugar em que vives com objetos cheios de história e cor. Repete as orações que aprendeste quando pequeno. Guarda uma linda poesia no coração e ponha-te a declamá-la ao teu amor!
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Faz isso e depois me conta se a vida decorada não é ainda mais bela!🐳🙏🌈
Bruna Fiorentin @bubaleia
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https://www.facebook.com/bubaleia/photos/a.310936549463335/480954845794837/?type=3&theater
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Validade e Opinião
Ao surgirem diferenças irreconciliáveis, muitas das discussões sobre questões substantivas são hoje em dia encerradas da seguinte forma: “Bem, a minha opinião é tão válida quanto a sua”. Pouco importa se entre os debatedores existe alguém que fez um estudo profundo sobre a questão, tem mais evidências à disposição e construiu uma moldura lógica para articulá-las, e se as pessoas que reivindicam igual “validade” para suas opiniões sobre a questão nunca tenham antes pensado no assunto e se apresentam como totalmente ignorantes diante de tudo aquilo que é mais relevante. Pois, se nada é certo, o que são os fatos afinal de contas? São opiniões. Logo, a liberdade de opinião se torna igualdade de opinião: pois o que representa o uso da liberdade sem igualdade?
Em Defesa do Preconceito - Theodore Dalrymple
Publicado no Facebook em 24 de Julho, 2018
Em Defesa do Preconceito - Theodore Dalrymple
Publicado no Facebook em 24 de Julho, 2018
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