Hamlet
Ser ou não ser, eis o problema. Uma alma valorosa, deve ela suportar os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um dilúvio de dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as? Morrer, dormir, mais nada, e dizer que por esse sono pomos termo aos sofrimentos do coração e às mil dores legadas pela natureza à nossa carne mortal; e será esse o resultado que mais devamos ambicionar? Morrer, dormir, dormir, sonhar talvez; terrível perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos teremos com o sono da morte, depois de expulsarmos de nós uma existência agitada? E não deverei eu refletir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz! Quem ousaria suportar os flagelos e ultrajes do mundo, as injúrias do opressor, as afrontas do orgulhoso, as ânsias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolência dos imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao mérito paciente, quando basta a ponta de um punhal para alcançar o descanso eterno? Quem se resignaria a suportar gemendo o peso de uma vida importuna, se não fosse o receio de alguma coisa além da morte, esse ignoto país, do qual jamais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade; eis o que nos faz antes suportar as nossas dores presentes do que procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes todos, mas pela consciência; assim a brilhante cor da resolução se transforma pela reflexão em pálida e lívida penumbra, e basta esta consideração para desviar o curso das empresas mais importantes, e fazer-lhes perder até o nome de ação.
Hamlet – Shakespeare
Polônio
Ainda aqui, Laertes? para bordo, para bordo.
Não te envergonhas? Teu navio só te espera para velejar. Recebe a minha bênção, e grava na tua memória os seguintes preceitos. Guarda para ti o pensamento, e não dês execução apressadamente aos teus projetos; medita-os maduramente. Sê lhano sem te esqueceres quem és. Quando tomares um amigo cuja afeição tenhas experimentado, liga-o a ti por vínculos de aço; mas não dês confiança irrefletidamente. Faz por evitar questões; mas se o não puderes conseguir, conduz-te de maneira que fiques sempre superior ao teu adversário. Ouve a todos, mas sê avaro de palavras; escuta o conselho que te derem, forma depois o teu juízo. No teu trajar sê tão sumptuoso, quanto to permitam os teus meios, mas nunca afetado; rico, mas não ofuscante; o porte dá a conhecer o homem, e nesse ponto, as pessoas de qualidade em França revelam um gosto primoroso, e o mais fino tato. Não emprestes, nem peças emprestado: quem empresta perde o dinheiro e o amigo, e o pedir emprestado é o primeiro passo para a ruína. Mas sobretudo sê verdadeiro para a tua consciência, e assim como a noite se segue ao dia, seguir-se-á também, que o teu coração jamais abrigará falsidade. Adeus, que a minha benção sele em teu coração os meus conselhos.
Laertes
Despedindo-me, humildemente vos beijo a mão, meu pai.
Hamlet – Shakespeare
RELIGIÃO
A alma, porém, de toda a educação nos colégios da Companhia era a formação religiosa. O homem não é só um animal cujo organismo se deve desenvolver sadiamente, nem ainda só uma inteligência que importa mobiliar de conhecimentos úteis. É antes de tudo e essencialmente uma pessoa, com os seus destinos religiosos, naturais e sobrenaturais, em cuja realização plena se resume a sua suprema razão de ser. Uma educação que descurasse esse aspecto fundamental não seria uma educação humana.
A forma religiosa, quer o Ratio seja ministrada menos como conhecimento que se transmite e mais como vida que se vive. A concentração didática, como regra geral, cifra-se no ensino da doutrina cristã, uma vez por semana, e numa exortação moral, também semanalmente, às sextas ou aos sábados (J 4, 5; Lb 2; Lc 2; Ld 2; Le 2).
A atmosfera, porém, que respiram os alunos, impregna-se toda de uma vida religiosa sincera e profunda. A missa, a prática dos sacramentos, a oração quotidiana integram espontaneamente as atividades colegiais. Nos colóquios particulares, na explicação dos autores, na escolha das leituras, os mestres não devem perder o ensejo de inculcar o amor da virtude e orientar as almas para Deus. As congregações marianas, reunindo em seu grêmio o escol dos alunos aplicados e piedosos, atuam como um fermento de preservação moral e um estímulo à pureza dos costumes e ao fortalecimento do caráter cristão (J 5-10).
Destarte, o Ratio Studiorum, num plano bem estruturado e harmonioso, faz convergir toda a vida escolar do colégio – administração, currículo, metodologia, distrações – para um fim único: a educação integral do aluno.
O Metodo Pedagogico Dos Jesuitas. O Ratio Studiorum - Pe. Leonel França