terça-feira, 30 de setembro de 2025

Sofrimento e Ensinamento

#72
O pastor e o mar

O pastor, ao pastorear seu rebanhozinho num local litorâneo, vendo o mar calmo teve desejo de navegar para fazer comércio. Depois então de vender suas ovelhas e comprar tâmaras, zarpou. Mas, ao sobrevir uma forte tempestade, e com a nau correndo o risco de afundar, jogou toda a carga ao mar e a custo se safou com a nau vazia. Depois de não poucos dias, passando por ali um sujeito que se espantava com a tranquilidade do mar (pois este por acaso estava calmo), o outro, tomando a palavra, lhe disse: "Meu bom amigo, ao que parece ele tem de novo desejo de tâmaras, e por isso se mostra sossegado".


A história mostra que para os seres humanos os sofrimentos são ensinamentos.¹


¹ Há um jogo no original, porque os termos "sofrimentos" (pathémata) e "'ensinamentos" (mathémata) diferenciam-se só pela letra inicial. A ideia de que "a experiência ensina" era popular entre os gregos e aparece em outra máxima famosa, páthei máthos, "pelo sofrimento o ensinamento, presente na tragédia Agamêmnon de Ésquilo (século V a.C.).


Fábulas - Esopo

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Acordo e Segurança

#24
O lobo, as ovelhas e o carneiro


Os lobos despacharam embaixadores até as ovelhas para estabelecer com elas uma paz duradoura, com a condição de que pegassem os cães e os destruíssem. E as estúpidas ovelhas concordaram em fazer isso. Mas um velho carneiro disse: "Como vou confiar e conviver com vocês, quando - mesmo com os cães me guardando - não me é possível pastar sem perigo?".

Porque ninguém deve se despir da sua segurança, persuadido por juras de inimigos com os quais não há conciliação possível.


Fábulas - Esopo

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Morte e Meditação

A união na recordação

O poeta amigo de Rodin, Rilke, escreveu: "Talvez os mortos sejam aqueles que se puseram à parte para meditar sobre a vida". Eles meditam, com efeito, mas vivendo, e com eles podemos meditar para bem viver, e juntos. Estando divididos, a comunidade de culto em relação aos mortos nos aproxima, e isto mesmo se esses ausentes tenham sido outrora aliados imperfeitos, e até criadores de problemas.

De qualquer maneira, nossos mortos são a reserva moral da família. Têm meios para intervir nos momentos difíceis da vida e dos relacionamentos. Um grande poder de pacificação emana deles: são, para nós, um viático. Quando sofremos ou estamos extenuados, essa grande serenidade nos sustenta, como a doçura dos astros numa marcha noturna.


Nossos Mortos - A. D. Sertillanges

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Cientificismo e Alma

Mas voltando ao livro, prossegue Cavaillé, analisando uma gravura que reproduz o anfiteatro da cidade de Leiden:

A sessão de anatomia desenrola-se numa arquitetura teatral circular inspirada no modelo vitruviano [de Vitruvius, o grande arquiteto]. Essa associação da ciência e do teatro, na aurora da modernidade, é carregada de significação. A anatomia tem valor de modelo para a ciência experimental nascente assim como o teatro tem, ao mesmo tempo, para as artes do visível. A aula de anatomia é aquele espetáculo científico no qual a máquina do corpo é pacientemente desmontada peça por peça. Nas gravuras do anfiteatro de Leiden, o espectador é atingido em primeiro lugar por aqueles esqueletos de homens e de animais.

Há uma mesa no centro, onde se opera a dissecção do cadáver, em volta da qual fica a platéia e, em cima, a galeria de esqueletos de homens e animais, cada um com uma bandeirinha que lembra o tema da precariedade da vida: Vita brevis, "a vida é breve"; Pulvis et umbra sumus, "somos pó e sombra".

Estamos realmente na presença de um teatro da vaidade, um teatro da morte. É bem a ciência moderna que aí se afirma. O esqueleto, e mais genericamente o cadáver, permanecem ainda um símbolo; mas ele é já, antes de tudo, um objeto de estudo, de análise e classificação. A ciência não objetiva assim o corpo humano senão fazendo abstração do seu estatuto simbólico.

... que é o mesmo que dizer: a ciência destrói o sentido simbólico do corpo humano na medida em que o reduz a um aglomerado de pedaços que se colam uns aos outros mecanicamente. E depois, para tentar recuperar essa unidade - que só pode ser captada pela experiência do fluxo interior e da percepção real -, terá de inventar teorias como fluxo vital", "energia vital", "vitalismo" etc.


Theatrum Anatomicum
The anatomical theatre of Leiden University, early 17th century. Contemporary engraving by Willem Swanenburgh; drawing by Jan Cornelisz. van 't Woudt (Johannes Woudanus)



A imaginação e a unidade do real - Olavo de Carvalho

A Formação do Imaginário

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Maturidade e Responsabilidade

Sempre me espanta constatar certa ingenuidade característica da geração dos nossos pais. A passividade bovina com que entregaram sua vida inteira à tutela do Estado é verdadeiramente acachapante.

Ora, o resultado de uma primeira infância marcada pela privação afetiva, seguida de anos instrucionais focados em destruir no jovem qualquer amor ao conhecimento e qualquer princípio de intuição criativa - somos nós.

Nós que, nesta segunda década do novo século, estamos já na vanguarda das demandas de trabalho: presentemente nos compete educar os pequenos e amparar os idosos, gerar renda para nossas famílias, prestar serviços à sociedade e abastecê-la com bens materiais e intelectuais.

Nós que, curiosamente, no entanto, comandamos hoje uma sociedade em que se proliferam, de maneira quase simétrica, dois tipos de empreendimentos: o pet shop e a "casa de repouso" para idosos - empresas que lotam as avenidas de todas as nossas cidades, grandes e pequenas, e que de quadra em quadra nos oferecem seus slogans sob os quais são feitas sempre as mesmas ofertas: "Deixe conosco esse outro que te atrapalha. Não se preocupe tanto. Vá viver sua vida sem aborrecimentos nem incômodos. Compre aqui todos os apetrechos necessários para que você possa vivenciar, através de um animal de estimação, um simulacro do afeto humano".

Incapazes de cuidar, porque mortalmente apavorados diante da ideia de amar - já que o amor é exigente, trabalhoso, dolorido, afeito a sacrifícios... -, estamos hoje na vanguarda da vida adulta e nos rebelamos. Não queremos filhos; achamos desumano ter de trabalhar tanto por um não eu, um estranho, um outro... Filhos - trabalho e desperdício! Temos nossos próprios anelos mais profundos. Não raro nossos pais seguem pagando nossas contas.

Imaturos, egoístas, materialistas e frágeis. Todos temos esse espantalho de adultinho moderno dentro de nós - e urge combatê-lo.


Fantasmas e afetos: o problema da educação infantil - 
Lorena Miranda Cutlak

A Formação do Imaginário


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Memória e Imaginário

No sistema de ensino que temos, a contemplação é praticamente esterilizada pela obrigação de dar atenção não ao que nos encantou, mas por obrigação. O decorar, assim, significa apenas guardar uma informação para atender outra finalidade, como ir bem em uma prova, passar de ano etc. Não espanta, consequentemente, que aquilo que se decorou logo se esqueça uma vez conquistado o objetivo, isso quando não acaba sendo desprezado. Quantas pessoas você conhece, por exemplo, que têm má vontade para com a literatura porque foram obrigados a ler na escola? Talvez você seja uma delas. Eu era. E tanto fazia se o livro fosse bom ou ruim, ninguém ama quando é obrigado a tanto, pelo contrário.

A consequência disso é mais nefasta do que parece. Dissociada da instrução e formação, essa experiência amorosa deixa de ser cultivada com esse propósito, prestando-se apenas como entretenimento, ao lazer das horas de descanso e ócio, tornando a vivência da cultura em geral - seja alta ou baixa, atual ou antiga - mero diletantismo, mais um hobby do que outra coisa.

O resultado é a inanidade geral dos imaginários pessoais das últimas gerações, transparente, por exemplo, nos inúmeros memes nostálgicos das redes sociais sobre as infâncias e adolescências das últimas décadas, especialmente dos anos 1980 em diante. Que revelam do que mais se guardou no coração? Brinquedos da época, programas de televisão encerrados, hits radiofônicos descartáveis, modas passageiras etc. Apenas coisas a marcarem certos momentos ou períodos da vida, formando memórias afetivas, não por valerem grande coisa em si. Daí ao fenômeno da adolescência esticada, aliás, no vai nenhuma distância.

Ver palestra a respeito do tema no II Congresso de Artes Liberais:
https://youtu.be/tmEwFCx2Zco?si=vjmvsew9rlMr4M6


A formação do imaginário através da educação da imaginação - Francisco Escorsim
A Formação do Imaginário