quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Amor e Morte

terrarum, quascumque vident occasus et ortus,
nos duo turba sumus; possedit cetera pontus.
haec quoque adhuc vitae non est fidúcia nostrae
certa satis; terrent etiamnum nubila mentem.
quis tibi, si sine me fatis erepta fuisses,
nunc animus, miseranda, foret? quo sola timorem
ferre modo posses? quo consolante doleres!
namque ego (crede mihi), si te quoque pontus haberet,
te sequerer, coniunx, et me quoque pontus haberet.


Do nascente ao poente, em toda a terra
Só habitamos nós, só nos vivemos:
Tudo o mais pelas ondas foi tragado,
E cuido que não tens ainda segura
Tua existência tu, nem eu a minha:
Estas nuvens, que observo, ainda me aterram.
Ah, triste! Que farias se arrancada
Ao fado universal sem mim te visses!
Onde, fria de susto, onde levaras
A planta vacilante, e quem seria
Tua consolação na dor, no pranto?
Crê, minha amada, que se o mar sanhudo
Te escondesse nas sôfregas entranhas,
Te houvera de seguir o aflito esposo,
Sócio te fora em vida, e sócio em morte.



O Dilúvio – As Metamorfoses – Ovídio – Tradução de Manuel du Bocage


* A planta vacilante: os pés; enfatizados pelo termo “planta” em seu caráter fixo, de raiz, são porém contrastados com o adjetivo “vacilante”, indicando que a solidez de Pirra, seu chão, estava no seu esposo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Retórica e Finalidade

A meta última da Retórica, enquanto escola de oradores e enquanto arte liberal, a qual não deve ser perdida de vista jamais, é conhecer como se encontram argumentos, e quais são os acessórios que os amplificam e adornam, para se causar a persuasão em cada caso. Destarte, todas as técnicas citadas precisam, ao fim e ao cabo de muito treino, enfeixar-se numa perícia quase intuitiva para se capturar argumentos, de maneira análoga ao sabujo que fareja sua presa e a conduz até o caçador.

Ao longo do tempo, houve duas definições principais de retórica. A platônico-aristotélica, que a explica como arte de encontrar argumentos persuasivos, que referimos aqui; e a dos demais retóricos, e mais especialmente de Quintiliano, que a definem como bene dicendi scientia, isto é, a ciência da boa expressão.

Não é nosso ofício neste livro introdutório confirmar uma destas, refutando a outra; é bom que o aluno que está principiando o estudo conheça as duas e medite a respeito, por ora.

Antes de terminar o capítulo, resta apenas discutirmos a dificuldade da moralidade. A crítica dos filósofos na Antiguidade dizia respeito a esse aspecto do uso da retórica, ao ponto de Platão afirmar, pela boca de Sócrates, que a retórica era um falso uso das leis. A crítica é relevante, pois a utilização de um ferramental agudíssimo de persuasão para inculcar uma crença que seja sabidamente mentirosa, ou da qual o orador não possui o menor grau de segurança, configura certamente uma ação deletéria que, se muito disseminada entre a classe intelectual, poderá terminar por corroer as bases da sociedade. Isso já foi visto por diversas vezes e, sem dúvida, em algum grau que não é de pouca monta, ocorre na sociedade brasileira hoje em dia, mormente entre jornalistas, artistas e propagandistas de toda sorte.

Com isso, não estamos dizendo que esse pessoal tenha tido um treinamento completo em retórica: mas tão-somente que as técnicas retóricas de contrafação de argumentos e de ideias são de fácil aquisição e estão em perpétua circulação (já que tudo é mais fácil para quem só tem por meta arrebentar com tudo).

A isso, somente uma retórica idônea poderá fazer frente. A dialética e a filosofia tratam dos temas de forma muito abstrata para que possam penetrar nas massas: é preciso, pois, que verdadeiros retores e oradores ou ao menos filósofos e cientistas que detenham as técnicas dessa arte , possam tomar de assalto o palco das discussões públicas a fim de pregar alguma racionalidade e sincera devoção à verdade.


Trivium e Quadrivium A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 Instituto Hugo de São Vitor

Retórica e Ordenação

Retórica

A arte da retórica, do currículo escolar brasileiro, está ausente há muito tempo. Seu abuso, não obstante, e por incrível que pareça, é uma das características que tem definido nossa literatura, a de ficção tanto quanto a acadêmica, desde sempre isto é, no sentido negativo de ornamentação pomposa e rebuscada, de garrulice pedante e oca.

Claro que esse sentido negativo pouco ou nada tem que ver com a verdadeira retórica, como entendida pelos antigos. Entretanto, é assim que o termo é usado hoje em dia: para designar os penduricalhos em um discurso vazio, ou certas técnicas para ludibriar o comprador e efetivar uma venda.

Na tradição antiga, já existia a tendência a equiparar a retórica aos ornatos que embelezam, à ordenação dos argumentos, às poses e tons da declamação; e, com certeza, esses aspectos fazem parte da arte, quando bem compreendidos. Há, porém, aspectos mais profundos dela também, que aqui serão tratados.

Para começo de conversa, na Grécia Antiga, a retórica foi alvo do ataque platônico que a criticava por ser usada como um instrumento imoral de convencimento enganoso; ao mesmo tempo, era vista como inferior à dialética: esta seria caminho para a verdade certa e segura, ao passo que a retórica lidaria com argumentos apenas verossímeis, que aparentam a verdade.

Em meio a essa disputa, Aristóteles interpôs um princípio de ordem ao associar a retórica com a dialética, na condição de άντιστροφή, antístrofe. Neste panorama, as duas artes respondem uma a outra; assim, elas tratariam das mesmas questões em muitos casos, mas de maneira diversa, sendo uma abordagem o complemento da outra.

Com relação à retórica, Aristóteles a enxergava como uma faculdade para encontrar os argumentos mais persuasivos em cada situação. Uma das dificuldades que podemos ter com relação à compreensão da natureza dessa arte é devido ao fato de que ela lida com opiniões e com o convencimento, que são fenômenos mentais. Assim, ao contrário da arte da gramática, que possui um substrato material no som e na grafia, a retórica lida diretamente com entes de razão e com sentimentos subjetivos. Com efeito, as opiniões e os argumentos fazem parte dos meios de persuasão. E a própria persuasão, ou convencimento, é um assentimento da razão com algum grau de segurança psicológica. Ora, em muitas ocasiões, não conseguimos mensurar em nós mesmos qual é o grau de que temos em uma opinião. Assim sendo, não espanta que para muitos a retórica seja uma arte com meios e fins fantasmagóricos, mera manipulação.

Por outro lado, outros esposam a opinião oposta, e afirmam que, na verdade, ao homem só é possível alcançar opiniões mais ou menos seguras conforme a habilidade do orador, estando a ele vedadas as certezas absolutas sobre qualquer assunto. Há outros que, indo até mais longe, afirmam que não é possível ter segurança sobre nada, restando apenas adotar o filtro retórico que seja mais funcional na vida prática como Scott Adams no livro Win Bigly. Quem assim opina geralmente possui um pendor para enxergar o mundo através de lentes retóricas.

Seja como for, a verdade é que a arte retórica, mormente dentro no painel de estudos do Trivium, tem como uma das metas prover o aluno com os instrumentos para atuar no mundo labiríntico das opiniões principalmente das opiniões políticas e do direito.

Coisa que já se observou muita vez, as opiniões com menor grau de certeza são as que mais geram em torno de si furor e beligerância. Daí que vejamos com triste frequência intelectuais com dificuldade no discernimento entre fato e opinião, e maior dificuldade ainda em se conseguir aquilatar a validade de uma crença pessoal; de modo que o que reina é o capricho e o gosto pessoal, mesmo em assuntos graves que requeriam uma análise técnica. É justamente essa análise técnica o que a retórica possibilita.

Na visão aristotélica, a retórica é considerada a ciência ou arte de desenvolver as questões em debate na sociedade até o ponto em que estejam prontas para o confronto dialético. Assim, a retórica colhe das impressões, opiniões e crenças as diversas correntes em uma sociedade e começa a trabalhá-las, através da busca por argumentos que as corroborem. Normalmente, o que ocorre é que os argumentos trabalhados retoricamente acabam dando azo à criação de seitas engessadas, e partir daí surgem debates e mais debates, geralmente inflamados. Um exemplo clássico é a separação ocidental entre direita e esquerda (com todas as inúmeras subdivisões que dela decorrem), que há mais de 200 anos pauta infindáveis discussões políticas, as quais até hoje não tiveram uma solução conclusiva e parecem longe de ter.

A esta altura, já podemos divisar dois sentidos para a palavra. Retórica pode significar a faculdade natural de procurar argumentos em favor de uma tese qualquer; ou, então, a arte extremamente refinada que foi engendrada para facilitar o alcance desse fim. Isto é dizer que, já por natureza, tendemos a sair à cata de argumentos que embasem nossas crenças e que possam servir para convencer nossos interlocutores; ao passo que a arte vem corroborar e racionalizar essa atividade humana.

Junto com essa atividade, porém, há inevitavelmente misturado o perigo da desvirtuação. Foi contra ele que os filósofos se levantaram no passado. E, ao longo da história do Ocidente, essa disputa foi reencenada diversas vezes. Mais recentemente, a escola filosófica dos chamados utilitaristas foi uma retomada dos postulados viciosos dos sofistas, que eram retóricos na Grécia Antiga que diminuíam a capacidade intelectual humana a um subjetivismos quase absoluto; só não o era por completo porque os próprios sofistas vendiam justamente a técnica que diziam ser a adequada para influenciar os outros e se dar bem na vida.

Assim, se formos aos extremos viciosos, a entronização da retórica vai na direção do subjetivismo, bem como a da dialética vai na direção de um objetivismo exacerbado que também é malsão. Somente o ajuste adequado dessas duas visões de mundo, personificadas na retórica e na dialética, darão equilíbrio ao modo de ver do estudante. Um exemplo excelente desse equilíbrio pode ser encontrado na obra do nosso Mário Ferreira dos Santos, que formulou sua decadialética e pentadialética para bem ponderar os aspectos subjetivos e objetivos da percepção e do intelecto humanos.

Bem, mas então alguém poderá perguntar-se: por que a retórica conduz ao subjetivismo?

Acontece que a retórica lida com questões em voga na sociedade as quais não foram e não podem ser resolvidas de forma analítica. E são questões sobre as quais as pessoas têm uma crença e uma opinião pessoais. Desta forma, o modo retórica de trata-las é apelar para as crenças gerais da sociedade, e não diretamente para a razão objetiva. No mais das vezes, como dito, nem sequer é possível fazer uma análise objetiva. Vemos, assim, que muito do foco da retórica está na plateia, e não no argumento puro e simples. E é esse aspecto que pode conduzir ao subjetivismo ou ao utilitarismo.

Com o que foi dito no parágrafo anterior, nota-se que, na argumentação de tipo retórico, a tentativa de ir contra uma crença bem estabelecida da sociedade é praticamente um suicídio argumentativo. Desta forma, um advogado que tentasse argumentar a favor da moralidade do assassinato teria chances tendentes a zero de sucesso. Por outro lado, argumentar que seu cliente não cometeu assassinato, mas autodefesa, está dentro do escopo dessa arte.

Esse aspecto subjetivo, que é a obrigação de se ter sempre a plateia em mente, é a explicação também de outro aspecto da retórica: o embelezamento e a ordenação do discurso.

Algumas mentes de índole fortemente dialética torcem o nariz para esse aspecto, pois pensam que a verdade e a objetividade de uma afirmação são o que importa, e que qualquer adorno discursivo servirá apenas para desviar a atenção do foco. Tais pessoas, é força dizer, dificilmente vencerão uma eleição ou um concurso que requeira apresentação de qualidades amáveis e urbanas; ou, pelo contrário, dificilmente conseguirão mover um exército de pessoas a bater-se contra um inimigo que esteja prestes a destruir sua civilização.

É um fato que o homem não é razão calculante apenas; mas, também, e muitas vezes principalmente, desejo e paixão. Ignorar estas dimensões, e viver no aguardo da era em que a humanidade vá finalmente estar livre delas, é tentativa de fuga da realidade. Devemos admitir, assim, que o homem é vir desiderorum e que ama o belo e o prazenteiro bem como sente repulsa pelo feio e pelo doloroso. Por isso, no âmbito do discurso retórico, a beleza e a organização serão inevitavelmente parta da ordem do dia.


Trivium e Quadrivium – A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 – Instituto Hugo de São Vitor

Trivium e Dimensões

Vimos, portanto, que as disciplinas do Trivium não acabaram juntas no mesmo modelo pedagógico de maneira simples e fácil; isso se deu apenas depois de muito debate e brigas ferrenhas. Basta lembrar da rivalidade entre a escola de Platão e a de Isócrates.

Convém, no entanto, nunca esquecer essa rivalidade e essa tensão entre as artes, pois o equilíbrio entre elas é dialético, por assim dizer utilizando esse termo em uma acepção mais moderna, no sentido de que é preciso articular os três tipos de análise a cada momento do estudo. Dando um exemplo simplório: uma palavra é composta de som ou gráfica + significado dicionarizado, na gramática; esse significado, porém, do monto de vista da retórica, é modulado pelo apelo psicológico que a palavra também tem (para cada audiência em particular), pelas possibilidades de sentido figurado, etc., sua posição no argumento; do ponto de vista da dialética, a palavra será analisada dentro de um enquadramento lógico rigoroso, levando em conta se é substância ou acidente, qual seu gênero e diferença específica, etc. Todas essas dimensões estão dentro de cada palavra. Não que seja possível nem desejável submeter todos os termos de um texto a um escrutínio exaustivo; isso seria exacerbado logicismo (que também é uma tendência nociva existente no mundo pós-Trivium). Mas, de fato, é preciso fazer esse tipo de análise quando lidamos com as palavras-chave de um discurso.

Ao compor um texto, e na hora escolher por este ou aquele vocábulo, todas essas dimensões pesam, ainda que boa parte dos escritores não consiga nem sequer dar pela sua existência.

Bem, há ainda um aspecto a ser tratado com respeito à rivalidade das artes do Trivium. As facções rivais parecem ter um substrato comportamental. Assim, o leitor estudante do Trivium deve levar em conta que ele, provavelmente, se afeiçoará, preferirá e mesmo verá o mundo de um ponto de vista atinente a uma das artes em especial; mas isso não o deve impedir de estudar as outras. Assim, o tipo mais poético, de imaginação mais rica, com o tino para símbolos, paradigmas narrativos, sons, descrições, etc., deverá acabar deleitando-se mais no estudo da gramática. O tipo mais voltado para a ação no mundo, para o debate político ou para a pregação religiosa, para a liderança de grupos arregimentados, este provavelmente terá mais prazer no estudo retórico. O tipo mais científico, com pendor para as matemáticas, para o que é claro e distinto, para a vida contemplativa em sentido estrito, esse poderá encontrar-se mais bem instalado no estudo da dialética.

Tudo isso, claro, deve ser entendido cum grano salis. Existem tipos intermediários e até aqueles que insistirão que não se encaixam em nenhuma classe. Não é necessário brigar por causa disso. O importante é que se estudem todas as três artes.

 

Trivium e Quadrivium A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 Instituto Hugo de São Vitor

Retórica e Lição

Estas páginas contêm lições sobre educação; é um livro de pedagogia. O nível do discurso que adoto aqui é retórico. Não se trata de uma pesquisa, pois carece das inúmeras referências citadas à exaustão que tornam um texto enfadonho e quase ilegível. Não é um tratado filosófico, pois carece do rigor da argumentação lógica. Por outro lado, também não é um texto poético, pois não lido com o que poderia ser ou ter sido, mas antes com o que deveria ser a partir daquilo que é ou foi; este texto é, como eu disse, retórico. Se é um texto retórico, precisa cumprir com os fins da Arte Retórica. Estas lições precisam ensinar (ou persuadir), mover (hoje em dia, é uma pena, dizemos motivar) e deleitar. Este último é o mais difícil dos fins, entretanto, porei todo o esforço em cumpri-lo.

A Retórica é uma arte importante para o ofício de um pedagogo. Outro motivo pelo qual adoto um discurso retórico está no título: lições. A Retórica é uma arte quase morta que só tem interessado alguns poucos críticos literários e um número menor ainda de pesquisadores da publicidade e da propaganda. Ela está morta como estão mortos o Latim e o Grego Antigo. Assim como estas duas línguas, a Retórica está pronta, é imutável e, por isso, imortal. Outra coisa é que o nível retórico de discurso é o que mais serve ao estilo epistolar destas páginas. Quando Alexandre, o Grande, toma o poder sobre toda população de cultura grega, e as decisões políticas passam a ser centralizadas, a Arte Retórica, que por séculos vinha sendo ensinada e aprimorada, perde muito de sua aplicabilidade pública  passando a servir não mais a políticos e juristas, mas a qualquer pessoa desejosa de persuadir, mover e deleitar outrem.


Trivium e Quadrivium A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 Instituto Hugo de São Vitor