Retórica
A arte da
retórica, do currículo escolar brasileiro, está ausente há muito tempo. Seu abuso, não obstante, e por incrível que pareça, é uma das características que tem definido nossa
literatura, a de ficção tanto quanto a acadêmica, desde sempre – isto é, no sentido negativo de ornamentação pomposa e rebuscada, de garrulice pedante
e oca.
Claro que
esse sentido negativo pouco ou nada tem que ver com a verdadeira retórica, como entendida pelos antigos.
Entretanto, é assim que o
termo é usado hoje em
dia: para designar os penduricalhos em um discurso vazio, ou certas técnicas para ludibriar o comprador e
efetivar uma venda.
Na tradição antiga, já existia a tendência a equiparar a retórica aos ornatos que embelezam, à ordenação dos argumentos, às poses e tons da declamação; e, com certeza, esses aspectos
fazem parte da arte, quando bem compreendidos. Há, porém, aspectos mais profundos dela também, que aqui serão tratados.
Para começo de conversa, na Grécia Antiga, a retórica foi alvo do ataque platônico que a criticava por ser usada
como um instrumento imoral de convencimento enganoso; ao mesmo tempo, era vista
como inferior à dialética: esta seria caminho para a
verdade certa e segura, ao passo que a retórica lidaria com argumentos apenas
verossímeis, que
aparentam a verdade.
Em meio a
essa disputa, Aristóteles interpôs um princípio de ordem ao associar a retórica com a dialética, na condição de άντιστροφή, “antístrofe”. Neste panorama, as duas artes
respondem uma a outra; assim, elas tratariam das mesmas questões em muitos casos, mas de maneira
diversa, sendo uma abordagem o complemento da outra.
Com relação à retórica, Aristóteles a enxergava como uma faculdade
para encontrar os argumentos mais persuasivos em cada situação. Uma das dificuldades que podemos
ter com relação à compreensão da natureza dessa arte é devido ao fato de que ela lida com
opiniões e com o
convencimento, que são fenômenos mentais. Assim, ao contrário da arte da gramática, que possui um substrato
material no som e na grafia, a retórica lida diretamente com entes de razão e com sentimentos subjetivos. Com
efeito, as opiniões e os
argumentos fazem parte dos meios de persuasão. E a própria persuasão, ou convencimento, é um assentimento da razão com algum grau de segurança psicológica. Ora, em muitas ocasiões, não conseguimos mensurar em nós mesmos qual é o grau de que temos em uma opinião. Assim sendo, não espanta que para muitos a retórica seja uma arte com meios e fins
fantasmagóricos, mera
manipulação.
Por outro
lado, outros esposam a opinião oposta, e
afirmam que, na verdade, ao homem só é possível alcançar opiniões mais ou menos seguras conforme a
habilidade do orador, estando a ele vedadas as certezas absolutas sobre qualquer
assunto. Há outros que, indo
até mais longe,
afirmam que não é possível ter segurança sobre nada, restando apenas adotar
o filtro retórico que seja
mais funcional na vida prática como Scott
Adams no livro Win Bigly. Quem assim opina geralmente possui um pendor
para enxergar o mundo através de lentes retóricas.
Seja como
for, a verdade é que a arte retórica, mormente dentro no painel de
estudos do Trivium, tem como uma das metas prover o aluno com os instrumentos
para atuar no mundo labiríntico das opiniões – principalmente das opiniões políticas e do direito.
Coisa que já se observou muita vez, as opiniões com menor grau de certeza são as que mais geram em torno de si
furor e beligerância. Daí que vejamos com triste frequência intelectuais com dificuldade no
discernimento entre fato e opinião, e maior dificuldade ainda em se conseguir aquilatar a validade de uma
crença pessoal; de
modo que o que reina é o capricho e o
gosto pessoal, mesmo em assuntos graves que requeriam uma análise técnica. É justamente essa análise técnica o que a retórica possibilita.
Na visão aristotélica, a retórica é considerada a ciência ou arte de desenvolver as questões em debate na sociedade até o ponto em que estejam prontas para
o confronto dialético. Assim, a retórica colhe das impressões, opiniões e crenças as diversas correntes em uma
sociedade e começa a trabalhá-las, através da busca por argumentos que as
corroborem. Normalmente, o que ocorre é que os argumentos trabalhados retoricamente acabam dando azo à criação de seitas engessadas, e partir daí surgem debates e mais debates,
geralmente inflamados. Um exemplo clássico é a separação ocidental entre direita e esquerda
(com todas as inúmeras subdivisões que dela decorrem), que há mais de 200 anos pauta infindáveis discussões políticas, as quais até hoje não tiveram uma solução conclusiva e parecem longe de ter.
A esta
altura, já podemos
divisar dois sentidos para a palavra. Retórica pode significar a faculdade
natural de procurar argumentos em favor de uma tese qualquer; ou, então, a arte extremamente refinada que
foi engendrada para facilitar o alcance desse fim. Isto é dizer que, já por natureza, tendemos a sair à cata de argumentos que embasem
nossas crenças e que possam
servir para convencer nossos interlocutores; ao passo que a arte vem corroborar
e racionalizar essa atividade humana.
Junto com
essa atividade, porém, há inevitavelmente misturado o perigo
da desvirtuação. Foi contra
ele que os filósofos se
levantaram no passado. E, ao longo da história do Ocidente, essa disputa foi
reencenada diversas vezes. Mais recentemente, a escola filosófica dos chamados utilitaristas foi
uma retomada dos postulados viciosos dos sofistas, que eram retóricos na Grécia Antiga que diminuíam a capacidade intelectual humana a
um subjetivismos quase absoluto; só não o era por
completo porque os próprios sofistas
vendiam justamente a técnica que
diziam ser a adequada para influenciar os outros e se dar bem na vida.
Assim, se
formos aos extremos viciosos, a entronização da retórica vai na direção do subjetivismo, bem como a da
dialética vai na
direção de um
objetivismo exacerbado que também é malsão. Somente o ajuste adequado dessas
duas visões de mundo,
personificadas na retórica e na dialética, darão equilíbrio ao modo de ver do estudante. Um
exemplo excelente desse equilíbrio pode ser
encontrado na obra do nosso Mário Ferreira
dos Santos, que formulou sua decadialética e pentadialética para bem
ponderar os aspectos subjetivos e objetivos da percepção e do intelecto humanos.
Bem, mas
então alguém poderá perguntar-se: por que a retórica conduz ao subjetivismo?
Acontece
que a retórica lida com questões em voga na sociedade as quais não foram e não podem ser resolvidas de forma analítica. E são questões sobre as quais as pessoas têm uma crença e uma opinião pessoais. Desta forma, o modo retórica de trata-las é apelar para as crenças gerais da sociedade, e não diretamente para a razão objetiva. No mais das vezes, como
dito, nem sequer é possível fazer uma análise objetiva. Vemos, assim, que
muito do foco da retórica está na plateia, e não no argumento puro e simples. E é esse aspecto que pode conduzir ao
subjetivismo ou ao utilitarismo.
Com o que
foi dito no parágrafo anterior,
nota-se que, na argumentação de tipo retórico, a tentativa de ir contra uma
crença bem
estabelecida da sociedade é praticamente
um suicídio argumentativo.
Desta forma, um advogado que tentasse argumentar a favor da moralidade do
assassinato teria chances tendentes a zero de sucesso. Por outro lado,
argumentar que seu cliente não cometeu assassinato,
mas autodefesa, está dentro do
escopo dessa arte.
Esse
aspecto subjetivo, que é a obrigação de se ter sempre a plateia em
mente, é a explicação também de outro aspecto da retórica: o embelezamento e a ordenação do discurso.
Algumas
mentes de índole fortemente
dialética torcem o
nariz para esse aspecto, pois pensam que a verdade e a objetividade de uma
afirmação são o que importa, e que qualquer
adorno discursivo servirá apenas para
desviar a atenção do foco.
Tais pessoas, é força dizer, dificilmente vencerão uma eleição ou um concurso que requeira
apresentação de
qualidades amáveis e urbanas;
ou, pelo contrário,
dificilmente conseguirão mover um exército de pessoas a bater-se contra
um inimigo que esteja prestes a destruir sua civilização.
É um fato que o homem
não é razão calculante apenas;
mas, também,
e muitas vezes principalmente, desejo e paixão. Ignorar estas
dimensões,
e viver no aguardo da era em que a humanidade vá finalmente estar
livre delas, é
tentativa de fuga da realidade. Devemos admitir, assim, que o homem é vir desiderorum
e que ama o belo e o prazenteiro – bem como sente
repulsa pelo feio e pelo doloroso. Por isso, no âmbito do discurso retórico, a beleza e a
organização
serão
inevitavelmente parta da ordem do dia.
Trivium e Quadrivium – A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 – Instituto Hugo de São Vitor