Mήδεια
MEDEIA
Ai!
PEDAGOGO
Do revés sou núncio involuntário?
Erro? Trago notícias negativas?
MEDEIA
Mensagens são mensagens. Não te inculpo.
PEDAGOGO
Por que declinas o olho raso d'água?
MEDEIA
Não é por mero acaso. Calculando
errado, deflagrei (e os deuses) isso.
PEDAGOGO
Teus filhos hão de propiciar tua volta!
MEDEIA
Esta infeliz guiará outros abaixo.
PEDAGOGO
Das mães os filhos se desencabrestam.
E do homem suportar sensaboria.
MEDEIA
Não me furto ao destino; cuida que ambos
aufiram o que o dia-a-dia dite.
De morada e cidade, filhos, não
carecerá nenhum dos dois, ausente
a mãe, após o adeus carpido. Vou-me,
andarilha de incertas geografias,
frustrânea na visão do regozijo,
sem lhes doar adorno para o leito
nupcial, sem soerguer a tocha ao céu.
Quanta soberba a deste ser transido!
Nada valeu, meninos, meu empenho,
nada valeu sofrer as convulsões
doloridíssimas do parto. Sonhos
inúteis que nutri ao vislumbrar
nas crias meu amparo na velhice,
apuro em ritos funerários - ápice
do que pode sonhar quem vive! Ai!
Morreu-me o doce plano sem os dois,
resta a amargura, resta o dissabor,
sequestrados de mim os olhos rútilos,
distantes noutra forma de viver.
Por que cravar em mim o esgar ambíguo?
Por que sorrir-me o derradeiro riso?
O que farei? Sucumbe o coração
ao brilho do semblante dos garotos.
Mulheres, titubeio! Os planos pe-
riclitam! Vou-me, mas com meus dois filhos!
Prejudicar crianças em prejuízo
do pai não dobra o mal? Fará sentido?
Comigo não: adeus, projetos árduos!
O que se passa em mim? Aceitarei
o escárnio de inimigos impunidos?
Que infâmia ouvir de mim reclamos típicos
de gente frouxa! Ao rasgo de ousadia!
Para dentro, meninos! Se a lei veta
a presença de alguém no sacrifício,
não é problema meu. O pulso agita-se.
Ai!
Deixa de agir assim, ó coração!
Não queiras, infeliz, punir os filhos!
No exilio, o bem se aloja em nosso espírito.
Ó vingadores do ínfero, alástores!
Está para nascer alguém que agrida
um filho meu! Se ananke, o necessário,
impõe sua lei indesviável, nós
daremos fim em quem geramos. Não
existe escapatória ao prefixado.
Coroada, a noiva vestirá a túnica
– eis algo certo – e a túnica a aniquila!
Como a senda a que vou é sinistríssima
e lhes destino via mais sinistra,
desejo lhes falar: deixai, meninos,
que a mãe estreite a mão direita de ambos!
Quanto amor pela curva desses lábios,
quanto amor pelo garbo, porte e braços!
Felicidades lá, que aqui o pai
vos sonegou o regozijo! Doce
abraço, rija tez, arfar de brisa!
Dobrou-me o mal, mirar os dois não é
possível: ide, entrai! Não é que ignore
a horripilância do que perfarei,
mas a emoção derrota raciocínios
e é causa dos mais graves malefícios.
Medéia – Eurípedes
Tradução de Trajano Vieira