terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Vingança e Destino

Mήδεια


MEDEIA
Ai!

PEDAGOGO
Do revés sou núncio involuntário?
Erro? Trago notícias negativas?

MEDEIA
Mensagens são mensagens. Não te inculpo.

PEDAGOGO
Por que declinas o olho raso d'água?

MEDEIA
Não é por mero acaso. Calculando
errado, deflagrei (e os deuses) isso.

PEDAGOGO
Teus filhos hão de propiciar tua volta!

MEDEIA
Esta infeliz guiará outros abaixo.

PEDAGOGO
Das mães os filhos se desencabrestam.
E do homem suportar sensaboria.

MEDEIA
Não me furto ao destino; cuida que ambos
aufiram o que o dia-a-dia dite.
De morada e cidade, filhos, não
carecerá nenhum dos dois, ausente
a mãe, após o adeus carpido. Vou-me,
andarilha de incertas geografias,
frustrânea na visão do regozijo,
sem lhes doar adorno para o leito
nupcial, sem soerguer a tocha ao céu.
Quanta soberba a deste ser transido!
Nada valeu, meninos, meu empenho,
nada valeu sofrer as convulsões
doloridíssimas do parto. Sonhos
inúteis que nutri ao vislumbrar
nas crias meu amparo na velhice,
apuro em ritos funerários - ápice
do que pode sonhar quem vive! Ai!
Morreu-me o doce plano sem os dois,
resta a amargura, resta o dissabor,
sequestrados de mim os olhos rútilos,
distantes noutra forma de viver.
Por que cravar em mim o esgar ambíguo?
Por que sorrir-me o derradeiro riso?
O que farei? Sucumbe o coração
ao brilho do semblante dos garotos.
Mulheres, titubeio! Os planos pe-
riclitam! Vou-me, mas com meus dois filhos!
Prejudicar crianças em prejuízo
do pai não dobra o mal? Fará sentido?
Comigo não: adeus, projetos árduos!
O que se passa em mim? Aceitarei
o escárnio de inimigos impunidos?
Que infâmia ouvir de mim reclamos típicos
de gente frouxa! Ao rasgo de ousadia!
Para dentro, meninos! Se a lei veta
a presença de alguém no sacrifício,
não é problema meu. O pulso agita-se.
Ai!
Deixa de agir assim, ó coração!
Não queiras, infeliz, punir os filhos!
No exilio, o bem se aloja em nosso espírito.
Ó vingadores do ínfero, alástores!
Está para nascer alguém que agrida
um filho meu! Se ananke, o necessário,
impõe sua lei indesviável, nós
daremos fim em quem geramos. Não
existe escapatória ao prefixado.
Coroada, a noiva vestirá a túnica
– eis algo certo – e a túnica a aniquila!
Como a senda a que vou é sinistríssima
e lhes destino via mais sinistra,
desejo lhes falar: deixai, meninos,
que a mãe estreite a mão direita de ambos!
Quanto amor pela curva desses lábios,
quanto amor pelo garbo, porte e braços!
Felicidades lá, que aqui o pai
vos sonegou o regozijo! Doce
abraço, rija tez, arfar de brisa!
Dobrou-me o mal, mirar os dois não é
possível: ide, entrai! Não é que ignore
a horripilância do que perfarei,
mas a emoção derrota raciocínios
e é causa dos mais graves malefícios.


Medéia – Eurípedes
Tradução de Trajano Vieira

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Verdade e Orgulho

XXV

Homem algum me moleste, portanto, dizendo: “Moisés não pensou como dizes tu, mas como eu digo”. Pois, se me perguntassem: “Como sabes que Moisés pensou assim o que interpretas dessas palavras?”. Eu não investiria esforços e responderia talvez como respondi acima, ou com mais detalhes, se insistisse. Mas, quando me dizem: “Moisés não quis dizer o que tu dizes, mas o que eu digo”, sem negar que ambas as interpretações podem ser verdadeiras, ó meu Deus, vida dos pobres, em cujo seio não há contradição, derrama um orvalho que me refresque o coração, para que eu seja paciente para suportar esses que a mim falam. Fazem isso não porque estão cheios do Espírito divino e leram no coração de Teu servo sua intenção, mas porque são orgulhosos. Não sabem o pensamento de Moisés, mas amam o próprio, não por ser o verdadeiro, mas por ser o deles. Do contrário, amariam igualmente a opinião verdadeira de outros, como amo o que eles dizem quando falam a verdade, não porque vem deles, mas porque é verdade, da mesma forma que não é deles por ser verdade. Mas, se eles, de fato, a amassem por ser verdade, então seria tanto deles quanto minha. Contudo, contendam dizendo que Moisés não pensou como digo, mas como eles dizem: isso não aceito e não amo. Ainda que assim fosse, sua precipitação não pertence ao conhecimento, mas à audácia, e nada enxergam além de vaidade. Ó Senhor, Teu julgamento é terrível. Tua verdade nem é minha, nem deste ou daquele; a verdade pertence a todos nós, a quem Tu abertamente chamas a participar dela, advertindo-nos severamente a não nos apossarmos dela como algo exclusivo nosso, para não sermos privados dela. Quem quer que tome apenas para si aquilo que Tu propões para gozo de todos e atribui a si o que pertence a todos é retirado desse bem comum para o que é seu, isto é, da verdade para a mentira. Pois aquele que fala mentira, fala do que é seu.

Ó Deus, Tu és o juiz excelente, a própria Verdade, ouça o que direi a esse que me contradiz. Ouça, pois diante de Ti é que falo, na presença de meus irmãos, que aplicam a Tua Lei legitimamente, cujo fim é a caridade. Pois essas palavras fraternas e de paz digo a eles: “Se ambos vemos que o que dizes é verdadeiro, ou que o que digo é verdadeiro, pergunto: onde o vemos? Não é em ti, certamente, que eu a vejo, nem em mim que a vês. Mas ambos a vemos na Verdade imutável, que está acima de nossas almas”. Se não discordamos acerca da própria Luz de Deus, por que discutir sobre o pensamento do nosso próximo a quem não vemos como a Verdade imutável? Pois, se o próprio Moisés aparecesse a nós e expusesse seu verdadeiro pensamento, nem assim o veríamos, mas acreditaríamos nele. Não nos levantemos com orgulho, pois, um contra o outro acerca do que está escrito. Amemos ao Senhor nosso Deus com todo o nosso coração, com toda nossa alma, com toda nossa mente, e ao próximo como a nós mesmos. Foram esses dois preceitos da caridade que Moisés quis dizer com aquilo que escreveu em seus livros. Se duvidarmos disso, faríamos de Deus um mentiroso, imaginando contrariedades à mente de Seu servo, distintos daqueles que ele mesmo lhe revelou. Quanto tolice é afirmar que Moisés teve esse pensamento e não aquele, em meio a tantos significados verdadeiros, e com discórdias perniciosas ofender a própria caridade, razão pela qual falou todas aquelas palavras que nos esforçamos para interpretar.


Confissões – Santo Agostinho

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Arte e Possibilidade

III

Sem escrúpulos, consultei àqueles impostores, a quem chamavam de matemáticos, porque não pareciam fazer sacrifícios nem orar para qualquer espírito a fim de fazerem suas adivinhações, embora estas sejam firmemente rejeitadas e condenadas pela verdadeira piedade cristã. Pois é bom confessar perante Ti e dizer: “tenha misericórdia de mim, cure a minha alma, pois pequei contra Ti”; não abusar da Tua misericórdia como se fosse uma licença para pecar, mas trazer à memória as palavras do Senhor: “Veja que já estás curado; não voltes a pecar, para que não te aconteça coisa pior”. Eles trabalham para destruir este saudável conselho, dizendo: “a causa do teu pecado é inevitavelmente determinada no céu”; e “assim fez Vênus, Saturno ou Marte”, de forma que o homem feito de carne e sangue, orgulhoso de sua corrupção, possa ser considerado inocente, enquanto o Criador e Governador do céu e das estrelas leva a culpa. Quem é Ele senão nosso Deus? A própria doçura e a fonte da justiça, que dá a cada homem conforme suas próprias obras e não rejeita um coração quebrantado e contrito.

Havia naqueles dias um homem sábio, renomado, muito habilidoso e conhecedor da medicina, era procônsul na época e, com as próprias mãos, colocou em minha cabeça destemperada a coroa que ganhei e um concurso de Retórica. Não o fez como médico, porém, pois aquela doença somente poderia ser curada por Ti, que resistes ao orgulhoso e dás graça ao humilde. Mas terás Tu falhado comigo por meio daquele velho homem ou impedido a cura da minha alma? Na verdade, quando me tornei mais próximo dele, costumava ouvi-lo assídua e fixamente (pois, apesar de usar termos simples, seu discurso era vívido, alegre e sincero). Ele percebeu pelo meu discurso que eu era dado a livros de astrologia e gentilmente me aconselhou a me livrar deles e a não desperdiçar tempo, atenção e empenho naquelas coisas vãs. Disse que ele mesmo, quando mais jovem, havia estudado a arte da astrologia para tornar-se profissional e sobreviver daquilo. Como já entendia Hipócrates, logo entenderia um domínio como aquele; ainda assim, desistiu e voltou-se para a medicina, por razão nenhuma além de descobrir que aquelas eram completas mentiras e que ele, um homem sério, não estava disposto a ganhar a vida enganando as pessoas. “Mas tu”, disse ele, “tens a Retórica para se sustentar, então escolheste seguir essa ilusão por livre escolha, não por necessidade. Deve, portanto, dar crédito ao que digo, pois busquei conhecimento suficiente para me sustentar sozinho”. Quando o questionei como poderiam, então, tantas coisas serem preditas por meio da astrologia, ele respondeu (como podia) “que a força da possibilidade, difusa pela ordem total das coisas, promove tais coisas. Pois, quando um homem abre aleatoriamente as páginas de um poeta, que cantou e pensou algo totalmente diferente, é possível que um verso muitas vezes seja maravilhosamente compatível com a situação presente. Então, não restam dúvidas: se algo sai da mente humana, por um instinto maior, inconsciente do que acontece consigo mesma, uma resposta deve ser dada pela possiblidade, não pela arte, de acordo com a situação e as ações de quem as pede”.

Assim, de fato, seja dele ou por meio dele, Tu cuidastes de mim e pintastes tudo aquilo em minha memória para que, mais adiante, eu pudesse examiná-la por mim mesmo. No entanto, naquele tempo, nem o procônsul nem meu querido Nebrídio, um jovem esplêndido e temente que ridicularizava todo o sistema de adivinhações, foram capazes de me persuadir a desistir da astrologia, pois as autoridades da ordem astrológica me influenciavam mais do que eles. Assim, acabei por não encontrar provas concretas (não como procurava) que não deixassem dúvidas de que aquelas previsões eram resultado aleatório proveniente das possibilidades, não resultado da arte dos astrólogos.


Confissões – Santo Agostinho

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Ação e Contexto

IX

Em meio a todos esses atos ilícitos de maldade, violência e tantas iniquidades, estão também os pecados cometidos pelos homens que estão, de modo geral, progredindo em direção ao bem. Quando são julgados corretamente, perante a regra da perfeição, seus pecados são detectados. Mas devem ser elogiados por causa dos frutos que virão a dar, como a primeira folha verde de uma plantação de milho. Algumas obras assemelham-se a atos ilícitos de maldade ou violência, mas não são pecados, pois não ofendem a Ti, nosso Senhor Deus, nem a sociedade humana. Quando, por exemplo, são feitas reservas proporcionais para tempos difíceis, não podemos julgar que são feitas meramente pelo desejo de acumular. Ou, ainda, quando se pune para fins de correção, pela autoridade da constituição, não podemos julgar que se o faz meramente pelo desejo de ferir. Muitas ações reprovadas pelos homens são aprovadas pelo Teu testemunho; muitas ações elogiadas pelos homens são condenadas por Ti, pois as ações sem si, a mente daquele que as pratica e o nível de exigência variam largamente. No entanto, quando Tu, de repente, ordenas algo inusitado e impensado, sim, embora Tu o tenhas antes proibido e não justifiques o motivo pelo qual agora o ordena, ainda que seja contra o que se julga correto em meio aos homens, quem questionará se deve ser feito, considerando que a sociedade humana é apenas serva Tua? Bem-aventurados são aqueles que sabem que Tu é s a autoridade! Pois todas as coisas feitas pelos servos Teus revelam tanto algo necessário para o presente quanto aquilo que está por vir.


Confissões – Santo Agostinho

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Reflexão #17

mos maiorum
costume dos antigos, como faziam os ancestrais


Esta expressão latina revela que a tradição é valorizada desde a antiguidade.

Sim, é verdade que algumas vezes é necessário questionar o motivo pelo qual determinada ação ou processo é feito e refeito da mesma maneira, mas isto se aplica a tarefas menores e sem tanto tempo de maturação, isto é, alguma coisa que é feita a menos de um século (limite estabelecido arbitrariamente aqui).

A expressão mencionada refere-se àqueles costumes feitos desde sempre, que podem ser entendidos como lei ou regra natural, não por estar provado ser da nossa natureza, mas por ser feito há tanto tempo que a probabilidade de não ser natural é ínfima.

Por isso, esta breve reflexão tem o objetivo de venerar os veteranos, nossos "maiores", no que é devido a eles.