terça-feira, 20 de outubro de 2020

Conselho e Estudo

Sexdecim monita Sancti Thomae de Aquino pro acquirendo scientiae thesauro


Qui quaesivisti a me, in Christo mihi carissime Joannes, qualiter te studere oporteat in thesauro scientiae acquirendo, tale a me tibi super hoc traditur consilium.

1. Ut per rivulos, non statim, in mare eligas introire: quia per faciliora ad difficiliora oportet devenire. Haec est ergo monitio mea, et instruction tua.

2. Tardiloquum te esse jubeo et tarde ad locutorium accedentem.

3. Conscientiae puritatem amplectere.

4. Orationi vacare non desinas.

5. Cellam frequenter diligas, si vis in Cellam vinariam introduci.

6. Omnibus te amabilem exhibe.

7. Nihil quaere penitus de factis aliorum.

8. Nemini te multum familiarem ostendas: quia nímia familiaritas parit contemptum, et subractionis a studio materiam subministrar.

9. De verbis et factis secularium nullatenus te intromittas.

10. Discursus super omnia fugias.

11. Sanctorum et bonorum imitari vestigia non omittas.

12. Non respicias a quo audias, sed quidquid boni dicatur, memoria recomenda.

13. Ea quae legis et audis, fac ut intelligas.

14. De dubiis te certifica.

15. Et quidquid poteris, in armariolo mentis reponere satage, sicut cupiens vas implore.

16. Altiora te ne quaeseris.

Illa sequens vestigia, frondes et fructus in vinea Domini Sabaoth utiles, quandiu vitam habueris, proferes ac produces. Haec si sectatus fueris, ad id attingere poteris, quod affectas. Vale. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Orgulho e Verdade

Uma forma de personalidade particularmente hostil ao trabalho é essa hipocrisia quase universal que consiste em ostentar uma aparência de saber quando a sinceridade confessaria ignorância. Ocultar sua indigência intelectual à sobra das palavras é o que se critica ao escrevinhador improvisado, ao jornalista copiador e ao deputado ignaro; mas todo escritor com uma consciência reta deve confessar que cede a todo instante, nesse ponto, às sugestões do orgulho. Quer esconder seu segredo; disfarça sua insuficiência; faz uma pose de grande, sentindo-se pequeno; “afirma”, “declara”, “está certo de que...”; no fundo, não sabe nada do assunto; impõe-se sobre o próximo e, vagamente enganado por seu próprio jogo, seduz a si mesmo.

Uma outra tara é buscar no pensamento essa falsa originalidade que há pouco condenamos no estilo. Querer amoldar a verdade a si mesmo é um orgulho insuportável e acaba em tolice. A verdade é essencialmente impessoal. Que ela utilize nossa voz e nosso espírito, e será matizada por eles sem que o busquemos; ela o fará tanto melhor quanto menos pensarmos nisso; mas forçar a verdade a parecer-se conosco é falseá-la, é substituir essa imortal por um profanador e um efêmero.

“Não considere de onde vem a verdade”, dizia São Tomás: também não considere a quem ela dá glória; deseje que o seu leitor em contato com sua obra, também não considere de onde vem a verdade. Esse sublime desinteresse é a marca da grandeza; busca-lo, fazer dele uma lei sempre aceita, se não sempre obedecida, é corrigir o que não pode ser eliminado em nossa própria miséria. Engrandecemo-nos assim com a única verdadeira grandeza. O humilde pedestal tem sua parte de glória quando a verdade resplandece, chama autêntica, no candelabro do espírito.



A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Leitura e Compreensão

A fonte do saber não está nos livros; está na realidade e no pensamento. Os livros são placas de sinalização; a estrada é mais antiga, e ninguém pode fazer por nós a viagem para a verdade. O que um escritor disse não é o mais importante; o que nos interessa é aquilo que é, e nosso espírito deve se propor não a repetir, mas a compreender, ou seja, a aprender com ele, ou seja, a absorver vitalmente, e finalmente a pensar por si mesmo. A afirmação que escutamos deve, seguindo o autor, talvez graças a ele, mas afinal independentemente dele, obrigar a alma a reafirmá-la para si mesma. Temos que recriar toda a ciência para nosso próprio uso.

O principal benefício da leitura, aliás, pelo menos das grandes obras, não é adquirir verdades esparsas, mas o aumento da nossa sabedoria. Amiel, comparando o espírito francês com o espírito alemão, dizia: “Os alemães colocam a lenha na fogueira; os franceses entram com a chama”. O juízo é talvez um pouco categórico, mas não há dúvida de que o que mais importa é a chama.



A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Vivência e Experiência

Newton teria descoberto a gravitação se sua atenção ao real não lhe tivesse advertido e preparado para perceber que as maçãs caem como os mundos? As leis da gravidade dos espíritos, as leis sociológicas, filosóficas, morais e artísticas também são aplicáveis a tudo. Um grande pensamento pode nascer a partir de qualquer fato. Em toda contemplação, seja de uma mosca ou de uma nuvem que passa, há uma oportunidade de infinitas reflexões. Qualquer raio de luz pode levar ao Sol; qualquer caminho aberto é um corredor que conduz a Deus.

Ora, poderíamos captar essas riquezas se estivéssemos presentes. Olhando para tudo em espírito de inspiração, veríamos em tudo lições, profecias da verdade ou confirmações, prenúncios e conseqüências. Mas em geral não estamos presentes, ou não prestamos atenção. “Todo mundo olha o que eu olho”, dizia Lamennais a Saint-Malo, “diante de um mar tempestuoso; mas ninguém vê o que eu vejo”.

Crie o hábito de estar presente a esse jogo do universo material e moral. Aprenda a ver; confronte o que se oferece a você com as suas idéias familiares ou secretas. Não veja numa cidade unicamente suas casas, mas a vida humana e a história. Que um museu não lhe apresente quadros, mas escolas de arte e vida, concepções do destino e da natureza, orientações sucessivas ou diversas da técnica, do pensamento inspirador, dos sentimentos. Que um ateliê não lhe fale somente de ferro e de madeira, mas da condição humana, do trabalho, da economia antiga e da moderna, das relações entre as classes. Que as viagens ensinem-no sobre a humanidade; que as paisagens evoquem aos seus olhos as grandes leis do mundo; que as estrelas lhe falem das durações incomensuráveis; que os seixos da estrada sejam para você o resíduo da formação da Terra; que a visão de uma família desperte em você a visão das gerações, e que uma simples visita ensine-lhe sobre a mais alta concepção do homem. Se não conseguir ver dessa maneira, não se tornará ou não será mais que um espírito banal. Um pensador é um filtro em que a passagem das verdades deixa sua melhor substância.

Aprenda a escutar, e escute sempre, seja quem for. Se é nos mercados, como queria Malherbe, que se aprende a própria língua, é também nos mercados, ou seja, na vida corrente, que se aprende a língua do espírito. Uma multidão de verdades circula nos mais simples discursos. Uma única palavra ouvida com atenção pode ser um oráculo. Um camponês é às vezes muito mais sábio que um filósofo. Todos os homens se unem quando mergulham no fundo de si mesmos; e se alguma impressão profunda, um retorno instintivo ou virtuoso à simplicidade original, afastar as convenções, as paixões que normalmente desviam-nos de nós mesmos ou dos outros, ouvimos sempre um discurso divido quando um homem nos fala.

Em cada homem está todo o homem, e uma profunda iniciação pode nos vir daí. Se você é um romancista, não sente o que pode extrair disso? O maior dos romancistas forma-se na soleira das portas; o menor, na Sorbonne ou nos salões. Apenas, em vez de se misturar, o grande observador preserva-se, vive em si mesmo, eleva-se, e a vida mais ínfima surge-lhe como como um grande espetáculo.

Ora, o que busca o romancista pode servir a todos, pois todos têm necessidade dessa experiência profunda.



A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Reflexão #5

Por volta dos meus 15 anos, ao folhear aleatóriamente a Bíblia no colégio, procurando alguma coisa para rir, encontrei o seguinte versículo:

Deuteronômio 22:10
Com boi e com jumento não lavrarás juntamente. 

Na época, dei risada desse conselho agrônomo. Imaginava eu que os livros da Bíblia eram livros velhos para civilizações antigas.

Recentemente, vi uma interpretação dessa mesma frase tomando os papéis desses animais ao comportamento humano, isto é, o burro como fanfarrão limitado e o boi como trabalhador calmo. Neste ponto eu já havia percebido que a Bíblia é um livro atemporal, que seus versículos tem diversas interpretações para inúmeras situações. Mesmo assim, quando vi uma nova e útil interpretação para um trecho que eu considerava bobagem, foi quando senti no coração o conhecimento contido nas Escrituras.

"Só sei que nada sei" é um clichê de Sócrates, mas não consigo evitar de resgatá-lo. Eu realmente achava que conseguia ver que havia mais coisa nesses versículos, mas este estava na minha frente e não vi além do que minha memória juvenil guardava.

A reflexão proposta aqui segue este caminho. Quantos outros textos finalizamos a interpretação no primeiro nível de leitura e nos fechamos no escuro, sem ver a luz do conhecimento contida além?

Ordem e Trabalho


1. SIMPLIFICAR 


Para que tudo em você esteja orientado para o trabalho, não basta organizar-se interiormente, definir sua vocação e administrar suas forças: é preciso também ordenar sua vida, e penso aqui no quadro em que ela se desenvolve, nas suas obrigações, nas suas vizinhanças, no seu cenário.

Uma palavra apresenta-se aqui como resumo de tudo: simplifique. Você tem uma viagem difícil pela frente: não se sobrecarregue com muita bobagem. É certo que jamais terá um domínio pleno de sua vida, e então, pensa você, de que adianta legislar? Errado! Em uma mesma situação exterior, um espírito de simplificação pode muito, e o que não se elimina exteriormente sempre pode ser eliminado da própria alma.

“Não atrelarás o jumento com boi”¹, diz a Lei: o trabalho pacífico e sábio não deve ser associado às atrações caprichosas e ruidosas de uma vida exterior. Um certo ascetismo também é de certa forma um dever do pensador. Religiosa ou laica, científica, artística, literária, a contemplação não combina com facilidades muito onerosas e complicações. “Os grandes homens têm camas pequenas”, nota Henri Lavedan. É preciso pagar pelo gênio um imposto sobre o luxo. Dez por cento desse privilégio não o arruinarão; não será ele o prejudicado, mas antes nossos defeitos, ou pelo menos nossas tentações, e o lucro então será duplo.



A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges

¹ Dt 22, 10.