como diz Unamuno em “A agonia do cristianismo”, a luta pela vida é a própria vida, e a agonia dessa verdade é inseparável de sua sacralidade
quarta-feira, 9 de novembro de 2022
Reflexão #16
sexta-feira, 4 de novembro de 2022
Memória e Inteligência
A Educação da Vontade – Jules Payot
quinta-feira, 3 de novembro de 2022
Trabalho e Hábito
Para agir, é preciso realizar corajosamente cada uma das pequenas ações que concorrem para alcançar uma finalidade. A ação fixa o pensamento, engaja-nos publicamente num partido, produz uma profunda alegria.
Infelizmente, o tempo da atividade, já tão curto, é ainda diminuído pela falta de método odo estudante em seu trabalho; apesar disso, como já dissemos, “basta pouco para cada dia se a cada dia realizamos esse pouco”. A paciência dos esforços incessantemente renovados produz resultados prodigiosos: é, portanto, o hábito da atividade incessante que o estudante deve adquirir. Para tanto, ele deve fixar toda a noite a tarefa do dia seguinte, aproveitar de todos seus bons movimentos, terminar todo trabalho começado, fazer uma só coisa de cada vez e não desperdiçar nenhuma parcela de seu tempo. Tais hábitos lhe permitirão esperar os mais altos destinos e lhe darão as condições para pagar à sociedade a dívida de reconhecimento que os benefícios que dela recebeu obrigam-no a reconhecer.
O trabalho assim compreendido não pode jamais ser uma sobrecarga: a fadiga que se atribui ao trabalho provém de fato, quase sempre, dos excessos da sensualidade, das inquietudes, das emoções egoístas, de um mau método; o trabalho bem compreendido, o hábito dos pensamentos nobres e elevados, só fazem fortificar a saúde, se é verdade que uma condição fisiológica excelente é feita de calma, tranqüilidade, felicidade.
A Educação da Vontade – Jules Payot
quarta-feira, 2 de novembro de 2022
Trabalho e Determinação
¹ Ver o Bossuet de Lanson. [Gustave Lanson, Bossuet, Société Française d’imprimerie et de librarie, Paris, 1890 – NT].
² “O que despreza as coisas pequenas pouco a pouco cairá”. Eclo 19, 1b – NT.
A Educação da Vontade – Jules Payot
terça-feira, 1 de novembro de 2022
Trabalho e Constância
A Educação da Vontade – Jules Payot
terça-feira, 20 de setembro de 2022
Amor e Mito
Que lindo luar! Foi decerto por uma noite destas, enquanto a brisa beijava carinhosamente as árvores, que nem rumorejavam, que Troilo subiu as muralhas de Tróia e exalou a sua alma em suspiros em face das tendas gregas onde dormia Créssida.
JÉSSICA
Numa noite como esta foi também que Tisbe, caminhando a medo através do orvalho, viu a sombra do leão antes que visse o próprio leão, fugiu espavorida.
LOURENÇO
Foi numa noite assim que Dido, com o ramo de salgueiro na mão conservando-se de pé na praia deserta, suplicava com seus gestos ao amante que voltasse para Cartago.
JÉSSICA
Medeia procurou uma noite igual para colher as ervas mágicas que rejuvenesceram o velho Éson.
LOURENÇO
Foi numa noite assim bela que Jéssica fugiu da casa do velho judeu, e, acompanhada por um estouvado amante, se refugiou em Belmonte, vinda de Veneza.
JÉSSICA
Sim. Foi nessa noite que um jovem Lourenço lhe jurou que a havia de amar sempre e lhe roubou a alma com mil juramentos de fidelidade, dos quais nenhum era verdadeiro...
LOURENÇO
Numa noite tal como a de hoje, a gentil Jéssica, uma pequena travessa, caluniou o seu amante que lhe perdoou...
JÉSSICA
Havia de me bater contigo em dueto sobre esta linda noite, se não viesse ninguém, mas... caluda! Ouço passos de homem.
O Mercador de Veneza – William Shakespeare
Aparência e Verdade
“Who chooseth me shall gain what many men desire.”
The second, silver, which this promise carries,
“Who chooseth me shall get as much as he deserves.”
This third, dull lead, with warning all as blunt,
“Who chooseth me must give and hazard all he hath.”
How shall I know if I do choose the right?
Gold:
All that glisters is not gold,
Often have you heard that told.
Many a man his life hath sold
But my outside to behold.
Gilded tombs do worms infold.
Had you been as wise as bold,
Young in limbs, in judgment old,
Your answer had not been inscroll’d,
Fare you well, your suit is cold.
Ouro:
Trad. Dr. Domingos Ramos
Nem tudo que luz é ouro!
É bem sabido o ditado.
O meu aspecto põe medo;
A muitos já tem matado...
Em campas áureas há vermes.
É sempre d’ouro a prudência:
Antes ser velho em juízo
Do que novo sem ciência.
Foi assim que tu tiveste
Resposta à tua ousadia...
- Vai em paz e tem saúde
A tua esperança é bem fria.
Trad. El-rei D. Luís I:
Nem tudo o que luz é ouro
Reza o ditado vulgar,
Que bem se pode afirmar
É do bom-senso tesouro.
Quantos, com raro candor,
Têm dado a própria existência
Pela enganosa aparência,
Do meu externo fulgor!
Pois nestas urnas que cerra
O lavor d’áureo metal
Tem morada sepulcral
Os torpes vermes da terra.
Ó vós, quem quer que seja
Que trouxe aqui o destino,
Se houvésseis prudência e ti
À vossa ousadia iguais;
Se houvésseis na mocidade
Mostrado com precisão
Que idade já da razão
Fora da energia a idade.
Nestes caracteres meus
Não veríeis hoje escrito
Por desengano expedito
Perdeis tempo; i-vos com Deus.
Silver:
The fire seven times tried this;
Seven times tried that judgment is
That did never choose amiss.
Some there be that shadows kiss;
Such have but a shadow’s bliss.
There be fools alive, I wis,
Silver’d o’er, and so was this.
Take what wife you will to bed,
I will ever be your head:
So be gone; you are sped.
O fogo derreteu-me sete vezes...
E, para um pensamento nascer forte,
Outras sete em cadinho se fundiu
Para não ser entregue à simples sorte.
A sombra que se abraça é sempre sombra;
E mesmo sombra vã duma ventura,
Coberta d’ilusões, d’argênteas vestes,
Que importa, se isso tudo for loucura?
Desposai a mulher que vos agrade...
Esta imagem que tendes bem presente
É a vossa, parti: não mais vos deixa...
Há de seguir-vos sempre, eternamente.
Trad. El-rei D. Luís I:
Sete vezes sucessivas
Fui ao fogo temperar;
Outras tantas, no seu lar
Curte o sábio alternativas.
Poderá gabar-se alguém
Nas andanças do seu fado
De mão ter jamais errado
A escolha entre o mau e o bem?
Através de névoa escura,
Tomam não poucos varões
O espectro das ilusões
Pela imagem da ventura.
Sobram néscios magistrais
Donde a rudez se evapora,
Bem que de prata por fora;
Eu, por mim, sou desses tais.
Que busques no burburinho
Ruiva ou loura ou de outra cor,
É cópia minha, senhor
Entrouxa e põe-te a caminho.
Lead:
You that choose not by the view
Chance as fair and choose as true!
Since this fortune falls to you,
Be content and seek no new.
If you be well pleas’d with this,
And hold your fortune for your bliss,
Turn to where your lady is,
And claim her with a loving kiss.
Nem sempre há alegria em novidade:
Não quiseste saber das aparências,
E alcançaste assim felicidade;
Contenta-te com ela e mais não queiras;
Se te julgas feliz com tua sorte,
Serás fiel àquela que te chama,
Beijando-a e amando-a como tua.
É o eterno amor que tal reclama.
Trad. El-rei D. Luís I:
Tu que não olhas somente
Aos atraentes ardis,
Aplaude a escolha feliz
Do teu juízo prudente.
Se te leva ao galarim
A tua sorte ditosa,
Alegre a fortuna goza
Do que o céu te dota enfim.
Da ventura que te cabe
Se te contenta o quinhão,
Se entender esta lição
O teu espírito sabe.
Volve os olhos com ardor
A quem anela a tua alma,
E acharás triunfo e palma
Num beijo – beijo d’amor.
O Mercador de Veneza – William Shakespeare
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
Destino e Perspectiva
Tal como se esse nome semelhante a uma bala arremessada pelo canhão mortal a assassinasse; tal como se a mão maldita do que tem esse nome assassinasse o parente. – Oh! Dizei-me, irmão, dizei-me em que vil parte do meu corpo se aloja esse nome! Dizei-mo para que eu possa destruir este odioso edifício da minha existência. (Desembainha a espada).
FREI LOURENÇO
Oh! Desesperado! Reprime a tua cólera! És tu um homem? O teu aspecto grita que sim, mas as tuas lágrimas são de mulher e as tuas ações insensatas são dum irracional furioso. Oh! Homem mulheril, ou antes, oh! Animal feroz com a forma humana! Estou espantado! Pela minha sagrada ordem, nunca julguei que a tua alma fosse assim desiquilibrada! Depois de haveres morto Teobaldo, vais matar-te a ti? Vais matar também essa pobre senhora que vive da tua vida, cometendo contra ti mesmo esse danado ato de ódio? Por que razão amaldiçoas a tua existência? Amaldiçoas o céu? Amaldiçoas a Terra? Nascimento, Terra e céu, tudo se encontrou em ti e tu queres perder tudo ao mesmo tempo? Tu ultrajas a tua beleza, teu amor, o teu espírito! Todos esses bens abundam em ti, e tu, à maneira dum usurário deformas cada um desses bens do legítimo uso que melhor poderiam ornar a tua beleza, o teu amor, o teu espírito! O teu nobre aspecto não passa duma figura de cera, porque está em contradição com a força moral do homem; o teu amor, que juraste, não passa dum perjúrio oco, porque quer matar aquela bem-amada a quem fizeste voto de bem-amar; o teu espírito, esse ornamento da beleza e do amor, desnaturado pelo teu proceder, é como pólvora contida na cartucheira do soldado desastrado, que a própria ignorância inflama! Tu mutilas-te com os próprios meios de defesa. Vamos, levanta-te, homem, Julieta vive! Essa Julieta é aquela por amor de quem tu estavas ainda há pouco como morto! Vês como és feliz por esse lado? Teobaldo quis matar-te e foste tu quem o matou. Também foste feliz por isso. A lei que te ameaçava de morte mostrou-se tua amiga e transformou a morte em exílio; ainda por isso és feliz. Sobre a tua cabeça chove uma tempestade de bênçãos; a felicidade namora-te com o seu mais belo vestuário; mas tu, como se fosses criança mal-educada e amuada, fazes esgares à fortuna e ao amor. Tem cautela, tem cautela, porque os homens que assim procedem morrem miseráveis. Vai, vai para junto da tua bem-amada, como tínheis combinado, sobe ao seu quarto, consola-a, mas tem cuidado, não fiques até à hora do toque de alvorada, porque então não poderias sair da cidade, para ires para Mântua, onde deves viver até que eu veja ocasião de revelar o teu casamento de reconciliar os vossos pais, de implorar o perdão ao príncipe, de te trazer para aqui dois milhões de vezes mais feliz do que partes infeliz. Oh! Ama, vá adiante; dê os meus cumprimentos à sua senhora. Recomende-lhe que mandei deitar cedo todos, porque os desgostos porque têm passado hão de dispô-los ao descanso. Romeu já lá vai.
Romeu e Julieta – William Shakespeare
terça-feira, 13 de setembro de 2022
Clemência e Culpa
SENHORA CAPULETO
É um parente de Montecchio; a afeição arrasta-o à mentira; ele não diz a verdade: foram vinte os conjurados para este sinistro combate! Foram precisos vinte para matar um! Peço justiça! Deveis concedê-la, oh! Príncipe; Romeu matou Teobaldo, não deve permitir-se que Romeu viva!...
PRÍNCIPE
Romeu matou-o, mas ele tinha morto Mercucio. Quem me deverá pagar o valor do seu sangue precioso?
MONTECCHIO
Não deve ser Romeu, príncipe, porque ele era amigo de Mercucio. O seu crime foi simplesmente ter executado o que a lei havia de decidir – a morte de Teobaldo.
PRÍNCIPE
E por essa ofensa exilamo-lo imediatamente da cidade; eu mesmo sou vítima dos vossos ódios; o meu sangue corre por causa dessas ferozes disputas; mas eu vos condenarei a uma tal pena que vos haveis de arrepender todos da perda que eu sofro; ficarei surdo a discursos, a desculpas, a lágrimas, a súplicas; nada disto resgatará as violações da lei; portanto, não empregueis nenhum desses meios; que Romeu parta imediatamente, porquanto se for encontrado, essa hora será a última da sua vida. Levai daqui este corpo. A nossa vontade deve ser executada. A clemência para com assassinos é assassina também. (Saem).
Romeu e Julieta – William Shakespeare
terça-feira, 6 de setembro de 2022
Literatura e Pátria
Vários ensaios, e alguns de grande merecimento, fizeram-se entre nós com o intuito de dar-nos uma literatura própria, mas ela ainda não existe. De duas sortes foram os trabalhos, que se conhecem, feitos com essa intenção. De uns o assunto era a vida de nossos indígenas, de outros era o estado atual de nossa sociedade.
Uma literatura, inspirada pela vida errante das tribos primitivas, que se servisse amplamente de seu rude vocabulário, que não nos descrevesse senão os seus costumes, seria bem uma literatura tupi ou guarani, mas não a brasileira. A poesia pode idealizar o caráter, o coração, as guerras, a civilização até desses ferozes habitantes de nossos sertões; mas a poesia, que se impuser essa aliás bela missão, será uma poesia fantástica, sem direito a ser nacional.
A sociedade brasileira, da qual a literatura deve ser a expressão, é exatamente aquela que substituiu no gozo deste país os seus habitantes primitivos. Tornarmo-nos nós os cantores dessa vida, que só tem poesia para aquele que não aceita plenamente a teoria de progresso moral, é, já não digo, levantarmo-nos contra nossa própria existência neste lado do Atlântico, mas, sermos os poetas de uma raça que não é nossa. Pode isentar-se o poeta de qualquer servidão de sentimento, mesmo da do patriotismo, mas não pode querer ser o poeta natural de uma sociedade, que ele nega radicalmente. A vida do Brasil começou em 1500; antes existia o seu solo, mas com outro nome e povoado por outra raça. O domínio dessa desapareceu, barbaramente perseguido, é certo, e refugiou-se no interior ainda virgem do país. Nada ficou sobre o solo atestando a antiga existência das tribos primitivas; nenhuma forma de sociedade estável havia entre elas, enquanto no Peru os Incas tinham o seu trono firmado no coração de uma raça, cujos monumentos e construções maravilharam os conquistadores.
Aquele que contasse da vida errante, que povoasse o deserto de ilusões, que pusesse no coração de nosso índio os sentimentos mais ternos do seu, que fizesse-o muitas vezes eco de suas próprias dores, que lhe desse a eloqüência de um tribuno e a imaginação de um poeta, esse poderia fazer uma obra admirável de fantasia; faria mesmo uma obra da mais verdadeira e ideal poesia. O Uraguai dá-nos testemunho disso; mas o poeta, por maior que fosse o seu gênio, não faria um poema nacional. “A literatura, frase de um dos mais profundos espíritos da Restauração, de Royer-Collard, é a expressão acidental da sociedade”, e o que tem a sociedade brasileira com as tribos indígenas?
Gonçalves Dias, por exemplo, nos seus Cantos compreendeu bem isso; eis porque parece-nos ter tão pouca razão o Sr. Alexandre Herculano em chamar às Poesias americanas a verdadeira poesia nacional do Brasil, quanta teve ele em lamentar que elas não ocupassem maior espaço no volume. Gonçalves Dias é um dos poetas que mais tiveram o sentimento americano; mas suas poesias indígenas seriam menos facilmente da poesia tupi do que seriam do cancioneiro espanhol suas sextilhas de Fr. Antão. A cor local não constitui a originalidade de uma literatura. Se a cor local bastasse para isso, Gonçalves Dias seria andaluz do tempo dos sarracenos, Byron seria veneziano ou grego e Shakespeare seria ao mesmo tempo bretão, romano e mouro.
Camões e os Lusíadas – Joaquim Nabuco
terça-feira, 23 de agosto de 2022
Entretenimento e Efemeridade
Que extraordinário é tudo isto! Vosso pai tem alguma coisa que o preocupa vivamente.
MIRANDA
Jamais até hoje o vi presa de cólera tão violenta.
PRÓSPERO
Estais a olhar, meu filho, de uma maneira estranha; pareceis aterrado; alegrai-vos, senhor. Os nossos divertimentos estão concluídos. Estes nossos atores, como vos disse, são todos eles espíritos; esvaíram-se no espaço em ar sutil: ora, assim como a ilusória realidade de tal visão se desvaneceu, hão de do mesmo modo esvair-se as torres que se elevam até às nuvens, os palácios soberbos, os templos majestosos e até o próprio globo com quanto nele existe. Nós somos feitos do mesmo estofo dos sonhos, e a nossa curta vida está encerrada entre dois sonos. Senhor, estou um pouco triste: perdoai à minha fraqueza: o meu cansado cérebro está perturbado; não vos inquieteis com esta minha enfermidade; se quereis, entrai para a minha gruta e descansai: eu darei uma volta ou duas para acalmar o meu perturbado espírito.
FERNANDO e MIRANDA
Desejamos o vosso sossego. (Saem.)
PRÓSPERO
Chega com a rapidez de um pensamento. (A Fernando e Miranda) Agradeço-vos.
A Tempestade – William Shakespeare
segunda-feira, 22 de agosto de 2022
Sorte e Azar
Há doze anos, Miranda, há doze anos! Teu pai era nessa época duque de Milão e um bem poderoso príncipe.
MIRANDA
Senhor, não sois vós meu pai?
PRÓSPERO
Tua mãe, que foi a virtude personificada, dizia-me que tu eras minha filha; teu pai era duque de Milão e tu a sua única herdeira e princesa legítima.
MIRANDA
Oh, Céus! Foi uma tragédia sinistra que para aqui nos trouxe, ou, pelo contrário, uma sorte feliz?
PRÓSPERO
Ambas as coisas, minha filha, ambas as coisas. Por uma sinistra tragédia, como dizes, fomos expulsos de Milão; mas depois foi uma feliz sorte que nos impeliu até esta ilha.
A Tempestade – William Shakespeare
sexta-feira, 12 de agosto de 2022
Contradição e Negação
A Impostura – Georges Bernanos
quarta-feira, 27 de julho de 2022
Reflexão #15
"Os brasileiros são muito mais tolerantes com a ignorância do que com a erudição."
terça-feira, 12 de julho de 2022
Reação e Duração
Agora que você já percebeu que os elementos da natureza têm certas características marcantes, vai começar a entender de que forma elas se manifestam em cada um dos temperamentos, e por que são ótimos representantes simbólicos dos coléricos, sanguíneos, fleumáticos e melancólicos.
Identificar um temperamento é uma tarefa aparentemente simples: fazendo duas perguntas básicas já podemos entender o padrão de reações da pessoa e, dessa forma, saber em qual temperamento ela se encaixa. A primeira pergunta diz respeito à velocidade e intensidade com que ela reage na maioria das situações; a segunda está relacionada ao tempo que essa reação dura. Darei alguns exemplos a seguir para você conseguir enxergar essa divisão.
Quando alguém buzina incansavelmente para você no trânsito, sua primeira reação é extravasar algum sentimento, seja falando, gritando ou buzinando de volta, ou você se mantém inicialmente sem reação, analisando aquilo tudo e tentando entender o que houve para que fizessem isso com você?
Na primeira resposta, a reação é rápida e intensa, característica de pessoas mais expansivas. Na segunda resposta, a reação é lenta e fraca, típica de pessoas mais retraídas. Extrapolando essa situação quanto à velocidade e intensidade das reações a outros exemplos do cotidiano, você poderá perceber que existe um padrão nas suas respostas: ou um comportamento que se expande, comum aos sanguíneos e coléricos, ou que se retrai, como nos fleumáticos e nos melancólicos.
Quanto à segunda pergunta, vamos imaginar que alguém do seu convívio o desrespeitou injustamente. A pessoa reconheceu a injustiça e pediu desculpas. Você, mesmo assim, guardará a mágoa por um tempo e a sua relação com essa pessoa ficará um pouco estremecida, ou, após uma conversa esclarecedora, você relaxa e logo depois já estão rindo juntos da situação?
Na primeira resposta, a reação diante do acontecido tem longa duração, característica de coléricos e melancólicos. Na segunda resposta, sua reação não finca raízes profundas e vai passando naturalmente, perfil comum de sanguíneos e fleumáticos. Da mesma forma que fizemos com a velocidade e intensidade das reações, se você conseguir identificar outras situações para avaliar a duração das suas reações, também vai perceber que existe um padrão.
Temperamento Bem Nutrido. Os 4 Temperamentos na Alimentação dos Filhos – Carolina Barros
segunda-feira, 20 de junho de 2022
Leitura e Educação
O Mínimo sobre Leitura em Voz Alta – Marcela Saint Martin
quarta-feira, 15 de junho de 2022
Afeição e Afetação
Príamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. Homero é que relata isto, e é um bom autor, não obstante contá-lo em verso, mas há narrações exatas em verso, e até mau verso. Compara tu a situação de Príamo com a minha; eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera defunto aqueles olhos... É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito, ou quando menos, igual. Nem digas que nos faltam Homeros, pela causa apontada em Camões; não senhor, falta-nos, é certo, mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. As lágrimas, se as têm, são enxugadas atrás da porta, para que as caras apareçam limpas e serenas; os discursos são antes de alegria que de melancolia, e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor.
¹ Uma comparação: O narrador compara a sua história, no momento do enterro de Escobar, com a da Ilíada, de Homero, no episódio em que Príamo, o último rei de Tróia, chora ao ser obrigado a beijar a mão de Aquiles, guerreiro grego que matou seu filho, o troiano Heitor. Acontece que, ao contrário do mundo épico, em que os conflitos se dão às claras o mundo narrado em Dom Casmurro é camuflado, e os conflitos são recobertos pelas conveniências sociais. Esta é, segundo o narrador, a razão pela qual não existem mais Homeros como antigamente, e não a razão apontada por Camões n’Os Lusíadas (Canto V, estrofes 97-98): segundo ele, os portugueses não sabiam valorizar a cultura e as letras (“Por isso, e não por falta de natura, / Não há também Vergílios nem Homeros”). (N.E.)
Dom Casmurro – Machado de Assis
terça-feira, 14 de junho de 2022
Memória e Imaginação
Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. A vida é cheia de tais convivas, e eu sou acaso um deles, conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.
Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão.
E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos livros confusos, mas todo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista.
É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.
Dom Casmurro – Machado de Assis
segunda-feira, 6 de junho de 2022
Presunção e Correção
nullum ultra verbum aut operam insumebat inanem,
quin sine rivali teque et tua solus amares.
E se via que tu mais te inclinavas
A defender os erros que emendá-los,
Não gastava contigo mais palavra,
Como trabalho vão, e liberdade
Te dava para amares a teu salvo,
Sem susto de rival, os teus escritos.
442. Si defendere delictum, etc.: com esta liberdade e exação lia Quintílio e fazia juízo das obras alheias; porém se via que seus autores não eram dóceis em receber as emendas, antes presumidos, queriam defender seus erros; neste caso não lhes dizia mais palavra, como coisa inútil (vista a sua presunção) e deixava-os na amorosa cegueira de seus versos, com a certeza de que não teriam competidor que os perturbasse invejando-lhes suas inclinações. Com efeito, esta indocilidade e presunção nos engenhos é a peste dos estudos; porque daqui nasce a cega pertinácia de defenderem muitos a todo o custo certos lugares de suas obras, precisamente porque foram censurados. Estes só buscam louvores e não sofrem emenda; e deles bem se queixa nosso Bernardes a Pedro de Andrade Caminha:
E o que sobre tudo mais me ofende,
É tratar com poetas que me pedem
Que suas obras veja, e lhas emende:
Que mude ou risque os versos que procedem
Sem arte e sem medida livremente,
Que poder para tudo me concedem.
Sendo a sua tenção mui diferente;
Que não querem emenda, mas louvor;
Que de emenda não há quem se contente.
Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio
sexta-feira, 3 de junho de 2022
Palavras e Coisas
verbaque provisam rem non invita sequentur.
Descobrirás de Sócrates nas obras:
E uma vez que tiveres um assunto
Bem conhecido, as vozes sem violência
Verás, que não te faltam no discurso.
311. Verbaque provisam rem, etc.: quando nós temos bem concebido uma coisa é fácil exprimi-la, e para este fim prontamente ocorrem as palavras, como dizia Cícero: ipsa res verba rapiunt¹; e Asínio Polião², citado pelos dois antigos intérpretes de Porfirião, e Acrão: Male hercle eveniat verbis, nisi rem sequantur³. O mesmo deixou escrito Sócrates, dizendo: De re non satis perspecta neminem recte iudicaturum, et oratione explicaturum4. Reparem bem nestas doutrinas aqueles que em suas composições não buscam vocábulos para o sentido, mas arrastam o sentido para os vocábulos. E destes quantos há!
¹ “As coisas de que se fala recrutam por si suas palavras.”
² Caio Asínio Polião (65 a.C.-4 d.C.), político, orador, poeta, dramaturgo, crítico literário e historiador romano.
³ “Perigam as palavras que não acompanharem em tudo a realidade.”
4 “Ninguém será capaz de avaliar com bom juízo ou exprimir em palavras o que não tiver percebido claramente.”
Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio
sexta-feira, 27 de maio de 2022
Criação e Correção
quam lingua Latium, si non offenderet unum
quemque poetarum limae labor et mora. Vos, o
Pompilius sanguis, carmen reprehendite quod non
multa dies et multa litura coercuit atque
praesectum deciens non castigavit ad unguem.
Nem teria por certo mais ilustre
O Lácio pelejando que escrevendo,
Se não custasse tanto a nós poetas
Os escritos limar, como o guardá-los
Por longo tempo. Ó vós de numa estirpe,
Repreendei todo aquele que não sabe
muitas vezes riscar o seu poema,
Nem sepultá-lo até que chegue
A dar-lhe o mais perfeito polimento.
292 – 293: Carmen reprehendite quod non multa dies et multa litura, etc.: corresponde o multa litura ao limae labor do verso antecedente, e o multa dies¸ao mora. Temos observado que coisa nenhuma recomenda tanto Horácio em muitos lugares de suas obras como é o riscar uma e muitas vezes quando se está compondo. Não só neste verso, mas no 72 da Sátira 1 do livro I; e no 167 da Epístola 1 do livro III deixou bem provada esta necessidade. Este grande preceito não é só dele, é de todos os mestres; e Quintiliano tem a correção pela parte mais útil dos estudos: Emendatio pars sudiorum utilíssima; neque enim sine causa creditum est, stylum non minus agere, cum delet.¹
¹ “Corrigir é a parte mais útil dos estudos; não por acaso se crê que o estilo cumpre uma função não menos importante ao apagar do que ao escrever.” O estilo era uma pequena haste de metal que os romanos usavam para escrever em tábuas cobertas de cera; uma das extremidades, pontiaguda, escrevia, e a outra, em formato de espátula, apagava. [N.T.]
Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio
quarta-feira, 20 de abril de 2022
Herói e Prepotência
Junito de Souza Brandão – Mitologia Grega Vol. III
terça-feira, 19 de abril de 2022
Coragem e Bravura
Olhai que ledos vão por várias vias,
Quais rompentes leões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros;
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolatras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a peixes, ao profundo:
Por vos servir a tudo aparelhados,
De vós tão longe, sempre obedientes
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar resposta, prontos e contentes;
Só com saber que são de vós olhados,
Demônios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido,
Que vencedor vos façam, não vencido.
Olhai que os vossos vassalos vão ledos por várias vias, quais rompentes leões e bravos touros, dando os corpos: a fomes e a vigílias; a ferro e a fogo; a setas e a pelouros; a regiões quentes e plagas frias; a golpes de idólatras e de mouros; a perigos incógnitos do mundo; a naufrágios, a peixes, e ao profundo sono [à morte] (1).
(1) O poeta tem mostrado já anteriormente que os antigos portugueses se mostravam sempre alegres, para, em obediência ao seu rei e para glória dele, se exporem a toda espécie de perigos, em terra e no mar (I, 51, VI, 98, X, 149). Na presente estância repete o poeta a mesma idéia, sumariamente, dirigindo-se a el-rei, para que atenda ao mérito, evitando que a falta de atenção régia para os vassalos, com a falta de estímulo, faça cair a sociedade em “tristeza vil” (est. 145).
No verso 6 “idolátras”: II, 51; VII, 73.
No verso 2 “rompentes” é termo de heráldica: “animal rompente” é o que no alto dos escudos se pinta, aparecendo só a cabeça, ou que se pinta de pé ocupando uma parte do escudo: aqui: tem a significação de “dilacerantes”.
Para vos servirem, os vossos vassalos, a tudo aparelhados [dispostos para tudo], ainda que estejam muito longe de vós, serão sempre obedientes a quaisquer ásperos (1) mandados vossos, sem darem resposta (2), e sempre prontos e contentes; e, só com o saberem que são olhados por vós, acometerão convosco (3), negros e ardentes demônios infernais (4); e não duvido [e tenho a certeza] que vos farão vencedor e não vencido.
(1) “Ásperos mandados”, ordens rigorosas, de difícil execução; devendo entender-se que o rigor não seria de tirano, mas da observância de princípios de justiça, em harmonia com as conveniências da pátria. (2) “Sem resposta”: obedeceriam calados sem apresentarem objecções. (3) “Convosco”, por vossa causa. (4) “Demônios infernais”: hipérbole (igual em IV, 80); teriam coragem para investir com o poder infernal.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
segunda-feira, 18 de abril de 2022
Deus e Máquina
Vês aqui a grande máquina do mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do saber alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende;
Que a tanto o engenho humano não se estende.
Aqui vês a grande máquina etérea (1) e elementar (2) do mundo, que foi fabricada assim pelo alto e profundo Saber (3), que é [existe] sem principio e sem meta limitada (4). Quem cerca em redor este globo rotundo, e a sua tão limada [lisa] superfície é Deus (5); mas o que é Deus, ninguém o entende, pois a tanto não se estende [não chega] o engenho humano (6).
(1) Dos céus. (2) Dos elementos; segundo a astronomia antiga, consideravam-se elementos o ar e o fogo, e supunha-se que estes formavam as primeiras camadas celestes em volta da terra; supondo-se também esta o centro do universo; cfr. Advertência. (3) “Alto Saber”, a Sabedoria divina, Deus. (4) “Meta limitada”, marco de limite; fim (sem princípio nem fim). (5) “Quem cerca”, etc; era doutrina corrente que o último céu era o Empíreo, superior à esfera era que estavam fixadas as estrelas; e que, segundo o paganismo, era a morada dos deuses; e, no catolicismo, o lugar dos bem-aventurados, dos santos, o Céu. (6) “O que é Deus”, etc; afirma Faria e Sousa que os dois últimos versos contêm doutrina pregada por S. Paulo, S. Crisóstomo, e outros doutores da Igreja.
Observações de A astronomia dos Lusíadas (pp.39, 43, 57) sobre a presente estância:
“A superfície deste rotundo globo, superfície tão ‘limada’ como se diz na est. 80, é uma superfície esférica. Leia-se a definição de esfera, com que abre o capítulo I do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes.”
“No Tratado da Esfera lê-se, na parte do capítulo I, intitulada ‘Da redondeza do céu’: ‘Que o céu seja redondo há três razões: semelhança, proveito e necessidade. Pela semelhança se prova o céu ser redondo, porque este mundo sensível é feito à semelhança do mundo arquetípico, no qual não há princípio nem fim. E por isso o mundo sensível tem figura redonda, na qual não há princípio nem fim.
“A máquina do mundo, assim mostrada ao Gama, como transunto reduzido do universo, tal qual o concebia a ciência do tempo, divide-se em duas regiões: etérea e elemental.
“Na tradução de Pedro Nunes [do texto latino de Sacrobosco] lê-se: ‘A universal máquina do mundo se divide em duas partes: celestial e elemental. A parte elemental é sujeita a contínua alteração e divide-se em quatro, a saber: terra, a qual está como centro do mundo no meio assentada; segue-se logo a água, e por derredor dela o ar; e logo o fogo que chega ao céu da Lua, segundo diz Aristóteles no livro dos meteoros; porque assim os assentou Deus glorioso e alto. E estes quatro são chamados elementos, os quais uns dos outros se alteram e corrompem e tornam a gerar [...]. Junto da região dos elementos está logo a região celestial lúcida, e pelo seu ser imudável é livre de toda a mudança, tem contínuo movimento circular, e chamam-lhe os filósofos Quinta essência”.
Cfr. as transcrições de A Astrononomia, etc. nas notas à est 78.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
quinta-feira, 14 de abril de 2022
Cobiça e Justiça
“Mas na Índia cobiça e ambição,
Que claramente põe aberto o rosto
Contra Deus e justiça, te farão
Vitupério nenhum, mas só desgosto.
Quem faz injuria vil e sem razão,
Com forças e poder em que está posto,
Não vence; que a vitória verdadeira
É saber ter justiça nua e inteira.
“Mas na Índia a cobiça e a ambição (1) [os ambiciosos], que põem o rosto aberto claramente contra Deus e a justiça (2), nenhum vitupério te farão mas só desgosto (3). Quem faz injúria vil, e sem razão, com as forças e com o poder em que está posto [investido], não vence (4), que [pois] a verdadeira vitória é saber ter justiça nua (5) e inteira.
(1) Alusão à cobiça de altos funcionários da Índia, de quem Diogo de Castro dizia que, em certa época, os portugueses, esquecendo-se de si próprios, procediam de maneira que pareciam naturais da Ásia, entregando-se a toda sorte de ambições e de prazeres. (2) “Rosto aberto”, etc; sem vergonha, descaradamente (na cegueira da cobiça). “Neste nosso oriente, a que chamamos de Índia, reina mais a cegueira da fortuna, que a luz da razão” (João de Barros). (3) “Nenhum vitupério”, etc; os ambiciosos, injuriando Mascarenhas, não produziram o seu descrédito, somente lhe causaram desgosto. (4) “Injúria vil” etc; aqueles que têm nas mãos o poder e deste se servem para praticarem injustiças, a si próprios se afrontam mais do que ao ofendido. Vencer é ter razão; e ser justo, não é estar com o poder na mão para usar dele em detrimento alheio. (5) Simples; decisões justas que sejam facilmente compreendidas, sem refolhos, sem artifícios: Lopo Vaz, apossando-se indevidamente do poder que devia ser exercido por D. Pedro de Mascarenhas, simulava proceder com justiça (justiça artificial).
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
quarta-feira, 13 de abril de 2022
Conselho e Aparência
Ó quanto deve o rei, que bem governa,
De olhar que os conselheiros ou privados,
De consciência e de virtude interna,
E de sincero amor sejam dotados!
Porque, como este posto na superna
Cadeira, pode mal dos apartados
Negócios ter notícia mais inteira
Do que lhe der a língua conselheira.
Nem tão pouco direi que tome tanto
Em grosso a consciência limpa e certa,
Que se enleve num pobre e humilde manto,
Onde ambição a caso ande encoberta.
E quando um bom em tudo é justo e santo,
Em negócios do mundo pouco acerta;
Que mal com eles poderá ter conta
A quieta inocência, em só Deus pronta.
Oh! O rei que governa bem (1), quanto deve olhar, para que os seus conselheiros ou privados (2) sejam dotados de consciência, de virtude interna e de sincero amor! Porque, como esteja posto da cadeira suprema (3) mal pode, dos apartados (4) negócios, ter notícia mais inteira do que a notícia que lhe der a língua conselheira.
(1) O poeta interrompe a narrativa, fazendo reflexões, continuadas na estância seguinte, sobre a necessidade de os reis se rodearem de pessoas virtuosas, que lhes dêem informações verdadeiras. (2) “Conselheiros”, os que, por natureza do cargo oficial, tenham de dar parecer sobre os negócios; “privados” os que, por natureza de cargo particular, tenham freqüentes ocasiões de se aproximarem dos reis. Não se confundam os vocábulos “privado” e “valido”; este último aplica-se geralmente a quem é benquisto e protegido dos reis, mesmo sem o merecer. (3) Superior; o sólido régio. (4) “Negócios apartados”, fatos que se passam em sítios distantes da corte ou que, por conterem demasiadas minúcias, estão muito abaixo das regiões em que o rei vive; só por intermédio dos ministros pode ele conhecer tais negócios.
Nem tão pouco direi (1), que o rei tome tanto em grosso (2) a consciência limpa e certa, que se enleve num pobre e humilde manto (3), onde acaso ande ambição encoberta. E um homem bom, quando é justo e santo em tudo, pouco acerta em negócios do mundo; que [pois] a quieta inocência (4) – só pronta [confiada] em Deus – mal poderá ter conta com eles [neles, nos negócios do mundo].
(1) Também não direi. (2) Avalie tanto por alto, tão superficialmente, as aparências de santidade. (3) “Humilde manto”, o vestuário, a exterioridade, com aparências de humildade: a hipocrisia, ocultando orgulho e cobiça. (4) “Quieta inocência”, repetição, por outras palavras, da idéia dos versos 5 e 6; o santo varão, atento em Deus não sabe descortinar a maldade desenvolvida pelo astucioso hipócrita nos negócios mundanos.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
terça-feira, 12 de abril de 2022
Heróis e Bardos
Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da lácia, grega, ou bárbara nação,
Senão da portuguesa tão somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
D’algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima:
Porque quem não sabe arte não-na estima.
Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Enéas, nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os faz e tão austeros,
Tão rudos e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.
Enfim não houve, senão tão-somente na nação portuguesa, capitão forte (1), que não fosse também douto e ciente [instruído], como foram os capitães fortes da nação Lácia (2), da nação grega ou de nação bárbara [estrangeira]. Não o digo sem vergonha [envergonho-me de o dizer], que [pois] a razão dalgum dos nossos patrícios não ser excelente por versos, é não se ver [ver-se que não é] prezado o verso e nem a rima, porque quem não sabe a arte poética não na estima (3).
(1) General valoroso. (2) Latina, romana. (3) “Quem não sabe...”, a falta do apreço pelas letras provém da ignorância dos homens poderosos do nosso país.
Por isso (1) – e não por falta de natura (2) não há em Portugal também Virgílios nem Homeros (3); nem haverá, pios (4) Enéas (5) nem feros (6) Aquiles (7), se dura este costume (8). Mas o pior de tudo é, que a ventura (9) tão ásperos (10) os fez, aos capitães portugueses, tão austeros, tão rudes (11) e de tão remisso engenho (12), que, a muitos, pouco lhes dá, ou nada (13) disso.
(1) Pelo fato de não serem animados e favorecidos os homens de talento. (2) Natureza; (fig.), talento, dotes naturais. (3) “Vergílios...”, poetas notáveis como Vergílio e Homero. (4) Virtuosos, de admirável afeição filial. (5) O herói da Eneida. (6) Guerreiros valorosos. (7) O herói da Ilíada. (8) Se continua o costume de não serem estimados os homens de letras. (9) Felicidade (na guerra). (10) Severos. (11) Incultos. (12) Frouxa sagacidade. (13) Na sua rudeza pouco lhes importa, ou nada, o deixarem de ser celebrados pelos poetas.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
segunda-feira, 11 de abril de 2022
Poesia e Humor
Disse então a Veloso um companheiro,
(Começando-se todos a sorrir):
“Oulá! Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer, que de subir?”
– “Sim, é, responde o ousado aventureiro;
Mas quando eu para cá vi tantos vir
Daqueles cães, depressa um pouco vim,
Por me lembrar que estáveis cá sem mim.”
Disse então (1), a Veloso, um companheiro – começando todos a sorrir-se: “Olá! Veloso amigo, aquele outeiro é melhor de descer que de subir (2) ?” – “É sim! – respondeu o ousado aventureiro – mas, quando eu vi para cá virem tantos daqueles cães (3), vim um pouco de pressa (4), por me lembrar que estáveis cá sem mim.”
(1) Depois de estarem a bordo das naus, entraram os soldados a conversar sobre o perigo em que estivera Fernão Veloso, começando um deles com os seus ditos a provocar o riso dos outros. (2) “Melhor de descer...”; não contendo novidade esse dito, havia nele engraçada ironia: Veloso subira o monte devagar, confiado em si; descera depressa, porque vinha fugindo. (3) Epíteto para deprimir aquela “bruta gente”. (4) “Vim depressa...”, resposta de ironia também engraçada: o aventureiro vinha a correr para acudir aos seus companheiros, não era para fugir dos pretos.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
quarta-feira, 6 de abril de 2022
Ambição e Condição
“Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitetor co’o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio!
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio.
Deixa intentado a humana geração!
Mísera sorte! Estranha condição!”
“Se não fora esse fogo roubado do céu (1), o miserando moço não cometeria o alto carro do pai (2); nem o grande arquiteto cometeria, com o filho, o vazio ar (3) – dando, um, nome ao mar, e o outro fama ao rio (4). A geração humana nenhum alto e nefando cometimento (5) deixa intentado [=intacto] (6) por meio de fogo, ferro, água, calma e frio! Mísera sorte! Estranha condição (7)!
(1) Subentendem-se estas palavras ou outras semelhantes, porque na presente estância prossegue o pensamento da precedente: se não fosse a ambição, ... (2) “Miserando”, etc.; o moço é o atrevido Faetonte, que pretendeu governar o carro do Sol, o carro de seu pai, Apolo; cfr I, 46 e passim; “cometera”, tentara, intentara; acometera, apoderara-se do..., lançara-se sobre o carro do Sol, para o guiar. (3) “Arquitetor”, etc.; forma antiga de “arquiteto”, no sentido de “engenhoso” – aplicado este epíteto elipticamente ao Dédalo da fábula, que pretendeu com asas artificiais voar como as aves, lançando-se no ar (“vazio por ser a atmosfera, na aparência, o vácuo) e lança-se no ar com seu filho Ícaro. (4) “nome ao mar”, etc.; segundo a fábula, caindo Ícaro no mar, este ficou tendo o nome de Icário; e caindo Faetonte no rio Pado, ficou este célebre por essa queda; cfr. I, 46. (5) “Cometimento”, empreendimento – quer seja “alto” (subido, digno de louvor), quer seja “nefando” (torpe, de natureza tal que não se possa ou deva dele falar). (6) “Intentado” = não tentado = intacto; não há empresa que os homens não realizem – quando movidos pela ambição, umas vezes praticando ações nobres, outras vezes praticando atos nefandos – ainda que tenham de padecer fogo e ferro (a guerra), água (a inclemência dos mares), calma e frio (as vicissitudes dos climas que padeceram os navegantes na zona tórrida e no mar Antártico). (7) “Mísera sorte”, etc.; epifonema, lastimando intensamente a infelicidade de Portugal, que arriscava, sem correspondente proveito, tantas vidas na Índia; e admirando a estranha (extraordinária, admirável, por incoerente) condição humana; cfr. Est. 95 e 97.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
terça-feira, 5 de abril de 2022
Malícia e Receio
E, despois que ao rei apresentaram
Co’o recado os presentes que traziam,
A cidade correram e notaram
Muito menos daquilo que queriam;
Que os Mouros cautelosos se guardaram
De lhe mostrarem tudo o que pediam:
Que onde reina a malícia, está o receio,
Que a faz imaginar no peito alheio.
E – depois que apresentaram [=depois de apresentarem], ao rei, os presentes, com o [=mais o] recado (1) que traziam – correram a cidade (2), e notaram [=tomaram conhecimento de] muito menos daquilo que queriam saber; que [=pois] os mouros, cautelosos, guardaram-se (3) de mostrar-lhes tudo o que os dois enviados pediram [=buscavam]; que [=porque], onde [em quem] reina [=domina] a malícia (4), está o receio, que a faz imaginar no peito alheio (5).
(1) Mensagem. (2) Andaram pela cidade rapidamente, de modo que não podiam observar tudo com minudência. (3) “Guardara-se de” = evitaram. (4) “Onde reina...”, quem tem malícia, tem receio de que as outras pessoas sejam igualmente maliciosas. (5) O coração de outrem; o perverso está sempre desassossegado; tudo quanto esse premedita contra o próximo, isto mesmo imagina e receia que lhe façam.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
segunda-feira, 4 de abril de 2022
Aparência e Intenção
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho da vida nunca certo!
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!
O recado (1), que trazem aqueles homens dos batéis, é de amigos; mas, debaixo desse recado, vem coberto [= encoberto] o veneno [= a perfídia]; que [=pois] os pensamentos [as intenções] eram de inimigos, segundo veio a saber-se, quando (2) o engano [a traição] foi descoberto. Oh! Grandes e gravíssimos são os perigos, a que a humanidade anda exposta! Oh! Nunca é certo [seguro] o caminho da vida (3)! É para lastimar, que, onde a gente (4) põe a sua esperança, tenha a vida tão pouca segurança! (5)
(1) Cfr. I, 104. (2) Elipse anacolútica. (3) Fig., nunca é seguro o destino de cada homem; apóstrofe semelhante em I, 71-5. (4) “A gente”, a humanidade; nós e os outros homens. (5) Continuando a apóstrofe com esta moralidade: no lugar para onde nos encaminharmos com maior segurança, e na esperança do alcançar felicidade, é justamente aí que às vezes recebemos os maiores danos.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
sexta-feira, 18 de março de 2022
Reflexão #14
Modelos de virtude e sabedoria
O animal racional, o homem, só é capaz de buscar o que está dentro de sua imaginação. Até pode encontrar algo que não concebia anteriormente se a fortuna o quiser, porém não por vontade própria. Por isso, quando certa vez ouvi que era importante termos modelos de virtude e de sabedoria, perguntei-me o porque? Na verdade, a pergunta era quais eram esses modelos, esses ideais, esses pontos máximos a serem buscados. O interlocutor, um leitor de Platão, queria saber quem éramos não pelo que diziamos ou até mesmo mostrávamos, mas sim quais eram nossos modelos ideais, para que, mesmo com toda esperança, onde chegaríamos por nossa própria conta.
Parafraseando o ditado, diga-me aonde vais e te direi quem és.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022
Reflexão #13
quarta-feira, 26 de janeiro de 2022
Prometer e Ser
Tudo em volta induz à loucura, ao infantilismo, à exasperação imaginativa. Contra isso o estudo não basta. Tomem consciência da infecção moral e lutem, lutem, lutem pelo seu equilíbrio, pela sua maturidade, pela sua lucidez. Tenham à normalidade a sanidade, a centralidade da psique como um ideal. Prometam a vocês mesmos ser personalidades fortes, bem estruturadas, serenas no meio da tempestade, prontas a vencer todos os obstáculos com a ajuda de Deus e de mais ninguém. Prometam SER e não apenas pedir, obter, sentir, desfrutar.
Olavo de Carvalho
★ 29/04/1947 - † 24/01/2022
sexta-feira, 7 de janeiro de 2022
Dever e Realeza
Piedosa obra faz ao que está preso
Quem as prisões lhe corta, e as más cadeias.
Ó claríssimo Infante, meu Senhor,
Muito há que me conheces; teus segredos
De mim com razão sempre confiaste.
Nunca te descobri as zombarias,
Nunca descobrirei o menor deles.
D’uma parte me tens por secretário,
Mas d’outra me hás de ter por conselheiro.
Cumprirei eu contigo, e co’o que devo:
Então venha tua ira, que eu não quero
Melhor morte, que aquela que de infâmia
Livrar a vida, e a alma de perigo.
Não vês, Senhor, que o Sol, se escurecesse,
Quanto cobre e descobre ficaria
Tão triste e escuro, como agora claro?
Pois tal é o bom príncipe: Sol nosso,
Com cuja luz nos vemos, e seguimos
A justiça, que aos Céus nos vai levando.
Se s’esta em ti perder, onde a acharemos?
Quem a virtude seguirá, quem honra?
Abateres-te assim de príncipe alto
A pensamentos baixos, que s’estranham
Nos homens baixos, parecer-te pode
Grandeza de ti digna, e do que deves
A este estado tão alto, que te espera?
Castro – Antônio Ferreira