quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Reflexão #16

como diz Unamuno em “A agonia do cristianismo”, a luta pela vida é a própria vida, e a agonia dessa verdade é inseparável de sua sacralidade

Deparei-me com esta citação em algum lugar, provavelmente no perfil do Olavo de Carvalho, e imediatamente lembrei-me de dois autores: Viktor Frankl e Jordan Peterson.
O primeiro diz que não é você que pede à vida o que fazer dela, mas a própria vida que pede a você o que fazer. Isto é, não cabe ao nosso eu isolado decidir o que fazer da vida, mas sim compreender a circunstância em que estamos inseridos e a partir daí interpretar o sentido e tomar a decisão de seguir neste.
O segundo diz que a vida é sofrimento. Sofrer é parte essencial da vida e evitar esse sofrimento é evitar o amadurecimento, e consequentemente evitar encarar a realidade.
Após essa dispersão, retornemos à fonte. Lutar pela vida, seja a própria ou de outrem, é a vida mesma acontecendo, é por isso e para isso que vivemos. Ainda não li a obra de Unamuno, mas espero um dia ler e complementar essa reflexão.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Memória e Inteligência

Essas mesmas bibliotecas não deixam de ter sérios inconvenientes. Com a facilidade de ver o que nossos predecessores pensaram sobre as questões que nos interessam, acabamos perdendo o hábito de pensar por nós mesmos. E como nenhum poder se enfraquece tanto pela falta de exercício como o do esforço pessoal, chega-se logo a substituir sempre e em tudo os esforços da memória aos esforços de investigação pessoal ativa. Quase sempre a capacidade de pensamento pessoal é inversamente proporcional à riqueza de recursos que fornecesse o meio em que se vive. É por esse motivo que os estudantes dotados de muito boa memória são quase sempre inferiores a seus colegas menos bem-dotados sob esse aspecto. Estes últimos, desconfiando de sua capacidade de reter, recorrem a ela o menos possível. Fazem uma escolha escrupulosa dos materiais que a repetição introduzirá na memória; só confiam-lhe o que é essencial, e deixam o esquecimento apagar tudo aquilo que é acidental. E mesmo o essencial, é urgente organizá-lo muito bem. Uma tal memória é como uma tropa de elite composta somente pelos melhores oficiais. Assim, quem não tem acesso às inumeráveis bibliotecas, cerca-se somente dos melhores livros, que lê com cuidado, que medita e analisa, suprindo o que lhe falta pela observação pessoal e por esforços de penetração que constituem um admirável exercício para o espírito.


A Educação da Vontade – Jules Payot

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Trabalho e Hábito

Em suma, se a meditação desperta na alma poderosas emoções, ela não pode capitalizá-las sob a forma de hábitos. Ora, a educação da vontade é impossível sem a criação de excelentes e sólidos hábitos; sem eles nossos esforços teriam que sempre recomeçar. Somente eles permitem fixar nossas conquistas e prosseguir adiante. Ora, esses hábitos, agora o sabemos, somente a ação pode criar.

Para agir, é preciso realizar corajosamente cada uma das pequenas ações que concorrem para alcançar uma finalidade. A ação fixa o pensamento, engaja-nos publicamente num partido, produz uma profunda alegria.

Infelizmente, o tempo da atividade, já tão curto, é ainda diminuído pela falta de método odo estudante em seu trabalho; apesar disso, como já dissemos, “basta pouco para cada dia se a cada dia realizamos esse pouco”. A paciência dos esforços incessantemente renovados produz resultados prodigiosos: é, portanto, o hábito da atividade incessante que o estudante deve adquirir. Para tanto, ele deve fixar toda a noite a tarefa do dia seguinte, aproveitar de todos seus bons movimentos, terminar todo trabalho começado, fazer uma só coisa de cada vez e não desperdiçar nenhuma parcela de seu tempo. Tais hábitos lhe permitirão esperar os mais altos destinos e lhe darão as condições para pagar à sociedade a dívida de reconhecimento que os benefícios que dela recebeu obrigam-no a reconhecer.

O trabalho assim compreendido não pode jamais ser uma sobrecarga: a fadiga que se atribui ao trabalho provém de fato, quase sempre, dos excessos da sensualidade, das inquietudes, das emoções egoístas, de um mau método; o trabalho bem compreendido, o hábito dos pensamentos nobres e elevados, só fazem fortificar a saúde, se é verdade que uma condição fisiológica excelente é feita de calma, tranqüilidade, felicidade.


A Educação da Vontade – Jules Payot

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Trabalho e Determinação

Raras são na vida as ocasiões de realizar ações estrondosas. Assim como uma excursão ao Monte Branco é feita de miríades de passos, de esforços, de saltos, de incisões no gelo, também a vida dos maiores sábios é feita de longas séries de pacientes esforços. Agir é, portanto, realizar milhares de pequenas ações. Bossuet, que foi um admirável diretor espiritual, “aos grandes esforções extraordinários a que se chega por grandes arroubos, e de onde se cai numa queda profunda”, preferia “os pequenos sacrifícios que são às vezes os mais mortificantes e os mais extenuantes, os ganhos modestos, mas seguros, os atos fáceis mas repetidos e que se tornam hábitos insensíveis [...]. Basta pouco a cada dia se a cada dia realizamos esse pouco” ¹. Com efeito, o homem corajoso não é aquele que realiza corajosamente todos os atos da vida. É o aluno que, apesar da repugnância, obriga-se a levantar para procurar uma palavra no dicionário, que acaba sua tarefa apesar do desejo de descansar, que termina a leitura de uma página tediosa. É nessas mil ações aparentemente insignificantes que se tempera a vontade. “todas as obras fazem crescer”. Devemos, na falta de grandes esforços, realizar a toda hora os pequenos, excelentemente e com amor. Qui spernit modica paulatim decidet ². A grande regra aqui é escapar sempre, até nas mínimas ações, à vassalagem da preguiça, dos desejos e das influências exteriores. Devemos mesmo buscar as ocasiões de alcançar essas pequenas vitórias. Chamam-lhe quando está trabalhando, e você experimenta um sentimento de revolta: levante-se sem demora, obrigando-se a ir vigorosa e alegremente aonde foi chamado. Antes da aula, um amigo convida-o para passear; faz um belo dia; vá vigorosamente trabalhar! A vitrina daquela livraria atrai-o na hora do trabalho: vá para outro lado da rua e caminhe rapidamente. É por essas “crucifixões” que se habituará a triunfar sobre suas inclinações, a ser ativo em toda parte e sempre... mesmo quando dorme ou passeia, que seja porque escolheu esse repouso. É assim que nos bancos do liceu, estudando, a criança aprende uma ciência mais preciosa que o latim ou as matemáticas que deve saber: a ciência do auto-domínio, de lutar contra a desatenção, contra as dificuldades desanimadoras, contra o tédio das pesquisas no dicionário ou na gramática, contra o desejo de perder o tempo sonhando; e por uma conseqüência consoladora, ocorre que os progressos realizados no estudo estão sempre digam o que disserem, em razão direta com os progressos realizados nessa obra de domínio sobre si mesmo, tanto é verdade que a energia da vontade é ao mesmo tempo a mais preciosa das conquistas e a mais fecunda em boas conseqüências!

¹ Ver o Bossuet de Lanson. [Gustave Lanson, Bossuet, Société Française d’imprimerie et de librarie, Paris, 1890 – NT].

² “O que despreza as coisas pequenas pouco a pouco cairá”. Eclo 19, 1b – NT.


A Educação da Vontade – Jules Payot

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Trabalho e Constância

A preguiça fundamental não impede de forma alguma ocasionais momentos de energia. O que repugna os povos não civilizados não são os esforços violentos: é unicamente o trabalho regular, contínuo, que no fim das contas consome uma quantidade de energia bem maior; um desgaste, mesmo pequeno, mas constante, acaba demandando mais do que grandes desgastes separados por longos períodos de repouso. Os árabes conquistaram um vasto império. Não o conservaram porque lhes faltou a constância de esforços que organizam a administração de um país, constroem estradas fundam escolas e indústrias. Da mesma forma, quase todos os estudantes preguiçosos, acicatados pela aproximação dos exames, podem fazer um tour de force. O que lhes repugna são os esforços moderados mas reiterados dia após dia, ao longo dos meses e dos anos.


A Educação da Vontade – Jules Payot

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Amor e Mito

LOURENÇO
Que lindo luar! Foi decerto por uma noite destas, enquanto a brisa beijava carinhosamente as árvores, que nem rumorejavam, que Troilo subiu as muralhas de Tróia e exalou a sua alma em suspiros em face das tendas gregas onde dormia Créssida.

JÉSSICA
Numa noite como esta foi também que Tisbe, caminhando a medo através do orvalho, viu a sombra do leão antes que visse o próprio leão, fugiu espavorida.

LOURENÇO
Foi numa noite assim que Dido, com o ramo de salgueiro na mão conservando-se de pé na praia deserta, suplicava com seus gestos ao amante que voltasse para Cartago.

JÉSSICA
Medeia procurou uma noite igual para colher as ervas mágicas que rejuvenesceram o velho Éson.

LOURENÇO
Foi numa noite assim bela que Jéssica fugiu da casa do velho judeu, e, acompanhada por um estouvado amante, se refugiou em Belmonte, vinda de Veneza.

JÉSSICA
Sim. Foi nessa noite que um jovem Lourenço lhe jurou que a havia de amar sempre e lhe roubou a alma com mil juramentos de fidelidade, dos quais nenhum era verdadeiro...

LOURENÇO
Numa noite tal como a de hoje, a gentil Jéssica, uma pequena travessa, caluniou o seu amante que lhe perdoou...

JÉSSICA
Havia de me bater contigo em dueto sobre esta linda noite, se não viesse ninguém, mas... caluda! Ouço passos de homem.


O Mercador de Veneza – William Shakespeare

Aparência e Verdade

The first, of gold, who this inscription bears,
“Who chooseth me shall gain what many men desire.”
The second, silver, which this promise carries,
“Who chooseth me shall get as much as he deserves.”
This third, dull lead, with warning all as blunt,
“Who chooseth me must give and hazard all he hath.”
How shall I know if I do choose the right?

Gold:

All that glisters is not gold,
Often have you heard that told.
Many a man his life hath sold
But my outside to behold.
Gilded tombs do worms infold.
Had you been as wise as bold,
Young in limbs, in judgment old,
Your answer had not been inscroll’d,
Fare you well, your suit is cold.

Ouro:

Trad. Dr. Domingos Ramos

Nem tudo que luz é ouro!
É bem sabido o ditado.
O meu aspecto põe medo;
A muitos já tem matado...

Em campas áureas há vermes.
É sempre d’ouro a prudência:
Antes ser velho em juízo
Do que novo sem ciência.

Foi assim que tu tiveste
Resposta à tua ousadia...
- Vai em paz e tem saúde
A tua esperança é bem fria.


Trad. El-rei D. Luís I:

Nem tudo o que luz é ouro
Reza o ditado vulgar,
Que bem se pode afirmar
É do bom-senso tesouro.

Quantos, com raro candor,
Têm dado a própria existência
Pela enganosa aparência,
Do meu externo fulgor!

Pois nestas urnas que cerra
O lavor d’áureo metal
Tem morada sepulcral
Os torpes vermes da terra.

Ó vós, quem quer que seja
Que trouxe aqui o destino,
Se houvésseis prudência e ti
À vossa ousadia iguais;

Se houvésseis na mocidade
Mostrado com precisão
Que idade já da razão
Fora da energia a idade.

Nestes caracteres meus
Não veríeis hoje escrito
Por desengano expedito
Perdeis tempo; i-vos com Deus.


Silver:

The fire seven times tried this;
Seven times tried that judgment is
That did never choose amiss.
Some there be that shadows kiss;
Such have but a shadow’s bliss.
There be fools alive, I wis,
Silver’d o’er, and so was this.
Take what wife you will to bed,
I will ever be your head:
So be gone; you are sped.

Prata:

Trad. Dr. Domingos Ramos

O fogo derreteu-me sete vezes...
E, para um pensamento nascer forte,
Outras sete em cadinho se fundiu
Para não ser entregue à simples sorte.

A sombra que se abraça é sempre sombra;
E mesmo sombra vã duma ventura,
Coberta d’ilusões, d’argênteas vestes,
Que importa, se isso tudo for loucura?

Desposai a mulher que vos agrade...
Esta imagem que tendes bem presente
É a vossa, parti: não mais vos deixa...
Há de seguir-vos sempre, eternamente.


Trad. El-rei D. Luís I:

Sete vezes sucessivas
Fui ao fogo temperar;
Outras tantas, no seu lar
Curte o sábio alternativas.

Poderá gabar-se alguém
Nas andanças do seu fado
De mão ter jamais errado
A escolha entre o mau e o bem?

Através de névoa escura,
Tomam não poucos varões
O espectro das ilusões
Pela imagem da ventura.

Sobram néscios magistrais
Donde a rudez se evapora,
Bem que de prata por fora;
Eu, por mim, sou desses tais.

Que busques no burburinho
Ruiva ou loura ou de outra cor,
É cópia minha, senhor
Entrouxa e põe-te a caminho.


Lead:

You that choose not by the view
Chance as fair and choose as true!
Since this fortune falls to you,
Be content and seek no new.
If you be well pleas’d with this,
And hold your fortune for your bliss,
Turn to where your lady is,
And claim her with a loving kiss.

Chumbo:

Trad. Dr. Domingos Ramos

Nem sempre há alegria em novidade:
Não quiseste saber das aparências,
E alcançaste assim felicidade;
Contenta-te com ela e mais não queiras;

Se te julgas feliz com tua sorte,
Serás fiel àquela que te chama,
Beijando-a e amando-a como tua.
É o eterno amor que tal reclama.


Trad. El-rei D. Luís I:

Tu que não olhas somente
Aos atraentes ardis,
Aplaude a escolha feliz
Do teu juízo prudente.

Se te leva ao galarim
A tua sorte ditosa,
Alegre a fortuna goza
Do que o céu te dota enfim.

Da ventura que te cabe
Se te contenta o quinhão,
Se entender esta lição
O teu espírito sabe.

Volve os olhos com ardor
A quem anela a tua alma,
E acharás triunfo e palma
Num beijo – beijo d’amor.


O Mercador de Veneza – William Shakespeare

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Destino e Perspectiva

ROMEU
Tal como se esse nome semelhante a uma bala arremessada pelo canhão mortal a assassinasse; tal como se a mão maldita do que tem esse nome assassinasse o parente. – Oh! Dizei-me, irmão, dizei-me em que vil parte do meu corpo se aloja esse nome! Dizei-mo para que eu possa destruir este odioso edifício da minha existência. (Desembainha a espada).

FREI LOURENÇO
Oh! Desesperado! Reprime a tua cólera! És tu um homem? O teu aspecto grita que sim, mas as tuas lágrimas são de mulher e as tuas ações insensatas são dum irracional furioso. Oh! Homem mulheril, ou antes, oh! Animal feroz com a forma humana! Estou espantado! Pela minha sagrada ordem, nunca julguei que a tua alma fosse assim desiquilibrada! Depois de haveres morto Teobaldo, vais matar-te a ti? Vais matar também essa pobre senhora que vive da tua vida, cometendo contra ti mesmo esse danado ato de ódio? Por que razão amaldiçoas a tua existência? Amaldiçoas o céu? Amaldiçoas a Terra? Nascimento, Terra e céu, tudo se encontrou em ti e tu queres perder tudo ao mesmo tempo? Tu ultrajas a tua beleza, teu amor, o teu espírito! Todos esses bens abundam em ti, e tu, à maneira dum usurário deformas cada um desses bens do legítimo uso que melhor poderiam ornar a tua beleza, o teu amor, o teu espírito! O teu nobre aspecto não passa duma figura de cera, porque está em contradição com a força moral do homem; o teu amor, que juraste, não passa dum perjúrio oco, porque quer matar aquela bem-amada a quem fizeste voto de bem-amar; o teu espírito, esse ornamento da beleza e do amor, desnaturado pelo teu proceder, é como pólvora contida na cartucheira do soldado desastrado, que a própria ignorância inflama! Tu mutilas-te com os próprios meios de defesa. Vamos, levanta-te, homem, Julieta vive! Essa Julieta é aquela por amor de quem tu estavas ainda há pouco como morto! Vês como és feliz por esse lado? Teobaldo quis matar-te e foste tu quem o matou. Também foste feliz por isso. A lei que te ameaçava de morte mostrou-se tua amiga e transformou a morte em exílio; ainda por isso és feliz. Sobre a tua cabeça chove uma tempestade de bênçãos; a felicidade namora-te com o seu mais belo vestuário; mas tu, como se fosses criança mal-educada e amuada, fazes esgares à fortuna e ao amor. Tem cautela, tem cautela, porque os homens que assim procedem morrem miseráveis. Vai, vai para junto da tua bem-amada, como tínheis combinado, sobe ao seu quarto, consola-a, mas tem cuidado, não fiques até à hora do toque de alvorada, porque então não poderias sair da cidade, para ires para Mântua, onde deves viver até que eu veja ocasião de revelar o teu casamento de reconciliar os vossos pais, de implorar o perdão ao príncipe, de te trazer para aqui dois milhões de vezes mais feliz do que partes infeliz. Oh! Ama, vá adiante; dê os meus cumprimentos à sua senhora. Recomende-lhe que mandei deitar cedo todos, porque os desgostos porque têm passado hão de dispô-los ao descanso. Romeu já lá vai.


Romeu e Julieta – William Shakespeare

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Clemência e Culpa


SENHORA CAPULETO
É um parente de Montecchio; a afeição arrasta-o à mentira; ele não diz a verdade: foram vinte os conjurados para este sinistro combate! Foram precisos vinte para matar um! Peço justiça! Deveis concedê-la, oh! Príncipe; Romeu matou Teobaldo, não deve permitir-se que Romeu viva!...

PRÍNCIPE
Romeu matou-o, mas ele tinha morto Mercucio. Quem me deverá pagar o valor do seu sangue precioso?

MONTECCHIO
Não deve ser Romeu, príncipe, porque ele era amigo de Mercucio. O seu crime foi simplesmente ter executado o que a lei havia de decidir – a morte de Teobaldo.

PRÍNCIPE
E por essa ofensa exilamo-lo imediatamente da cidade; eu mesmo sou vítima dos vossos ódios; o meu sangue corre por causa dessas ferozes disputas; mas eu vos condenarei a uma tal pena que vos haveis de arrepender todos da perda que eu sofro; ficarei surdo a discursos, a desculpas, a lágrimas, a súplicas; nada disto resgatará as violações da lei; portanto, não empregueis nenhum desses meios; que Romeu parta imediatamente, porquanto se for encontrado, essa hora será a última da sua vida. Levai daqui este corpo. A nossa vontade deve ser executada. A clemência para com assassinos é assassina também. (Saem).


Romeu e Julieta – William Shakespeare

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Literatura e Pátria

Escolhendo Os Lusíadas para objeto de meus estudos, acredito que tomei um assunto nacional. Os Lusíadas é a obra-prima da literatura portuguesa, que é a nossa.

Vários ensaios, e alguns de grande merecimento, fizeram-se entre nós com o intuito de dar-nos uma literatura própria, mas ela ainda não existe. De duas sortes foram os trabalhos, que se conhecem, feitos com essa intenção. De uns o assunto era a vida de nossos indígenas, de outros era o estado atual de nossa sociedade.

Uma literatura, inspirada pela vida errante das tribos primitivas, que se servisse amplamente de seu rude vocabulário, que não nos descrevesse senão os seus costumes, seria bem uma literatura tupi ou guarani, mas não a brasileira. A poesia pode idealizar o caráter, o coração, as guerras, a civilização até desses ferozes habitantes de nossos sertões; mas a poesia, que se impuser essa aliás bela missão, será uma poesia fantástica, sem direito a ser nacional.

A sociedade brasileira, da qual a literatura deve ser a expressão, é exatamente aquela que substituiu no gozo deste país os seus habitantes primitivos. Tornarmo-nos nós os cantores dessa vida, que só tem poesia para aquele que não aceita plenamente a teoria de progresso moral, é, já não digo, levantarmo-nos contra nossa própria existência neste lado do Atlântico, mas, sermos os poetas de uma raça que não é nossa. Pode isentar-se o poeta de qualquer servidão de sentimento, mesmo da do patriotismo, mas não pode querer ser o poeta natural de uma sociedade, que ele nega radicalmente. A vida do Brasil começou em 1500; antes existia o seu solo, mas com outro nome e povoado por outra raça. O domínio dessa desapareceu, barbaramente perseguido, é certo, e refugiou-se no interior ainda virgem do país. Nada ficou sobre o solo atestando a antiga existência das tribos primitivas; nenhuma forma de sociedade estável havia entre elas, enquanto no Peru os Incas tinham o seu trono firmado no coração de uma raça, cujos monumentos e construções maravilharam os conquistadores.

Aquele que contasse da vida errante, que povoasse o deserto de ilusões, que pusesse no coração de nosso índio os sentimentos mais ternos do seu, que fizesse-o muitas vezes eco de suas próprias dores, que lhe desse a eloqüência de um tribuno e a imaginação de um poeta, esse poderia fazer uma obra admirável de fantasia; faria mesmo uma obra da mais verdadeira e ideal poesia. O Uraguai dá-nos testemunho disso; mas o poeta, por maior que fosse o seu gênio, não faria um poema nacional. “A literatura, frase de um dos mais profundos espíritos da Restauração, de Royer-Collard, é a expressão acidental da sociedade”, e o que tem a sociedade brasileira com as tribos indígenas?

Gonçalves Dias, por exemplo, nos seus Cantos compreendeu bem isso; eis porque parece-nos ter tão pouca razão o Sr. Alexandre Herculano em chamar às Poesias americanas a verdadeira poesia nacional do Brasil, quanta teve ele em lamentar que elas não ocupassem maior espaço no volume. Gonçalves Dias é um dos poetas que mais tiveram o sentimento americano; mas suas poesias indígenas seriam menos facilmente da poesia tupi do que seriam do cancioneiro espanhol suas sextilhas de Fr. Antão. A cor local não constitui a originalidade de uma literatura. Se a cor local bastasse para isso, Gonçalves Dias seria andaluz do tempo dos sarracenos, Byron seria veneziano ou grego e Shakespeare seria ao mesmo tempo bretão, romano e mouro.


Camões e os Lusíadas – Joaquim Nabuco

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Entretenimento e Efemeridade

FERNANDO
Que extraordinário é tudo isto! Vosso pai tem alguma coisa que o preocupa vivamente.

MIRANDA
Jamais até hoje o vi presa de cólera tão violenta.

PRÓSPERO
Estais a olhar, meu filho, de uma maneira estranha; pareceis aterrado; alegrai-vos, senhor. Os nossos divertimentos estão concluídos. Estes nossos atores, como vos disse, são todos eles espíritos; esvaíram-se no espaço em ar sutil: ora, assim como a ilusória realidade de tal visão se desvaneceu, hão de do mesmo modo esvair-se as torres que se elevam até às nuvens, os palácios soberbos, os templos majestosos e até o próprio globo com quanto nele existe. Nós somos feitos do mesmo estofo dos sonhos, e a nossa curta vida está encerrada entre dois sonos. Senhor, estou um pouco triste: perdoai à minha fraqueza: o meu cansado cérebro está perturbado; não vos inquieteis com esta minha enfermidade; se quereis, entrai para a minha gruta e descansai: eu darei uma volta ou duas para acalmar o meu perturbado espírito.

FERNANDO e MIRANDA
Desejamos o vosso sossego. (Saem.)

PRÓSPERO
Chega com a rapidez de um pensamento. (A Fernando e Miranda) Agradeço-vos.


A Tempestade – William Shakespeare

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Sorte e Azar

PRÓSPERO
Há doze anos, Miranda, há doze anos! Teu pai era nessa época duque de Milão e um bem poderoso príncipe.

MIRANDA
Senhor, não sois vós meu pai?

PRÓSPERO
Tua mãe, que foi a virtude personificada, dizia-me que tu eras minha filha; teu pai era duque de Milão e tu a sua única herdeira e princesa legítima.

MIRANDA
Oh, Céus! Foi uma tragédia sinistra que para aqui nos trouxe, ou, pelo contrário, uma sorte feliz?

PRÓSPERO
Ambas as coisas, minha filha, ambas as coisas. Por uma sinistra tragédia, como dizes, fomos expulsos de Milão; mas depois foi uma feliz sorte que nos impeliu até esta ilha.


A Tempestade – William Shakespeare

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Contradição e Negação

Infelizmente, e para o escândalo da Besta materialista, não é bom nem seguro acreditar-se completamente a salvo, em seu saco de pele, dos empreendimentos da alma. Evitar o escrutínio das intenções, forçando-se a conhecer do evento moral apenas sua repercussão no sistema vasodilatador, leva a uma decepção muito amarga. O homem pode muito bem se contradizer, mas não pode negar-se completamente. O exame de consciência é um exercício favorável, mesmo para os professores de amoralismo. Ele define nossos remorsos, os nomeia e assim os mantém na alma, como que em isolamento, sob a luz do espírito. Ao reprimi-los sem cessar, tema dar-lhes consistência e peso carnal. Prefere-se esse sofrimento sombrio à necessidade de se envergonhar de si mesmo, mas você introduziu o pecado na espessura de sua carne, e o monstro não morre ali, pois sua natureza é dupla. Ele engordará maravilhosamente com o seu sangue, prosperará como o câncer, tenaz, diligente, permitindo que você viva como quiser, ir e vir, tão saudável na aparência, apenas inquieto. Você irá, assim, ficar cada vez mais secretamente separado dos outros e de si mesmo, alma e corpo desunidos por um divórcio essencial, neste semi-torpor que dissipará de repente o trovão da angústia, a angústia, forma hedionda e corporal do remorso. Você acordará em um desespero que nenhum arrependimento pode redimir pois neste exato momento sua alma está morrendo. É então que um infeliz esmaga com uma bala um cérebro que lhe serve apenas para sofrer.


A Impostura – Georges Bernanos

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Reflexão #15


"Os brasileiros são muito mais tolerantes com a ignorância do que com a erudição."

Ouvi essa frase de Olavo de Carvalho - que tinha um tino aguçado para identificar situações da realidade e sumarizar em simples explicativas frases -, mas também poderia ter sido dita por qualquer um que se vê na busca do conhecimento ou refinamento, porém a palavra correta é mesmo erudição.
Erudição é o desenvolvimento cognitivo que resulta de um grande número de experiências. É, digamos, uma biblioteca interior adquirida. Este desenvolvimento torna o portador capar de distinguir as mais suaves nuances e categorizá-las. Finalmente, ele torna-se capaz de ordená-las conforme essas categorias, resultando em melhores e piores, complexas e simples, todas com inúmeros níveis intermediários.
Essa capacidade de perceber que a realidade não é tão simples, não é preto no branco, torna-se extremamente incômoda para o interlocutor não capacitado, a ponto de causar desconforto físico. Por isso, quando você se encontra numa dessas situações, uma resposta como "eu não entendo nada disso, pra mim é tudo igual" é muito melhor aceita, na maioria das ocasiões, do que uma frase proveniente da experiência do erudito, como "depende, em certos casos sim, em outros não, este aspecto sim e aquele não, etc.". O exemplo mais banal e fácil de detectar é o "político é tudo ladrão" versus "este político em particular nesta situação específica agiu corretamente". Este último exemplo, interpretado aos olhos daquele, segue o raciocínio lógico: (a) ele gosta deste político neste momento; (b) todos os políticos são ladrões; (c) logo, ele gosta de político ladrão. Há até aquele ditado popular "para quem só pensa com martelo, tudo é prego".
O reducionismo causado pela ausência de erudição não é surpreendente, mas sim esperado. Sem a capacidade de categorizar corretamente a informação, o ser humano faz o possível para adequá-la a sua própria compreensão. Para quem só vê preto e branco, tons de cinza serão ou preto, ou branco.
Se tu enxergas isso como um problema, também deves ter percebido que a única solução é a erudição, experiências variadas que ampliem o horizonte do homem.

 

terça-feira, 12 de julho de 2022

Reação e Duração

Se esse negócio de temperamentos tiver começado a ficar abstrato demais para você, experimente olhar para o esquema simples que preparei, para que você consiga ter uma visão geral da coisa antes de entrarmos mais especificamente em cada um dos quatro temperamentos.


Agora que você já percebeu que os elementos da natureza têm certas características marcantes, vai começar a entender de que forma elas se manifestam em cada um dos temperamentos, e por que são ótimos representantes simbólicos dos coléricos, sanguíneos, fleumáticos e melancólicos.

Identificar um temperamento é uma tarefa aparentemente simples: fazendo duas perguntas básicas já podemos entender o padrão de reações da pessoa e, dessa forma, saber em qual temperamento ela se encaixa. A primeira pergunta diz respeito à velocidade e intensidade com que ela reage na maioria das situações; a segunda está relacionada ao tempo que essa reação dura. Darei alguns exemplos a seguir para você conseguir enxergar essa divisão.

Quando alguém buzina incansavelmente para você no trânsito, sua primeira reação é extravasar algum sentimento, seja falando, gritando ou buzinando de volta, ou você se mantém inicialmente sem reação, analisando aquilo tudo e tentando entender o que houve para que fizessem isso com você?

Na primeira resposta, a reação é rápida e intensa, característica de pessoas mais expansivas. Na segunda resposta, a reação é lenta e fraca, típica de pessoas mais retraídas. Extrapolando essa situação quanto à velocidade e intensidade das reações a outros exemplos do cotidiano, você poderá perceber que existe um padrão nas suas respostas: ou um comportamento que se expande, comum aos sanguíneos e coléricos, ou que se retrai, como nos fleumáticos e nos melancólicos.

Quanto à segunda pergunta, vamos imaginar que alguém do seu convívio o desrespeitou injustamente. A pessoa reconheceu a injustiça e pediu desculpas. Você, mesmo assim, guardará a mágoa por um tempo e a sua relação com essa pessoa ficará um pouco estremecida, ou, após uma conversa esclarecedora, você relaxa e logo depois já estão rindo juntos da situação?

Na primeira resposta, a reação diante do acontecido tem longa duração, característica de coléricos e melancólicos. Na segunda resposta, sua reação não finca raízes profundas e vai passando naturalmente, perfil comum de sanguíneos e fleumáticos. Da mesma forma que fizemos com a velocidade e intensidade das reações, se você conseguir identificar outras situações para avaliar a duração das suas reações, também vai perceber que existe um padrão.


Temperamento Bem Nutrido. Os 4 Temperamentos na Alimentação dos Filhos – Carolina Barros

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Leitura e Educação

Jamais pretendi orientar o tipo de educação moral que os pais desejam dar aos filhos, e a palavra final sobre o que ler será sempre da própria família. O que sempre enfatizo, no entanto, é que a leitura em voz alta é justamente uma oportunidade de dialogar sobre as histórias, de reagir a elas e de modelar uma certa maneira de reagir às coisas que vemos e ouvimos. Reagimos às histórias como reagimos à vida, e toda a pedagogia moral subjacente a uma história dependerá da maneira como o adulto responde ao que acontece nos eventos narrados. Freqüentemente, por exemplo, ao reler com meus filhos uma história favorita, pergunto: “Será que ele fez a coisa certa?”, e suas respostas nos dão uma boa oportunidade de falar sobre o comportamento humano, os erros, os enganos, as falhas humanas.


O Mínimo sobre Leitura em Voz Alta – Marcela Saint Martin

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Afeição e Afetação

CXXV – UMA COMPARAÇÃO¹

Príamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. Homero é que relata isto, e é um bom autor, não obstante contá-lo em verso, mas há narrações exatas em verso, e até mau verso. Compara tu a situação de Príamo com a minha; eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera defunto aqueles olhos... É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito, ou quando menos, igual. Nem digas que nos faltam Homeros, pela causa apontada em Camões; não senhor, falta-nos, é certo, mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. As lágrimas, se as têm, são enxugadas atrás da porta, para que as caras apareçam limpas e serenas; os discursos são antes de alegria que de melancolia, e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor.

¹ Uma comparação: O narrador compara a sua história, no momento do enterro de Escobar, com a da Ilíada, de Homero, no episódio em que Príamo, o último rei de Tróia, chora ao ser obrigado a beijar a mão de Aquiles, guerreiro grego que matou seu filho, o troiano Heitor. Acontece que, ao contrário do mundo épico, em que os conflitos se dão às claras o mundo narrado em Dom Casmurro é camuflado, e os conflitos são recobertos pelas conveniências sociais. Esta é, segundo o narrador, a razão pela qual não existem mais Homeros como antigamente, e não a razão apontada por Camões n’Os Lusíadas (Canto V, estrofes 97-98): segundo ele, os portugueses não sabiam valorizar a cultura e as letras (“Por isso, e não por falta de natura, / Não há também Vergílios nem Homeros”). (N.E.)


Dom Casmurro – Machado de Assis

terça-feira, 14 de junho de 2022

Memória e Imaginação

LIX – CONVIVAS DE BOA MEMÓRIA

Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. A vida é cheia de tais convivas, e eu sou acaso um deles, conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.

Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão.

E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos livros confusos, mas todo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista.

É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.


Dom Casmurro – Machado de Assis

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Presunção e Correção

Si defendere delictum quam vertere malles,
nullum ultra verbum aut operam insumebat inanem,
quin sine rivali teque et tua solus amares.

E se via que tu mais te inclinavas
A defender os erros que emendá-los,
Não gastava contigo mais palavra,
Como trabalho vão, e liberdade
Te dava para amares a teu salvo,
Sem susto de rival, os teus escritos.



442. Si defendere delictum, etc.: com esta liberdade e exação lia Quintílio e fazia juízo das obras alheias; porém se via que seus autores não eram dóceis em receber as emendas, antes presumidos, queriam defender seus erros; neste caso não lhes dizia mais palavra, como coisa inútil (vista a sua presunção) e deixava-os na amorosa cegueira de seus versos, com a certeza de que não teriam competidor que os perturbasse invejando-lhes suas inclinações. Com efeito, esta indocilidade e presunção nos engenhos é a peste dos estudos; porque daqui nasce a cega pertinácia de defenderem muitos a todo o custo certos lugares de suas obras, precisamente porque foram censurados. Estes só buscam louvores e não sofrem emenda; e deles bem se queixa nosso Bernardes a Pedro de Andrade Caminha:

E o que sobre tudo mais me ofende,
É tratar com poetas que me pedem
Que suas obras veja, e lhas emende:
Que mude ou risque os versos que procedem
Sem arte e sem medida livremente,
Que poder para tudo me concedem.
Sendo a sua tenção mui diferente;
Que não querem emenda, mas louvor;
Que de emenda não há quem se contente.


Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Palavras e Coisas

Rem tibi Socraticae poterunt ostendere chartae
verbaque provisam rem non invita sequentur.

Descobrirás de Sócrates nas obras:
E uma vez que tiveres um assunto
Bem conhecido, as vozes sem violência
Verás, que não te faltam no discurso.


311. Verbaque provisam rem, etc.: quando nós temos bem concebido uma coisa é fácil exprimi-la, e para este fim prontamente ocorrem as palavras, como dizia Cícero: ipsa res verba rapiunt¹; e Asínio Polião², citado pelos dois antigos intérpretes de Porfirião, e Acrão: Male hercle eveniat verbis, nisi rem sequantur³. O mesmo deixou escrito Sócrates, dizendo: De re non satis perspecta neminem recte iudicaturum, et oratione explicaturum4. Reparem bem nestas doutrinas aqueles que em suas composições não buscam vocábulos para o sentido, mas arrastam o sentido para os vocábulos. E destes quantos há!



¹ “As coisas de que se fala recrutam por si suas palavras.”

² Caio Asínio Polião (65 a.C.-4 d.C.), político, orador, poeta, dramaturgo, crítico literário e historiador romano.

³ “Perigam as palavras que não acompanharem em tudo a realidade.”

4 “Ninguém será capaz de avaliar com bom juízo ou exprimir em palavras o que não tiver percebido claramente.”


Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Criação e Correção

Nec virtute foret clarisve potentius armis
quam lingua Latium, si non offenderet unum
quemque poetarum limae labor et mora. Vos, o
Pompilius sanguis, carmen reprehendite quod non
multa dies et multa litura coercuit
atque
praesectum deciens non castigavit ad unguem.

Nem teria por certo mais ilustre
O Lácio pelejando que escrevendo,
Se não custasse tanto a nós poetas
Os escritos limar, como o guardá-los
Por longo tempo. Ó vós de numa estirpe,
Repreendei todo aquele que não sabe
muitas vezes riscar o seu poema,
Nem sepultá-lo até que chegue
A dar-lhe o mais perfeito polimento.



292 – 293: Carmen reprehendite quod non multa dies et multa litura, etc.: corresponde o multa litura ao limae labor do verso antecedente, e o multa dies¸ao mora. Temos observado que coisa nenhuma recomenda tanto Horácio em muitos lugares de suas obras como é o riscar uma e muitas vezes quando se está compondo. Não só neste verso, mas no 72 da Sátira 1 do livro I; e no 167 da Epístola 1 do livro III deixou bem provada esta necessidade. Este grande preceito não é só dele, é de todos os mestres; e Quintiliano tem a correção pela parte mais útil dos estudos: Emendatio pars sudiorum utilíssima; neque enim sine causa creditum est, stylum non minus agere, cum delet.¹

¹ “Corrigir é a parte mais útil dos estudos; não por acaso se crê que o estilo cumpre uma função não menos importante ao apagar do que ao escrever.” O estilo era uma pequena haste de metal que os romanos usavam para escrever em tábuas cobertas de cera; uma das extremidades, pontiaguda, escrevia, e a outra, em formato de espátula, apagava. [N.T.]


Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Herói e Prepotência

O encontro de Édipo com Laio merece um comentário mais preciso. Mesmo que se levasse em conta apenas o relato mítico, sem aprofundá-lo simbolicamente, a vaidade de Édipo está bem retratada. A ordem de afastar-se para que a carruagem do rei pudesse passar o põe de tal maneira colérico, que o futuro rei de Tebas perde completamente o controle. É de se supor que o rei viajasse sem as insígnias do poder; caso contrário, Laio estaria acompanhado de sua guarda e a ação criminosa teria sido repelida ou vingada. Nesse encontro fatídico, por conseguinte, o rei aparece como ‘um qualquer’, o que naturalmente intensifica ainda mais a cólera do jovem príncipe. Em função de seus pés mutilados, o vencedor da Esfinge não pôde afastar-se com a rapidez ordenada. A enfermidade contraída em seus primeiros dias de vida desperta com toda a amargura acumulada e com toda a vaidade gerada pelo recalque da consciência de sua mutilação e de sua supercompensação imaginativa. Além do mais, ter que ceder sempre ‘o caminho’ a não-importa-quem, a todos, enfim, deve ter sido o tormento e a humilhação mais profunda da criança adotada, mais ou menos tolerada. Se se substitui o estado de pé mutilado, que impede o filho de Jocasta de ceder rapidamente o caminho pelo simbolismo da significação psicológica, aparece com nitidez a situação de um neurótico, não importa qual. Seu ódio latente é alimentado por sua psiqué mutilada desde a juventude. A incapacidade de movimentar-se livremente pela estrada da vida, ‘a enfermidade’, torna-se suportável tão somente pelo consolo falso e imaginativo da vaidade. Sua alma machucada, no entanto, apresenta-se vulnerável a toda e qualquer afronta e nada fere mais profundamente a psiqué doentia de um neurótico que ser tratada, não importa por quem, sem a devida consideração. Eis por que Édipo não permitirá ser tratado com desprezo e responderá a semelhante ofensa com incrível violência, em razão de um motivo suplementar, que, por mais decisivo que seja, reflete apenas o outro lado de sua hipersensibilidade nervosa. Tendo decidido confrontar-se com a Esfinge, Édipo se deleita em sua imaginação por desempenhar o papel de herói, persuadido de que fadado a escalar o mais alto grau de realização espiritual: acredita-se um libertador da cidade, símbolo do mundo. Este é um traço marcante, talvez o mais característico do neurótico adolescente: reprimido e sofredor em função de sua própria deficiência, projeta sua enfermidade psíquica no meio circundante, exagerando assim, através da denúncia, a insatisfação sempre atual da vida humana. Transformando a própria incapacidade em autossuficiência, arvora-se em um predestinado reformador do mundo. Explica-se, destarte, por que o herói não cedeu espaço à carruagem de Laio nem permitiu que o menosprezassem. Afinal, alimenta secretamente o projeto de realizar o que ninguém tentara antes: defrontar-se com a Esfinge, libertar a cidade e o mundo do flagelo que os oprimia.


Junito de Souza Brandão – Mitologia Grega Vol. III

terça-feira, 19 de abril de 2022

Coragem e Bravura

Canto X – 147-148

Olhai que ledos vão por várias vias,
Quais rompentes leões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros;
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolatras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a peixes, ao profundo:

Por vos servir a tudo aparelhados,
De vós tão longe, sempre obedientes
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar resposta, prontos e contentes;
Só com saber que são de vós olhados,
Demônios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido,
Que vencedor vos façam, não vencido.


Olhai que os vossos vassalos vão ledos por várias vias, quais rompentes leões e bravos touros, dando os corpos: a fomes e a vigílias; a ferro e a fogo; a setas e a pelouros; a regiões quentes e plagas frias; a golpes de idólatras e de mouros; a perigos incógnitos do mundo; a naufrágios, a peixes, e ao profundo sono [à morte] (1).

(1) O poeta tem mostrado já anteriormente que os antigos portugueses se mostravam sempre alegres, para, em obediência ao seu rei e para glória dele, se exporem a toda espécie de perigos, em terra e no mar (I, 51, VI, 98, X, 149). Na presente estância repete o poeta a mesma idéia, sumariamente, dirigindo-se a el-rei, para que atenda ao mérito, evitando que a falta de atenção régia para os vassalos, com a falta de estímulo, faça cair a sociedade em “tristeza vil” (est. 145).
No verso 6 “idolátras”: II, 51; VII, 73.
No verso 2 “rompentes” é termo de heráldica: “animal rompente” é o que no alto dos escudos se pinta, aparecendo só a cabeça, ou que se pinta de pé ocupando uma parte do escudo: aqui: tem a significação de “dilacerantes”.


Para vos servirem, os vossos vassalos, a tudo aparelhados [dispostos para tudo], ainda que estejam muito longe de vós, serão sempre obedientes a quaisquer ásperos (1) mandados vossos, sem darem resposta (2), e sempre prontos e contentes; e, só com o saberem que são olhados por vós, acometerão convosco (3), negros e ardentes demônios infernais (4); e não duvido [e tenho a certeza] que vos farão vencedor e não vencido.

(1) “Ásperos mandados”, ordens rigorosas, de difícil execução; devendo entender-se que o rigor não seria de tirano, mas da observância de princípios de justiça, em harmonia com as conveniências da pátria. (2) “Sem resposta”: obedeceriam calados sem apresentarem objecções. (3) “Convosco”, por vossa causa. (4) “Demônios infernais”: hipérbole (igual em IV, 80); teriam coragem para investir com o poder infernal.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Deus e Máquina

Canto X – 80

Vês aqui a grande máquina do mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do saber alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende;
Que a tanto o engenho humano não se estende.


Aqui vês a grande máquina etérea (1) e elementar (2) do mundo, que foi fabricada assim pelo alto e profundo Saber (3), que é [existe] sem principio e sem meta limitada (4). Quem cerca em redor este globo rotundo, e a sua tão limada [lisa] superfície é Deus (5); mas o que é Deus, ninguém o entende, pois a tanto não se estende [não chega] o engenho humano (6).

(1) Dos céus. (2) Dos elementos; segundo a astronomia antiga, consideravam-se elementos o ar e o fogo, e supunha-se que estes formavam as primeiras camadas celestes em volta da terra; supondo-se também esta o centro do universo; cfr. Advertência. (3) “Alto Saber”, a Sabedoria divina, Deus. (4) “Meta limitada”, marco de limite; fim (sem princípio nem fim). (5) “Quem cerca”, etc; era doutrina corrente que o último céu era o Empíreo, superior à esfera era que estavam fixadas as estrelas; e que, segundo o paganismo, era a morada dos deuses; e, no catolicismo, o lugar dos bem-aventurados, dos santos, o Céu. (6) “O que é Deus”, etc; afirma Faria e Sousa que os dois últimos versos contêm doutrina pregada por S. Paulo, S. Crisóstomo, e outros doutores da Igreja.

Observações de A astronomia dos Lusíadas (pp.39, 43, 57) sobre a presente estância:
“A superfície deste rotundo globo, superfície tão ‘limada’ como se diz na est. 80, é uma superfície esférica. Leia-se a definição de esfera, com que abre o capítulo I do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes.”
“No Tratado da Esfera lê-se, na parte do capítulo I, intitulada ‘Da redondeza do céu’: ‘Que o céu seja redondo há três razões: semelhança, proveito e necessidade. Pela semelhança se prova o céu ser redondo, porque este mundo sensível é feito à semelhança do mundo arquetípico, no qual não há princípio nem fim. E por isso o mundo sensível tem figura redonda, na qual não há princípio nem fim.
“A máquina do mundo, assim mostrada ao Gama, como transunto reduzido do universo, tal qual o concebia a ciência do tempo, divide-se em duas regiões: etérea e elemental.
“Na tradução de Pedro Nunes [do texto latino de Sacrobosco] lê-se: ‘A universal máquina do mundo se divide em duas partes: celestial e elemental. A parte elemental é sujeita a contínua alteração e divide-se em quatro, a saber: terra, a qual está como centro do mundo no meio assentada; segue-se logo a água, e por derredor dela o ar; e logo o fogo que chega ao céu da Lua, segundo diz Aristóteles no livro dos meteoros; porque assim os assentou Deus glorioso e alto. E estes quatro são chamados elementos, os quais uns dos outros se alteram e corrompem e tornam a gerar [...]. Junto da região dos elementos está logo a região celestial lúcida, e pelo seu ser imudável é livre de toda a mudança, tem contínuo movimento circular, e chamam-lhe os filósofos Quinta essência”.
Cfr. as transcrições de A Astrononomia, etc. nas notas à est 78.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Cobiça e Justiça

Canto X – 58

“Mas na Índia cobiça e ambição,
Que claramente põe aberto o rosto
Contra Deus e justiça, te farão
Vitupério nenhum, mas só desgosto.
Quem faz injuria vil e sem razão,
Com forças e poder em que está posto,
Não vence; que a vitória verdadeira
É saber ter justiça nua e inteira.


“Mas na Índia a cobiça e a ambição (1) [os ambiciosos], que põem o rosto aberto claramente contra Deus e a justiça (2), nenhum vitupério te farão mas só desgosto (3). Quem faz injúria vil, e sem razão, com as forças e com o poder em que está posto [investido], não vence (4), que [pois] a verdadeira vitória é saber ter justiça nua (5) e inteira.

(1) Alusão à cobiça de altos funcionários da Índia, de quem Diogo de Castro dizia que, em certa época, os portugueses, esquecendo-se de si próprios, procediam de maneira que pareciam naturais da Ásia, entregando-se a toda sorte de ambições e de prazeres. (2) “Rosto aberto”, etc; sem vergonha, descaradamente (na cegueira da cobiça). “Neste nosso oriente, a que chamamos de Índia, reina mais a cegueira da fortuna, que a luz da razão” (João de Barros). (3) “Nenhum vitupério”, etc; os ambiciosos, injuriando Mascarenhas, não produziram o seu descrédito, somente lhe causaram desgosto. (4) “Injúria vil” etc; aqueles que têm nas mãos o poder e deste se servem para praticarem injustiças, a si próprios se afrontam mais do que ao ofendido. Vencer é ter razão; e ser justo, não é estar com o poder na mão para usar dele em detrimento alheio. (5) Simples; decisões justas que sejam facilmente compreendidas, sem refolhos, sem artifícios: Lopo Vaz, apossando-se indevidamente do poder que devia ser exercido por D. Pedro de Mascarenhas, simulava proceder com justiça (justiça artificial).


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Conselho e Aparência

Canto VIII – 54-55

Ó quanto deve o rei, que bem governa,
De olhar que os conselheiros ou privados,
De consciência e de virtude interna,
E de sincero amor sejam dotados!
Porque, como este posto na superna
Cadeira, pode mal dos apartados
Negócios ter notícia mais inteira
Do que lhe der a língua conselheira.

Nem tão pouco direi que tome tanto
Em grosso a consciência limpa e certa,
Que se enleve num pobre e humilde manto,
Onde ambição a caso ande encoberta.
E quando um bom em tudo é justo e santo,
Em negócios do mundo pouco acerta;
Que mal com eles poderá ter conta
A quieta inocência, em só Deus pronta.


Oh! O rei que governa bem (1), quanto deve olhar, para que os seus conselheiros ou privados (2) sejam dotados de consciência, de virtude interna e de sincero amor! Porque, como esteja posto da cadeira suprema (3) mal pode, dos apartados (4) negócios, ter notícia mais inteira do que a notícia que lhe der a língua conselheira.

(1) O poeta interrompe a narrativa, fazendo reflexões, continuadas na estância seguinte, sobre a necessidade de os reis se rodearem de pessoas virtuosas, que lhes dêem informações verdadeiras. (2) “Conselheiros”, os que, por natureza do cargo oficial, tenham de dar parecer sobre os negócios; “privados” os que, por natureza de cargo particular, tenham freqüentes ocasiões de se aproximarem dos reis. Não se confundam os vocábulos “privado” e “valido”; este último aplica-se geralmente a quem é benquisto e protegido dos reis, mesmo sem o merecer. (3) Superior; o sólido régio. (4) “Negócios apartados”, fatos que se passam em sítios distantes da corte ou que, por conterem demasiadas minúcias, estão muito abaixo das regiões em que o rei vive; só por intermédio dos ministros pode ele conhecer tais negócios.


Nem tão pouco direi (1), que o rei tome tanto em grosso (2) a consciência limpa e certa, que se enleve num pobre e humilde manto (3), onde acaso ande ambição encoberta. E um homem bom, quando é justo e santo em tudo, pouco acerta em negócios do mundo; que [pois] a quieta inocência (4) – só pronta [confiada] em Deus – mal poderá ter conta com eles [neles, nos negócios do mundo].

(1) Também não direi. (2) Avalie tanto por alto, tão superficialmente, as aparências de santidade. (3) “Humilde manto”, o vestuário, a exterioridade, com aparências de humildade: a hipocrisia, ocultando orgulho e cobiça. (4) “Quieta inocência”, repetição, por outras palavras, da idéia dos versos 5 e 6; o santo varão, atento em Deus não sabe descortinar a maldade desenvolvida pelo astucioso hipócrita nos negócios mundanos.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

terça-feira, 12 de abril de 2022

Heróis e Bardos

Canto V – 97-98

Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da lácia, grega, ou bárbara nação,
Senão da portuguesa tão somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
D’algum não ser por versos excelente,
É não se ver prezado o verso e rima:
Porque quem não sabe arte não-na estima.

Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Enéas, nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os faz e tão austeros,
Tão rudos e de engenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.


Enfim não houve, senão tão-somente na nação portuguesa, capitão forte (1), que não fosse também douto e ciente [instruído], como foram os capitães fortes da nação Lácia (2), da nação grega ou de nação bárbara [estrangeira]. Não o digo sem vergonha [envergonho-me de o dizer], que [pois] a razão dalgum dos nossos patrícios não ser excelente por versos, é não se ver [ver-se que não é] prezado o verso e nem a rima, porque quem não sabe a arte poética não na estima (3).

(1) General valoroso. (2) Latina, romana. (3) “Quem não sabe...”, a falta do apreço pelas letras provém da ignorância dos homens poderosos do nosso país.


Por isso (1) – e não por falta de natura (2) não há em Portugal também Virgílios nem Homeros (3); nem haverá, pios (4) Enéas (5) nem feros (6) Aquiles (7), se dura este costume (8). Mas o pior de tudo é, que a ventura (9) tão ásperos (10) os fez, aos capitães portugueses, tão austeros, tão rudes (11) e de tão remisso engenho (12), que, a muitos, pouco lhes dá, ou nada (13) disso.

(1) Pelo fato de não serem animados e favorecidos os homens de talento. (2) Natureza; (fig.), talento, dotes naturais. (3) “Vergílios...”, poetas notáveis como Vergílio e Homero. (4) Virtuosos, de admirável afeição filial. (5) O herói da Eneida. (6) Guerreiros valorosos. (7) O herói da Ilíada. (8) Se continua o costume de não serem estimados os homens de letras. (9) Felicidade (na guerra). (10) Severos. (11) Incultos. (12) Frouxa sagacidade. (13) Na sua rudeza pouco lhes importa, ou nada, o deixarem de ser celebrados pelos poetas.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Poesia e Humor

Canto V – 35

Disse então a Veloso um companheiro,
(Começando-se todos a sorrir):
“Oulá! Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer, que de subir?”
– “Sim, é, responde o ousado aventureiro;
Mas quando eu para cá vi tantos vir
Daqueles cães, depressa um pouco vim,
Por me lembrar que estáveis cá sem mim.”


Disse então (1), a Veloso, um companheiro – começando todos a sorrir-se: “Olá! Veloso amigo, aquele outeiro é melhor de descer que de subir (2) ?” – “É sim! – respondeu o ousado aventureiro – mas, quando eu vi para cá virem tantos daqueles cães (3), vim um pouco de pressa (4), por me lembrar que estáveis cá sem mim.”


(1) Depois de estarem a bordo das naus, entraram os soldados a conversar sobre o perigo em que estivera Fernão Veloso, começando um deles com os seus ditos a provocar o riso dos outros. (2) “Melhor de descer...”; não contendo novidade esse dito, havia nele engraçada ironia: Veloso subira o monte devagar, confiado em si; descera depressa, porque vinha fugindo. (3) Epíteto para deprimir aquela “bruta gente”. (4) “Vim depressa...”, resposta de ironia também engraçada: o aventureiro vinha a correr para acudir aos seus companheiros, não era para fugir dos pretos.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Ambição e Condição

Canto IV - 104

“Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitetor co’o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio!
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio.
Deixa intentado a humana geração!
Mísera sorte! Estranha condição!”


“Se não fora esse fogo roubado do céu (1), o miserando moço não cometeria o alto carro do pai (2); nem o grande arquiteto cometeria, com o filho, o vazio ar (3) – dando, um, nome ao mar, e o outro fama ao rio (4). A geração humana nenhum alto e nefando cometimento (5) deixa intentado [=intacto] (6) por meio de fogo, ferro, água, calma e frio! Mísera sorte! Estranha condição (7)!


(1) Subentendem-se estas palavras ou outras semelhantes, porque na presente estância prossegue o pensamento da precedente: se não fosse a ambição, ... (2) “Miserando”, etc.; o moço é o atrevido Faetonte, que pretendeu governar o carro do Sol, o carro de seu pai, Apolo; cfr I, 46 e passim; “cometera”, tentara, intentara; acometera, apoderara-se do..., lançara-se sobre o carro do Sol, para o guiar. (3) “Arquitetor”, etc.; forma antiga de “arquiteto”, no sentido de “engenhoso” – aplicado este epíteto elipticamente ao Dédalo da fábula, que pretendeu com asas artificiais voar como as aves, lançando-se no ar (“vazio por ser a atmosfera, na aparência, o vácuo) e lança-se no ar com seu filho Ícaro. (4) “nome ao mar”, etc.; segundo a fábula, caindo Ícaro no mar, este ficou tendo o nome de Icário; e caindo Faetonte no rio Pado, ficou este célebre por essa queda; cfr. I, 46. (5) “Cometimento”, empreendimento – quer seja “alto” (subido, digno de louvor), quer seja “nefando” (torpe, de natureza tal que não se possa ou deva dele falar). (6) “Intentado” = não tentado = intacto; não há empresa que os homens não realizem – quando movidos pela ambição, umas vezes praticando ações nobres, outras vezes praticando atos nefandos – ainda que tenham de padecer fogo e ferro (a guerra), água (a inclemência dos mares), calma e frio (as vicissitudes dos climas que padeceram os navegantes na zona tórrida e no mar Antártico). (7) “Mísera sorte”, etc.; epifonema, lastimando intensamente a infelicidade de Portugal, que arriscava, sem correspondente proveito, tantas vidas na Índia; e admirando a estranha (extraordinária, admirável, por incoerente) condição humana; cfr. Est. 95 e 97.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

terça-feira, 5 de abril de 2022

Malícia e Receio

Canto II - 9

E, despois que ao rei apresentaram
Co’o recado os presentes que traziam,
A cidade correram e notaram
Muito menos daquilo que queriam;
Que os Mouros cautelosos se guardaram
De lhe mostrarem tudo o que pediam:
Que onde reina a malícia, está o receio,
Que a faz imaginar no peito alheio.


E – depois que apresentaram [=depois de apresentarem], ao rei, os presentes, com o [=mais o] recado (1) que traziam – correram a cidade (2), e notaram [=tomaram conhecimento de] muito menos daquilo que queriam saber; que [=pois] os mouros, cautelosos, guardaram-se (3) de mostrar-lhes tudo o que os dois enviados pediram [=buscavam]; que [=porque], onde [em quem] reina [=domina] a malícia (4), está o receio, que a faz imaginar no peito alheio (5).


(1) Mensagem. (2) Andaram pela cidade rapidamente, de modo que não podiam observar tudo com minudência. (3) “Guardara-se de” = evitaram. (4) “Onde reina...”, quem tem malícia, tem receio de que as outras pessoas sejam igualmente maliciosas. (5) O coração de outrem; o perverso está sempre desassossegado; tudo quanto esse premedita contra o próximo, isto mesmo imagina e receia que lhe façam.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Aparência e Intenção

Canto I - 105

O recado que trazem é de amigos,
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho da vida nunca certo!
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!


O recado (1), que trazem aqueles homens dos batéis, é de amigos; mas, debaixo desse recado, vem coberto [= encoberto] o veneno [= a perfídia]; que [=pois] os pensamentos [as intenções] eram de inimigos, segundo veio a saber-se, quando (2) o engano [a traição] foi descoberto. Oh! Grandes e gravíssimos são os perigos, a que a humanidade anda exposta! Oh! Nunca é certo [seguro] o caminho da vida (3)! É para lastimar, que, onde a gente (4) põe a sua esperança, tenha a vida tão pouca segurança! (5)



(1) Cfr. I, 104. (2) Elipse anacolútica. (3) Fig., nunca é seguro o destino de cada homem; apóstrofe semelhante em I, 71-5. (4) “A gente”, a humanidade; nós e os outros homens. (5) Continuando a apóstrofe com esta moralidade: no lugar para onde nos encaminharmos com maior segurança, e na esperança do alcançar felicidade, é justamente aí que às vezes recebemos os maiores danos.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

sexta-feira, 18 de março de 2022

Reflexão #14

Modelos de virtude e sabedoria

O animal racional, o homem, só é capaz de buscar o que está dentro de sua imaginação. Até pode encontrar algo que não concebia anteriormente se a fortuna o quiser, porém não por vontade própria. Por isso, quando certa vez ouvi que era importante termos modelos de virtude e de sabedoria, perguntei-me o porque? Na verdade, a pergunta era quais eram esses modelos, esses ideais, esses pontos máximos a serem buscados. O interlocutor, um leitor de Platão, queria saber quem éramos não pelo que diziamos ou até mesmo mostrávamos, mas sim quais eram nossos modelos ideais, para que, mesmo com toda esperança, onde chegaríamos por nossa própria conta.

Parafraseando o ditado, diga-me aonde vais e te direi quem és.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Reflexão #13

"Não é você que pergunta à vida o que quer dela, mas ela que pergunta à você"

Viktor Frankl diz essa frase em seu famoso livro Em Busca de Sentido.

Consiste na transição da personalidade centrada no eu para os outros, naquela fase em que você entende que o mundo não existe para você, mas você que existe para servir ao mundo. Essa passagem não é fácil de ser compreendida racionalmente e por isso costuma necessitar de uma carga emocional para, através da intuição, auxiliar a razão nessa compreensão.

Como, então, explicar isso para alguém amadurecer? Acredito eu que o caminho seja Cristo. Seus ensinamentos são o meio de "se colocar em último lugar" e combater o egoísmo da infantilidade. Não lembro se Frankl era cristão ou não, mas o que ele explica através da psiquiatria é um caminho racional para a linguagem poética da Bíblia.

Por fim, como diz Ítalo Marsili no Guerrilla Way: Trabalhe, sirva, seja forte e não encha o saco, ou como diz o Método Natural de Georges Hébert: Être fort pour être utile, Seja forte para ser útil. São pessoas e meios diferentes de expressar o mesmo: Ame o próximo primeiro. Não é você que deve perguntar à sua vida como satisfazer um desejos seu, mas a vida, a circunstância, as pessoas ao seu redor que irão pedir coisas a você. E você deve servi-la.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Prometer e Ser

Tudo em volta induz à loucura, ao infantilismo, à exasperação imaginativa. Contra isso o estudo não basta. Tomem consciência da infecção moral e lutem, lutem, lutem pelo seu equilíbrio, pela sua maturidade, pela sua lucidez. Tenham à normalidade a sanidade, a centralidade da psique como um ideal. Prometam a vocês mesmos ser personalidades fortes, bem estruturadas, serenas no meio da tempestade, prontas a vencer todos os obstáculos com a ajuda de Deus e de mais ninguém. Prometam SER e não apenas pedir, obter, sentir, desfrutar.


Olavo de Carvalho
 29/04/1947 - † 24/01/2022

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Dever e Realeza

SECRETÁRIO

Piedosa obra faz ao que está preso
Quem as prisões lhe corta, e as más cadeias.
  Ó claríssimo Infante, meu Senhor,
Muito há que me conheces; teus segredos
De mim com razão sempre confiaste.
Nunca te descobri as zombarias,
Nunca descobrirei o menor deles.
D’uma parte me tens por secretário,
Mas d’outra me hás de ter por conselheiro.
Cumprirei eu contigo, e co’o que devo:
Então venha tua ira, que eu não quero
Melhor morte, que aquela que de infâmia
Livrar a vida, e a alma de perigo.
  Não vês, Senhor, que o Sol, se escurecesse,
Quanto cobre e descobre ficaria
Tão triste e escuro, como agora claro?
Pois tal é o bom príncipe: Sol nosso,
Com cuja luz nos vemos, e seguimos
A justiça, que aos Céus nos vai levando.
Se s’esta em ti perder, onde a acharemos?
Quem a virtude seguirá, quem honra?
Abateres-te assim de príncipe alto
A pensamentos baixos, que s’estranham
Nos homens baixos, parecer-te pode
Grandeza de ti digna, e do que deves
A este estado tão alto, que te espera?



Castro – Antônio Ferreira