terça-feira, 22 de julho de 2025

Correção e Adulação

XXV

Por isso aconselhamos tanto no como seguimos agora aconselhando que se extirpe o amor-próprio e a presunção, precursora de toda adulação: pois é ela que, adulando-nos por dentro, nos amolece e entrega mais propícios aos aduladores externos. Se, porém, confiantes em Apolo e na utilidade que seu preceito, "Conhece-te a ti mesmo", tem para todas as coisas, examinarmos quantas deficiências e quanta abjeção misturada com temeridade derivam da nossa natureza, criação e educação, e respingam em nossas ações, palavras e paixões, já não permitiremos tão facilmente que os aduladores nos calquem a seus pés. Alexandre dizia que por causa do sono e do acasalamento não acreditava nos que o chamavam de deus, pois em ambos sentia seu espírito degenerar e fazer-se menos senhor de si. Já nós, que olhando para dentro vemos em todo canto tanta torpeza, tanta aflição, tanta imperfeição e erro, descobrimo-nos necessitados não de um amigo que nos louve e elogie, mas que nos submeta a exame, que nos fale com franqueza, que nos repreenda e até, por Zeus!, que nos trate mal. São poucos dentre muitos os que ousam falar aos amigos mais com franqueza do que para o agrado; e mesmo dentre esses poucos não acharás facilmente quem saiba fazê-lo de verdade, pois a maioria crê que basta insultar e repreender para usar bem a franqueza. Além disso, como qualquer outro remédio, assim também a franqueza empregada em má hora cria mágoas e perturbações inúteis, fazendo com a dor o mesmo que a adulação faz com o prazer. Recebem dano não apenas os que são elogiados importunamente, mas também os que são repreendidos. E o que mais fragiliza dos aduladores é quando resvalam como a água das mais árduas alturas até o mais acolhedor e macio dos vales. Por isso é necessário temperar a franqueza com a cortesia, usando de moderação para abrandar o excesso e destempero assim como se faz com a luz, a fim de evitar que os amigos, perturbados e aflitos por serem repreendidos por tudo o que fazem, se refugiem à sombra do adulador e busquem um lugar livre de desgosto. Pois todo vício, ó Filopapo, deve ser evitado por meio da virtude, não pelo vicio contrário¹, como pensam alguns, prescrevendo como cura do acanhamento o despudor, ou como remédio da rusticidade a bufonaria, e que o modo de pôr-se o mais longe o possível da covardia e da frouxidão é aproximar-se da audácia e do atrevimento. Alguns, para reprimir a superstição, recomendam o ateísmo, e contra a simploriedade dão como solução a velhacaria, forçando para o lado contrário os costumes tortos como se faz com a madeira, ignorantes que são do verdadeiro modo de corrigi-los. No entanto, não há defesa mais torpe contra a suspeita de adulação do que magoar os amigos inutilmente, e é sinal de rudeza de espírito e inaptidão no trato com os outros usar da rabugice e do mau humor para evitar na amizade a baixeza e mesquinharia, como o liberto da comédia, que crê que a incriminação desenfreada dos outros faz parte da liberdade de expressão a que tem direito. Porém, assim como é torpe resvalar na adulação fazendo tudo pelo agrado de alguém, também é torpe evitar a adulação arruinando a amizade e negligenciando os cuidados próprios dela com uma franqueza imoderada; cumpre não descair para nenhum dos lados, mas, como em todo o mais, também na franqueza extrair da mediania o belo e o bom. Pois bem, aqui parece que o desenvolvimento mesmo da questão exige que coroemos o livro com este assunto.


¹ Cf. Aristóteles, Ética, II. 7; Horácio, Sátiras, I. 2. 24.


Como Distinguir os Aduladores dos Amigos - Plutarco

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Amizade e Adulação

VI

Então vejamos a coisa do início. Dissemos que a amizade nasce, para a maior parte dos homens, da afeição pelos mesmos modos e maneiras, da alegria pelas mesmas práticas, pelos mesmos feitos e pelas mesmas ocupações, e da afinidade de talante e natureza: e é neste sentido que foi dito:

o velho se deleita ouvindo o velho,
as crianças ouvindo outras crianças,
nem nada dá mais gosto ao mulherio
do que com outras mulheres conversar.
É música aos ouvidos do doente a voz de outro doente,
e ao desgraçado a fala dos colegas na desgraça.

Vendo como da semelhança nos gostos e afeições surge naturalmente a familiaridade e o amor, o adulador usa-se desse método antes de qualquer outro para insinuar-se na confiança dos homens e capturá-la, como alguém que, imitando, numa pastagem, as práticas, os interesses, os desejos e o modo de viver de um animal, vai pé ante pé se achegando e acostando ao bicho até que ele dê a oportunidade e se ofereça manso e habituado ao toque humano. Assim, de um lado, o adulador reprova as práticas, as vidas e os homens que perceba desagradar o adulado; de outro, elogia tudo o que lhe agrade, não de maneira razoável e comedida, mas enaltecendo com aparente assombro e admiração, e ainda por cima assegurando que todos seus gostos e aversões nascem mais do juízo que das paixões.


Como Distinguir os Aduladores dos Amigos - Plutarco

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Reflexão #20

Retomo o conselho de Plutarco sobre os inimigos, ele diz que mesmo na vitória é bom manter alguns inimigos por perto, pois se temos apenas os amigos, acabamos direcionando nossas críticas e insatisfações contra estes, causando desgaste e, quiçá, os tornando novos inimigos.

Refletindo sobre esse conselho, considerei a situação da política brasileira da última década (2010-2020), especificamente o conflito de Direita e Esquerda. Antes desse período, a Esquerda era dominante e seu inimigo era o PSDB, o socialismo fabiano, esquerda de terno, esquerda com eficiência econômica, ou seja lá como quiser chamar. Deste ponto de vista, percebe-se que seu inimigo era de certa forma controlado, e excluía a possibilidade de existência da Direita.
Ainda assim, com o surgimento da "nova Direita", estabeleceu-se um verdadeiro conflito de Direita e Esquerda, ou seja, com reais inimigos. Entretanto, esta nova Direita não soube aplicar o conselho de Plutarco, nem imitar a situação anterior da Esquerda. Ao invés de direcionar suas críticas ao verdadeiro inimigo, a Esquerda, assim que colocou seu candidato na presidência voltou-se contra si mesma. Portanto, além do inimigo principal, tornou seus poucos amigos em inimigos.
Terminado esse período, a Esquerda voltou à presidência e segue com um único inimigo, a Direita. Por enquanto, não tornaram seus amigos em inimigos, nem pararam de atacar seu único inimigo, por mais fraco que este esteja.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Inimigo e Proveito

X

Se, porém,

toda cotovia vem com crista,

como diz Simônides, e também todo homem por natureza traz no peito a contenção, a emulação e a inveja,

companheira das cabeças ocas,

como fala Píndaro, tiraria um proveito nada modesto quem, tomando os inimigos, por assim dizer, como esgoto, despejasse neles todas essas más inclinações,¹ de modo a purgar-se delas e desviá-las do caminho dos companheiros e familiares.² E isto, ao que parece, é o que compreendeu aquele político de nome Demos, quando, encontrando-se do lado vencedor de uma insurreição em Quios, aconselhou seus correligionários que não banissem todos os integrantes da facção rival, mas deixassem alguns, "de modo", explicou ele, "que não passemos a nos voltar contra os amigos uma vez livres de todos os inimigos". Deste modo, essas nossas inclinações, despendidas por inteiro contra os nossos inimigos, incomodarão menos os nossos amigos. Não convém, afinal, que "o oleiro inveje o oleiro ou que o "o bardo do bardo tenha inveja", como canta Hesíodo, nem que haja emulação de espécie alguma com o vizinho, o primo ou o irmão que tenha "avançado depressa na 
riqueza" e chegado à prosperidade. E se não há outro expediente contra a rivalidade, a inveja e a contenção, acostuma-te a sentir o aguilhão toda vez que souberes da felicidade dos teus inimigos, e toma isto como estímulo para apontar e aguçar o teu espirito contencioso. Assim como os jardineiros habilidosos sabem que faz bem às rosas e violetas plantar à volta delas alho e cebola (já que sugam das flores tudo o que contenham de acre e fétido), do mesmo modo o inimigo, atraindo e absorvendo toda a tua malevolência e calúnia, devolve-te mais benévolo aos amigos prósperos. Por isso, na hora de disputar com os inimigos pela glória, pela autoridade ou pelo ganho justo, não apenas sintamos o aguilhão caso levem vantagem sobre nós em alguma coisa, como também observemos todos os meios pelos quais alcançaram essa vantagem, e tentemos superá-los no esmero, no esforço, na temperança e no exame de si mesmos. Nesse sentido dizia Temístocles que a vitória de Milcíades em Maratona não o deixava dormir. Quem, afinal, se crê superado pela fortuna do inimigo quer nos cargos de poder, quer na defesa de seus clientes, quer na gestão do Estado ou na relação com os amigos e superiores, caso se rebaixe, da ação e da emulação, à calúnia e ao acabrunhamento, toda essa inveja que o estimula a combater tornar-se-á inútil e ineficiente. Já aquele que não está cego para o que odeia, mas enxerga como um observador justo e imparcial a vida, os costumes, os ditos e as obras do outro, perceberá que a maior parte do que emula nos inimigos foi conquistado por meio diligência, da prudência e da honestidade na conduta; e, querendo chegar aos mesmos bens, cultivará, por um lado, o amor à honra e à beleza, e amputará, por outro, a preguiça e o desleixo.


¹ Cf. Xenofonte, Memorabilia, I, 4. 6.
² Cf Moralia, 813A. 


Como Tirar Proveito dos Inimigos - Plutarco

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Julgamento e Autoconhecimento

IV

Acrescenta a isto o dito mui filosófico e civil de Diógenes: "'Como hei de castigar meu inimigo? Tornando-me eu mesmo belo e bom".¹ Afligem-se os homens reparando como são celebrados os cavalos dos inimigos e elogiados os seus cães; murmuram, quer vejam seus campos bem lavrados, quer avistem seus jardins em plena flor. O que pensas, portanto, que lhes há de acometer se te mostrares um homem justo, sensato, prestativo, honrado nas palavras, puro nas ações, temperante na conduta,

lavrando os sulcos profundos da mente
fecundos em conselhos fidedignos?

"Os derrotados", diz Píndaro, "levam a lingua agrilhoada num silêncio sepulcral". Essas palavras não são verdadeiras em qualquer caso nem se aplicam a todos os homens, mas apenas aos que se vêem derrotados pela diligência, pela retidão, pela magnanimidade, pela benevolência e pela bondade dos inimigos; são estas as coisas que, como diz Demóstenes, "embaraçam a lingua, tapam a boca, comprimem-na e fazem calar".


Sê diferente dos maus: nada o impede

Se queres atormentar quem te odeia, não o xingues de pederasta, de efeminado, de licencioso, de ladrão de oferendas ou de sovina: antes sê tu mesmo viril, casto, verdadeiro, benigno e justo com os que cruzarem teu caminho. Se chegares, todavia, a insultar alguém, cuida que estejas o mais afastado o possível dos insultos que lhe atiras. Mergulha na tua alma e sonda o que ainda tens de podre nela, para que não aconteça daí que algum vicio te entoe de dentro aquele canto do poeta trágico:

És médico dos outros, mas o teu corpo de úlceras estala.

Se o chamares de iletrado, aguça em ti mesmo o amor à instrução e ao esmero; se o chamares de covarde, desperta e reaviva ao máximo tua coragem e virilidade; se o chamares de libertino e destemperado, apaga da tua alma o traço ainda oculto de amor à luxúria. Nada, afinal, é mais vergonhoso que a difamação que se volta contra seu autor, nem nada mais penoso; e tanto a luz parece ofender mais as vistas fracas se refletida, quanto as pechas quando devolvidas pela verdade mesma aos que as impõem nos outros. Como faz com o nevoeiro o vento nordeste, assim a vida indecorosa arrasta sobre si mesma seus insultos.

¹ Cf. Moralia, 21E
.
² Euripides, Orestes, 251.


Como Tirar Proveito dos Inimigos - Plutarco