XXV
Por isso aconselhamos tanto no como seguimos agora aconselhando que se extirpe o amor-próprio e a presunção, precursora de toda adulação: pois é ela que, adulando-nos por dentro, nos amolece e entrega mais propícios aos aduladores externos. Se, porém, confiantes em Apolo e na utilidade que seu preceito, "Conhece-te a ti mesmo", tem para todas as coisas, examinarmos quantas deficiências e quanta abjeção misturada com temeridade derivam da nossa natureza, criação e educação, e respingam em nossas ações, palavras e paixões, já não permitiremos tão facilmente que os aduladores nos calquem a seus pés. Alexandre dizia que por causa do sono e do acasalamento não acreditava nos que o chamavam de deus, pois em ambos sentia seu espírito degenerar e fazer-se menos senhor de si. Já nós, que olhando para dentro vemos em todo canto tanta torpeza, tanta aflição, tanta imperfeição e erro, descobrimo-nos necessitados não de um amigo que nos louve e elogie, mas que nos submeta a exame, que nos fale com franqueza, que nos repreenda e até, por Zeus!, que nos trate mal. São poucos dentre muitos os que ousam falar aos amigos mais com franqueza do que para o agrado; e mesmo dentre esses poucos não acharás facilmente quem saiba fazê-lo de verdade, pois a maioria crê que basta insultar e repreender para usar bem a franqueza. Além disso, como qualquer outro remédio, assim também a franqueza empregada em má hora cria mágoas e perturbações inúteis, fazendo com a dor o mesmo que a adulação faz com o prazer. Recebem dano não apenas os que são elogiados importunamente, mas também os que são repreendidos. E o que mais fragiliza dos aduladores é quando resvalam como a água das mais árduas alturas até o mais acolhedor e macio dos vales. Por isso é necessário temperar a franqueza com a cortesia, usando de moderação para abrandar o excesso e destempero assim como se faz com a luz, a fim de evitar que os amigos, perturbados e aflitos por serem repreendidos por tudo o que fazem, se refugiem à sombra do adulador e busquem um lugar livre de desgosto. Pois todo vício, ó Filopapo, deve ser evitado por meio da virtude, não pelo vicio contrário¹, como pensam alguns, prescrevendo como cura do acanhamento o despudor, ou como remédio da rusticidade a bufonaria, e que o modo de pôr-se o mais longe o possível da covardia e da frouxidão é aproximar-se da audácia e do atrevimento. Alguns, para reprimir a superstição, recomendam o ateísmo, e contra a simploriedade dão como solução a velhacaria, forçando para o lado contrário os costumes tortos como se faz com a madeira, ignorantes que são do verdadeiro modo de corrigi-los. No entanto, não há defesa mais torpe contra a suspeita de adulação do que magoar os amigos inutilmente, e é sinal de rudeza de espírito e inaptidão no trato com os outros usar da rabugice e do mau humor para evitar na amizade a baixeza e mesquinharia, como o liberto da comédia, que crê que a incriminação desenfreada dos outros faz parte da liberdade de expressão a que tem direito. Porém, assim como é torpe resvalar na adulação fazendo tudo pelo agrado de alguém, também é torpe evitar a adulação arruinando a amizade e negligenciando os cuidados próprios dela com uma franqueza imoderada; cumpre não descair para nenhum dos lados, mas, como em todo o mais, também na franqueza extrair da mediania o belo e o bom. Pois bem, aqui parece que o desenvolvimento mesmo da questão exige que coroemos o livro com este assunto.
¹ Cf. Aristóteles, Ética, II. 7; Horácio, Sátiras, I. 2. 24.
Como Distinguir os Aduladores dos Amigos - Plutarco