quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Moderação e Descomedimento

Moderação, comedimento, ética rigorosa, eis aí como a doutrina apolínea do μηδέν άγαν (medèn ágan), do “nada em demasia”, e do γνώθι σ’αύτόν (gnôthi s’autón), do “conhece-te a ti mesmo”, acabou por se apossar da tragédia e da poesia em geral.

Até o esquema trágico, o caminhar do ánthropos, do “simples mortal”, ultrapassando o métron, a sua medida, e tornando-se, por isso mesmo, anér, “herói”, que, em consequência, acabará, fatalmente, nos braços da Morîa, do destino cego, é tipicamente uma lição apolínea: “todas as coisas têm a sua medida...” Vejamos, mais de perto, como Apolo, com seu comedimento, com seu gnôthi s’autón, se apossou da tragédia e fez do homo dionysiacus uma presa fácil da Morîa, valendo o esquema trágico para o ánthropos, como se fora um aviso prévio: não te “dionizes”, não ultrapasses a medida da miséria mortal, porque se o fizeres, encontrarás os braços de bronze da fatalidade cega...

Os devotos de Dioniso, após a dança vertiginosa de que se falou, caíam semidesfalecidos. Nesse estado acreditavam sair de si pelo processo do έκστασις (ékstasis), “êxtase”. O sair de si implicava um mergulho de Dioniso em seu adorador através do ένθουσιασμός (enthusiasmós), “entusiasmo”. O homem, simples mortal, άνθρωπος (ánthropos), em êxtase e entusiasmo, comungando com a imortalidade, tornava-se άνήρ (anér), isto é, herói, um varão que ultrapassou o μέτρον (métron), a medida de cada um. Tendo ultrapassado sua medida mortal, o anér, o herói, transforma-se em ΰποκριτής (hypokrités), aquele que responde em êxtase e entusiasmo, a saber, o ator.

Em ultrapassagem do métron pelo hypokrités se configura como ΰβρρις (hýbris), um descomedimento, uma “démesure”, uma violência, feita a si próprio e aos deuses imortais, o que desencadeia a νέμεσις (nêmesis), a punição pela injustiça praticada, o ciúme divino; o hypokrités, o anér torna-se êmulo dos deuses, o que vai provocar a άτη (áte), a cegueira da razão; tudo quanto o hypokrités fizer, daqui para diante e terá que fazê-lo, realiza-lo-á contra si mesmo. Mais um passo e fechar-se-ão sobre ele as garras da Μοϊρα (Moîra), o destino cego.

No fundo, a tragédia grega, como encenação religiosa, é o suplício do leito de Procrusto contra todas as “démesures”.

Esquematizando:

Métron (medida de cada um)

Ánthropos (simples mortal) … ultrapassagem (êxtase e entusiasmo) ... Anér = ATOR

hýbris (descomedimento, violência)

nêmesis (castigo pela injustiça praticada, ciúme divino)

áte (cegueira da razão)

Moîra (destino cego, punição)


Mitologia Grega Vol. II - Junito de Souza Brandão

 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Dioniso e Divindade

Dois fatos aqui expostos chamam logo a nossa atenção. O primeiro deles é a tenaz perseguição da ciumenta Hera contra o filho de Sêmele e o segundo, a morte de Sêmele pelo fogo e a coxa de Zeus como segundo ventre de Dioniso. Quanto ao primeiro, é suficiente lembrar que a inimizade entre o deus do êxtase e do entusiasmo e a rainha dos deuses era um fato consumado no mito grego. Através de um fragmento de Plutarco, concernente às antigas festas beócias das Δαίδαλα (Daídala), “Dédalas”, em honra de Hera, ficamos sabendo que em Atenas, e possivelmente na Beócia, se evitava cuidadosamente todo e qualquer contato entre os objetos que pertenciam ao culto de Hera e aqueles pertencentes ao de Dioniso. Até mesmo as sacerdotisas das duas divindades não se cumprimentavam. A verdadeira muralha que separava os dois cultos era certamente consequência das características muito diferentes desse par antitético: de um lado, Hera, a teleia, a saber, a protetora dos casamentos, de outro, Dioniso, o deus das orgias, dos “desregramentos”. O mais sério é que tanto as orgias báquicas como as práticas coletivas das mulheres de Plateias, em homenagem a Hera Teleia, tinham por cenário o monte Citerão, o que inevitavelmente contribuía para açular os ânimos dos adeptos de uma e de outra divindade e aumentar a tradicional rivalidade entre os dois imortais Olimpo. O segundo fato é a morte trágica de Sêmele e o nascimento de Dioniso, da coxa de Zeus. Até mesmo à época tardia, Dioniso ainda era chamado Pyriguenés, Pyrisporos, quer dizer, “nascido ou concebido do fogo”, a saber, do raio. O próprio nome do deus parece estar ligado a uma filiação com o deus celeste indo-europeu Ζεύς (Dzeús), Zeus, genitivo Διός (Diós), que apareceria no primeiro elemento do composto Dioniso. Reunindo estas simples indicações, pode-se tentar reconstruir um mito naturalista elementar: a Terra-Mãe (Sêmele) fecundada pelo raio celeste do deus do Céu (Zeus) gerou uma divindade, cuja essência se confunde com a vida que brota das entranhas da terra. Acontece, no entanto, que, no mito tradicional, Sêmele não é mais uma Grande Mão, e sim uma princesa tebana, uma simples mortal. O raio de Zeus, que fulminou a mãe de Dioniso, embora possa ser interpretado como sinal de um hieròs gámos, que liga duas entidades míticas, o deus do Céu e a deusa Terra, no caso em pauta perde todo o seu conteúdo, porque se trata da união, clandestina por sinal, do deus supremo com uma virgem mortal. O mito, por isso mesmo, foi inteiramente refundido: enganada pela astúcia da ciumenta Hera e desejosa de responder, à altura, aos gracejos de suas irmãos, que não acreditavam estivesse ela grávida de um deus, Sêmele, concebeu o projeto louco de pedir a Zeus que se lhe apresentasse em todo o esplendor de sua majestade divina. A vaidosa princesa tebana sucumbiu fulminada e fez que o filho nascesse precocemente. Esse nascimento prematuro da criança teve por finalidade conferir a Dioniso uma divindade que a simples ascendência paterna não lhe poderia outorgar. No mito grego é de regra que a união de deuses e de mulheres mortais gere normalmente um varão, dotado de qualidades extraordinárias, de areté e time, mas partícipe da natureza humana, donde um mero ser mortal. Salvo por Zeus e completada a gestação na coxa divina, Dioniso será uma emanação direta do pai, donde um imortal, figurando a coxa do deus como o segundo ventre de Dioniso, tal qual o foi a cabeça do mesmo Zeus em relação a Atená.


Mitologia Grega Vol. II - Junito de Souza Brandão

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Sabedoria e Verdade

Dá-me a mão, disse eu, pois, se bem te recordas, é isso que ontem te prometi demonstrar, e a gora me alegro, pois não fui eu que cheguei a essa conclusão mas tu mesmo ma ofereces. Eu afirmei que o que se interpõe entre mim e os acadêmicos é o fato de eles acharem ser provável que não se pode compreender a verdade, e eu, mesmo ainda não tendo encontrado a verdade, ser de opinião que é possível ao sábio encontrar a verdade; mas tu, urdido por minha pergunta, a saber, se o sábio não conhece a sabedoria, respondeste parecer-te que é possível ele conhecer a sabedoria. E o que se deduz disso, disse Alípio? Porque, disse eu, se eles são de opinião que podem conhecer a sabedoria, não podem achar que o sábio nada poderá saber. Ou então, quero que afirmes tu, se a sabedoria nada é.

Contra os Acadêmicos - Santo Agostinho

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Dever e Glória

“Ótimo rei, venerando senhor” No meu próprio interesse
não me defendas; concede-me o prêmio da morte gloriosa.¹
Eu também sei, caro pai, desferir duros golpes com a destra.
Sangue também espadana das grandes feridas que eu abro.
Uma vez ou outra sua mãe divinal não virá ocultá-lo
nalguma nuvem, enquanto ela própria na sobra se esconde”.²


“Quam pro me curam geris, hanc precor, optime, pro me
deponas letumque sinas pro laude pacisci.
Et nos tela, pater, ferrumque haud debile dextra
spargimus; et nostro sequitur de vulnere sanguis.
Longe illi dea mater erit, quae nube fugacem
feminea tegat et vanis sese occulat umbris”.


Livro XII

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes


¹ Morte gloriosa: a bela morte dos guerreiros.

² Alusão à capacidade de Vênus, mãe de Eneias, de ocultá-lo no meio das batalhas.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Audácia e Fortuna

Turno audacioso porém não perdeu a esperança de a praia
vir a ocupar e impedir aos troianos saltarem dos barcos.
Para dar ânimo aos seus, da seguinte maneira increpou-os:
“Tendes à mão justamente o que tanto almejáveis, amigos;
Marte em pessoa vos traz. Cumpre a todos agora lembrar-se
da cara esposa, do lar abençoado. Evocai à memória
os grandes feitos dos nossos avós. Ataquemo-los prestes,
enquanto os pés vacilantes não firmam nos nossos domínios.
Aos audaciosos ajuda a Fortuna”.


Haud tamen audaci Turno fiducia cessit
litora praecipere et venientes pellere terra.
Ultro animos tollit dictis atque increpat ultro:
“Quod votis optastis, adest, perfringere dextra;
in manibus Mars ipse viris. Nunc coniugis esto
quisque suae tectique memor, nunc magna referto
facta, patrum laudes. Ultro occurramus ad undam,
dum trepidi egressisque labant vestigia prima.
Audentes Fortuna iuvat”.


Livro X

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Dignidade e Frugalidade

Antes de a lage transpor, disse Evandro: “Essa pobre soleira
Hércules forte adentrou; hospedamo-lo neste palácio.
A desprezar te acostumes os bens materiais; sê como eles,
sem dedignar-te de ver-te debaixo de um teto tão pobre”.
Disse; e depois de falar, em sua casa modesta o alto Eneias
introduziu, convidando-o a sentar-se num simples estrado
de folhas verdes coberto com a pele de uma ursa africana.


Ut ventum ad sedes: “Haec”, inquit, “limina victor
Alcides subiit, haec illum regia cepit.
Aude, hospes, contemnere opes et te quoque dignum
finge deo rebusque veni non asper egenis”.
Dixit et angusti subter fastigia tecti
ingentem Aenean duxit stratisque locavit
effultum foliis et pelle Libystidis ursae.


Livro VIII

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Fogo e Renascimento

Sim; este filho de Vênis será outro Páris; mais uma
vez hão de as chamas das bodas a Troia incendiar rediviva”.¹


quin idem Veneri partus suus et Paris alter
funestaeque iterum recidiva in Pergama taedae”.


Livro VII

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes


¹ Os romanos portavam uma tocha nos matrimônios, que veio a significar o próprio matrimônio. A tocha simbólica do matrimônio do outro Páris (Eneias) incendiará a nova Troia.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Verso e Autoridade

Só não confies a folhas teus carmes, deixando-os que ao vento
voem jogados daqui para ali; tu, somente, os dirás”.


[...] Foliis tantum ne carmina manda,
ne turbata volent rapidis ludibria ventis;
ipsa canas oro”. [...]


Livro VI

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Recompensa e Dor

Restou Celeno, que foi assentar-se no pico da rocha,
donde, infeliz profetisa, com ódio e amargura externou-se:
‘Guerras? Depois de matardes meus bois e vistosas ovelhas,
progênie de Laomedonte? E, por cima, quereis expulsar-nos,¹
as inocentes Harpias, do reino dos seus genitores?
Ouvi, então, o que tenho a dizer-vos, sem nada ocultar-vos.
Tudo o que Apolo aprendeu com o mais forte dos deuses, e logo
me revelou, eu, das Fúrias a mais poderosa, vos conto.²
Vossos anseios à Itália vos levam. Com prósperos ventos
heis de alcançar por sem dúvida a Itália e adentrar os seus portos.
Mas, antes mesmo de vossa cidade, querida dos deuses
de muros altos cingirdes, haveis de sofrer de sofrer dura fome
por este crime: forçados sereis a roer até as mesas’.


Uma in praecelsa consedit rupe Celaeno,
infelix vates, rumpitque hanc pectore vocem:
‘Bellum etiam pro caede boum stratisque iuvencis,
Laomedontiadae, bellumne infere paratis
et pátrio Harpyias insontes pellere regno?
Accipite ergo animis atque haec mea figite dicta,
quae Phoebo pater omnipotens, mihi Phoebus Apollo
praedixit, vobis Furiarem ego máxima pando.
Italiam cursu petitis ventisque vocatis
ibitis Italiam portusque intrare licebit;
sed non ante datam cingetis moenibus urbem,
quam vos dirá fames nostraeque inuria caedis
ambesas subigat malis absumere mensas’.


Livro III

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes


¹ Laomedonte: rei de Troia, pai de Príamo, que não cumpria o que pactuou com os deuses.
² Aqui Virgílio assimilou as Harpias às Fúrias, também chamadas Eumênidas ou Erínias.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Derrota e Esperança

Vendo-os dispostos a entrar na peleja, tomados de brio,
disse-lhes: ‘Jovens de inútil esforço e ousadia! No caso
de me acolherdes o apelo para uma entrepresa arriscada,
quase loucura, bem vedes para onde a Fortuna bandeou-se:
todos os deuses, esteios da pátria, os santuários e altares
já abandonaram. Correis em defesa de ruínas e escombros
em labaredas. Morramos, então! Avancemos sem medo!
Para os vencidos só há salvação na esperança perdida’.
Com essas palavras inflamo até ao máximo o peito dos jovens.
Tal como lobos rapaces que cegos de fome imperiosa
saem de noite à procura de presa e da cova se afastam,
onde os filhinhos o aguardam com fauces sedentas: por dardos,
por hostes densas rompemos no ruma da morte, até ao centro
da grande Troia. Atra noite por cima de nós circunvoa.
Quem poderia narrar os horrores, o atroz morticínio
daquela noite, ou com o pranto igualar o trabalho dos teucros?
Caiu por terra uma antiga cidade, rainha das outras.


Quo subi confertos audere in proelia vidi,
incipio super his: ‘Iuvenes, fortissima frustra
pectora, si vobis audentem extrema cupido
certa sequi, quae sit rebus Fortuna videtis:
excessere omnes adytis arisque relictis
di quibus imperium hoc steterat; succurritis urbi
incensae; moriamur et in media arma ruamus.
Una salus victis nullam sperare salutem’.
Sic animis iuvenem furor additus. Inde, lupi ceu
raptores atra in nebula, quos improba ventris
exegit caecos rabies, catulique relicti
faucibus exspectante siccis, per tela, per hostes
vadimus haud dubiam in mortem mediaeque tenemus
urbis iter; nox atra cava circumvolat umbra.
Quis cladem illius noctis, quis funera fando
explicet, auto possit lacrimis aequare labores?
Urbs antiqua ruit, multos dominata per anos;


Livro II

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Gregos e Presentes

Nisso, Laocoonte ardoroso, seguido de enorme cortejo,
da sobranceira Almedina desceu para a praia, e de longe
mesmo gritou: ‘Cidadãos infelizes, que insânia vos cega?
Imaginais porventura que os gregos já foram de volta,
ou que seus dons sejam limpos? A Ulisses, então, a tal ponto
desconheceis? Ou esconde esta máquina muitos guerreiros,
ou fabricada ela foi para dano de nossas muralhas,
e devassar nossas casas ou do alto cair na cidade.
Qualquer insídia contém. Não confieis no cavalo, troianos!
Seja o que for, temo os dânaos, até quando trazem presentes’.
Disse, e arrojou com pujança viril um venab’lo dos grandes
contra os costados e o ventre abaulado do monstro da praia
no qual se encrava a tremer; sacudida com o baque, a caverna
solta um gemido, abaladas no fundo as entranhas do monstro.
Oh! se não fosse a vontade dos deuses e a nossa cegueira,
com o ferro, então, deixaríamos frustra a malícia dos gregos,
e em pé, ó Tróia, estarias, o paço luxuoso de Príamo.


Primus ibi ante omnes, magna comitente caterva
Laocoon ardens summa decurrit ab arce,
et procul: ‘O miseri, quae tanta insania, cives?
Creditis avectos hostes? Aut ulla putatis
dona carere dolis Danaum? Sic notus Ulixes?
Aut hoc inclusi ligno occultantur Achivi,
aut haec in nostros fabricate est machina muros,
inspectura domos venturaque desuper urbi,
aut aliquis late terror; equo ne credite, Teucri.
Quidquid id est, timeo Danaos et dona ferentes’.
Sic fatus validis ingentem viribus hastam
in latus inque feri curvam compagibus alvum
contorsit. Stetit illa tremens, uteroque recuso
insonuere cavae gemitumque dedere cavernae.
Et, si Fata deum, si mens non laeva fuisset,
impulerat ferro Argolicas foedare latebras,
Troiaque, nunc stares, Priamique arx alta, maneres.



Livro II

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Humilhação e Orgulho

XCVI

E o homem empurrado, apenas sentiu o empurrão. Caminhava absorto, mas contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o diretor de banco, o que acabava de fazer a visita de pêsames ao Palha. Sentiu o empurrão e não se zangou; concertou o sobretudo e a alma e lá foi andando tranqüilamente.
Convém dizer, para explicar a indiferença do homem, que ele tivera, no espaço de uma hora, comoções opostas. Fora primeiro à casa de um ministro de Estado, tratar do requerimento de um irmão. O ministro, que acabava de jantar, fumava calado e pacífico. O diretor expôs atrapalhadamente o negócio, tornando atrás, saltando adiante, ligando e desligando as frases. Mal sentado, para não perder a linha do respeito, trazia na boca um sorriso constante e venerador; e curvava-se, pedia desculpas. O ministro fez algumas perguntas; ele, animado, deu respostas longas, extremamente longas e acabou entregando um memorial. Depois ergueu-se, agradeceu, apertou a mão ao ministro, este acompanhou-o até à varanda. Aí fez o diretor duas cortesias, - uma em cheio, antes de descer a escada, - outra em vão, já embaixo, no jardim; em vez do ministro, viu só a porta de vidro fosco e, na varanda, pendente do tecto, o lampião de gás. Enterrou o chapéu e saiu. Saiu humilhado, vexado de si mesmo. Não era o negócio que o afligia, mas os cumprimentos que fez, as desculpas que pediu, as atitudes subalternas, um rosário de atos sem proveito. Foi assim que chegou à casa de Palha.
Em dez minutos, tinha a alma espantada e restituída a si mesma, tais foram as mesuras do dono da casa, os apoiados de cabeça e um raio de sorriso perene, não contando oferecimentos de chá e charutos. O diretor fez-se então severo, superior, frio, poucas palavras; chegou a arregaçar, com desdém, a venta esquerda, a propósito de uma idéia do Palha, que a recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do ministro o gesto lento. Saindo, não foram dele as cortesias, mas do dono da casa.
Estava outro, quando chegou à rua, daí o andar sossegado e satisfeito, o espraiar da alma devolvida a si própria e a indiferença com que recebeu o embate do Rubião. Lá se ia a memória dos seus rapapés; agora o que ele rumina saborosamente são os rapapés de Cristiano Palha.


Quincas Borba – Machado de Assis

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Vexame e Riso

LIII

Perdoem-lhe esse riso. Bem sei que o desassossego, a noite mal passada, o terror da opinião, tudo contrasta com esse riso inoportuno. Mas, leitora amada, talvez a senhora nunca visse cair um carteiro. Os deuses de Homero, - e mais eram deuses, - debatiam uma vez no Olimpo, gravemente e, até, furiosamente. A orgulhosa Juno, ciosa dos colóquios de Tétis e Júpiter em favor de Aquiles, interrompe o filho de Saturno. Júpiter troveja e ameaça; a esposa treme de cólera. Os outros gemem e suspiram. Mas quando Vulcano pega da urna de néctar e vai, coxeando, servir a todos, rompe no Olimpo uma enorme gargalhada inextinguível. Por quê? Senhora minha, com certeza nunca viu cair um carteiro.
Às vezes, nem é preciso que ele caia; outras vezes nem é sequer preciso que exista. Basta imaginá-lo ou recordá-lo. A sombra da sombra de uma lembrança grotesca projeta-se no meio da paixão mais aborrecível e o sorriso vem, às vezes, à tona da cara, leve que seja, - um nada. Deixemo-la rir e ler a sua carta da roça.


Quincas Borba – Machado de Assis

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Sofrimento e Consolação

14. Tem por certo que a tua vida deve ser uma morte contínua; quanto mais cada um morre a si mesmo, tanto melhor começa a viver para Deus.
Só é capaz de compreender as coisas do Céu quem se resigna a suportar, por amor de Cristo, as adversidades.
Não há nada mais agradável a Deus, nem mais proveitoso para ti neste mundo, que padecer de boa vontade por Cristo.
E se te dessem a escolher, deverias preferir sofrer, trabalhar por Ele ao invés de ser recreado com muitas consolações, porque assim te assemelharias mais a Cristo e melhor te conformarias com o exemplo de todos os santos.
O nosso merecimento e o progresso na perfeição consistem menos na abundância das doçuras e consolações do que em passar por grandes trabalhos e graves provações.

15. Se houvesse coisa melhor e mais útil para a salvação dos homens do que o sofrimento, Jesus Cristo nos teria, sem dúvida, ensinado com usas palavras e exemplos.
Ora, aos discípulos que o acompanhavam e a quantos desejam segui-Lo, Ele exorta claramente a levar a cruz dizendo: Quem quiser vir após mim renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.¹
Assim, pois, lidas e bem pesadas todas as coisas, seja esta a última conclusão: Para entrar no Reino de Deus é necessário passar por muitas tribulações.²


Tomás de Kempis – A Imitação de Cristo

¹ Mt 16, 24.

² At 14, 21.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Disposição e Distração

7. Quem estima as coisas pelo que são, e não pelo que delas dizem ou julgam os homens, é verdadeiramente sábio, instruído mais por Deus do que pelas criaturas.
Quem sabe viver recolhido dentro de si e pouco se inquieta com as coisas exteriores, não precisa escolher lugar nem aguardar o tempo para seus exercícios de devoção.
O homem interior bem depressa se recolhe porque nunca se espalha de todo nas coisas externas. Não o estorva o trabalho material nem a ocupação às vezes necessária; acomoda-se às coisas como ocorrem.
A quem está bem disposto e ordenado no seu interior, pouco se lhe dá dos feitos famosos ou perversos dos homens.
O homem não é embaraçado e distraído pelas coisas senão na medida em que a elas se apega.

Tomás de Kempis – A Imitação de Cristo

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Paixão e Paz

Das afeições desordenadas

1. Todas as vezes que o homem deseja alguma coisa desordenadamente, passa logo a sentir-se inquieto.
O soberbo e o avarento nunca têm descanso; o pobre e o humilde de espírito vivem em muita paz.
Quem ainda não se mortificou perfeitamente caba sendo bem depressa tentado e vencido em coisas pequenas e insignificantes.
O fraco de espírito, ainda um tanto carnal e inclinado às coisas sensíveis, dificilmente pode desapegar-se de todos os desejos da Terra; e por isto sente-se muitas vezes triste quando deles se priva e com facilidade se irrita se alguém o contraria.

2. Mas se alcança o que desejava, logo o oprime o remorso de consciência por haver seguido sua paixão que não lhe traz a paz que buscava.
É, com efeito, resistindo e não obedecendo às paixões que se encontra a verdadeira paz de coração.
Pois, não terá Paz o homem carnal nem o dissipado, mas o fervoroso e espiritual.



Tomás de Kempis – A Imitação de Cristo

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Amor e Morte

terrarum, quascumque vident occasus et ortus,
nos duo turba sumus; possedit cetera pontus.
haec quoque adhuc vitae non est fidúcia nostrae
certa satis; terrent etiamnum nubila mentem.
quis tibi, si sine me fatis erepta fuisses,
nunc animus, miseranda, foret? quo sola timorem
ferre modo posses? quo consolante doleres!
namque ego (crede mihi), si te quoque pontus haberet,
te sequerer, coniunx, et me quoque pontus haberet.


Do nascente ao poente, em toda a terra
Só habitamos nós, só nos vivemos:
Tudo o mais pelas ondas foi tragado,
E cuido que não tens ainda segura
Tua existência tu, nem eu a minha:
Estas nuvens, que observo, ainda me aterram.
Ah, triste! Que farias se arrancada
Ao fado universal sem mim te visses!
Onde, fria de susto, onde levaras
A planta vacilante, e quem seria
Tua consolação na dor, no pranto?
Crê, minha amada, que se o mar sanhudo
Te escondesse nas sôfregas entranhas,
Te houvera de seguir o aflito esposo,
Sócio te fora em vida, e sócio em morte.



O Dilúvio – As Metamorfoses – Ovídio – Tradução de Manuel du Bocage


* A planta vacilante: os pés; enfatizados pelo termo “planta” em seu caráter fixo, de raiz, são porém contrastados com o adjetivo “vacilante”, indicando que a solidez de Pirra, seu chão, estava no seu esposo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Retórica e Finalidade

A meta última da Retórica, enquanto escola de oradores e enquanto arte liberal, a qual não deve ser perdida de vista jamais, é conhecer como se encontram argumentos, e quais são os acessórios que os amplificam e adornam, para se causar a persuasão em cada caso. Destarte, todas as técnicas citadas precisam, ao fim e ao cabo de muito treino, enfeixar-se numa perícia quase intuitiva para se capturar argumentos, de maneira análoga ao sabujo que fareja sua presa e a conduz até o caçador.

Ao longo do tempo, houve duas definições principais de retórica. A platônico-aristotélica, que a explica como arte de encontrar argumentos persuasivos, que referimos aqui; e a dos demais retóricos, e mais especialmente de Quintiliano, que a definem como bene dicendi scientia, isto é, a ciência da boa expressão.

Não é nosso ofício neste livro introdutório confirmar uma destas, refutando a outra; é bom que o aluno que está principiando o estudo conheça as duas e medite a respeito, por ora.

Antes de terminar o capítulo, resta apenas discutirmos a dificuldade da moralidade. A crítica dos filósofos na Antiguidade dizia respeito a esse aspecto do uso da retórica, ao ponto de Platão afirmar, pela boca de Sócrates, que a retórica era um falso uso das leis. A crítica é relevante, pois a utilização de um ferramental agudíssimo de persuasão para inculcar uma crença que seja sabidamente mentirosa, ou da qual o orador não possui o menor grau de segurança, configura certamente uma ação deletéria que, se muito disseminada entre a classe intelectual, poderá terminar por corroer as bases da sociedade. Isso já foi visto por diversas vezes e, sem dúvida, em algum grau que não é de pouca monta, ocorre na sociedade brasileira hoje em dia, mormente entre jornalistas, artistas e propagandistas de toda sorte.

Com isso, não estamos dizendo que esse pessoal tenha tido um treinamento completo em retórica: mas tão-somente que as técnicas retóricas de contrafação de argumentos e de ideias são de fácil aquisição e estão em perpétua circulação (já que tudo é mais fácil para quem só tem por meta arrebentar com tudo).

A isso, somente uma retórica idônea poderá fazer frente. A dialética e a filosofia tratam dos temas de forma muito abstrata para que possam penetrar nas massas: é preciso, pois, que verdadeiros retores e oradores ou ao menos filósofos e cientistas que detenham as técnicas dessa arte , possam tomar de assalto o palco das discussões públicas a fim de pregar alguma racionalidade e sincera devoção à verdade.


Trivium e Quadrivium A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 Instituto Hugo de São Vitor

Retórica e Ordenação

Retórica

A arte da retórica, do currículo escolar brasileiro, está ausente há muito tempo. Seu abuso, não obstante, e por incrível que pareça, é uma das características que tem definido nossa literatura, a de ficção tanto quanto a acadêmica, desde sempre isto é, no sentido negativo de ornamentação pomposa e rebuscada, de garrulice pedante e oca.

Claro que esse sentido negativo pouco ou nada tem que ver com a verdadeira retórica, como entendida pelos antigos. Entretanto, é assim que o termo é usado hoje em dia: para designar os penduricalhos em um discurso vazio, ou certas técnicas para ludibriar o comprador e efetivar uma venda.

Na tradição antiga, já existia a tendência a equiparar a retórica aos ornatos que embelezam, à ordenação dos argumentos, às poses e tons da declamação; e, com certeza, esses aspectos fazem parte da arte, quando bem compreendidos. Há, porém, aspectos mais profundos dela também, que aqui serão tratados.

Para começo de conversa, na Grécia Antiga, a retórica foi alvo do ataque platônico que a criticava por ser usada como um instrumento imoral de convencimento enganoso; ao mesmo tempo, era vista como inferior à dialética: esta seria caminho para a verdade certa e segura, ao passo que a retórica lidaria com argumentos apenas verossímeis, que aparentam a verdade.

Em meio a essa disputa, Aristóteles interpôs um princípio de ordem ao associar a retórica com a dialética, na condição de άντιστροφή, antístrofe. Neste panorama, as duas artes respondem uma a outra; assim, elas tratariam das mesmas questões em muitos casos, mas de maneira diversa, sendo uma abordagem o complemento da outra.

Com relação à retórica, Aristóteles a enxergava como uma faculdade para encontrar os argumentos mais persuasivos em cada situação. Uma das dificuldades que podemos ter com relação à compreensão da natureza dessa arte é devido ao fato de que ela lida com opiniões e com o convencimento, que são fenômenos mentais. Assim, ao contrário da arte da gramática, que possui um substrato material no som e na grafia, a retórica lida diretamente com entes de razão e com sentimentos subjetivos. Com efeito, as opiniões e os argumentos fazem parte dos meios de persuasão. E a própria persuasão, ou convencimento, é um assentimento da razão com algum grau de segurança psicológica. Ora, em muitas ocasiões, não conseguimos mensurar em nós mesmos qual é o grau de que temos em uma opinião. Assim sendo, não espanta que para muitos a retórica seja uma arte com meios e fins fantasmagóricos, mera manipulação.

Por outro lado, outros esposam a opinião oposta, e afirmam que, na verdade, ao homem só é possível alcançar opiniões mais ou menos seguras conforme a habilidade do orador, estando a ele vedadas as certezas absolutas sobre qualquer assunto. Há outros que, indo até mais longe, afirmam que não é possível ter segurança sobre nada, restando apenas adotar o filtro retórico que seja mais funcional na vida prática como Scott Adams no livro Win Bigly. Quem assim opina geralmente possui um pendor para enxergar o mundo através de lentes retóricas.

Seja como for, a verdade é que a arte retórica, mormente dentro no painel de estudos do Trivium, tem como uma das metas prover o aluno com os instrumentos para atuar no mundo labiríntico das opiniões principalmente das opiniões políticas e do direito.

Coisa que já se observou muita vez, as opiniões com menor grau de certeza são as que mais geram em torno de si furor e beligerância. Daí que vejamos com triste frequência intelectuais com dificuldade no discernimento entre fato e opinião, e maior dificuldade ainda em se conseguir aquilatar a validade de uma crença pessoal; de modo que o que reina é o capricho e o gosto pessoal, mesmo em assuntos graves que requeriam uma análise técnica. É justamente essa análise técnica o que a retórica possibilita.

Na visão aristotélica, a retórica é considerada a ciência ou arte de desenvolver as questões em debate na sociedade até o ponto em que estejam prontas para o confronto dialético. Assim, a retórica colhe das impressões, opiniões e crenças as diversas correntes em uma sociedade e começa a trabalhá-las, através da busca por argumentos que as corroborem. Normalmente, o que ocorre é que os argumentos trabalhados retoricamente acabam dando azo à criação de seitas engessadas, e partir daí surgem debates e mais debates, geralmente inflamados. Um exemplo clássico é a separação ocidental entre direita e esquerda (com todas as inúmeras subdivisões que dela decorrem), que há mais de 200 anos pauta infindáveis discussões políticas, as quais até hoje não tiveram uma solução conclusiva e parecem longe de ter.

A esta altura, já podemos divisar dois sentidos para a palavra. Retórica pode significar a faculdade natural de procurar argumentos em favor de uma tese qualquer; ou, então, a arte extremamente refinada que foi engendrada para facilitar o alcance desse fim. Isto é dizer que, já por natureza, tendemos a sair à cata de argumentos que embasem nossas crenças e que possam servir para convencer nossos interlocutores; ao passo que a arte vem corroborar e racionalizar essa atividade humana.

Junto com essa atividade, porém, há inevitavelmente misturado o perigo da desvirtuação. Foi contra ele que os filósofos se levantaram no passado. E, ao longo da história do Ocidente, essa disputa foi reencenada diversas vezes. Mais recentemente, a escola filosófica dos chamados utilitaristas foi uma retomada dos postulados viciosos dos sofistas, que eram retóricos na Grécia Antiga que diminuíam a capacidade intelectual humana a um subjetivismos quase absoluto; só não o era por completo porque os próprios sofistas vendiam justamente a técnica que diziam ser a adequada para influenciar os outros e se dar bem na vida.

Assim, se formos aos extremos viciosos, a entronização da retórica vai na direção do subjetivismo, bem como a da dialética vai na direção de um objetivismo exacerbado que também é malsão. Somente o ajuste adequado dessas duas visões de mundo, personificadas na retórica e na dialética, darão equilíbrio ao modo de ver do estudante. Um exemplo excelente desse equilíbrio pode ser encontrado na obra do nosso Mário Ferreira dos Santos, que formulou sua decadialética e pentadialética para bem ponderar os aspectos subjetivos e objetivos da percepção e do intelecto humanos.

Bem, mas então alguém poderá perguntar-se: por que a retórica conduz ao subjetivismo?

Acontece que a retórica lida com questões em voga na sociedade as quais não foram e não podem ser resolvidas de forma analítica. E são questões sobre as quais as pessoas têm uma crença e uma opinião pessoais. Desta forma, o modo retórica de trata-las é apelar para as crenças gerais da sociedade, e não diretamente para a razão objetiva. No mais das vezes, como dito, nem sequer é possível fazer uma análise objetiva. Vemos, assim, que muito do foco da retórica está na plateia, e não no argumento puro e simples. E é esse aspecto que pode conduzir ao subjetivismo ou ao utilitarismo.

Com o que foi dito no parágrafo anterior, nota-se que, na argumentação de tipo retórico, a tentativa de ir contra uma crença bem estabelecida da sociedade é praticamente um suicídio argumentativo. Desta forma, um advogado que tentasse argumentar a favor da moralidade do assassinato teria chances tendentes a zero de sucesso. Por outro lado, argumentar que seu cliente não cometeu assassinato, mas autodefesa, está dentro do escopo dessa arte.

Esse aspecto subjetivo, que é a obrigação de se ter sempre a plateia em mente, é a explicação também de outro aspecto da retórica: o embelezamento e a ordenação do discurso.

Algumas mentes de índole fortemente dialética torcem o nariz para esse aspecto, pois pensam que a verdade e a objetividade de uma afirmação são o que importa, e que qualquer adorno discursivo servirá apenas para desviar a atenção do foco. Tais pessoas, é força dizer, dificilmente vencerão uma eleição ou um concurso que requeira apresentação de qualidades amáveis e urbanas; ou, pelo contrário, dificilmente conseguirão mover um exército de pessoas a bater-se contra um inimigo que esteja prestes a destruir sua civilização.

É um fato que o homem não é razão calculante apenas; mas, também, e muitas vezes principalmente, desejo e paixão. Ignorar estas dimensões, e viver no aguardo da era em que a humanidade vá finalmente estar livre delas, é tentativa de fuga da realidade. Devemos admitir, assim, que o homem é vir desiderorum e que ama o belo e o prazenteiro bem como sente repulsa pelo feio e pelo doloroso. Por isso, no âmbito do discurso retórico, a beleza e a organização serão inevitavelmente parta da ordem do dia.


Trivium e Quadrivium – A Doutrina das 7 Artes Liberais - Coleção de Artes Liberais Volume 1 – Instituto Hugo de São Vitor

Trivium e Dimensões

Vimos, portanto, que as disciplinas do Trivium não acabaram juntas no mesmo modelo pedagógico de maneira simples e fácil; isso se deu apenas depois de muito debate e brigas ferrenhas. Basta lembrar da rivalidade entre a escola de Platão e a de Isócrates.

Convém, no entanto, nunca esquecer essa rivalidade e essa tensão entre as artes, pois o equilíbrio entre elas é dialético, por assim dizer utilizando esse termo em uma acepção mais moderna, no sentido de que é preciso articular os três tipos de análise a cada momento do estudo. Dando um exemplo simplório: uma palavra é composta de som ou gráfica + significado dicionarizado, na gramática; esse significado, porém, do monto de vista da retórica, é modulado pelo apelo psicológico que a palavra também tem (para cada audiência em particular), pelas possibilidades de sentido figurado, etc., sua posição no argumento; do ponto de vista da dialética, a palavra será analisada dentro de um enquadramento lógico rigoroso, levando em conta se é substância ou acidente, qual seu gênero e diferença específica, etc. Todas essas dimensões estão dentro de cada palavra. Não que seja possível nem desejável submeter todos os termos de um texto a um escrutínio exaustivo; isso seria exacerbado logicismo (que também é uma tendência nociva existente no mundo pós-Trivium). Mas, de fato, é preciso fazer esse tipo de análise quando lidamos com as palavras-chave de um discurso.

Ao compor um texto, e na hora escolher por este ou aquele vocábulo, todas essas dimensões pesam, ainda que boa parte dos escritores não consiga nem sequer dar pela sua existência.

Bem, há ainda um aspecto a ser tratado com respeito à rivalidade das artes do Trivium. As facções rivais parecem ter um substrato comportamental. Assim, o leitor estudante do Trivium deve levar em conta que ele, provavelmente, se afeiçoará, preferirá e mesmo verá o mundo de um ponto de vista atinente a uma das artes em especial; mas isso não o deve impedir de estudar as outras. Assim, o tipo mais poético, de imaginação mais rica, com o tino para símbolos, paradigmas narrativos, sons, descrições, etc., deverá acabar deleitando-se mais no estudo da gramática. O tipo mais voltado para a ação no mundo, para o debate político ou para a pregação religiosa, para a liderança de grupos arregimentados, este provavelmente terá mais prazer no estudo retórico. O tipo mais científico, com pendor para as matemáticas, para o que é claro e distinto, para a vida contemplativa em sentido estrito, esse poderá encontrar-se mais bem instalado no estudo da dialética.

Tudo isso, claro, deve ser entendido cum grano salis. Existem tipos intermediários e até aqueles que insistirão que não se encaixam em nenhuma classe. Não é necessário brigar por causa disso. O importante é que se estudem todas as três artes.

 

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Retórica e Lição

Estas páginas contêm lições sobre educação; é um livro de pedagogia. O nível do discurso que adoto aqui é retórico. Não se trata de uma pesquisa, pois carece das inúmeras referências citadas à exaustão que tornam um texto enfadonho e quase ilegível. Não é um tratado filosófico, pois carece do rigor da argumentação lógica. Por outro lado, também não é um texto poético, pois não lido com o que poderia ser ou ter sido, mas antes com o que deveria ser a partir daquilo que é ou foi; este texto é, como eu disse, retórico. Se é um texto retórico, precisa cumprir com os fins da Arte Retórica. Estas lições precisam ensinar (ou persuadir), mover (hoje em dia, é uma pena, dizemos motivar) e deleitar. Este último é o mais difícil dos fins, entretanto, porei todo o esforço em cumpri-lo.

A Retórica é uma arte importante para o ofício de um pedagogo. Outro motivo pelo qual adoto um discurso retórico está no título: lições. A Retórica é uma arte quase morta que só tem interessado alguns poucos críticos literários e um número menor ainda de pesquisadores da publicidade e da propaganda. Ela está morta como estão mortos o Latim e o Grego Antigo. Assim como estas duas línguas, a Retórica está pronta, é imutável e, por isso, imortal. Outra coisa é que o nível retórico de discurso é o que mais serve ao estilo epistolar destas páginas. Quando Alexandre, o Grande, toma o poder sobre toda população de cultura grega, e as decisões políticas passam a ser centralizadas, a Arte Retórica, que por séculos vinha sendo ensinada e aprimorada, perde muito de sua aplicabilidade pública  passando a servir não mais a políticos e juristas, mas a qualquer pessoa desejosa de persuadir, mover e deleitar outrem.


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sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Retórica e Persuasão

II. DISCURSO RETÓRICO

Visa, essencialmente, a persuadir alguém a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa: aprovar ou rejeitar uma lei, movera a guerra ou estabelecer a paz, eleger ou derrubar um governante, absolver ou condenar um réu. Todo discurso retórico contém, assim, de maneira mais ou menos explícita, um comando ou um apelo. Ele tenciona que esse apelo seja atendido, esse comando obedecido.

Sua influência sobre o ouvinte é portanto bem diferente daquela do discurso poético. Este operava uma transformação na alma do ouvinte, mas, como esta transformação ocorria em camadas muito profundas, não podia resultar num efeito exterior imediato e prático, traduzir-se logo numa decisão ou ação precisa e determinada. O discurso poético, na verdade, antes predispõe de longe a certas atitudes, do que as ordena ou solicita. A influência do discurso retórico é menos profunda, porém mais evidente imediata, mais traduzível em ações exteriores. Enquanto o discurso poético procura absorver a alma inteira do ouvinte, deixando nela uma marca profunda que se integre na sua personalidade “como se a própria vida falasse”, mas abdicando, por isto mesmo, de tirar disso qualquer proveito prático imediato, o discurso retórico contenta-se com influenciar o ouvinte durante um determinado período de tempo e para os fins de uma determinada decisão ou ação em particular. O advogado que discursa no foro não pretende transformar de maneira profunda e duradoura a alma dos jurados, mas apenas persuadi-los a absolver ou a condenar o réu naquela precisa circunstância. Se depois eles se arrependerem do voto, pouco importa: a influência da retórica termina no ponto exato em que a ação se desencadeou conforme o esperado.

O discurso poético não dá ao ouvinte nenhuma ordem determinada. Mesmo quando expressa mandamentos, como no caso dos épicos religiosos, o faz numa linguagem simbólica que dá margem a toda uma variedade de interpretações posteriores, e é só através destas (expressas, por sua vez, em linguagem dialética ou retórica) que os mandamentos, muito gerais, se convertem em normas determinadas. Alguns textos sacros, no entanto, contém exortações e comandos explícitos, de mistura com expressões simbólicas. Por isto alguns tratadistas, como Frye, preferem classificar esses textos num gênero intermediário, o Kerigma, misto de poético e retórico. Pode-se admitir esta denominação, com a ressalva de que, em todo discurso, os elementos poéticos e retóricos nunca estarão fundidos numa massa homogênea, mas permanecerão sempre passíveis de distinção.

O discurso retórico, por sua vez, emite sempre uma ordem ou pedido que, mesmo implícito, será sempre concreto e determinado; motivo pelo qual tem de ser inteligibilidade literal e imediata (isto é, imediatamente referida às circunstâncias práticas que lhe interessam). Um discurso poético pode ter tantas “interpretações” quantas se queira, sem que isto prejudique em nada o seu efeito, que às vezes é tanto mais profundo quanto mais variadas as interpretações. Um discurso retórico, ao contrário, não terá eficácia nenhuma. Palavras obscuras podem fascinar ou comover; mas não podem transmitir uma ordem precisa e determinada. (O que não quer dizer que um discurso retórico em particular não possa também conter virtudes poéticas e, neste sentido, reverberar numa multiplicidade de sentidos simbólicos, contanto que o literal esteja garantido.)

A credibilidade do discurso retórico consiste em sua faculdade de fazer o ouvinte querer alguma coisa (ou rejeitar alguma coisa). Este efeito se obtém por uma identificação, ao menos aparente e momentânea, da vontade do ouvinte com a vontade do orador. Este faz o ouvinte sentir que a proposta contida no discurso coincide, em última instância, com a vontade íntima do próprio ouvinte. Já não se trata portanto, somente de uma participação consentida numa certa vivência contemplativa, mas na admissão consentida de uma identidade de vontades, portanto de decisões.

O discurso retórico apela, no fundo, ao sentimento de liberdade do ouvinte, ao seu impulso de decidir, de agir por si mesmo, de afirmar sua vontade. Por isto a Retórica antiga considerava importante que o orador captasse primeiro as inclinações do auditório, para poder fazer a ponte entre essas inclinações e o objetivo desejado.

Há, é claro, pontes falsas: o orador faz o auditório imaginar que quer uma coisa, quando de fato quer outra, que o orador trata de fazê-lo esquecer por uns momentos. Mas a eficácia de tais truques é bastante limitada, e seu uso constante reduz a nada a credibilidade do orador. A retórica verdadeira se baseia sempre na autêntica vontade do auditório, procurando apenas orientá-la ou transformá-la suavemente, sem forçar mudanças nem muito menos ludibriar o auditório. Abraham Lincoln, um dos maiores oradores de todos os tempos, disse: “Você pode enganar algumas pessoas durante muito tempo ou muitas pessoas durante algum tempo, mas não pode enganar a todo mundo o tempo todo.” O retórico sabe que a vontade, em última análise, não pode ser persuadida senão a fazer precisamente o que quer, e que no máximo é possível trocar uma vontade superficial e momentânea por outra mais profunda, já latente no coração do auditório. Nesse sentido, a retórica apela para o que exista de melhor na alma do ouvinte, e tem por isto uma função moral e política, como exercício da decisão responsável.


Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos – Olavo de Carvalho

Discursos e Disposições

1. As quatro ciências do discurso tratam de quatro maneiras pelas quais o homem pode, pela palavra, influenciar a mente de outro homem (ou a sua própria). As quatro modalidades de discurso caracterizam-se por seus respectivos níveis de credibilidade:

(a) O discurso poético versa sobre o possível (δυνατος, dínatos), dirigindo-se sobretudo à imaginação, que capta aquilo que ela mesma presume (εικαστικος ,eikásticos, “presumível”; εικασια , eikasia, “imagem”, “representação”).

(b) O discurso retórico tem por objeto o verossímil (πιθανος , pithános) e por meta a produção de uma crença firme (πιστις , pístis) que supõe, para além da mera presunção imaginativa, a anuência da vontade; e o homem influencia a vontade de um outro homem por meio da persuasão (πειθω , peitho), que é uma ação psicológica fundada nas crenças comuns. Se a poesia tinha como resultado uma impressão, o discurso retórico deve produzir uma decisão, mostrando que ela é a mais adequada ou conveniente dentro de um determinado quadro de crenças admitidas.

(c) O discurso dialético já não se limita a sugerir ou impor uma crença, mas submete as crenças à prova, mediante ensaios e tentativa de traspassa-las por objeções. É o pensamento que vai e vem, por vias transversas, buscando a verdade entre os erros e o erro entre as verdades (δια, diá, = “através de” e indica também duplicidade, divisão). Por isto a dialética é também chamada periástica, da raiz peirá (πειρα = “prova”, “experiência”, de onde vem πειρασμος, peirasmos, “tentação”, e as nossas palavras empiria, empirismo, experiência etc., mas também, através de πειρατες, peirates, “pirata”: o símbolo mesmo da vida aventureira, da viagem sem rumo predeterminado). O discurso dialético mede enfim, por ensaios e erros, a probabilidade maior ou menor de uma crença ou tese, não segundo sua mera concordância com as crenças comuns, mas segundo as exigências superiores da racionalidade e da informação acurada.

(d) O discurso lógico ou analítico, finalmente, partindo sempre de premissas admitidas como indiscutivelmente certas, chega, pelo encadeamento silogístico à demonstração certa (αροδειξις, apodêixis, “prova indestrutível”) da veracidade das conclusões.

É visível que há aí uma escala de credibilidade crescente: do possível subimos ao verossímil, deste para o provável e finalmente para o certo ou verdadeiro. As palavras mesmas usadas por Aristóteles para caracterizar os objetivos de cada discurso evidenciam essa gradação: há, portanto, entre os quatro discursos, menos uma diferença de natureza que de grau.

[...]

2. Mas Aristóteles vai mais longe: ele assinala a diferente disposição psicológica correspondente ao ouvinte de cada um dos quatro discursos, e as quatro disposições formam também da maneira mais patente, uma gradação:

(a) Ao ouvinte do discurso poético cabe afrouxar sua exigência de verossimilhança, admitindo que “não é verossímil que tudo sempre aconteça de maneira verossímil”, para captar a verdade universal que pode estar sugerida mesmo por uma narrativa aparentemente inverossímil. Aristóteles, em suma, antecipa a suspension of disbelief de que falaria mais tarde Samuel Taylor Coleridge. Admitindo um critério de verossimilhança mais flexível, o leitor (ou espectador) admite que as desventuras do herói trágico poderiam ter acontecido a ele mesmo ou a qualquer outro homem, ou seja, são possibilidades humanas permanentes.

(b) Na retórica antiga, o ouvinte é chamado de juiz, porque dele se espera uma decisão, um voto, uma sentença. Aristóteles, e na esteira dele toda a tradição retórica, admite três tipos de discursos retóricos: o discurso forense, o discurso deliberativo e o discurso epidíctico ou de louvor e censura (a um personagem, a uma obra, etc.). Nos três casos, o ouvinte é chamado a decidir: sobre a culpa ou inocência de um réu, sobre a utilidade ou nocividade de uma lei, de um projeto, etc., sobre os méritos ou deméritos de alguém ou de algo. Ele é, portanto, consultado como autoridade: tem o poder de decidir. Se no ouvinte do discurso poético era importante que a imaginação tomasse as rédeas da mente, para leva-la ao mundo do possível num vôo do qual não se esperava que decorresse nenhuma consequência prática imediata, aqui é a vontade que ouve e julga o discurso, para, decidindo, criar uma situação no reino dos fatos.

(c) Já o ouvinte do discurso dialético é, interiormente ao menos, um participante do processo dialético. Este não visa a uma decisão imediata, mas a uma aproximação da verdade, aproximação que pode ser lenta, progressiva, difícil, tortuosa, e nem sempre chega a resultados satisfatórios. Neste ouvinte, o impulso de decidir deve ser adiado indefinidamente, reprimido mesmo: o dialético não deseja persuadir, como o retórico, mas chegar a uma conclusão que idealmente deva ser admitida como razoável por ambas as partes contendoras. Para tanto, ele tem de refrear o desejo de vencer, dispondo-se humildemente a mudar de opinião se os argumentos do adversário forem mais razoáveis. O dialético não defende um partido, mas investiga uma hipótese. Ora, esta investigação só é possível quando ambos os participantes do diálogo conhecem e admitem os princípios básicos com fundamento nos quais a questão será julgada, e quando ambos concordam em ater-se honestamente às regras da demonstração dialética. A atitude, aqui, é de isenção e, se preciso, de resignação autocrítica. Aristóteles adverte expressamente os discípulos que não se aventurem a terçar argumentos dialéticos com quem desconheça os princípios da ciência: seria expor-se a objeções de mera retórica, prostituindo a filosofia.

(d) Finalmente, no plano da lógica analítica, não há mais discussão: há apenas a demonstração linear de uma conclusão que, partindo de premissas admitidas como absolutamente verídicas e procedendo rigorosamente pela dedução silogística, não tem como deixar de ser certa. O discurso analítico é o monólogo do mestre: ao discípulo cabe apenas receber e admitir a verdade. Caso falhe a demonstração, o assunto volta à discussão dialética.


Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos – Olavo de Carvalho