sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Atenção e Tédio

Os desempenhos culturais da humanidade, dos quais faz parte também a filosofia, devem-se a uma atenção profunda, contemplativa. A cultura pressupõe um ambiente onde seja possível uma atenção profunda. Essa atenção profunda e cada vez mais deslocada por uma forma de atenção bem distinta, a hiperatenção (hyperattention). Essa atenção dispersa se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. E visto que ele tem uma tolerância bem pequena para o tédio, também não admite aquele tédio profundo que não deixa de ser importante para um processo criativo. Walter Benjamin chama a esse tédio profundo de um "pássaro onírico, que choca o ovo da experiência"¹. Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual. Pura inquietação não gera nada de novo. Reproduz e acelera o já existente. Benjamin lamenta que esse ninho de descanso e de repouso do pássaro onírico está desaparecendo cada vez mais na modernidade. Não se "tece mais e não se fia". O tédio seria um pano cinza quente, forrado por dentro com o mais incandescente e o mais colorido revestimento de seda que já existiu" e no qual "nos enrolamos quando sonhamos". Nos "arabescos de seu revestimento estaríamos em casa"². Com o desaparecimento do descanso, teriam se perdido os "dons do escutar espreitando" e desapareceria a "'comunidade dos espreitadores". Nossa comunidade ativa é diametralmente oposta àquela. O "dom de escutar espreitando" radica-se precisamente na capacidade para a atenção profunda, contemplativa, à qual o ego hiperativo não tem acesso. Quem se entedia no andar e não tolera estar entediado ficará andando a esmo inquieto, irá se debater ou se afundará nesta ou naquela atividade. Mas quem é tolerante com o tédio, depois de um tempo irá reconhecer que possivelmente é o próprio andar que o entedia. Assim, ele será impulsionado a procurar un movimento totalmente novo. O correr ou o cavalgar não é um modo de andar novo. É um andar acelerado. A dança, por exemplo, ou balançar-se, representa um movimento totalmente distinto. Só o homem pode dançar. Possivelmente no andar é tomado por um profundo tédio, de tal modo que por essa crise o tédio transponha passo do correr para o passo da dança. Comparada com o andar linear, reto, a dança, com seus movimentos revoluteantes, é um luxo que foge totalmente do princípio do desempenho.


¹ BENJAMIN, W. Gesammelte Schriften. Vol. II /2. Frankfurt a.M., 1977, P.446.
² BENJAMIN. Passagen-Werk - Gesammelte Schriften Vol. V/1. Frankfurt a.M., 1982, p. 161.


Sociedade do Cansaço - Byung-Chul Han

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Original e Imitação

- Sim - disse Dom Quixote - porque, se voltares depressa donde te quero agora enviar, depressa acabará a minha pena, e terá princípio a minha glorificação; e como não há razão que te dilate por mais tempo suspenso, à espera do fim a que se encaminham as minhas razões, quero, Sancho, que saibas que o famoso Amadis de Gaula foi um dos mais perfeitos cavaleiros andantes. Não disse bem "foi um"; foi o único, o primeiro, o mais cabal, e o senhor de todos quantos em seu tempo no mundo houve. Não venha cá Dom Belianis, ou outro qualquer, dizer que se lhe igualou, fosse no que fosse; porque se enganam; juro em boa verdade. E é assim, sem dúvida nenhuma; e quando não, que me respondam: se quando qualquer pintor quer sair famoso em sua arte, não procura imitar os originais dos melhores pintores de que há notícia? Esta mesma regra se observa em todos os mais ofícios ou exercícios de monta com que se adornam as repúblicas. Assim o há-de fazer, e faz, quem aspira a alcançar nomeada de prudente e sofrido, imitando a Ulisses, em cuja pessoa e trabalhos nos pinta Homero um retrato vivo de prudência e sofrimento, como também nos mostrou Virgílio na pessoa de Enéias o valor de um filho piedoso e a sagacidade de um valente e entendido capitão, não pintando-os ou descrevendo-os como eles foram, mas sim como deviam ser, para deixar exemplos de suas virtudes aos homens da posteridade. Deste mesmo modo, Amadis foi o norte, o luzeiro, e o sol dos valentes e namorados cavaleiros, a quem devemos imitar, todos os que debaixo da bandeira do amor e da cavalaria militamos. Sendo, pois, isto assim, como é, acho eu, Sancho amigo, que o cavaleiro andante, que melhor o imitar, mais perto estará de alcançar a perfeição da cavalaria. Uma das coisas em que este cavaleiro melhor mostrou a sua prudência, valor, valentia, sofrimento, firmeza e amor, foi quando se retirou, desprezado pela Senhora Oriana, a fazer penitência na Penha-Pobre, trocando o seu nome pelo de Beltenebrós, nome por certo significativo e próprio para a vida que ele voluntariamente havia escolhido. Ora, mais fácil me é a mim imitá-lo nisto, que no fender gigantes, descabeçar serpentes, matar dragões, desbaratar exércitos, fracassar armadas e desfazer encantamentos; e, como estes lugares são tão azados para semelhantes efeitos, não se deve perder a boa ocasião, que ao presente com tanta comodidade me oferece suas guedelhas.


Dom Quixote Vol. I - Miguel de Cervantes

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Original e Tradução

Tomando o barbeiro outro livro, disse:

- Este é Espelho de cavalarias.

- Já conheço a Sua Mercê - disse o cura. - Aí anda o Senhor Reinaldo de Montalvão com os seus amigos e companheiros, mais ladrões que Caco, e os Doze Pares com o verídico historiador Turpin. A falar a verdade, estou em condená-los, pelo menos a desterro perpétuo, por terem parte na invenção do famoso Mateus Boiardo, donde também teceu a sua teia o cristão poeta Ludovico Ariosto. Este, se por aqui o apanho a falar-me língua que não seja a sua, não lhe hei-de guardar respeito algum; falando porém no seu próprio idioma, colocá-lo-ei sobre a cabeça.

- Em italiano tenho-o eu - disse o barbeiro - mas não o entendo.

- Nem era preciso que o entendêsseis - respondeu o cura; - de boa vontade perdoáramos ao senhor capitão que se tivesse deixado de o trazer à Espanha, pois lhe tirou muito de sua valia original; e o mesmo sucederá a todos quantos quiserem traduzir para os seus idiomas livros de versos, que, por muito cuidado que nisso ponham, e por mais habilidade que mostrem, nunca hão-de igualar ao que eles valem no original. O que eu digo é que este livro, e todos os mais que se acharem tratando destas coisas da França, se lancem e guardem num poço seco, até que mais repousadamente se veja o que se há-de fazer deles, excetuando a um Bernardo del Cárpio que por aí anda, e a outro chamado Roncesvales, que esses, em me chegando às mãos, vão direitos para as da ama, e delas para fogo, sem remissão.


Dom Quixote Vol. I - Miguel de Cervantes

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Investigação e Verdade

Sócrates: E se não as adquiriu nesta vida, não fica claro de imediato que [já] as possuía e as aprendera em alguma outra ocasião?
Mênon: É o que parece.
Sócrates: E tal ocasião deve ter sido quando ele não era um ser humano?
Mênon: Sim.
Sócrates: Portanto, se nesses dois períodos, ou seja, enquanto é e enquanto não foi um ser humano, ele teve dentro de si opiniões verdadeiras que, para se converterem em conhecimento, precisam apenas serem despertadas mediante interrogação, não terá sua alma possuído essa cognição por todo o tempo? De fato, ressalta como evidente que durante todo o tempo ele existe, ou como ser humano ou como não ser humano.
Mênon: É o que parece.
Sócrates: E se a verdade da totalidade das coisas que são¹ permanece sempre em nossa alma, então esta é imortal; assim, deves sempre esforçar-te confiantemente na tentativa de investigar e lembrar o que desconheces atualmente, ou seja, aquilo que não lembras.
Mênon: Vendo-o como tu o vês, Sócrates, embora não saiba exatamente como, sou da opinião que o que dizes é acertado.
Sócrates: Também eu experimento um certo desconforto, Mênon. Admito que a maioria dos pontos por mim aduzidos em respaldo de meu argumento não tem caráter plenamente confiável; contudo, que a crença no dever de investigar as coisas que ignoramos é algo que nos tornará melhores, mais corajosos e menos ociosos, de preferência à crença de que inexiste sequer a possibilidade de apurar as coisas que ignoramos e de que não temos o dever de investigá-las, constitui um ponto em prol do qual me empenho em lutar, na medida de minhas forças, quer nos meus discursos, quer nas minhas ações.
Mênon: Julgo que também nisso falas com acerto, Sócrates.

¹. των οντων (tôn ónton)


Mênon (ou da Virtude) - Platão

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Debate e Verdade

Mênon: [...] que resposta poderias dar a ele?

Sócrates: De minha parte, a verdadeira. E se meu perguntador fosse um hábil mestre do tipo erístico e contencioso¹, eu lhe diria: emiti minha afirmação; se está errada, compete a ti examiná-la e refutá-la. Entretanto, se, como ocorre conosco neste ensejo, estivesse entre amigos e quiséssemos debater, eu teria uma resposta num tom um tanto mais suave, mais conforme à dialética. Suponho que o modo mais dialético não consiste unicamente em responder o que é verdadeiro, mas inclui empregar os pontos reconhecidamente conhecidos pelo indivíduo interrogado. É assim que procurarei discutir contigo.


¹ A erística (palavra derivada de εριϛ [éris], luta, disputa, querela, discórdia) é a arte (distinta da retórica e da dialética) da discussão pela discussão, sem visar à verdade ou ao consenso dos debatedores. Platão a considera uma deplorável modalidade sofística e a expõe, numa crítica radical e contundente, no Eutidemo.


Mênon (ou da Virtude) - Platão

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Aparência e Essência

"A propósito, há um ponto que omiti no princípio, a saber, como seus discursos, mais do que tudo o mais, assemelham-se aos silenos ocos que se pode abrir. Se vos dispuserdes a ouvir os discursos e argumentos de Sócrates, percebereis de início que são completamente ridículos: são trajados externamente com palavras, expressões e frases tão grosseiras quanto o couro de um sátiro insolente e vulgar. Sua conversação envolve asnos carregadores de cestos, ferreiros, fabricantes de calçados e curtidores, e a impressão que temos é que se mantém empregando as mesmas palavras para as mesmas coisas; a pessoa que não tem familiaridade com ele e tola não deixará de rir desses seus discursos e argumentos. Mas se esses discursos forem abertos, de modo que se possa ter uma visão deles acessando seu interior, começa-se por descobrir que são os únicos discursos e argumentos que encerram sentido; em segundo lugar, que nenhum outro é tão divino, tão fecundo em imagens da virtude e tão amplamente, ou melhor, tão plenamente dirigido a tudo que é apropriado à investigação daquilo que nos faz alcançar a beleza e a excelência."


O Banquete - Platão

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Concórdia e Discórdia

Se houvesse um meio de compor uma cidade ou um exército de amantes e seus amados, não haveria melhor sistema possível de sociedade do que esse, porque seus componentes recuariam ante tudo que fosse vil, numa emulação mútua da honra [entre amantes e amados]; e indivíduos como esses, lutando lado a lado, mesmo num modesto contingente, poderiam quase ser considerados por nós capazes de vencer o gênero humano inteiro. De fato, um homem apaixonado preferiria suportar quaisquer outros ao seu amado observá-lo abandonando seu posto ou depondo as armas; preferiria morrer múltiplas vezes; por outro lado, quanto a deixar para trás seu jovenzinho, ou deixar de socorrê-lo no perigo, nenhum homem seria tão baixo a ponto de esquivar-se à própria influência de Eros, incutindo-lhe uma bravura que o igualaria aos mais naturalmente bravos; e incontestavelmente o que Homero denomina um "ardor insuflado"¹ por um deus em alguns heróis é o efeito produzido pelo próprio Eros nos amantes.

¹ Ilíada, Canto XV, 262.

O Banquete - Platão

sábado, 25 de abril de 2026

Atenção e Oração

Para retraçar essa marcha ascendente do espírito em direção à unidade absoluta da consciência, da qual a atenção, mesmo a mais intensa, não passa de um pálido esboço, não precisamos mais recorrer a hipóteses prováveis, nem proceder teoricamente e a priori. Encontro, no Castelo Interior de Santa Teresa, a descrição, etapa por etapa, desta concentração progressiva da consciência que, partindo do estado ordinário de difusão, reveste a forma de atenção, vai além dela e, pouco a pouco, em alguns raros casos, alcança a perfeita unidade da intuição. A bem da verdade, este documento é único, mas uma boa observação vale mais do que cem medíocres.¹ Aliás ela pode nos inspirar plena confiança. É uma confissão feita por ordem do poder espiritual, a obra de um espírito muito delicado, muito hábil em observar e em manejar a língua para expressar as nuances mais sutis.

Rogo ao leitor que não se deixe desorientar pela fraseologia mística desta observação, não esquecendo que é uma espanhola do século XVI que se analisa com a linguagem e as idéias de seu tempo; mas pode-se traduzi-la para a linguagem da psicologia contemporânea. Irei tentar esta tradução, atendo-me a demonstrar a concentração sempre crescente, e o estreitamento incessante do campo da consciência, descrito a partir de uma experiência pessoal.

Existe, diz ela, um castelo construído de um único diamante, de beleza e pureza incomparáveis; adentrá-lo e habitá-lo, tal é o objetivo do místico. Esse castelo é interior, na nossa alma; não precisamos sair de nós mesmos pare penetrá-lo; mas o caminho é longo e difícil. Para chegar a ele, há sete estâncias a percorrer; e para percorrê-lo, há sete graus de "oração". Na fase preparatória, ainda se está imerso na multiplicidade de impressões e imagens, na "vida do mundo". Traduzindo: a consciência segue seu curso ordinário, normal.

A primeira estância é atingida pela "oração vocal". Interpretando: a oração feita em voz alta; a palavra articulada gera um primeiro grau de concentração, reconduzindo a uma via única a consciência dispersa.

A segunda estância é a da "oração mental", isto é: aumenta a interioridade do pensamento; a linguagem interior toma o lugar da linguagem exterior. O trabalho de concentração torna-se mais fácil: a consciência não necessita mais do apoio material das palavras articuladas ou ouvidas para não se desviar; bastam-lhe imagens vagas de signos que se sucedem.

A "oração de recolhimento" marca o terceiro grau. Aqui, confesso, fico confuso com a interpretação. Só posso enxergar nela uma forma superior do segundo momento, separada por uma nuance sutil e somente perceptível para a consciência do místico.

Até este ponto, houve atividade, movimento, esforço. Todas as nossas faculdades permanecem em jogo; agora, é preciso "não mais pensar muito, mas amar muito". Em outras palavras, a consciência irá passar do modo discursivo ao modo intuitivo, da pluralidade à unidade. Ela tende a se tornar, não mais uma irradiação em redor a um ponto fixo, mas um único estado de imensa intensidade. E essa passagem não resulta de uma vontade caprichosa e arbitrária, nem do simples movimento do pensamento entregue a si próprio; ela precisa ser motivada por um poderoso amor, pela "inspiração da graça", isto é, ela precisa da conspiração inconsciente de todo o ser.

A "oração de quietude" introduz à quarta estância, e então "a alma não produz mais, ela recebe"; é um estado de alta contemplação, que os místicos religiosos não foram os únicos a conhecer. É a verdade que aparece bruscamente de um só bloco, impondo-se como tal, sem os lentos e longos procedimentos de uma demonstração lógica.

A quinta estância ou "oração de união" é o início do êxtase, mas é instável. É a "entrevista com o divino noivo", mas sem fruição durável. As flores apenas entreabriram seus cálices, apenas espargiram seus primeiros perfumes". A fixidez da consciência não é completa, é oscilante e fugidia; ela ainda não é capaz de manter-se nesse estado extraordinário e antinatural.

Finalmente, ela atinge o êxtase na sexta estância através da "oração de arrebatamento".

O corpo torna-se frio, a palavra e a respiração são suspensas, os olhos se fecham, o mais leve movimento causaria os maiores esforços. Os sentidos e faculdades permanecem fora [...]. Apesar de normalmente não se perder o sentimento [a consciência], já me aconteceu de perdê-lo inteiramente: foi raro, e muito breve. Na maioria das vezes, o sentimento se mantém, mas experimenta-se uma perturbação que eu não saberia descrever, e apesar de nos tornarmos incapazes de uma ação exterior, a audição é preservada. É como um som distante. Todavia, até mesmo essa forma de audição cessa quando o arrebatamento atinge o seu mais alto grau.

O que é então a sétima e última estância, que se atinge pelo "vôo do espírito"? O que há para além do êxtase? A unificação com Deus. Ela se dá "de forma súbita e violenta [...] com uma força tal que seria vão resistir a esse ímpeto irrefreável". E então Deus desceu à substância da alma, que é una com ele. A distinção entre esses dois graus de êxtase não é vã, na minha opinião. Em seu grau mais elevado, a própria abolição da consciência é afetada pelo seu excesso de unidade. Essa interpretação parece legítima, se nos referirmos às duas passagens que assinalei acima: "Já me aconteceu de ser inteiramente privada do sentimento", e "essa forma de audição cessa quando o arrebatamento atinge o seu mais alto grau". Poderiam ser citadas diversas outras da mesma autora. É notável que, durante um de seus "grandes arrebatamentos", a Divindade lhe apareça sem forma, como uma abstração perfeitamente vazia. Eis aqui, ao menos, como ela se expressa: "Direi então que a Divindade é como um diamante de uma transparência soberanamente límpida e muito maior do que o mundo".² É impossível 
para mim enxergar nisso apenas uma simples comparação e uma metáfora literária. É a expressão da perfeita unidade na intuição.

Este documento psicológico nos permitiu seguir a consciência pouco a pouco até o seu último grau de concentração, até o monoideísmo absoluto; ele nos permite além disso responder a uma questão que surge freqüentemente e que só foi resolvida teoricamente: Pode um estado de consciência uniforme subsistir? O testemunho de alguns místicos parece permitir uma resposta afirmativa. Decerto, é uma verdade positiva e banal que a consciência vive unicamente pela mudança. Essa verdade é reconhecida pelo menos desde Hobbes: Idem sentire semper et non sentire, ad idem recidunt.³ Mas esta lei é transgredida em alguns indivíduos excepcionais, em casos muito raros e por pouquíssimo tempo. No êxtase ordinário, a consciência atinge o seu máximo de retração e de intensidade, mas mantém ainda a forma discursiva: é só em grau que ela difere de uma atenção muito forte. Somente os grandes místicos, cujo ímpeto é mais vigoroso, atingiram o monoideísmo absoluto. Todos, em todos os países, em todos os tempos, sem se conhecerem, consideraram a unidade perfeita da consciência, Ενωσις
, como a suprema consumação do êxtase, raramente atingida. Plotino só alcançou essa mercê quatro vezes na vida, de acordo com Porfírio, que por sua vez só a conheceu uma vez, aos sessenta e seis anos.* Nesse ponto extremo, consciência não pode durar por muito tempo, o que é declarado por eles. Mas essa instabilidade que é vista por eles como resultado de sua indignidade diante de tal felicidade, ou pela impossibilidade para um ser finito de tornar-se infinito, na realidade se explica por causas psicológicas e fisiológicas. A consciência é deslocada das condições necessárias para sua existência, e os elementos nervosos que são suporte e agente dessa prodigiosa atividade não podem suportá-la por muito tempo. Assim, volta-se a pôr os pés no chão, torna-se a ser "o burrico que vai pastando".


¹ É provável que seja possível encontrar outras, vasculhando a literatura mística de diversos países. As passagens citadas são do Castelo Interior e algumas poucas da Vida.
² Vida, p. 526.
³ "Sentir sempre e não sentir têm o mesmo resultado" - NT
* Porfirio, Vida de Plotino, cap. XXII


Psicologia da Atenção - Théodule Ribot

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Atenção e Vontade


A ATENÇÃO VOLUNTÁRIA

Sem pretender enumerar os diversos motivos artificialmente acionados para despertar e consolidar a atenção voluntária, isto é, novamente, para dar ao objetivo a ser atingido uma força de ação que ele não possui naturalmente, destaco na formação da atenção voluntária três etapas cronológicas.

Na primeira, o educador só age sobre sentimentos simples: faz uso do medo sob todas as suas formas, das tendências egoístas, do atrativo das recompensas, das emoções afetuosas e simpáticas, da curiosidade inata que equivale ao apetite da inteligência e que pode ser encontrada em todos em algum grau, por mais fraco que seja.

Na segunda etapa, a atenção artificial é suscitada e mantida por sentimentos de formação secundária: amor-próprio, emulação, ambição, interesse no sentido prático, de ver, etc.

A terceira etapa é de organização: a atenção é suscitada e mantida pelo hábito. O estudante na sala de estudos, o operário na usina, o funcionário no escritório, o comerciante atrás do balcão prefeririam em geral estar em outro lugar; mas o amor-próprio, a ambição, o interesse criaram por repetição um treinamento duradouro. A atenção adquirida tornou-se uma segunda natureza; a obra da arte se consumou. O simples fato de estar posicionado em determinada atitude, em determinado meio, leva ao resto; a atenção se cria e se mantém menos pelas causas presentes do que por causas anteriores acumuladas; os motivos habituais assumiram a força dos motivos naturais. Aqueles que são refratários à educação e à disciplina não atingem nunca essa terceira etapa; neles, a atenção voluntária se produz raramente, de forma intermitente, e não tem como tornar-se um hábito.


Psicologia da Atenção - Théodule Ribot

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Atenção e Educação

Enquanto a vida psíquica permanece assim no período de experimentação, a atenção, isto é, a transferência do espírito de um objeto a outro, é determinada unicamente pela força de atração destes. O despertar da atenção voluntária, que é a possibilidade de fixar o espírito em objetos não atraentes, só pode se produzir forçadamente, por influência da educação, venha ela dos homens ou das coisas. A que vem dos homens é mais fácil de demonstrar, mas não é a única.

Uma criança se recusa a aprender a ler; é incapaz de fixar o espírito em letras que não representam nenhum atrativo para ela; mas contempla avidamente as imagens de um livro. "O que representam estas imagens?". O pai responde: "Quando você souber ler, o livro lhe ensinará". Depois de várias conversas parecidas, a criança se conforma, entregando-se de início sem muito entusiasmo à tarefa, depois se habitua, e finalmente demonstra um ardor que precisa ser moderado. Eis um caso de gênese da atenção voluntária. Foi preciso enxertar, em um desejo natural e direto, um desejo artificial e indireto. A leitura é uma operação que não possui atrativo imediato, mas tem um atrativo como meio, um atrativo de empréstimo; é o suficiente: a criança foi presa pela engrenagem, o primeiro passo foi dado. Tomo emprestado outro exemplo ao Sr. B. Perez:

Uma criança de seis anos, habitualmente muito distraída, sentou-se espontaneamente ao piano para ensaiar uma melodia que agradava à sua mãe; seus exercícios duraram mais de uma hora. A mesma criança, com sete anos, ao ver seu irmão ocupado com os deveres de férias, foi sentar-se no escritório do pai. "O que está fazendo?", perguntou-lhe a empregada, admirada de encontrá-la aí. "Estou fazendo uma página de alemão", disse a criança. Não é muito divertido, mas é uma boa surpresa que quero fazer para mamãe"¹

Outro caso de gênese de atenção voluntária, agora enxertada em um sentimento simpático, e não em um sentimento egoísta, como no primeiro exemplo. O piano ou alemão não despertam espontaneamente a atenção; eles a suscitam e a mantêm por uma força de empréstimo.

Por toda parte, na origem da atenção voluntária, encontra-se este mecanismo sempre igual, com inúmeras variações, e que resulta em sucesso, semi-sucesso ou fracasso: tomar motivações naturais, desviá-las de seu objetivo direto e empregá-las (se possível) como meios para outro objetivo. A arte dobra a natureza aos seus desígnios, e é por este motivo que chamo esta forma de atenção de "artificial".


¹ B, Perez, L'enfant de trois à sept ans [A criança de três a sete anos], p. 108.


Psicologia da Atenção - Théodule Ribot

terça-feira, 24 de março de 2026

Reflexão #24

omne tulit punctum qui miscuit utile dulci
Horatio
Aquele que mistura o útil ao doce leva todo ponto (tradução literal)
Aquele que une o útil ao agradável ganha todos os votos (tradução livre)
Quintus Horatius Flaccus


O ditado popular unir o útil ao agradável talvez tenha tido sua origem aqui, ou talvez já fosse popular na época de Horácio (século I a.C.). O interessante aqui é que este trecho é retirado da Ars Poetica, a Arte Poética, onde o autor instrui como bem escrever.
Dito isso, podemos entender como os poetas não só buscam uma métrica e sons, mas também um referente que ressoe com o humano que irá ler. Procuram uma combinação entre uma boa metrificação (útil) e expressão de sentimento (agradável), ou uma combinação entre experiência de vida (útil) e sonoridade (agradável).

quinta-feira, 19 de março de 2026

Auto-imagem e Terapia

A auto-imagem, ainda mais quando reforçada por falsas autobiografias como a de Rousseau, torna-se uma prisão. E chegamos a tal situação, no mundo burguês, em que existem terapias para que você melhore sua auto-imagem: de certo modo, sua auto-imagem irá melhorar, ao passo que você irá piorar substancialmente. O culto da auto-imagem é, no fim das contas, uma opção pelo mental e uma ruptura com a realidade. Ao contrário, ao tomar consciência do seu eu substancial, você desde logo se convence de que ele jamais poderá ser um conteúdo de sua consciência a ser fixado numa auto-imagem.


A Consciência de Imortalidade - Olavo de Carvalho

quinta-feira, 12 de março de 2026

Virtude e Recompensa

Prosa 3

1 Disse a Filosofia: "Tu não vês. pois, a imundície em que se revolve a maldade e a luz com que resplandece a virtude? Isso fará com que tu compreendas que ao bem sempre chega o seu prêmio, assim como o castigo sempre chega para o vício.

2 "Pois é racionalmente certo considerarmos que a recompensa de uma ação é o próprio objeto que a motivou: como a coroa conferida ao corredor que chega ao primeiro lugar numa competição de velocidade.

3 "E como já ficou demonstrado que a felicidade é a mesma coisa que o bem, o qual, por sua vez, é o verdadeiro objetivo de todos os atos praticados no mundo, é inevitável que consideremos o bem como a recompensa comum a todos os atos humanos.

4 "Porém, o bem é inseparável das pessoas boas, pois não poderíamos chamar de 'bom' a alguém que carecesse do bem; de modo que uma conduta virtuosa sempre alcança a recompensa que merece.

5 "Os homens maus podem ficar irritados o quanto o desejarem, isso não afeta em nada a recompensa dos bons, porque a maldade alheia não tem o poder de diminuir a glória do homem honrado.

6 "Se as honrarias externas fossem a fonte de sua glória, é óbvio que elas poderiam ser facilmente roubadas por qualquer pessoa - até mesmo por quem as tenha conferido; mas quando a recompensa de um homem é a sua própria virtude (algo que está dentro dele), ele só pode perdê-la se acaso deixar de ser virtuoso.

7 "Por fim, se uma recompensa é buscada por ser considerada um bem, ninguém pode pensar que um homem bom está desprovido de sua recompensa.

8 "Que recompensa é essa? Trata-se da mais bela e grandiosa dentre todas: lembra-te daquele importantíssimo corolário que demonstrei há pouco, e raciocina a partir dele.

9 "Se a felicidade é o próprio bem, está claro que os homens bons são felizes pelo mero fato de serem bons.

[...]

A Consolação da Filosofia - Boécio

quarta-feira, 11 de março de 2026

Homem e Propósito

Prosa 6

1 "Permite-me, pois, que te faça algumas perguntas para provar o teu espirito e saber qual é o tratamento que te devo aplicar?".

2 Respondi: "Pergunta-me tudo o que quiseres! Estou dis posto a responder a qualquer pergunta".

3 E ela perguntou: "Tu pensas que o nosso mundo é movido pelas forças cegas da Fortuna ou crês que é dirigido por uma Razão?".

4 Respondi: "A mim seria impossível imaginar que um conjunto tão bem ordenado pudesse depender das forças cegas do acaso; pelo contrário, estou persuadido de que é Deus que dirige a obra que Ele mesmo criou, e jamais poderei pensar de outro modo".

5 "Sim, expressaste isso muito bem nos teus versos. Deploraste a solidão dos homens que se declaram independentes da vontade divina, e não hesitaste em declarar que todo o resto da criação é governado por um poder inteligente.

6 "Ora! Fico extremamente surpreendida que estejas doente da alma apresentando pensamentos assim tão elevados. Contudo, sondemos essa alma mais a fundo: tenho a impressão de que te falta algo.

7 "Diga-me: se não duvidas de que Deus é quem governa o mundo, tu sabes quais são os meios que ele empregue para governá-lo?".

8 Então eu disse: "Compreendo apenas o sentido da tua pergunta, mas não é tão fácil assim responder ao que desejas saber".

9 Prosseguiu ela: Eu já havia observado que havia um vazio em ti; foi por aí que, como por uma pequena fenda aberta numa muralha, penetrou em tua alma a violenta perturbação das paixões.

10 "Dize: porventura te esqueceste de qual é o fim de todas as coisas e o objetivo para o qual se dirigem todos os esforços da natureza inteira?". A essa pergunta, respondi "Aprendi tudo isso, mas agora minha memória está muito afetada pela dor".

11 E ela: "E tu sabes qual é o princípio do qual provêm todas as Coisas?", "Sim. É Deus', respondi, "isso já sei, como lhe disse ainda há pouco".

12 Ela retorquiu: "Como é possível que conheças o princípio de todas as coisas e ignores o seu fim?

13 "Assim são as paixões: embora sejam capazes de comover o homem, não conseguem arrancá-lo totalmente de si mesmo.

14 "Contudo, eu gostaria que me respondesses a outra pergunta: tu te lembras de que és um homem?". Respondi "Como não me lembraria?". E ela perguntou:

15 "Poderias explicar o que é um homem?". E eu disse-lhe "Sei que pretendes ver se sei que o homem é um anima racional e mortal. Sei muito bem o que sou e compreendo que não sou outra coisa".

16 Disse ela: "Tens certeza de não ser nenhuma outra coisa?". "Tenho certeza", respondi.

17 Então ela disse: "Vejo agora que existe outra causa para o teu mal. E ela é, sem dúvida, a causa mais influente: tu não sabes quem tu és. Acabo de encontrar a origem de todo o teu mal e também o meio para te devolver a saúde.

18 "Sim, o que te cegou foi o esquecimento de si mesmo: por isso te queixaste do teu exílio e do despojo dos teus bens.

19 "Por ignorar o fim de todas as coisas, tu crês que os homens perversos são poderosos e felizes. Por teres te esquecido das leis invisíveis que regem o universo, julgas que a Fortuna e seus caprichos caminham livremente no mundo. Bem, essas são causas que, além de enfermidade, poderiam provocar até a morte... Portanto, demos graças ao Autor da vida porque a natureza não te abandonou completamente.

20 "Temos aqui ao nosso alcance a centelha que acenderá a tua salvação: é a noção correta que tens do mundo e de quem o governa, tu compreendes que o universo não está sujeito às forças cegas da Fortuna, mas respeita uma ordem divina. Então, não é preciso temer mais nada: essa pequena centelha se converterá numa chama tão poderosa que te devolverá o calor da vida.

21 "Entretanto, ainda não está no tempo de aplicarmos os remédios mais fortes, pois bem sabemos que a alma humana, que em outras condições estaria completamente esclarecida, quando se afasta da verdade se vê obscurecida pela nuvens das paixões que perturbam a sua inteligência; por isso, primeiro tratarei de apaziguar a tua alma com os sedativos mais suaves; mais tarde, quando as nuvens do engano já viverem sido dissipadas, tu poderás encontrar novamente o esplendor da verdadeira luz.


A Consolação da Filosofia - Boécio

terça-feira, 10 de março de 2026

Sorte e Preocupação

Metro 4

"Quem leva a vida assim bem ordenada
despreza do destino as artimanhas:
enfrenta sóbrio a boa e a má Fortuna
mantendo sua aparência imperturbável.
Nao lhe atordoa a fúria ameaçadora
das ondas mais profundas do oceano;
nem o vórtex de fumo do Vesúvio
que explode em turbilhões de fogo e brasa:
muito menos o raio cintilante
que abala até as torres mais altivas.
Por que então os desgraçados se impressionam
com o poder ilusório dos tiranos?
Renuncia igual ao medo e à esperança
e o adversário perderá as suas armas.
Os que vacilam por temer ou esperar
pela falta de firmeza e de domínio
assolam a sua defesa e, desolados,
forjam a própria prisão em que se arruínam".


A Consolação da Filosofia - Boécio

segunda-feira, 9 de março de 2026

Motivação e Temperamentos

Motivação e temperamentos

Agora que temos uma estrutura psicológica na qual basear nosso entendimento da motivação, como podemos aplicar isso ao nosso entendimento dos diferentes temperamentos?

Alguns dos temperamentos, à primeira vista, parecem ser mais automotivados ou mais facilmente motivados do que outros. Alguns exibem fraqueza em aspectos particulares da motivação - na prontidão, vontade ou habilidade. Quando identificamos essas áreas particulares de fraqueza e compreendemos como fortalecer cada área específica, somos muito mais capazes de motivar a nós mesmos e aos outros. Isso será um benefício não apenas no nível natural, mas também em nossas vidas espirituais.

Parece evidente que os temperamentos colérico e sangüíneo são os mais facilmente motivados - pelo menos no início. Não há dúvidas de que pessoas com as reações mais rápidas e fortes esteiam mais prontas para mudar: o colérico e o sangüíneo estão quase sempre prontos. Além disso, tanto os coléricos quanto os sangüíneos, com sua confiança e otimismo, geralmente se consideram capazes. A vontade, uma questão de perceber a importância da mudança, geralmente é rapidamente apreendida pelo intelecto pragmático do colérico. O sangüíneo, também, com sua abertura e entusiasmo, muitas vezes compreende rapidamente a importância de um empreendimento específico ou de uma nova idéia e está pronto para seguir com ela.

Esses temperamentos não são isentos de fraquezas, no entanto, quando se trata de motivação. O colérico pode sofrer de uma superabundância de confiança, o que pode resultar na minimização da importância da mudança. ("Eu estudo tão rápido, não preciso ler as instruções; eu mesmo posso descobrir"). Essa confiança também pode resultar em uma incapacidade de escolher o objetivo certo, receber instruções, ou trabalhar em equipe - novamente, impactando a motivação para mudar negando sua importância. Isso pode ser uma falha séria quando se reflete na vida espiritual do colérico.

A fraqueza do sangüíneo é que, devido à sua alta sensibilidade, ele é facilmente distraído de seu objetivo e será rapidamente motivado a perseguir outro objetivo, outra estrela brilhante, outro capricho. O sangüíneo está freqüentemente pronto para mudar, mas podem faltar o comprometimento e o foco necessários para alcançar seu objetivo. Na falta de confiança em sua capacidade de perseverar até o fim, a sangüíneo pode ser tentado a racionalizar ("não estou nem aí em fazer parte do time") ou a culpar ("não é minha culpa que eu não tenha conseguido uma boa nota no teste; o professor não explicou direito"). O sangüíneo deve se esforçar para perseverar.

Tanto o temperamento melancólico quanto o fleumático tendem a reagir lentamente. O melancólico tende a colocar uma ênfase maior na análise e na contemplação e, portanto, talvez nunca chegue à ação. Ele sofre de falta de prontidão. O intelecto abomina a ação, e o melancólico depende muito do intelecto. Como resultado, o temperamento melancólico geralmente precisa de um pontapé inicial. Mais do que os outros temperamentos, o melancólico cético e analítico precisa ser convencido sobre a importância do objetivo. Além disso, sua tendência à autocrítica pode minar sua confiança - nele e nos outros. Com a falta de confiança, o melancólico pode procrastinar, resultando em uma diminuição ainda maior da motivação.

O fleumático também sofrerá com a falta de prontidão. Ele pode inicialmente ser tomado por uma falta de confiança, o que afetará sua capacidade de fazer as alterações necessárias. Além disso, o fleumático, com sua natureza adaptável e pacífica, gosta muito de negligenciar qualquer discordância; portanto, não toma consciência da importância da mudança. Parece muito satisfeito com o status quo, disposto a se adaptar a fim de acomodar contratempos e falhas, propenso demais a descartar a necessidade de mudança.

Por esse motivo, a tentação de incomodar e impulsionar um fleumático é extremamente forte; é uma tentativa compreensível de aumentar sua discordância, para conscientizá-lo da importância de mudar, mas provocar o fleumático só o desanima e amedronta, diminuindo a confiança de que pode alcançar seu objetivo. Ele se torna ainda menos motivado do que era antes.


O Temperamento Que Deus Lhe Deu - Art & Laraine Bennett

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Possibilidade e Persuasão

De modo geral, o impossível deve se referir ou à poesia, ou ao que é melhor, ou à opinião [10] comum. Com relação à poesia, é preferível o impossível que persuade ao possível que não persuade. *** <E talvez seja impossível> que existam homens tais como Zêuxis os pintava, mas ele os fez de modo melhor, pois o paradigma deve ser excelente. Quanto às coisas irracionais, elas devem ser consideradas no contexto da opinião comum e assim, por vezes, se diz que não são irracionais, pois é verossímil que o improvável também [15] ocorra. Quanto às expressões que são ditas de modo contraditório, é necessário examiná-las como nas refutações dos argumentos, verificando se se referem ao mesmo objeto, com relação ao mesmo objeto e do mesmo modo; para que se possa saber se o poeta está em contradição com o que ele mesmo diz ou com o que sustentaria um homem prudente. Além disso, é correto criticar a irracionalidade e a maldade sempre que, não havendo qualquer necessidade, poeta se serve do irracional - como ocorre com [20] Eurípides, no caso de Egeu¹ - ou do cruel - como no Orestes, no caso de Menelau.²


¹ Medéia, de Eurípedes.
² Orestes, de Eurípedes.


Poética - Aristóteles
Tradução de Paulo Pinheiro

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Poética e Personagem

[2. Diferença segundo o objeto]

[1448a] Visto que aqueles que realizam a mimese mimetizam personagens em ação, é necessário que estes sejam de elevada ou de baixa índole (as personagens seguem quase sempre esses dois únicos tipos, pois é pelo vício e pela virtude que se diferenciam todos os caracteres),¹ em verdade ou melhores que nós, ou piores, ou tais quais - [5] assim como fazem os pintores: Polignoto retrata personagens melhores; Pauson, piores; Dionísio, semelhantes -, pois é evidente que cada uma das mimeses mencionadas se apoiará nessas distinções, e será diferente na medida em que se mimetizam, nesse sentido, objetos diferentes. De fato, essas dessemelhanças podem se apresentar [10] na dança, na aulética e na citarística, e também no que diz respeito às obras em prosa e à poesia sem acompanhamento musical: por exemplo, Homero mimetizou personagens melhores; Cleofão, semelhantes; Hegêmon de Taso, <o> primeiro a escrever paródias, e Nicócares, autor da Delíada, personagens piores. No que tange aos ditirambos e [15] aos nomos acontece da mesma forma, pois alguém poderia mimetizar como ocorre †com efeito† em Timóteo e em Filóxeno em seus Ciclopes. É sob essa mesma diferença que repousa a distinção entre comédia e tragédia, ou seja, na medida em que uma quer mimetizar personagens piores e a outra melhores do que de fato são.


¹ No original, tà éthê, que se relaciona ao modo de agir de uma personagem, seu caráter, suas características, e que ora traduzo por "as personagens", ora por "os caracteres".


Poética - Aristóteles
Tradução de Paulo Pinheiro

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Amor e Morte

Qual olmo, a cujo tronco corpolento
A videira tenaz se abraça e liga,
Que, se o prostra o machado ou forte vento,
Leva tambem comsigo a planta amiga,
Com seu pezo esfolhando-lhe o ornamento,
Pizando as doces uvas, e o obriga
A dôr da socia que na morte o segue
Mais á dôr, do que a sorte que o persegue.

Assim cae elle, só chorando o fado
Da companheira, a quem os céos o uniram.
Tentam fallar, mas é querer baldado;
Em logar de fallar ambos suspiram;
Olham-se, e, qual os tinha acostumado
Amor, unem-se emquanto não expiram;
Foge d'ambos a um tempo a luz do dia,
E vôam para a patria, da alegria.


A Jerusalem Libertada - Torquato Tasso
Tradução de José Ramos Coelho

(Solimão mata Eduardo e Gildipe / Solymon kills Odoardo and Gildippe)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Navegação e Exploração

Era-se já nas ondas occultado
Cadis fertil, a terra mais vizinha;
De todo a costa havia-se apartado;
Por termo os céos o pelago só tinha,
Quando Ubaldo assim diz: tu, cujo alçado
Poder por este mar nos encaminha,
Conta-me se alguem veio onde ora estamos,
E se habitado é o mundo que buscamos.

Tendo Hercules os monstros destruido
Da quente Lybia e do paiz hispano,
Torna ella, e os vossos climas submettido,
Não ousou arrostar o largo oceano.
Pôz balizas ao mundo conhecido,
Prendendo em breve espaço o genio humano;
Porém Ulysses, o saber buscando,
Os passou, taes limites desprezando.

As columnas transpoz, e pelo aberto
Pego soltou o vôo audacioso;
Mas não lhe valeu ser no mar experto,
Que elle o tragou voraz e furioso,
E jaz, qual o seu corpo, inda encoberto
O seu fim, para os homens duvidoso.
Se o vento outrem levou por essa altura
Ou não veio ou lá teve a sepultura.


A Jerusalem Libertada - Torquato Tasso
Tradução de José Ramos Coelho

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Valor e Submissão

Eu Clorinda me chamo; nomear-me
Certo ouvido terás, senhor, e venho
Para junto comtigo aventurar-me
Do reino teu, da nossa fé no empenho.
Manda, e em qualquer empreza hei de provar-me:
Prézo as grandes, as símples não desdenho;
Se em campo aberto, ou no recinto estreito
Dos muros me quizeres, nada engeito.


A Jerusalem Libertada - Torquato Tasso
Tradução de José Ramos Coelho

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Sofrimento e Propósito

Oh! fora a morte vezes mil ditosa,
E o meu martyrio por fortuna houvera,
Se, unidos peito a peito, a jubilosa,
Alma nos labios teus deixar podera!
E se, morrendo juntos, ó formosa,
O teu suspiro extremo recebera!
Tal chorando fallou, e respondendo
Ella o aconselha e meiga vae dizendo:

Outro pensar, amigo, outros lamentos
A occasião mais elevados pede.
Põe nos peccados teus os pensamentos,
E na paga que Deus aos bons concede;
Soffre em seu nome, o doces os tormentos
Serão; aspira á sempiterna séde;
Olha o céo como é bello, o sol que é vida,
Que nos consola e á gloria nos convida.


A Jerusalem Libertada - Torquato Tasso
Tradução de José Ramos Coelho

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Reflexão #23

Visualize a vida como estando em uma planície cercada de montes. Pode ser que atrás desses montes, na névoa hajam montes maiores, mas donde estamos escolhemos o mais alto e vamos até lá. Quando chegamos, na altura, pode ser que enxerguemos outros mais altos que antes não conseguíamos enxergar. Assim é a vida: acreditamos estar indo para o mais alto, mas quando chegamos percebemos que era só um degrau. Podemos, dessa forma, edificar uma torre com os materiais de construção do bom, do belo e do verdadeiro. Assim teremos uma visão melhor na altitude para enxergar o monte mais alto a que dirigiremos nossa vida.

Tive esta reflexão ao ponderar sobre o problema matemático do máximo/mínimo local e global, que normalmente é representado por essa visão de montes: o mais alto perto do ponto de referência é o máximo local, e o máximo global é o mais alto absolutamente, considerando todas as possibilidades ao infinito.
Mas esta visão matemática foi apenas a base da reflexão. A faísca veio quando, ao olhar para a bagagem de aprendizado, vemos que aquela montanha de conhecimento e habilidades que foi tão árdua de adquirir, hoje está incorporada e me faz preparado para escalar o próximo monte.
Se por um lado, isso é positivo e animador, por outro faz-me pensar que alguns montes que apenas ouvi falar são na minha imaginação mais baixos do que o são na realidade. Portanto, é a falsa sensação de dominar um tema apenas por conseguir imaginar sua altura, porém quando em face ao verdadeiro tema - depois de escalar os pequenos montes necessários para chegar lá - vejo que é bem maior do que inicialmente imaginava.

Isto remonta à questão do imaginário: às vezes, a gente não tem nem as ferramentas, as imagens, o aparato mental necessário para imaginar a coisa. E por isso não temos noção do real tamanho.
Há uma piada boba, mas ilustrativa: Havia um homem do campo, muito simples, que vivia com sua vaca, sua pequena plantação, suas coisas. Um dia um homem muito rico apareceu em sua porta e ofereceu para dar a ele tudo que quisesse. Ele respondeu que queria mais uma vaca. O homem rico então disse: "Você pode pedir muito mais! O que você conseguir imaginar, eu darei!". O camponês respondeu: "Então eu quero duas vacas!".