Nec virtute foret clarisve potentius armis
quam lingua Latium, si non offenderet unum
quemque poetarum limae labor et mora. Vos, o
Pompilius sanguis, carmen reprehendite quod non
multa dies et multa litura coercuit atque
praesectum deciens non castigavit ad unguem.
Nem teria por certo mais ilustre
O Lácio pelejando que escrevendo,
Se não custasse tanto a nós poetas
Os escritos limar, como o guardá-los
Por longo tempo. Ó vós de numa estirpe,
Repreendei todo aquele que não sabe
muitas vezes riscar o seu poema,
Nem sepultá-lo até que chegue
A dar-lhe o mais perfeito polimento.
292 – 293: Carmen reprehendite quod non multa dies et multa litura, etc.: corresponde o multa litura ao limae labor do verso antecedente, e o multa dies¸ao mora. Temos observado que coisa nenhuma recomenda tanto Horácio em muitos lugares de suas obras como é o riscar uma e muitas vezes quando se está compondo. Não só neste verso, mas no 72 da Sátira 1 do livro I; e no 167 da Epístola 1 do livro III deixou bem provada esta necessidade. Este grande preceito não é só dele, é de todos os mestres; e Quintiliano tem a correção pela parte mais útil dos estudos: Emendatio pars sudiorum utilíssima; neque enim sine causa creditum est, stylum non minus agere, cum delet.¹
¹ “Corrigir é a parte mais útil dos estudos; não por acaso se crê que o estilo cumpre uma função não menos importante ao apagar do que ao escrever.” O estilo era uma pequena haste de metal que os romanos usavam para escrever em tábuas cobertas de cera; uma das extremidades, pontiaguda, escrevia, e a outra, em formato de espátula, apagava. [N.T.]
Arte Poética: Tradução de Cândido Lusitano com comentários – Horácio