terça-feira, 25 de maio de 2021

Reflexão #9

"Os brasileiros são muito mais tolerantes com a ignorância do que com a erudição."

Certa vez ouvi esta frase e fiquei a relfletir a respeito. Certamente não é uma condição restrita aos tupiniquins, mas definitivamente acentuada nestas terras. A degradação da inteligência geral nos últimos 50-100 anos deve ser a causa deste fenômeno, e digo isso partindo do ponto de vista da linguagem. Antigamente o vocabulário comum era mais amplo e próximo ao de Portugal, enquanto hoje muitas palavras e expressões foram substituídas por gírias ou palavrões. Consequentemente, a principal fonte de letras, a mídia, deve rebaixar seu vocabulário se deseja alcançar o público. Assim, está feito o ciclo vicioso.

Agora vou chamar sua atenção para a primeira parte da afirmação. Porque você desejaria a tolerância dos brasileiros? Sem contexto algum, sim pode ser algo desejável, mas aqui essa tolerância está em detrimento com a erudição. Portanto, deixo a reflexão a você: Mais vale a erudição ou a ignorância?

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Doação e Salvação

Nas religiões que conhecemos, a ideia de graça tem importância fundamental. O termo grati em latim traduz diversas palavras do hebraico, do grego, do árabe e do sânscrito, mas todos os nossos textos sacros parecem apontar na mesma direção, afirmando que a relação de Deus com o mundo como um todo, e com cada um de nós em particular, é de doação. A súplica da graça de Deus é o traço central da liturgia anglicana. A grande prece da Igreja Católica, baseada num poema do Novo Testamento, cumprimenta a Virgem Maria com as palavras “Ave Maria, cheia de graça, bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”. O Corão inicia com o verso que forma um refrão na vida de todos os muçulmanos: bism illah il-raHmân il-raHîm, em nome de Deus, cheio de graça, cheio de graciosidade, na tradução de Mohamed Asad, sendo que a raiz rHm é compartilhada com o hebraico e usada muitas vezes no Antigo Testamento para denotar a preocupação de Deus conosco, seu reconhecimento de nossa fraqueza e sua abundância de dádivas. A ideia de que o mundo é sustentado pela dádiva é uma segunda natureza para as pessoas religiosas, que acreditam que elas também deveriam ser doadoras se esperam receber o dom de que dependem para sua salvação.


O Rosto de Deus – Roger Scruton

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Preço e Sagrado

As preocupações expressas pelos ambientalistas surgiram sobretudo por oposição ao hábito de ver todo valor em termos instrumentais. As pessoas tratavam a terra e seu entorno como coisas para serem usadas e, quando exauridas, descartadas; e então lavadas numa pia qualquer, como os oceanos ou a atmosfera, que não precisamos limpar. Mas as pias são finitas, nosso lixo se acumula sem parar, e os oceanos e a atmosfera já se cansaram de nós. Diz-se que uma plataforma de lixo plástico duas vezes maior que o Texas vaga pelo Pacífico; gases de efeito estufa acumulam-se na atmosfera, elevando a temperatura do planeta e ameaçando tudo aquilo que conhecemos e de que precisamos. E por toda parte a nossa volta vemos os resíduos de nossa gulodice, como nas palavras de William Empson: “Lento o veneno o sangue inteiro toma:/ É o lixo, o lixo fica e mata”.

Quando os governos tocam no problema, eles o formulam em termos fiscais, considerando os custos econômicos de nossa negligência e os custos econômicos de repará-la. O governo britânico encomendou um relatório a sir Nicholas Stern considerando “os custos econômicos da mudança climática” e das políticas necessárias para corrigi-la. E esse relatório serviu de base para praticamente todas as discussões na arena política desde então, dando a impressão de que a Terra e nosso meio ambiente devem ser vistos em termos puramente instrumentais, e sem considerar nada de seu valor intrínseco. Talvez seja inevitável esse triunfo do raciocínio instrumental que descreve coisas dotadas de valor como coisas que se reduzem a um mero preço. Mas ele é também um dos traços do mundo moderno contra o qual os ambientalistas se rebelam ou deveriam se rebelar. O problema ambiental surge porque tratamos a Terra como objeto e instrumento. E certamente não é irrealista conectar esses dois desenvolvimentos. Caímos no hábito de ver tudo, inclusive a nós mesmos, como uma coisa a ser usada e consumida, e é justo chamar isso de queda. De fato, é nisso que consiste a “queda do homem”. Comer o fruto proibido significa acreditar que cabe a nós definir a distinção entre o bem e o mal. Então reescrevemos a distinção em termos puramente humanos: o bem e o mal tornam-se benefício e custo, de modo que nada é santo, nada é consagrado, nada é resgatado do escambo e da troca. Lidamos com o mundo precificando-o. As coisas que só são valorizadas por seu uso podem ser comparadas, trocadas e vendidas por outras coisas do mesmo tipo. Elas podem ser consumidas, esgotadas e descartadas pela pessoa que mesmo assim reconhece o único valor que elas têm, que é o custo de uma substituição. É isso que hoje fazemos uns com os outros e com a Terra. Contudo, a Terra, assim como nós, é insubstituível.

O senso do sagrado coloca um freio nessa atitude instrumental. Diante de um lugar ou artefato sagrado, recuamos numa postura de respeito. Essa parte do mundo, creio, é inviolável. Eu poderia danificá-la, e talvez eu não seja punido se fizer isso. Mas ela fala a mim, e diz que devo conter minha mão. Assim como o sujeito aparece no rosto humano e coloca diante do assassino e do abusador o “não” absoluto, também um “eu” observador, perscrutador, interrogador aparece no lugar sagrado e nos ordena que o respeitemos.


O Rosto de Deus – Roger Scruton

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Rosto e Sagrado

O grande quadro de Botticelli nos recorda que o rosto humano deve ser entendido de maneira muito diferente daquela como se entende as partes do corpo de um animal. Os animais não veem rostos, já que não podem ver aquilo que organiza olhos, nariz, boca e testa como um rosto, isto é, o eu que reside nesses traços. Nossa compreensão do mundo como algo iluminado pela liberdade deriva em parte de nossa experiência do rosto. O rosto é, portanto, não apenas um objeto entre objetos; e quando as pessoas nos convidam a percebê-lo assim, à maneira do modelo e da estrela pop, elas só fazem desfigurar a forma humana. Essa desfiguração é algo que testemunhamos em todo lugar à nossa volta e também é experimentada, sobretudo em sua aplicação sexual, como profanação. Para mim, não é por acaso que somos inclinados a falar de profanação quando o assunto é sexo. Só podemos profanar o que é sagrado. E, ao descrever o papel do rosto nas relações interpessoais, dei os primeiros passos para uma teoria do sagrado.


O Rosto de Deus – Roger Scruton






segunda-feira, 17 de maio de 2021

Reflexão #8


É melhor estar não informado do que desinformado



Se temos a certeza e estamos certos, o resultado é o sucesso.
Se não temos a certeza, podemos tanto acertar como errar, e por isso a prudência rege a próxima ação.
Por fim, se temos a certeza mas estamos errados, o resultado é o desastre.