A mente orgulhosa e racional, confortável com sua certeza, enamorada do próprio brilhantismo, é facilmente tentada a ignorar o erro e varrer a sujeira para debaixo do tapete. Os filósofos existencialistas literários, começando com Soren Kierkgaard, conceberam esse modo de Ser como “inautêntico”. Uma pessoa inautêntica continua a perceber e agir de maneiras que a própria experiência demonstrou serem falsas. Ela não fala com a própria voz.
“Aconteceu o que eu queria? Não. Então meu objetivo ou meus métodos estavam errados. Ainda tenho de aprender algo”. Essa é a voz da autenticidade.
“Aconteceu o que eu queria? Não. Então o mundo é injusto. As pessoas são invejosas e burras demais para entender. É culpa de alguém ou de alguma coisa”. Essa é a voz da inautenticidade. Há uma distância muito curta daqui para “eles devem ser impedidos”, “eles devem ser machucados” ou então “eles devem ser destruídos”. Sempre que você ouvir sobre um acontecimento incompreensivelmente brutal, essas ideias se manifestaram.
12 Regras para a Vida: um Antídoto para o Caos - Jordan B. Peterson
Publicado no Facebook em 24 de Julho, 2018
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Impulso e Limite
Imagine uma criancinha batendo repetidamente no rosto da mãe. Porque ela faria isso? É uma pergunta tola. É inaceitavelmente ingênua. A resposta é óbvia. Para dominar sua mãe. Para ver se pode se safar dessa. A violência, afinal, não é um mistério. A paz, sim, é um mistério. A violência é o padrão. É fácil. A paz é que é difícil: aprendida, inculcada, conquistada. (As pessoas geralmente fazem as perguntas psicológicas básicas invertidas. Por que as pessoas usam drogas? Não é um mistério. Por que não as usam o tempo todo é que é um mistério. Por que as pessoas sofrem com ansiedade? Não é um mistério. Como as pessoas conseguem ficar calmas? Eis o mistério. Somos quebráveis e mortais. Um milhão de coisas pode dar errado de um milhão de formas diferentes. Deveríamos tremer na base a cada segundo. Mas não fazemos isso. O mesmo pode ser dito sobre a depressão, preguiça e criminalidade.)
Se posso machucar e dominar você, então posso fazer exatamente o que quiser, quando quiser, mesmo quando você estiver por perto. Posso atormentá-lo para satisfazer minha curiosidade. Posso desviar a atenção sobre você, posso dominá-lo. Posso roubar seu brinquedo. As crianças batem, primeiro porque a agressão é inata, embora seja mais dominante em alguns indivíduos do que em outros, e segundo porque a agressão estimula o desejo. É tolice presumir que tal comportamento precisa ser aprendido. Uma serpente não precisa ser ensinada a dar o bote. Está em sua natureza. As crianças de dois anos, estatisticamente falando, são as pessoas mais violentas. Elas chutam, batem, mordem e roubam as propriedades dos outros. Fazem isso para explorar, expressar a revolta e frustração, e satisfazer seus desejos impulsivos. Ainda mais relevante para o nosso propósito, elas fazem isso para descobrir os limites reais do comportamento permitido. De que outra maneira conseguiriam descobrir o que é aceitável? Crianças são como pessoas cegas procurando uma parede. Precisam ir adiante e testar para ver onde, de fato, estão os limites (e eles raramente estão onde alguém disse que estariam).
Uma correção consistente de uma atitude assim indica os limites da agressão aceitável para a criança. Sua ausência apenas aumenta a curiosidade - então a criança vai bater, morder e chutar se for agressiva e dominante até que algo indique um limite. Até quanto posso bater na Mamãe? Até que ela se oponha. Com isso em mente, quanto antes houver correção, melhor (se o resultado final desejado pela mãe for não apanhar). A correção também ajuda a criança a aprender que bater nos outros é uma estratégia social inadequada. Sem essa correção, a criança não passará pelo processo penoso de organizar e regular seus impulsos para que possam coexistir sem conflitos com a psique da criança e com o mundo social mais amplo. Não é tão simples assim organizar uma mente.
12 Regras para a Vida: um Antídoto para o Caos - Jordan B. Peterson
Publicado no Facebook em 24 de Julho, 2018
Se posso machucar e dominar você, então posso fazer exatamente o que quiser, quando quiser, mesmo quando você estiver por perto. Posso atormentá-lo para satisfazer minha curiosidade. Posso desviar a atenção sobre você, posso dominá-lo. Posso roubar seu brinquedo. As crianças batem, primeiro porque a agressão é inata, embora seja mais dominante em alguns indivíduos do que em outros, e segundo porque a agressão estimula o desejo. É tolice presumir que tal comportamento precisa ser aprendido. Uma serpente não precisa ser ensinada a dar o bote. Está em sua natureza. As crianças de dois anos, estatisticamente falando, são as pessoas mais violentas. Elas chutam, batem, mordem e roubam as propriedades dos outros. Fazem isso para explorar, expressar a revolta e frustração, e satisfazer seus desejos impulsivos. Ainda mais relevante para o nosso propósito, elas fazem isso para descobrir os limites reais do comportamento permitido. De que outra maneira conseguiriam descobrir o que é aceitável? Crianças são como pessoas cegas procurando uma parede. Precisam ir adiante e testar para ver onde, de fato, estão os limites (e eles raramente estão onde alguém disse que estariam).
Uma correção consistente de uma atitude assim indica os limites da agressão aceitável para a criança. Sua ausência apenas aumenta a curiosidade - então a criança vai bater, morder e chutar se for agressiva e dominante até que algo indique um limite. Até quanto posso bater na Mamãe? Até que ela se oponha. Com isso em mente, quanto antes houver correção, melhor (se o resultado final desejado pela mãe for não apanhar). A correção também ajuda a criança a aprender que bater nos outros é uma estratégia social inadequada. Sem essa correção, a criança não passará pelo processo penoso de organizar e regular seus impulsos para que possam coexistir sem conflitos com a psique da criança e com o mundo social mais amplo. Não é tão simples assim organizar uma mente.
12 Regras para a Vida: um Antídoto para o Caos - Jordan B. Peterson
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quarta-feira, 28 de agosto de 2019
Ética e Religião
O estudo filosófico da moralidade - do certo e errado - é a ética. Esse estudo pode nos tornar mais sofisticados em nossas escolhas. No entanto, ainda mais antiga e profunda do que a ética é a religião. Ela se preocupa não com o (meramente) certo e errado, mas com os próprios bem e mal - os arquétipos de certo e errado. A religião se preocupa com o domínio do valor, o valor supremo. Esse não é o domínio científico. Não é o território da descrição empírica. As pessoas que escreveram e editaram a Bíblia, por exemplo, não eram cientistas. Não poderiam ter sido cientistas, mesmo se tivessem pretendido. Os pontos de vista, métodos e práticas da ciência ainda não haviam sido formulados quando a Bíblia foi escrita.
Pelo contrário, a religião trata de um comportamento correto. Trata do que Platão nomeou de “o Bem”. Um genuíno acólito religioso não tenta formular ideias precisas sobre a natureza objetiva do mundo (embora possa tentar isso também). Em vez disso, ele luta para ser uma “pessoa boa”. Pode ser que para ele “boa” signifique apenas “obediente” - mesmo cegamente obediente. Daí, temos a objeção do iluminismo clássico e liberal do Ocidente contra a crença religiosa: a obediência não é suficiente. Mas ao menos é um começo (e nos esquecemos disso): Você não consegue focar nada se for completamente indisciplinado e ignorante. Você não saberá o que escolher como alvo e não voará em linha reta, mesmo que de alguma forma tenha focado corretamente. E, depois, vai concluir: “Não há nada que focar”. Então, você estará perdido.
É, portanto, necessário e desejável que as religiões tenham um elemento dogmático. O que há de bom em um sistema de valores que não fornece uma estrutura estável? O que há de bom em um sistema de valores que não aponta o caminho para uma ordem superior? E como é possível que você seja bom se não internaliza essa estrutura - seja porque não quer, ou porque não consegue - ou aceita essa ordem - não como um destino final, necessariamente, mas ao menos como um ponto de partida? Sem isso, você não é nada além de um adulto com dois anos, sem o mesmo charme ou potencial da criança. Isso não significa dizer (repito) que a obediência é suficiente. Mas uma pessoa capaz de obedecer - uma pessoa disciplinada da maneira correta, por assim dizer - é, pelo menos, uma ferramenta bem desenvolvida. Pelo menos isso (e já é alguma coisa). Claro, precisa haver visão além da disciplina; além do dogma. Uma ferramenta ainda necessita de um propósito. É por esse motivo que Cristo disse, no Evangelho de Tomé: “O Reino do Pai está disperso pela terra e os homens não o veem”.
Isso significa que o que vemos depende de nossas crenças religiosas? Sim! E o que não vemos também! Você pode objetar: “Mas sou ateu”. Não, você não é (e se quiser entender isso poderá ler Crime e Castigo, de Dostoiévski, talvez o maior romance já escrito, no qual o personagem principal, Raskólnikov, decide levar seu ateísmo com uma seriedade verdadeira, comete o que ele racionalizou como um assassinato benevolente, e paga o preço). Você simplesmente não é um ateu em suas ações, e são elas que refletem mais acuradamente suas crenças profundas - aquelas que estão implícitas, incorporadas no seu ser, sob suas apreensões conscientes e suas atitudes exprimíveis no nível da superfície de seu autoconhecimento. Você só consegue descobrir no que de fato acredita (em vez do que pensa que acredita) ao observar suas ações. Você simplesmente não sabe no que acredita antes disso. Você é complexo demais para entender a si mesmo.
12 Regras para a Vida: um Antídoto para o Caos - Jordan B. Peterson
Publicado no Facebook em 24 de Julho, 2018
Pelo contrário, a religião trata de um comportamento correto. Trata do que Platão nomeou de “o Bem”. Um genuíno acólito religioso não tenta formular ideias precisas sobre a natureza objetiva do mundo (embora possa tentar isso também). Em vez disso, ele luta para ser uma “pessoa boa”. Pode ser que para ele “boa” signifique apenas “obediente” - mesmo cegamente obediente. Daí, temos a objeção do iluminismo clássico e liberal do Ocidente contra a crença religiosa: a obediência não é suficiente. Mas ao menos é um começo (e nos esquecemos disso): Você não consegue focar nada se for completamente indisciplinado e ignorante. Você não saberá o que escolher como alvo e não voará em linha reta, mesmo que de alguma forma tenha focado corretamente. E, depois, vai concluir: “Não há nada que focar”. Então, você estará perdido.
É, portanto, necessário e desejável que as religiões tenham um elemento dogmático. O que há de bom em um sistema de valores que não fornece uma estrutura estável? O que há de bom em um sistema de valores que não aponta o caminho para uma ordem superior? E como é possível que você seja bom se não internaliza essa estrutura - seja porque não quer, ou porque não consegue - ou aceita essa ordem - não como um destino final, necessariamente, mas ao menos como um ponto de partida? Sem isso, você não é nada além de um adulto com dois anos, sem o mesmo charme ou potencial da criança. Isso não significa dizer (repito) que a obediência é suficiente. Mas uma pessoa capaz de obedecer - uma pessoa disciplinada da maneira correta, por assim dizer - é, pelo menos, uma ferramenta bem desenvolvida. Pelo menos isso (e já é alguma coisa). Claro, precisa haver visão além da disciplina; além do dogma. Uma ferramenta ainda necessita de um propósito. É por esse motivo que Cristo disse, no Evangelho de Tomé: “O Reino do Pai está disperso pela terra e os homens não o veem”.
Isso significa que o que vemos depende de nossas crenças religiosas? Sim! E o que não vemos também! Você pode objetar: “Mas sou ateu”. Não, você não é (e se quiser entender isso poderá ler Crime e Castigo, de Dostoiévski, talvez o maior romance já escrito, no qual o personagem principal, Raskólnikov, decide levar seu ateísmo com uma seriedade verdadeira, comete o que ele racionalizou como um assassinato benevolente, e paga o preço). Você simplesmente não é um ateu em suas ações, e são elas que refletem mais acuradamente suas crenças profundas - aquelas que estão implícitas, incorporadas no seu ser, sob suas apreensões conscientes e suas atitudes exprimíveis no nível da superfície de seu autoconhecimento. Você só consegue descobrir no que de fato acredita (em vez do que pensa que acredita) ao observar suas ações. Você simplesmente não sabe no que acredita antes disso. Você é complexo demais para entender a si mesmo.
12 Regras para a Vida: um Antídoto para o Caos - Jordan B. Peterson
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terça-feira, 27 de agosto de 2019
Ideologia e Ideólogos
Ideologias são ideias simples, disfarçadas de ciência ou filosofia, que pretendem explicar a complexidade do mundo e oferecer soluções para aperfeiçoá-lo. Os ideólogos são pessoas que fingem saber como “fazer um mundo melhor” antes de organizarem o próprio caos interior. (A identidade de guerreiro outorgada por sua ideologia encobre esse caos.) Isso é arrogância, é claro, e um dos temas mais importantes deste livro é “arrume sua casa primeiro”, para o que Jordan fornece conselhos práticos.
As ideologias substituem o conhecimento verdadeiro, e os ideólogos são sempre perigosos quando ganham poder, pois um comportamento simplista e sabe-tudo não é páreo para a complexidade da existência. Além disso, quando suas engenhocas sociais não funcionam, os ideólogos não culpam a si mesmos, mas a todos que desmascaram suas simplificações. Outro grande professor da Universidade de Toronto, Lewis Feuer, em seu livro Ideology and the Ideologists [“A Ideologia e os Ideólogos”, em tradução livre], observou que os ideólogos reestruturam as mesmas histórias religiosas que julgavam capazes de suplantar, mas eliminam a narrativa e a riqueza psicológica. Tal qual o Comunismo, uma história emprestada dos Filhos de Israel no Egito, com uma classe escravizada, perseguidores ricos, um líder, como Lenin, que vai ao exterior, vive com os escravizadores e então guia os escravizados à terra prometida (a utopia; a ditadura do proletariado).
12 Regras para a Vida: um Antídoto para o Caos - Jordan B. Peterson
Publicado no Facebook em 24 de Julho, 2018
As ideologias substituem o conhecimento verdadeiro, e os ideólogos são sempre perigosos quando ganham poder, pois um comportamento simplista e sabe-tudo não é páreo para a complexidade da existência. Além disso, quando suas engenhocas sociais não funcionam, os ideólogos não culpam a si mesmos, mas a todos que desmascaram suas simplificações. Outro grande professor da Universidade de Toronto, Lewis Feuer, em seu livro Ideology and the Ideologists [“A Ideologia e os Ideólogos”, em tradução livre], observou que os ideólogos reestruturam as mesmas histórias religiosas que julgavam capazes de suplantar, mas eliminam a narrativa e a riqueza psicológica. Tal qual o Comunismo, uma história emprestada dos Filhos de Israel no Egito, com uma classe escravizada, perseguidores ricos, um líder, como Lenin, que vai ao exterior, vive com os escravizadores e então guia os escravizados à terra prometida (a utopia; a ditadura do proletariado).
12 Regras para a Vida: um Antídoto para o Caos - Jordan B. Peterson
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segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Compreensão e Abolição
E, então, em último lugar, mas nem por isso menos importante, vieram todas as pessoas que julgam poder resolver um problema que não compreendem ao abolir tudo o que contribuiu para sua existência. Nós todos conhecemos gente assim. Se um barbeiro calha de cortar a goela ao seu cliente porque certa garota resolveu trocar de parceiro para uma dança ou uma corrida de burros em Hampstead Heath, pessoas sempre as há para protestar contra as meras instituições que circundam o fato. A coisa não teria acontecido se se abolisse os barbeiros, ou as navalhas, ou a objeção que têm garotas a barbas imperfeitas, ou os brejos e descampados; o a dança ou os burros. Mas os burros, estes eu receio que jamais serão abolidos.
A Taberna Ambulante - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 3 de Julho, 2018
A Taberna Ambulante - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 3 de Julho, 2018
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
Jornalismo e Objetivo
A TABERNA QUE DESAPARECE
O CONTO DE FADAS DE PEBBLESWICK ESPECIAL
e o jornal continha um relato categórico e mais ou menos exato ( se bem que, para fazer-lhe jus) mais exato que menos) do que acontecera, ou do que parecera ter acontecido, aos olhos do atarantado Jorge e de sua turba de simpatizantes. “Jorge Burn, carpinteiro desta cidade, junto de Samuel Gripes, carroceiro a serviço dos Srs. Jay e Gubbins, cervejeiros, e de mais um número de outros residentes locais, conhecidos de todos, passaram em frente ao novo prédio, erigido na West Beach para servir a várias formas de entretenimento e popularmente conhecido como o pequeno Salão Universal. Vendo fincada à sua porta uma das velhas placas, hoje tão raras, daí inferiram - diga-se que de modo perfeitamente apropriado - que o lugar detinha a licença para vender-lhes bebidas alcoólicas, licença esta que tantos outros lugares na vizinhança há pouco haviam perdido. As pessoas que estavam dentro do salão, porém, parecem negar saber que houvesse à porta a referida placa e, quando o grupo (depois de algumas cenas lamentáveis, em que nenhuma vida se perdeu) saiu de volta para a praia, descobriu-se que aquela fora destruída ou roubada. Estavam todos sóbrios; e, de fato, não houve oportunidade alguma para que estivessem em qualquer outro estado. Está-se a investigar o mistério.”Mas esta notícia, comparativamente realista, era local e espontânea; nada devia à honestidade acidental do editor. Ademais, tem-se não raro mais honestidade nos jornais vespertinos que nos matutinos, pois quem escreve naqueles são subalternos, uns funcionários mal pagos que fazem tudo a toque de caixa; não há tempo para gente mais tímida os corrigir. Quando, na manhã seguinte, saíram os jornais matutinos, já a história do sumiço da placa sofrera uma mudança, sutil, mas perceptível. No jornal diário, que por aquelas bandas tinha a maior tiragem e, pois, a maior influência, entregou-se o problema a um cavalheiro conhecido (o que poderá parecer, ao mundo não-jornalístico, um pouco singular) como Hibbs However. Entregara-se-lhe o mistério de gozação, pelo cuidado complicado com que ia qualificando, a cada cinco palavras, todas as críticas públicas que fazia, de modo a fazer tudo depender das conjunções; dos “mas”, “todavia”, “contudo”, e afins. à medida em que lhe aumentavam o salário (pois aos editores e aos donos de jornais muito lhes apraz esse tipo de coisa) e iam debandando seus velhos amigos (pois o mais generoso dos amigos não pode senão desdenhar de um sucesso que não tem, em si, nada do sabor da glória) passava ele, cada vez mais, a ter-se na conta de diplomata; de homem que sempre diz a coisa certa. Mas nem por isso escapou à sua Nêmesis intelectual; pois, ao fim e ao cabo, de tão diplomático, Hibbs tornou-se obscura e solidamente ininteligível. Quem o conhecia não tinha dificuldade alguma em crer que o homem dissera a coisa certa, a coisa cheia de tato, a coisa que haveria de salvar a situação; só não sabiam o que é que dissera. No início de sua carreira, dominava, com maestria, um dos piores truques do jornalismo moderno: o truque de se ignorar a parte importante de uma questão, como se ela pudesse esperar, e aplicar-se com todo o esmero, acuidade e seriedade, àquelas suas outras partes, perfeitamente insignificantes. Assim, pois, ele diria, “seja lá o que possamos pensar sobre o que é justo e injusto na vivissecção das crianças de rua, há que se concordar que o procedimento deveria ser realizado, em qualquer caso, por pessoas especializadas”. Porém, nos últimos dias de sua diplomacia, mais sombrios, parecia simplesmente jogar fora a parte importante de um assunto e pegar pelos chifres alguma linha de associações que elusiva e timidamente lhe surgira na própria cabeça. nestes dias mais recentes, ele poderia muito bem dizer algo assim: “seja lá o que possamos pensar sobre o que é justo e injusto na vivissecção das crianças de rua, não há mente progressista que possa duvidar que a influência do Vaticano está a decair”. Sua alcunha se lhe pegara em honra a um parágrafo que ele supostamente escrevera quando o Presidente Americano fora baleado, por um lunático, em Nova Orleans; e no qual, dizem, lia-se o seguinte: “O Presidente passou bem a noite e sua condição já está muito melhor. O assassino não é, contudo, um alemão, como se supunha a princípio”. Conta-se que as gentes ficavam a contemplar esta observação misteriosa até que perdiam o juízo e queriam, eles mesmos, balear alguém.
[...]
A peça começava, de fato, com a fórmula, relativamente familiar, “quer tenhamos a opinião mais vaga ou a mais avançada sobre o velho e controvertido problema da moralidade ou imoralidade da placa de taberna como tal, parece-me ser indiscutível o fato de que as cenas que se desenrolaram em Pebbleswick foram um tanto vergonhosas para muitos, se bem que não para todos, os que nela estiveram envolvidos”. Depois, o seu tato degenerava-se num carnaval de irrelevâncias. Era um artigo maravilhoso. Nele, o leitor podia entrever qual era a opinião que tinha o sr. Hibbs sobre todo e qualquer assunto que não fosse o assunto do artigo.
[...] e o artigo se chamava “Os Tumultos em Pebbleswick”.
A Taberna Ambulante - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 3 de Julho, 2018
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Promessa e Infinidade
- ...enfim, é agora evidente - estava a dizer Lorde Ivywood - que uma dessas impossibilidades ancestrais já não é mais impossível. O Ocidente e o Oriente são, agora, um só. O Oriente não é mais Oriente, nem o ocidente, Ocidente; quebrou-se um pequeno istmo; e o Atlântico e o Pacífico são um só oceano. E não há, por certo, no mundo quem tenha feito mais por esta obra grandiosa de unificação do que o filósofo brilhante e ilustre a quem vocês terão o prazer de ouvir esta noite; eu bem queria que afazeres mais imediatos - pois de modo algum direi que são mais importantes - não me impedissem de aqui ficar, a fim de ouvi-lo e apreciar-lhe a eloquência, como tantas vezes o fiz outrora. O sr. Leveson gentilmente consentiu em tomar o meu lugar; e não posso fazer mais do que externar a profunda simpatia que tenho para com os fins e os ideais que haverão de se lhes desvendar hoje, aqui. Desde há muito que venho me convencendo, de modo crescente, que, sob uma certa máscara de austeridade que a religião maometana tem usado ao longo de certos séculos - máscara bastante similar à que tem usado a religião dos judeus -, o Islã esconde em si a potencialidade para se tornar a mais progressista de todas as religiões; de modo que, decorridos um ou dois séculos, haveremos de assistir às causas da paz, da ciência e da reforma serem defendidas universalmente pelo Islã, como são hoje defendidas por Israel. Não é em vão, me parece, que o símbolo desta fé seja o Crescente - aquilo que cresce. Enquanto os outros credos carregam emblemas que implicam, nuns casos mais, noutros menos, a finalidade, para este grande credo esperançoso a sua imperfeição mesma é o que lhe dá orgulho; e os homens haverão de marchar, intrépidos, sobre caminhos novos e maravilhosos, a seguir a curva que crescendo eternamente contém em si e ao mesmo tempo lhes exibe a promessa eterna do orbe.
A Taberna Ambulante - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 2 de Julho, 2018
A Taberna Ambulante - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 2 de Julho, 2018
terça-feira, 20 de agosto de 2019
Dar e Tirar
“Sim, fique um pouco menos entre mim e o sol.”
A perspectiva é sombria, mas não é inteiramente sem esperança.
Aqui e ali pode-se observar uma abertura entre as nuvens.
Cada vez mais as pessoas estão compreendendo que o governo nada tem para dar-lhes, sem primeiro tirar, o que lhes vai dar, de alguém, ou delas próprias. Vantagens aumentadas para grupos selecionados significam apenas impostos aumentados, ou déficits aumentados e inflação aumentada. E inflação, finalmente, atrapalha e desorganiza a produção. Mesmo alguns políticos estão começando a reconhecer isso, e alguns deles estão mesmo dizendo isso claramente.
Economia Numa Única Lição - Henry Hazlitt
Publicado no Facebok em 7 de Junho, 2018
domingo, 18 de agosto de 2019
Recordação e Educação
Sabei que não há nada de mais nobre, de mais forte, de mais são e de mais útil na vida que uma boa recordação, sobretudo provindo da juventude, da casa paterna. Falam-vos muito de vossa educação; ora, uma recordação santa, conservada desde a infância, é talvez a melhor educação. Se fazemos provisão de tais recordações para a vida, salvamo-nos definitivamente. E mesmo se só guardarmos no coração uma boa recordação, isto poderá servir um dia para nos salvar. Talvez nos tornemos mesmo maus, mais tarde, incapazes de nos abstermos duma má ação, rirmos das lágrimas de nossos semelhantes, dos que dizem, como Kólia exclamou ainda há pouco: "quero sofrer por todos", talvez zombemos deles maldosamente. Mas, por piores que nos tornemos, do que Deus nos preserve, quando nos lembrarmos de como enterramos Iliúcha, de como o amamos nos seus derradeiros dias, e das conversas que mantivemos cordialmente em redor dessa pedra, o mais duro e o mais zombeteiro dentre nós, se assim nos tornarmos, não ousará zombar, no seu foro íntimo, dos bons sentimentos que experimenta neste momento! Mais ainda, talvez que precisamente essa recordação apenas o impeça de agir mal; fará um exame de consciência e dirá: "Sim, eu era bom então, ousado, honesto". Que ria mesmo consigo mesmo, pouco importa, a gente zomba muitas vezes do que é bom e belo; é somente por leviandade, mas asseguro-vos que, logo depois de ter rido, dirá a si mesmo em seu coração: "Fiz mal em rir-me, porque não devemos rir dessas coisas!"
— Será absolutamente assim, Karamázov, eu o compreendo! — exclamou Kólia, de olhos brilhantes.
Os meninos agitaram-se e queriam também gritar alguma coisa, mas contiveram-se e fixaram no orador olhares emocionados.
— Disse isto para o caso em que nos tornarmos maus — prosseguiu Aliócha. — Mas por que nos tornarmos maus, não é, meus amigos? Seremos antes de tudo bons, depois honestos, enfim, não nos esqueceremos jamais uns dos outros. Insisto nisto. Dou-vos minha palavra, meus amigos, de que não esquecerei nenhum de vós: cada rosto que me olha agora, dele me lembrarei, mesmo daqui a trinta anos.
Os Irmãos Karámazov - Fiódor Dostoiévski
Publicado no Facebook em 30 de Março, 2018
— Será absolutamente assim, Karamázov, eu o compreendo! — exclamou Kólia, de olhos brilhantes.
Os meninos agitaram-se e queriam também gritar alguma coisa, mas contiveram-se e fixaram no orador olhares emocionados.
— Disse isto para o caso em que nos tornarmos maus — prosseguiu Aliócha. — Mas por que nos tornarmos maus, não é, meus amigos? Seremos antes de tudo bons, depois honestos, enfim, não nos esqueceremos jamais uns dos outros. Insisto nisto. Dou-vos minha palavra, meus amigos, de que não esquecerei nenhum de vós: cada rosto que me olha agora, dele me lembrarei, mesmo daqui a trinta anos.
Os Irmãos Karámazov - Fiódor Dostoiévski
Publicado no Facebook em 30 de Março, 2018
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
Necessidade e Liberdade
Olhai os leigos e esse mundo que se ergue acima do povo cristão: não alterou ele a imagem de Deus e sua verdade? Têm a ciência, mas somente a ciência sujeita aos sentidos. Quanto ao mundo espiritual, a metade superior do ser humano, rejeitam-no, banem-no alegremente, mesmo com ódio. O mundo proclamou a liberdade, sobretudo nestes derradeiros anos, e que representa ela? Nada mais senão a escravidão e o suicídio! Porque o mundo diz: "Tu tens necessidades, satisfá-las, porque possuis os mesmos direitos que os grandes e os ricos. Não temas satisfazê-las, aumenta-as mesmo". Eis o que se ensina atualmente. Tal é a concepção deles de liberdade. E que resulta desse direito de aumentar as necessidades? Entre os ricos, a solidão e o suicídio espiritual; entre os pobres, a inveja e o crime, porque se conferiram direitos, mas ainda não se indicaram os meios de satisfazer as necessidades. Assegura-se que o mundo, abreviando as distâncias, transmitindo o pensamento pelos ares, unir-se-á sempre cada vez mais, que a fraternidade reinará. Ai! não acrediteis nessa união dos homens. Concebendo a liberdade como o aumento das necessidades e sua pronta satisfação, alteram-lhes a natureza, porque fazem nascer neles uma multidão de desejos insensatos, de hábitos e imaginações absurdos. Não vivem senão para invejar-se mutuamente, para a sensualidade e a ostentação. Dar jantares, viajar, possuir carruagens, cargos, lacaios, passa tudo como uma necessidade à qual se sacrifica até sua vida, sua honra e o amor à humanidade, matar-se-ão mesmo, na impossibilidade de satisfazê-la. O mesmo ocorre entre aqueles que são ricos; quanto aos pobres, a insatisfação das necessidades e a inveja são no momento afogadas na embriaguez. Mas em breve, em lugar de vinho, embriagar-se-ão de sangue, é o fim para que os conduzem. Dizei-me se tal homem é livre.
Os Irmãos Karámazov - Fiódor Dostoiévski
Publicado no Facebook em 30 de Março, 2018
Os Irmãos Karámazov - Fiódor Dostoiévski
Publicado no Facebook em 30 de Março, 2018
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
Mentira e Ódio
Sobretudo não minta ao senhor mesmo. Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar, e para se distrair, na ausência de amor, entrega-se às paixões e aos gozos grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender-se. É por vezes bastante agradável ofender a si mesmo, não é verdade? Um indivíduo sabe que ninguém o ofendeu, mas que ele mesmo forjou uma ofensa e mente para embelezar, enegrecendo de propósito o quadro, que se ligou a uma palavra e fez dum montículo uma montanha — ele próprio o sabe, portanto é o primeiro a ofender-se, até o prazer, até experimentar uma grande satisfação, e por isso mesmo chega ao verdadeiro ódio...
Os Irmãos Karamázov - Fiódor Dostoiévski
Publicado no Facebook em 30 de Março, 2018
Os Irmãos Karamázov - Fiódor Dostoiévski
Publicado no Facebook em 30 de Março, 2018
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
Causa e Efeito
Toda a argumentação deste livro pode ser resumida na declaração de que, ao serem estudados os efeitos de qualquer propositura econômica, devemos examinar não só os resultados imediatos, mas também os resultados a longo prazo, não só as consequências primárias, mas também as secundárias; e não só os efeitos sobre um determinado grupo, mas os efeitos sobre todos. Segue-se que é tolice e desnorteante concentrar a atenção simplesmente nalgum ponto especial — examinar, por exemplo, apenas o que acontece numa indústria, sem considerar o que acontece em todas elas. mas é precisamente desse hábito persistente e ocioso de pensar apenas em alguma determinada indústria ou processo isolado que se originam as grandes falácias da economia. Tais falácias dominam, não só os argumentos dos portavozes contratados por interesse especiais, como, até, de alguns economistas que se passam por profundos estudiosos.
Economia Numa Única Lição - Henry Hazlitt
Publicado no Facebook em 20 de Março, 2018
Economia Numa Única Lição - Henry Hazlitt
Publicado no Facebook em 20 de Março, 2018
terça-feira, 13 de agosto de 2019
Prudência e Consequência
A prudência exige precisamente o tipo de consciência do passado e do futuro que nossos provincianos do tempo, ansiosos para reduzir tudo à experiência sensorial imediata, procuram destruir. A prudência demanda o exercício da razão e da imaginação exatamente porque abarca o que não está presente. Para que eu colha agora a recompensa do meu esforço ou da minha preguiça passadas; para que aquilo que faço hoje tenha um efeito em um futuro ainda potencial - essas coisas requerem um exercício mental. A ideia de que o Estado é de algum modo responsável pela pobreza dos idosos não é tão diferente do pressuposto de que o Estado é de algum modo responsável pela criminalidade dos criminosos. Não negarei que as desarticulações do capitalismo têm algo que ver com a primeira dessas realidades, mas trata-se de outra discussão. O importante aqui é compreender que não pode ser saudável uma sociedade que diz aos seus membros para não pensarem no futuro porque o Estado se encarregará de assegurar seu futuro. A habilidade de cultivar a prudência - algo que eu chamaria literalmente de presciência - é uma oportunidade para desenvolver a excelência pessoal. Não conheço melhor incentivo ao trabalho diligente do que a certeza de que os que depositam em sua tarefa o fervor do crente reservarão para o futuro compensações que não poderão ser apropriadas pelos imprudentes. Quando prevalece a certeza contrária; quando as maiorias populares são capazes de passar por cima dos direitos adquiridos pelo esforço passado - sob o pretexto de uma necessidade atual -, a tendência é que todos se tornem políticos. Em outras palavras, eles chegam à conclusão de que a manipulação traz mais recompensas do que a produção. Essa é a essência da corrupção.
As Ideias Têm Consequências - Richard M. Weaver
Publicado no Facebook em 17 de Janeiro, 2018
As Ideias Têm Consequências - Richard M. Weaver
Publicado no Facebook em 17 de Janeiro, 2018
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
Verdade e Consequência
Banquo - Essa sólida família real pode ainda levá-lo a ascender ao trono, senhor, além de fazê-lo Barão de Cawdor. Mas é estranho, porque muitas vezes, no intuito de conduzir-nos até a destruição, os instrumentos de Satã contam-nos verdades, cativam-nos com insignificâncias claramente honestas, só para trair-nos em consequências as mais profundas.
MacBeth - William Shakespeare
Publicado no Facebook em 16 de Janeiro, 2018
MacBeth - William Shakespeare
Publicado no Facebook em 16 de Janeiro, 2018
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
Reflexão #4
De todas as Referências de 2017, a Reflexão deve ser feita acerca do conceito de Desinformação:
Nem todas plantas são comestíveis, algumas são venenosas. Nem toda informação é alimento para a alma, algumas são falaciosas.
Publicado no Facebook em 1 de Janeiro, 2018
Nem todas plantas são comestíveis, algumas são venenosas. Nem toda informação é alimento para a alma, algumas são falaciosas.
Publicado no Facebook em 1 de Janeiro, 2018
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Sofrimento e Destino
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
Moral e Imaginação
No século XX, a ideia foi retomada pelo já citado Lionel Trilling e por Russel Kirk (1918-1994), grande intelectual conservador norte-americano. Ela pode ser definida basicamente como a capacidade de conceber os mais variados e profundos dilemas morais enfrentados pelo homem sem a necessidade de vivenciá-los em primeira pessoa, apreendendo por alegoria, como Kirk glosou platonicamente, a correta ordem da alma necessária à justa ordem da sociedade.
Para a conquista e o alargamento da imaginação moral, é fundamental aquilo que Trilling chamava de “a experiência da literatura”. A erudição acadêmica, o mergulho na bibliografia especializada, a alta formação universitária, tudo isso é vazio sem imaginação moral, que só se adquire mediante contato prolongado e verdadeiro com a mais alta tradição literária. É por meio dos clássicos das letras e das artes que temos a chance de experimentar situações e dramas humanos que, de outro modo, jamais experimentaríamos. Só assim podemos expandir nossa consciência e nossa própria humanidade, transcendendo provincianismos individuais e culturais, tomando parte no grande diálogo da humanidade consigo mesma e adquirindo aquele senso de eternidade sem o qual não passamos de primatas vestidos. Todo bom escritor quer tomar parte nesse diálogo. Todo bom escritor reconhece integrar uma tradição que o ultrapassa. Quem tem como objetivo último lançar-se a mil e uma inovações de forma, piruetas retóricas e rupturas pretensamente iconoclastas com a tradição, é menos um escritor que um ególatra em busca de atenção, alguém fechado em seu próprio tempo biográfico, incapaz, portanto, de elaborar uma linguagem propriamente humana, segundo a definição de Eugen Rosenstock-Huessy.
A Corrupção da Inteligência: Intelectuais e Poder no Brasil - Flávio Gordon
Publicado no Facebook em 7 de Novembro, 2017
Para a conquista e o alargamento da imaginação moral, é fundamental aquilo que Trilling chamava de “a experiência da literatura”. A erudição acadêmica, o mergulho na bibliografia especializada, a alta formação universitária, tudo isso é vazio sem imaginação moral, que só se adquire mediante contato prolongado e verdadeiro com a mais alta tradição literária. É por meio dos clássicos das letras e das artes que temos a chance de experimentar situações e dramas humanos que, de outro modo, jamais experimentaríamos. Só assim podemos expandir nossa consciência e nossa própria humanidade, transcendendo provincianismos individuais e culturais, tomando parte no grande diálogo da humanidade consigo mesma e adquirindo aquele senso de eternidade sem o qual não passamos de primatas vestidos. Todo bom escritor quer tomar parte nesse diálogo. Todo bom escritor reconhece integrar uma tradição que o ultrapassa. Quem tem como objetivo último lançar-se a mil e uma inovações de forma, piruetas retóricas e rupturas pretensamente iconoclastas com a tradição, é menos um escritor que um ególatra em busca de atenção, alguém fechado em seu próprio tempo biográfico, incapaz, portanto, de elaborar uma linguagem propriamente humana, segundo a definição de Eugen Rosenstock-Huessy.
A Corrupção da Inteligência: Intelectuais e Poder no Brasil - Flávio Gordon
Publicado no Facebook em 7 de Novembro, 2017
terça-feira, 6 de agosto de 2019
Sabedoria e Discernimento
Desse modo, a substituição da investigação especulativa pela investigação da experiência deixou o homem moderno tão submerso nas multiplicidades, que ele já não enxerga o caminho em que se encontra. Com isso compreendemos a máxima de Goethe: pode-se dizer que alguém sabe muito apenas no sentido que sabe pouco. Se nosso contemporâneo pertence a uma categoria profissional, ele pode ser capaz de descrever com perfeita fidelidade alguma parte minúscula do mundo, mas ainda lhe falta discernimento. Não pode haver nenhuma verdade sob um programa de ciências separadas, e seu pensamento será invalidade tão logo sejam introduzidas relações ab extra.
As Ideias Têm Consequências - Richard M. Weaver
Publicado no Facebook em 26 de Outubro, 2017
As Ideias Têm Consequências - Richard M. Weaver
Publicado no Facebook em 26 de Outubro, 2017
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
Loucura e Perspicácia
-- Não diga isso -- falou-lhe, algo bruscamente. Esse é o único tipo de perigo que eu realmente corro.
-- Não entendo -- disse Butterworth. Você quer dizer o perigo de ser diagnosticado como louco?
-- Diagnostique a mim até não agüentar mais, se quiser -- Gale retrucou, desdenhoso. Você acha que eu ficaria particularmente preocupado se o fizesse? Acha que não poderia ser razoavelmente feliz num asilo para lunáticos, contanto que lá houvesse poeira num raio de Sol ou sombras numa parede -- contanto pudesse olhar para coisas ordinárias e ficar a pensar em quão extraordinárias são? Será que você julga que eu não teria como louvar a Deus, e aliás com piedade tolerável, pela forma do nariz do guarda ou por qualquer outra coisa calculada para dar prazer a uma mente que pensa? Parece-me que o hospício seria um ótimo lugar para se estar são. De longe preferiria viver num hospício simpático, tranqüilo e isolado, a viver enfiado em clubes intelectuais que de intelectuais não têm nada, espalhando por aí as suas arengas sobre o livro ou a filosofia mais em voga; ou nalgum daqueles Movimentos sinceros, algo acotoveladores, que o querem fazendo algum Serviço para ajudá-los a tomar os brinquedos de alguém. Não se me dá muito em qual lugar eu fique a vadear para pensar, antes de morrer, desde que os pensamentos não vadiem demais, ou vadiem por caminhos errados. E o que você disse agora há pouco toca o perigo real. Toca, de fato, o perigo em que Garth estava pensando quando sugeriu que eu, de tanto endireitar juízos alheios, havia entortado o meu próprio. Se as pessoas me dizem que não conseguem entender o que quero dizer; se dizem não conseguir entender uma verdade tão simples quanto o fato de que é melhor para um homem ser um homem, que é perigoso arrogar-se honras divinas; se dizem não conseguir enxergar isso por si mesmos, e tomam a coisa por algum tipo de misticismo saído da minha cabeça, aí estarei, de novo, em perigo. Estarei a correr o o perigo de pensar algo que é ainda mais maluco e terrível do que pensar que sou Deus Todo-Poderoso.
-- E eu ainda não estou entendendo nada -- disse-lhe o médico, sorridente.
-- Vou acabar pensando que sou o único homem são -- arrematou Gabriel Gale.
O Poeta e os Lunáticos - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 23 de Outubro, 2017
-- Não entendo -- disse Butterworth. Você quer dizer o perigo de ser diagnosticado como louco?
-- Diagnostique a mim até não agüentar mais, se quiser -- Gale retrucou, desdenhoso. Você acha que eu ficaria particularmente preocupado se o fizesse? Acha que não poderia ser razoavelmente feliz num asilo para lunáticos, contanto que lá houvesse poeira num raio de Sol ou sombras numa parede -- contanto pudesse olhar para coisas ordinárias e ficar a pensar em quão extraordinárias são? Será que você julga que eu não teria como louvar a Deus, e aliás com piedade tolerável, pela forma do nariz do guarda ou por qualquer outra coisa calculada para dar prazer a uma mente que pensa? Parece-me que o hospício seria um ótimo lugar para se estar são. De longe preferiria viver num hospício simpático, tranqüilo e isolado, a viver enfiado em clubes intelectuais que de intelectuais não têm nada, espalhando por aí as suas arengas sobre o livro ou a filosofia mais em voga; ou nalgum daqueles Movimentos sinceros, algo acotoveladores, que o querem fazendo algum Serviço para ajudá-los a tomar os brinquedos de alguém. Não se me dá muito em qual lugar eu fique a vadear para pensar, antes de morrer, desde que os pensamentos não vadiem demais, ou vadiem por caminhos errados. E o que você disse agora há pouco toca o perigo real. Toca, de fato, o perigo em que Garth estava pensando quando sugeriu que eu, de tanto endireitar juízos alheios, havia entortado o meu próprio. Se as pessoas me dizem que não conseguem entender o que quero dizer; se dizem não conseguir entender uma verdade tão simples quanto o fato de que é melhor para um homem ser um homem, que é perigoso arrogar-se honras divinas; se dizem não conseguir enxergar isso por si mesmos, e tomam a coisa por algum tipo de misticismo saído da minha cabeça, aí estarei, de novo, em perigo. Estarei a correr o o perigo de pensar algo que é ainda mais maluco e terrível do que pensar que sou Deus Todo-Poderoso.
-- E eu ainda não estou entendendo nada -- disse-lhe o médico, sorridente.
-- Vou acabar pensando que sou o único homem são -- arrematou Gabriel Gale.
O Poeta e os Lunáticos - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 23 de Outubro, 2017
sábado, 3 de agosto de 2019
Cristianismo e Eternidade
Mas essa loucura permaneceu sã. A loucura permaneceu sã quando tudo o mais enlouqueceu. O hospício tem sido uma casa à qual, época após época, os homens estão continuamente retornando como se fossem para casa. Esse é o enigma que remanesce; o de que nada de tão abrupto e anormal seria ainda tido como algo de habitável e hospitaleiro. Não me importo se o cético diz que é uma história impossível; não consigo compreender como uma torre tão alta poderia permanecer de pé por tanto tempo sem possuir um alicerce. Menos ainda consigo compreender como poderia se tornar, como se tornou, o lar do homem. Tivesse apenas aparecido e desaparecido, possivelmente seria lembrada e explicada como o último salto da fúria da ilusão, o derradeiro mito do estado de espírito final, no qual a mente atinge o céu e despedaça. Mas a mente não se despedaçou. Ela é a única mentalidade que permanece incólume em meio ao despedaçamento do mundo. Se ela fosse um erro, pareceria que esse erro dificilmente seria capaz de durar um único dia sequer. Se ela fosse um êxtase supremo, pareceria que esse êxtase não seria capaz de durar sequer uma hora. Ela durou por quase dois mil anos; e o mundo moldado por ela tem sido mais lúcido, mais equilibrado, mais sensato em suas esperanças, mais saudável em seus instintos, mais bem-humorado e animado frente ao fado e à morte, do que todo o mundo ao redor. Pois foi a alma da cristandade que adveio do inacreditável Cristo; e a alma dela era o senso comum. Embora não ousemos olhar para Seu rosto, podemos olhar para os seus frutos; e pelos Seus frutos nós O conheceremos. Os frutos são consistentes e a fertilidade é muito mais que uma metáfora; e em nenhum lugar deste triste mundo há crianças mais felizes trepadas nas macieiras, ou homens a cantar num coro mais harmônico enquanto pisam a vinha, do que sob o lampejo fixo desta iluminação instantânea e intolerante; o relâmpago tornado eterno como a luz.
O Homem Eterno - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 12 de Outubro, 2017
O Homem Eterno - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 12 de Outubro, 2017
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
Paganismo e Decadência
O paganismo viveu com base na poesia; aquela poesia que já abordamos sob o nome de mitologia. Mas em toda parte, e especialmente na Itália, essas poesia e mitologia tinham suas raízes no campo; e essa religião rústica tinha em grande medida sido responsável pela alegria rústica. Somente quando a sociedade passou a acumular idade e experiência foi que principiou a surgir aquela fraqueza por toda a mitologia, a qual já abordamos no capítulo dedicado ao assunto. Essa religião não era inteiramente uma religião. Em outras palavras, essa religião não era inteiramente uma realidade. Era a vida desregrada de um jovem mundo com imagens e idéias, tal qual a vida desregrada de um jovem homem com vinho e namoros; era algo menos imoral que irresponsável; não previa de forma alguma a prova derradeira do tempo. Por ser um mundo de criatividade desenfreada, era de uma credulidade desenfreada. Ele pertencia ao lado artístico do homem, ainda que mesmo se considerado artisticamente ele há muito já estivesse sobrecarregado e estorvado. As árvores genealógicas advindas da semente de Júpiter eram mais uma selva que uma floresta; os direitos dos deuses e semideuses pareciam coisas a serem dirimidas mais por um jurista ou um heraldista do que por um poeta. Mas é desnecessário dizer que não foi só sob o aspecto artístico que essas coisas se tornaram mais anárquicas. Foi aparecendo de forma pouco a pouco mais flagrante aquela flor do mal que está latente na própria semente do culto da natureza, por mais natural que ela possa parecer. Eu afirmei que não acredito que o culto natural começa necessariamente com essa paixão em particular; não faço parte da escola de folclore científico de De Rougemont. Eu não acredito que a mitologia deva começar pelo erotismo. Mas efetivamente acredito que deve terminar nele. Quase tenho certeza que a mitologia de fato terminou nele. Mais ainda, não apenas a poesia se tornou mais imoral, mas a imoralidade se tornou mais indesculpável. Os vícios gregos, os vícios orientais, resquícios dos antigos horrores dos demônios semíticos começaram a ocupar as fantasias da Roma decadente, enxameando como moscas em torno de uma estrumeira. A psicologia disso é realmente bastante humana para qualquer pessoa que experimente ver a história desde dentro. Chega uma determinada hora da tarde em que a criança já esta cansada de “fingir”; quando está cansada de ser um bandido ou um pele-vermelha. É aí que ela passa a atormentar o gato. Chega um momento na rotina de uma civilização bem organizada quando o homem cansa de brincar de mitologia e de fingir que uma árvore é uma donzela ou que a lua fez amor com um homem. O resultado dessa insipidez é a mesma em toda parte; ele é visto no consumo de drogas e no consumo de bebida a tragos e em toda forma que a tendência de aumentar a dose assuma. Os homens buscam pecados mais estranhos ou obscenidades mais chocantes como estimulantes aos seus sentidos já fatigados. Eles buscam religiões orientais loucas pleo mesmo motivo. Eles tentam apunhalar os seus próprios nervos para reavivá-los, caso dispusessem das facas dos sacerdotes de Baal. Eles estão caminhando em seus próprios sonhos e tentam acordar por meio de pesadelos.
O Homem Eterno - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 12 de Outubro, 2017
O Homem Eterno - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 12 de Outubro, 2017
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
Democracia e Poder
Foi por isto mesmo que a sociedade democrática, professando mentirosamente equalizar a distribuição de poder, teve de elitizar-se a um ponto que seria inimaginável para os nossos antepassados. Pois uma coisa é ideologia igualitária, outra coisa é sociedade igualitária. Que essa ideologia pudesse transformar-se no instrumento da mais formidável concentração de poder nas mãos de poucos, é menos uma ironia da História do que uma fatalidade inerente à natureza do poder: não podendo eliminar as castas governantes, ocultou-as, aumentando assim o seu poderio. E quando elas ressurgem sob nomes como “burocracia estatal” e intelligentzia, ninguém as reconhece, pois todos crêem que castas só existem na Índia ou no passado medieval.
Nossos contemporâneos, imbuídos de ilusão igualitária, crêem que o mundo caminha para o nivelamento dos direitos, sem se perguntarem se esse objetivo pode ser realizado por outros meios senão a concentração de poder. Essa ilusão torna-os cegos para as realidades mais patentes, entre as quais a da elitização, sem precedentes, dos meios de poder. O imaginário moderno concebe, por exemplo, o senhor feudal como a epítome do poder pessoal discricionário, e não se dá conta de que o senhor feudal estava limitado por toda sorte de laços e compromissos de lealdade mútua com seus servos, e que ademais não tinha outros meios de violência senão uns quantos cavaleiros armados de espada, lança, arco e flecha; homem entre homens, era visto por todos no campo e na aldeia, caminhava ou cavalgava ao lado de seu servo, às vezes trazendo-o na garupa, de volta da taberna onde ambos se haviam embriagado, e podia portanto, em caso de grave ofensa, ser atingido, inerme, nas campinas imensas onde o grito se perde na distância, por uma lâmina vingadora. Pela foice do camponês. Por uma faca de cozinha.
Em comparação com ele, o homem poderoso de hoje está colocado a uma tal distância dos dominados, que sua posição mais se assemelha à de um deus ante os mortais. Em primeiro lugar, os poderosos estão isolados de nós geograficamente: moram em condomínios fechados, cercados de portões eletrônicos, alarmes, guardas armados, matilhas de cães ferozes. Não entramos lá. Em segundo lugar, seu tempo vale dinheiro, mais dinheiro do que nós temos; falar com um deles é uma aventura que demanda a travessia de barreiras burocráticas sem fim, meses de espera e a possibilidade de sermos recebidos por um assessor dotado de desculpas infalíveis. Em terceiro, os ocupantes nominais dos altos cargos nem sempre são os verdadeiros detentores do poder: há fortunas ocultas, potestades ocultas, causas ocultas, e nossos pedidos, nossas imprecações e mesmo nossos tiros arriscam acertar uma fachada inócua, deixando a salvo o verdadeiro destinatário que desconhecemos. Perdemo-nos na trama demasiado complicada das hierarquias sociais modernas, e temos razões para invejar o servo-da-gleba, que ao menos tinha o direito de saber quem mandava nele. Após dois séculos de democracia, igualitarismo, direitos humanos, Estado assistencial, socialismo e progressismo, eis a parte que nos cabe deste latifúndio: os poderosos pairam acima de nós na nuvem áurea de uma inatingibilidade divina.
O Jardim das Aflições - de Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado em 14 de Setembro, 2017
Nossos contemporâneos, imbuídos de ilusão igualitária, crêem que o mundo caminha para o nivelamento dos direitos, sem se perguntarem se esse objetivo pode ser realizado por outros meios senão a concentração de poder. Essa ilusão torna-os cegos para as realidades mais patentes, entre as quais a da elitização, sem precedentes, dos meios de poder. O imaginário moderno concebe, por exemplo, o senhor feudal como a epítome do poder pessoal discricionário, e não se dá conta de que o senhor feudal estava limitado por toda sorte de laços e compromissos de lealdade mútua com seus servos, e que ademais não tinha outros meios de violência senão uns quantos cavaleiros armados de espada, lança, arco e flecha; homem entre homens, era visto por todos no campo e na aldeia, caminhava ou cavalgava ao lado de seu servo, às vezes trazendo-o na garupa, de volta da taberna onde ambos se haviam embriagado, e podia portanto, em caso de grave ofensa, ser atingido, inerme, nas campinas imensas onde o grito se perde na distância, por uma lâmina vingadora. Pela foice do camponês. Por uma faca de cozinha.
Em comparação com ele, o homem poderoso de hoje está colocado a uma tal distância dos dominados, que sua posição mais se assemelha à de um deus ante os mortais. Em primeiro lugar, os poderosos estão isolados de nós geograficamente: moram em condomínios fechados, cercados de portões eletrônicos, alarmes, guardas armados, matilhas de cães ferozes. Não entramos lá. Em segundo lugar, seu tempo vale dinheiro, mais dinheiro do que nós temos; falar com um deles é uma aventura que demanda a travessia de barreiras burocráticas sem fim, meses de espera e a possibilidade de sermos recebidos por um assessor dotado de desculpas infalíveis. Em terceiro, os ocupantes nominais dos altos cargos nem sempre são os verdadeiros detentores do poder: há fortunas ocultas, potestades ocultas, causas ocultas, e nossos pedidos, nossas imprecações e mesmo nossos tiros arriscam acertar uma fachada inócua, deixando a salvo o verdadeiro destinatário que desconhecemos. Perdemo-nos na trama demasiado complicada das hierarquias sociais modernas, e temos razões para invejar o servo-da-gleba, que ao menos tinha o direito de saber quem mandava nele. Após dois séculos de democracia, igualitarismo, direitos humanos, Estado assistencial, socialismo e progressismo, eis a parte que nos cabe deste latifúndio: os poderosos pairam acima de nós na nuvem áurea de uma inatingibilidade divina.
O Jardim das Aflições - de Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado em 14 de Setembro, 2017
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