terça-feira, 19 de outubro de 2021

Humilhação e Orgulho

XCVI

E o homem empurrado, apenas sentiu o empurrão. Caminhava absorto, mas contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o diretor de banco, o que acabava de fazer a visita de pêsames ao Palha. Sentiu o empurrão e não se zangou; concertou o sobretudo e a alma e lá foi andando tranqüilamente.
Convém dizer, para explicar a indiferença do homem, que ele tivera, no espaço de uma hora, comoções opostas. Fora primeiro à casa de um ministro de Estado, tratar do requerimento de um irmão. O ministro, que acabava de jantar, fumava calado e pacífico. O diretor expôs atrapalhadamente o negócio, tornando atrás, saltando adiante, ligando e desligando as frases. Mal sentado, para não perder a linha do respeito, trazia na boca um sorriso constante e venerador; e curvava-se, pedia desculpas. O ministro fez algumas perguntas; ele, animado, deu respostas longas, extremamente longas e acabou entregando um memorial. Depois ergueu-se, agradeceu, apertou a mão ao ministro, este acompanhou-o até à varanda. Aí fez o diretor duas cortesias, - uma em cheio, antes de descer a escada, - outra em vão, já embaixo, no jardim; em vez do ministro, viu só a porta de vidro fosco e, na varanda, pendente do tecto, o lampião de gás. Enterrou o chapéu e saiu. Saiu humilhado, vexado de si mesmo. Não era o negócio que o afligia, mas os cumprimentos que fez, as desculpas que pediu, as atitudes subalternas, um rosário de atos sem proveito. Foi assim que chegou à casa de Palha.
Em dez minutos, tinha a alma espantada e restituída a si mesma, tais foram as mesuras do dono da casa, os apoiados de cabeça e um raio de sorriso perene, não contando oferecimentos de chá e charutos. O diretor fez-se então severo, superior, frio, poucas palavras; chegou a arregaçar, com desdém, a venta esquerda, a propósito de uma idéia do Palha, que a recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do ministro o gesto lento. Saindo, não foram dele as cortesias, mas do dono da casa.
Estava outro, quando chegou à rua, daí o andar sossegado e satisfeito, o espraiar da alma devolvida a si própria e a indiferença com que recebeu o embate do Rubião. Lá se ia a memória dos seus rapapés; agora o que ele rumina saborosamente são os rapapés de Cristiano Palha.


Quincas Borba – Machado de Assis

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Vexame e Riso

LIII

Perdoem-lhe esse riso. Bem sei que o desassossego, a noite mal passada, o terror da opinião, tudo contrasta com esse riso inoportuno. Mas, leitora amada, talvez a senhora nunca visse cair um carteiro. Os deuses de Homero, - e mais eram deuses, - debatiam uma vez no Olimpo, gravemente e, até, furiosamente. A orgulhosa Juno, ciosa dos colóquios de Tétis e Júpiter em favor de Aquiles, interrompe o filho de Saturno. Júpiter troveja e ameaça; a esposa treme de cólera. Os outros gemem e suspiram. Mas quando Vulcano pega da urna de néctar e vai, coxeando, servir a todos, rompe no Olimpo uma enorme gargalhada inextinguível. Por quê? Senhora minha, com certeza nunca viu cair um carteiro.
Às vezes, nem é preciso que ele caia; outras vezes nem é sequer preciso que exista. Basta imaginá-lo ou recordá-lo. A sombra da sombra de uma lembrança grotesca projeta-se no meio da paixão mais aborrecível e o sorriso vem, às vezes, à tona da cara, leve que seja, - um nada. Deixemo-la rir e ler a sua carta da roça.


Quincas Borba – Machado de Assis

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Sofrimento e Consolação

14. Tem por certo que a tua vida deve ser uma morte contínua; quanto mais cada um morre a si mesmo, tanto melhor começa a viver para Deus.
Só é capaz de compreender as coisas do Céu quem se resigna a suportar, por amor de Cristo, as adversidades.
Não há nada mais agradável a Deus, nem mais proveitoso para ti neste mundo, que padecer de boa vontade por Cristo.
E se te dessem a escolher, deverias preferir sofrer, trabalhar por Ele ao invés de ser recreado com muitas consolações, porque assim te assemelharias mais a Cristo e melhor te conformarias com o exemplo de todos os santos.
O nosso merecimento e o progresso na perfeição consistem menos na abundância das doçuras e consolações do que em passar por grandes trabalhos e graves provações.

15. Se houvesse coisa melhor e mais útil para a salvação dos homens do que o sofrimento, Jesus Cristo nos teria, sem dúvida, ensinado com usas palavras e exemplos.
Ora, aos discípulos que o acompanhavam e a quantos desejam segui-Lo, Ele exorta claramente a levar a cruz dizendo: Quem quiser vir após mim renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.¹
Assim, pois, lidas e bem pesadas todas as coisas, seja esta a última conclusão: Para entrar no Reino de Deus é necessário passar por muitas tribulações.²


Tomás de Kempis – A Imitação de Cristo

¹ Mt 16, 24.

² At 14, 21.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Disposição e Distração

7. Quem estima as coisas pelo que são, e não pelo que delas dizem ou julgam os homens, é verdadeiramente sábio, instruído mais por Deus do que pelas criaturas.
Quem sabe viver recolhido dentro de si e pouco se inquieta com as coisas exteriores, não precisa escolher lugar nem aguardar o tempo para seus exercícios de devoção.
O homem interior bem depressa se recolhe porque nunca se espalha de todo nas coisas externas. Não o estorva o trabalho material nem a ocupação às vezes necessária; acomoda-se às coisas como ocorrem.
A quem está bem disposto e ordenado no seu interior, pouco se lhe dá dos feitos famosos ou perversos dos homens.
O homem não é embaraçado e distraído pelas coisas senão na medida em que a elas se apega.

Tomás de Kempis – A Imitação de Cristo

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Paixão e Paz

Das afeições desordenadas

1. Todas as vezes que o homem deseja alguma coisa desordenadamente, passa logo a sentir-se inquieto.
O soberbo e o avarento nunca têm descanso; o pobre e o humilde de espírito vivem em muita paz.
Quem ainda não se mortificou perfeitamente caba sendo bem depressa tentado e vencido em coisas pequenas e insignificantes.
O fraco de espírito, ainda um tanto carnal e inclinado às coisas sensíveis, dificilmente pode desapegar-se de todos os desejos da Terra; e por isto sente-se muitas vezes triste quando deles se priva e com facilidade se irrita se alguém o contraria.

2. Mas se alcança o que desejava, logo o oprime o remorso de consciência por haver seguido sua paixão que não lhe traz a paz que buscava.
É, com efeito, resistindo e não obedecendo às paixões que se encontra a verdadeira paz de coração.
Pois, não terá Paz o homem carnal nem o dissipado, mas o fervoroso e espiritual.



Tomás de Kempis – A Imitação de Cristo