ESPIÃO
[...]
Falou o vate. Ergueu sereno o escudo todo 590
em bronze. Não havia efígie no seu bojo,
pois desejava ser, não parecer, o áristos,
primaz, lavrando em sua mente o sulco fundo
do qual germinam decisões percucientes.
Louvo se lhe remeta um oponente sábio 595
e reto: assombra quem venera o nume eterno.
ETÉOCLES
Ai! Agrura do mau agouro, que associa
o justo ao homem ímpio! o que se faça,
a companhia má é o que há de mais nefasto,
um fruto a refugar. Se alguém sem jaça embarca 600
com nautas sôfregos de ação soez, perece
com a chusma divinorrejeitada, ou,
embora justo, se anda junto com pessoas
hostis aos hóspedes, imêmores dos deuses, 605
acabará fisgado numa mesma rede
com o injusto, e o látego comum dos numes
o domará, ferido. Assim o adivinho,
refiro-me a Anfiarau, um homem reto e bom, 610
equilibrado e virtuoso, inigualável
profeta, se meteu – contrário a si mesmo –
com gente sem pudor de verve truculenta,
numa missão cujo retorno distancia-se.
Zeus decidiu: será arrastado com os outros. 615
Sou da opinião de que não se imporá nas portas,
não por ser vil ou por trazer a alma tíbia,
mas por saber que está fadado a perecer
na guerra, se viger o oráculo de Lóxias.
Sete Contra Tebas - Ésquilo
quinta-feira, 16 de novembro de 2023
sexta-feira, 10 de novembro de 2023
Ódio e Perdão
Aquele europeu diante de mim, porém, revelou-se logo um homem de outra natureza, e ganhou meu respeito e minha confiança. O diálogo que travamos ao longo daqueles dias imprimiu-se para sempre no meu coração. Posso dizer, hoje, em retrospectiva, que foi um daqueles encontros fulcrais, uma daquelas bifurcações em nossa vida, quando o destino oferece a oportunidade de abrirmos um novo caminho. Sim, este foi o tamanho do impacto que o padre Gregorio exerceu sobre mim – sobre minhas idéias e convicções. Aquele homem fascinante, que consertou minha vida, relatou que trabalhava na floresta catequizando tribos amazônicas, e que estava ali tentando terminar "cinco séculos de esforço inacabado". Dois dos seus conselhos, dados ao primeiro dia, recomendações boas e difíceis de cumprir, precisam ser registradas de imediato aqui: "reze o terço todo dia, como nos pediu a Madonna, e reze-o por Maduro também".
– Rezar por Maduro? Eu não quero, eu não consigo. Não sou tão bom assim.
Quando terminei de falar já estava agitado e febril. O padre permanecia impassível, fitando-me com o mesmo olhar paciente. Falou-me com uma calma extraordinária:
– Deus muitas vezes permite que cheguemos ao abismo do inferno – fez uma pausa, como se avaliasse a minha reação. E prosseguiu:
– Ele nos deixa ver e sentir o sofrimento e o desespero da condenação eterna. Ele faz isso por bondade, por amor – cada vez que se referia a Deus seus olhos se moviam para cima – Mas tu não estás condenado ao inferno. Podes te afastar deste lugar. Ainda há tempo. Este lugar de ódio e sofrimento, este lugar em que não existe mais alegria e onde morreu toda a esperança, não precisa ser a sua morada permanente. Os padecimentos dos tempos presentes não guardam proporção com a alegria da vida futura.
Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana
– Rezar por Maduro? Eu não quero, eu não consigo. Não sou tão bom assim.
– Não te iguales pelo ódio, não é este o caminho. Acredito que saibas disso.
– É mais fácil falar do que fazer, padre, o senhor deve saber disso. Tiraram tudo de mim. Chávez e Maduro destruíram a minha vida, mataram o meu irmão, destruíram a minha família. Não temos mais nada. Tive que abandonar a minha mãe sozinha naquele inferno. Olha onde eu estou. Olha onde eu vim parar. Perdi tudo, me tornei um indigente. Que futuro eu tenho pela frente? Sou um homem de quase cinquenta anos. E durmo ao relento, vivo de esmola, durmo numa rede, caminhei dezenas de quilómetros, meu pé ainda está cheio de calos, olha só – ergui o tênis, continuei – E tudo por causa Maduro. Dele e dos outros. Quero o Maduro numa forca! Faço questão de assistir. Quero o filho da puta, me desculpe, padre, quero ele sofrendo uma grande humilhação, corroendo-se de raiva, impotente. Quero ele exposto dentro de uma jaula, como um bicho do zoológico, um macaco de circo, todo mundo zombando dele, cuspindo, escarnecendo, rindo. O Fujimori fez isso o homem do Sendero Luminoso. Foi muito bem feito, até foi pouco, foi merecido. O que eu quero é que o Maduro morra feito um cão, feito um porco, humilhado, como Mussolini, como Ceausescu, como Khadafi. É isso que ele merece: a forca, um tiro na nuca, o pelotão de fuzilamento, pauladas no meio da rua. Ele e todos aqueles outros comunistas que estão ao lado dele. Todos eles, todos, malditos sejam!
– É mais fácil falar do que fazer, padre, o senhor deve saber disso. Tiraram tudo de mim. Chávez e Maduro destruíram a minha vida, mataram o meu irmão, destruíram a minha família. Não temos mais nada. Tive que abandonar a minha mãe sozinha naquele inferno. Olha onde eu estou. Olha onde eu vim parar. Perdi tudo, me tornei um indigente. Que futuro eu tenho pela frente? Sou um homem de quase cinquenta anos. E durmo ao relento, vivo de esmola, durmo numa rede, caminhei dezenas de quilómetros, meu pé ainda está cheio de calos, olha só – ergui o tênis, continuei – E tudo por causa Maduro. Dele e dos outros. Quero o Maduro numa forca! Faço questão de assistir. Quero o filho da puta, me desculpe, padre, quero ele sofrendo uma grande humilhação, corroendo-se de raiva, impotente. Quero ele exposto dentro de uma jaula, como um bicho do zoológico, um macaco de circo, todo mundo zombando dele, cuspindo, escarnecendo, rindo. O Fujimori fez isso o homem do Sendero Luminoso. Foi muito bem feito, até foi pouco, foi merecido. O que eu quero é que o Maduro morra feito um cão, feito um porco, humilhado, como Mussolini, como Ceausescu, como Khadafi. É isso que ele merece: a forca, um tiro na nuca, o pelotão de fuzilamento, pauladas no meio da rua. Ele e todos aqueles outros comunistas que estão ao lado dele. Todos eles, todos, malditos sejam!
Quando terminei de falar já estava agitado e febril. O padre permanecia impassível, fitando-me com o mesmo olhar paciente. Falou-me com uma calma extraordinária:
– Deus muitas vezes permite que cheguemos ao abismo do inferno – fez uma pausa, como se avaliasse a minha reação. E prosseguiu:
– Ele nos deixa ver e sentir o sofrimento e o desespero da condenação eterna. Ele faz isso por bondade, por amor – cada vez que se referia a Deus seus olhos se moviam para cima – Mas tu não estás condenado ao inferno. Podes te afastar deste lugar. Ainda há tempo. Este lugar de ódio e sofrimento, este lugar em que não existe mais alegria e onde morreu toda a esperança, não precisa ser a sua morada permanente. Os padecimentos dos tempos presentes não guardam proporção com a alegria da vida futura.
Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana
quinta-feira, 9 de novembro de 2023
Argumentos e Irracionalidade
Era meu costume: tentava persuadi-lo pela repetição enfática, mas minhas palavras tinham o poder de calcificar ainda mais a sua resistência. Meu irmão era um daqueles homens fragmentados tão comuns hoje em dia, um ateísta professo que uma vez por semana praticava santeria. Em sua cabeça desorganizada se acomodavam as noções mais contraditórias sem que ele jamais se desse conta de nenhuma incompatibilidade. O seu domínio da linguagem era impreciso e, por isso, quanto mais ele lia mais deformava a sua personalidade. Todo aquele desacordo interno, quando conversávamos, deixava-me furioso. Não sabia lidar com aquilo, sentia-me trapaceado. Aquela sua irracionalidade, assim eu o via, desrespeitava as regras do jogo. Brigávamos e brigávamos sem nunca mudar as convicções iniciais. Discutíamos feito loucos para ao final continuarmos fixos na mesma posição, como numa guerra de trincheiras. Era tudo inútil. Hoje, em retrospectiva, vejo o absurdo e o ridículo da situação. Eu queria porque queria convencê-lo de que eu estava certo e ele estava errado. Não havia um pingo de sabedoria em mim.
Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana
Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana
quarta-feira, 8 de novembro de 2023
Previsão e Prudência
A digressão foi deliberada. Fujo da questão e me escondo; dissimulo, finjo sabedoria e erudição. É tudo um grande teatro e uma grande conveniência. Em verdade não quero exibir minha vergonha, tenho noção do coitado que sou, da miséria em que me encerro. Contar a minha história confirmará no leitor a certeza de minha estupidez. Não passo de uma Cassandra inglória sem Virgílio para eternizar. Vaticinei tragédias durante anos, bradei aos céus como um profeta bíblico, mas cá estou, mendigando pão, vítima do mesmíssimo naufrágio de que tantas vezes alertei. De que adiantou? Qual foi o proveito? Realmente acreditava em minhas palavras, considerava-me investido com missão salvífica? Se sim, então, por que demônios não preparei a arca? Por que deixei-me soçobrar? A resposta é simples e terrível: sou um farsante; e falo demasiado de mim. Eis um exemplo simples: digo-me exilado, como se a palavra me adornasse de tons heróicos, conferisse algum protagonismo. Mas é mentira. Sou tão refugiado quanto o ignorante que ronca na barraca aqui ao meu lado e pica-me o orgulho compartilhar a sorte do vulgar dos homens.
Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana
Se Houvesse um Homem Justo na Cidade – Diogo Fontana
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