sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Mentira e Referência

Na Teoria dos Signos existe a distinção entre signo, significado e referente. O signo é o elemento visual ou acústico que serve para substituir e indicar no seu pensamento algum significado. O significado é um conjunto de outros signos, em geral palavras, que explicam a intenção com que signo foi usado, o significado que o falante está atribuindo ao signo. Por fim, existe o referente que é a coisa, o fato ou a situação do mundo real a qual aquilo se refere.

Por exemplo, você pega a palavra VACA, é o signo. A definição de vaca, que você encontra no dicionário, é o significado. E o referente é uma vaca real que você vê no pasto. Ora essa vaca real não é uma palavra. Ela mesma não é um signo nem um significado. Ela é uma terceira coisa. É um elemento extra verbal.

Esse elemento extra verbal não vem com sua expressão verbal pronta. Existe sempre uma transmutação que temos que operar do dado dos sentidos para o mundo verbal. Esses dois mundos são de naturezas diferentes. O mundo que você vê, no qual vivemos, é uma coisa e o mundo do discurso é outra. Este é uma parte ínfima do mundo real. Então é evidente que sempre existe na transmutação das experiências em palavras, discurso, uma dificuldade. A possibilidade de erro é monstruosa.

Quando você pega um discurso no qual você só conhece os signos e o significados, essas palavras evocam em você alguma reação (emocional, sentimental) independente do referente. As próprias palavras têm um peso emocional. Elas por si bastam para despertar em você uma reação independentemente do conhecimento do referente. Isso significa, tragicamente, que em qualquer situação a mentira é mais persuasiva que a realidade, porque o discurso da realidade depende do referente.


A Força da Mentira - 18 de fevereiro de 2020 - Olavo de Carvalho



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Virtude e Julgamento

A dificuldade em agirmos conforme a virtude ocorre porque temos de considerar todas as circunstâncias particulares de nossas escolhas, sendo necessário sempre definirmos nossos atos, preocupando-nos com o modo que ocorreram, seus executores, seus objetos, seus efeitos e sua duração. Todos estes fatores são o símbolo da dificuldade em julgarmos os nossos próprios atos. Sendo assim, não é incomum que às vezes louvemos as pessoas que não se irritam, ficando aquém da ira, chamando-as de mansas; mas outras vezes, louvamos os que agem de forma inversa, os que punem e combatem com amplo vigor, qualificando-os de viris.

[Passemos aos pontos suficientes para obtenção da virtude.]

Aristóteles nos diz para não rejeitarmos aquele que pouco transgrida a boa execução, indo minimamente além ou aquém do justo meio da virtude. Um pequeno deslize em relação à conduta virtuosa [é insignificante diante do esforço em se seguir o bem], isto é, o itinerário de uma vida virtuosa. [Um grande bem se oculta por trás do esforço por uma vida justa!] Por outro lado, quem muito se desvia da virtude deve ser reprovado, porque não há qualquer bem oculto em suas ações.


Onze Lições Sobre a Virtude - Santo Tomás de Aquino

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Sentimentalismo e Demagogia

A morte da princesa serviu muito bem ao Sr. Blair e ele aproveitou a oportunidade com habilidoso entusiasmo. Ela tinha a combinação exata de glamour e banalidade, necessária para o novo exercício do elitismo populista, sem qualquer inteligência ou gosto refinado que pudessem ser ameaçadores. Sob a capa da similaridade cultural com as massas e do sentimento democrático, a nova elite vive ema vida tão distante da vida da grande maioria das pessoas do que a vida da aristocracia jamais esteve; na verdade, mais distante, na medida em que a aristocracia tinha de lidar com pessoas comuns em suas propriedades. Não foi por coincidência que o Sr. Blair foi ao mesmo tempo o mais populista e mais distante e inacessível dos primeiros ministros modernos.

O sentimentalismo, tanto espontâneo quanto aquele gerado pela atenção excessiva da mídia, que foi necessário para tornar a morte a princesa num acontecimento de tão grande magnitude, serviu, portanto, a um propósito político, propósito esse que era intrinsecamente desonesto, de modo paralelo à desonestidade que está por trás de boa parte do próprio sentimentalismo.

Um elitista populista como o Sr. Blair não pode admitir em público, e talvez nem para si mesmo, que deseja acima de tudo viver no puro luxo, de modo tão diferente quanto possível das pessoas comuns, entre ricos e famosos, de preferência sendo ele mesmo rico e famoso. Isso significa que ele tem de dar à sua ambição um verniz de propósito social e, ao fazê-lo, nega sua essência mesma, seu fons et origo¹. Uma retórica sobreaquecida, contorcionismos intelectuais e muitas formas de desonestidade são resultado inevitável.

O sentimentalismo de massas é um brinquedo nas mãos dos elitistas demóticos, que são uma elite apenas em sua disposição superior de recorrer às negras artes da manipulação das disputas burocráticas.


Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico - Theodore Dalrymple



¹ "fonte e origem"

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

História e Manipulação

É por isso que hoje em dia há uma ênfase tão grande do ensino escolar na história do tráfico de escravos pelo Atlântico e do Holocausto. Não pretendo, é claro, negar a imensa importância desses assuntos; porém, seu uso para sentimentalizar o modo de ver dos alunos fica bastante evidente a partir do fato de que a eles praticamente não se ensina nada mais em história, e os povos exterminados no Holocausto podem, de maneira razoável, ser apresentados como nada mais do que vítimas de opressão, assim permitindo que o mundo seja elegantemente repartido em bem e mal.

De novo, não quero sugerir que não exista distinção entre bem e mal e nada que distinga o assassino e sua vítima. Contudo, insinuar a mentes jovens que a história humana (e, por extensão, a vida humana inteira) tem sido e não é nada mais do que isto. Um conflito entre vítimas e perpetradores, entre oprimidos e opressores, entre bem e mal, é fazer com que seja improvável que elas desenvolvam aquele senso de proporções sem o qual (como afirmei antes) a informação não passa de uma forma superior de ignorância.

Já mencionei o caso da menina que estava estudando o genocídio de Ruanda e suas aulas de história, com ajuda de um filme de Hollywood a respeito, mas esse não é de jeito nenhum um caso isolado. Para muitas crianças nas escolas, os estudos do genocídio parecem ter tomado o lugar de todo e qualquer outro aspecto da história.

Mal chega a ser necessário dizer que o genocídio é um assunto para uma reflexão quase infinita. O que, por exemplo, devemos pensar do papel motriz da elite com diploma universitário na preparação e na promoção de genocídio? O que isso nos diz a respeito da relação entre educação, cultura e moralidade? E a responsabilidade de forças externas que cruzam os braços e deixam de intervir, ou que até nega que o genocídio esteja acontecendo? Num nível mais profundo, o que a participação de pessoas comuns – às vezes alegremente; em outras por coação – no massacre de seus vizinhos e amigos de outrora, e na apropriação de seus bens, nos diz sobre a natureza humana? Em que medida a coação e o medo atenuam as ações mais vis? Qual a relação entre a explicação histórica dos acontecimentos e sua avaliação moral? Como a responsabilidade individual e a coletiva se relacionam entre si?

Essas questões não são fáceis de responder. Mas é óbvio que a única lição que uma mente completamente não formada pode tirar do estudo – se é que se pode chamar isso de estudo – do genocídio, isolado de quase todos os demais conhecimentos, é do tipo sentimental “quatro pernas bom, duas pernas mau” (como na obra A Revolução dos Bichos, de George Orwell), de que o mundo é composto de gente boa e de gente má; e como a maioria dos que saem da escola nunca mais estudarão história ou pensarão a seu respeito, esse será seu pressuposto subjacente a respeito de todas as demais questões públicas, se não para sempre, ao menos por muito tempo, suposição essa que os deixará suscetíveis ao canto da sereia de diversos demagogos que afirmam pureza de motivos e que manipulam impiedosamente os corações para obter o poder e retê-los. E o pupilo vem a achar que, por condenar aquilo que é obviamente errado, a saber, o assassinato de vastas quantidades de gente, está sendo virtuoso. A adesão pública ao clichê moral torna-se a marca de um bom homem ou de uma boa mulher.


Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico - Theodore Dalrymple

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Possibilidade e Realidade

Ainda se deve observar que uma das consequências da adoção geral da visão romântica e sentimental da existência humana é a perda da clareza dos limites entre o permissível e o não permissível; afinal, a própria vida decreta que nem tudo é ou pode ser permissível. É simplesmente impossível viver como se fosse verdade que é melhor estrangular bebês do que permitir que eles, ou qualquer outra pessoa, tenham desejos tolhidos. Uma das manifestações dessa crença é a recusa de homens e de mulheres em comprometer-se um com o outro – reclamação que se pode ouvir em ônibus e trens o tempo todo. A pessoa que se recusa a assumir um compromisso recusa-se a excluir quaisquer possibilidades que possam vir a surgir em sua vida e das quais ela possa querer aproveitar-se. A pessoa concebe sua liberdade como uma gama infinita de possibilidades: uma gama infinita no sentido de que nenhuma está excluída por uma decisão já tomada. Ela não percebe que toda ação traz vantagens e desvantagens, conveniências e inconvenientes; que uma existência perfeita, sem qualquer vestígio de frustração, de perda e de infelicidade é impossível, uma quimera. Contudo, a perda da clareza dos limites causada pela adoção de uma visão impossível como se fosse verdadeira, e a consequente recusa dos indivíduos em aceitar limitações a suas próprias vidas impostas por forças extemporâneas, isso é, forças que independem de sua vontade ou de seus caprichos, como as convenções sociais, os contratos e coisas afins, significa que a incerteza se torna não o terreno da especulação intelectual, mas da maneira mesma como a vida deve ser vivida. A incerteza, por meio da reação contra ela, gera intolerância e violência.

Podres de Mimados: As Consequências do Sentimentalismo Tóxico - Theodore Dalrymple

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Deceit and Hatred

'No more can I say than I have said,' answered Frodo. `Though your tale fills me with foreboding. A vision it was that you saw, I think, and no more, some shadow of evil fortune that has been or will be. Unless indeed it is some lying trick of the Enemy. I have seen the faces of fair warriors of old laid in sleep beneath the pools of the Dead Marshes, or seeming so by his foul arts.'
'Nay, it was not so,' said Faramir. 'For his works fill the heart with loathing; but my heart was filled with grief and pity.'


The Lord of The Rings: The Two Towers - John Ronald Reuel Tolkien

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Circumstance and Judgement

  'I had forgotten that,' said Éomer. 'It is hard to be sure of anything among so many marvels. The world is all grown strange. Elf and Dwarf in company walk in our daily fields; and folk speak with the Lady of the Wood and yet live; and the Sword comes back to war that was broken in the long ages ere the fathers of our fathers rode into the Mark! How shall a man judge what to do in such times?'
  'As he ever has judged,' said Aragorn. 'Good and ill have not changed since yesteryear; nor are they one thing among Elves and Dwarves and another among Men. It is a man's part to discern them, as much in the Golden Wood as in his own house.'


The Lord of The Rings: The Two Towers - John Ronald Reuel Tolkien

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Lembrança e Esquecimento

O pobre menino rico (“sofrendo de fartura”, diria o mordomo Grilo, de A Cidade e as Serras) não teve quem lhe ensinasse o motivo para a distinção básica entre alta e baixa literatura, e levou para a vida a idéia de que mesmo considerar a possibilidade de fazer essa distinção denotaria uma personalidade tacanha, azeda, inimiga das liberdades do espírito. Mas a diferença existe, e é importante conhece-la inclusive para podermos ignorá-la se nos convier.
O motivo para a distinção é muito simples: a 2ª lei da termodinâmica, inviolável até virem ordens de cima, nos diz que todos os sistemas caminham para a desintegração. O universo é um grande brinquedo ficando lentamente sem corda, nós vamos morrer, em 300 mil anos a Mona Lisa será pó etc. Essa é a constatação fundamental a partir da qual tudo o mais deriva – nossa história de sobrevivência, nossos avanços materiais e esforços em busca de sentido. Diante dessa situação duas reações são possíveis: tentar esquecer nossa situação ou se esforçar para lembrar. O que chamamos (sempre com algum desconforto) de “alta literatura” nos faz lembrar. A baixa literatura ou literatura de entretenimento, nos faz esquecer. Quando nos referimos a alguma experiência estética como escapista, é exatamente isso que queremos dizer: estamos escapando por algum tempo da gravidade do mundo real, onde estamos presos ao tempo e ao espaço, à mercê das implacáveis leis da física e dos dilemas dolorosos que pedem a intervenção da nossa consciência. A etimologia, como a hierarquia, é divina: diversão vem de divertere, “afastar-se, desviar-se”.
Só a perfeita consciência de que estamos vivendo nos escombros de um interregno me permite escrever a próxima frase sem implodir de vergonha ao apontar o óbvio: a diversão só faz sentido enquanto diversão, ou seja, desvio. Sem o pano de fundo de algo que não seja diversão, o tédio (que já se chamou “existencialismo” e hoje se chama “depressão”) se instala. Uma vez que isso acontece, a morte por asfixia auto-erótica vira só uma questão de tempo.


Não Tenhais Medo: Como Salvar Sua Próxima Ceia De Natal, O Brasil E Talvez Até Sua Alma - Elton Mesquita

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Razão e Fé

Se o sentido existe imbricado na própria estrutura do Universo, e se a informação pressupõe mente volitiva, então a resposta para “por que existe algo ao invés de coisa nenhuma?” pode muito bem ser “porque existe uma mente criadora que é a origem da informação no Universo, já que informação não pode surgir de interações e processos caóticos”. Se o sentido existe, é razoável supor que Deus exista. Note que, para os propósitos deste livro, eu não disse que Deus existe, disse que é razoável acreditar em Deus. A existência de Deus não pode ser provada a não ser individualmente, no coração e na mente de cada um, por meio da fé – que, assim como gosto estético, pertence a uma área epistemológica sobre a qual a ciência não pode dizer nada. Mas acreditar em Deus é razoável, sempre foi razoável, sempre será razoável, e o Cristianismo em seus aspectos intelectuais sempre foi assunto para gigantes, como Pascal, que não era exatamente o idiota do vilarejo e durante muito tempo se debateu justamente com o fato de que sim, é razoável acreditar em Deus – mas não é o bastante.

A ciência e a filosofia levaram Pascal, por assim dizer, ao batente de Deus, à posição intelectual em que o indivíduo percebe que é perfeitamente possível que esse negócio de Deus seja verdade mesmo. Mas apenas a ciência e a lógica não são suficientes para que atravessemos o batente e entremos na morada de Deus. O passo final é um salto na direção do desconhecido, é um ato de , que, assim como o amor, não é irracional, e sim a-racional, encontrando-se fora dos domínios que podem ser esquadrinhados pela razão.


Não Tenhais Medo: Como Salvar Sua Próxima Ceia De Natal, O Brasil E Talvez Até Sua Alma - Elton Mesquita

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Discussão e Serenidade

Em um ambiente de alta confiança, as pessoas entrariam em uma discussão com boa vontade e boa-fé, mais interessadas em aprender – e se for o caso, ensinar – do que em “vencer a discussão”. Mas discussões que partem de premissas opostas em um ambiente de baixa confiança só servem para disparar o “seqüestro da amígdala”², uma resposta emocional avassaladora que impede a capacidade de argumentação racional e transforma qualquer interlocutor em uma namorada furiosa, já que em um ambiente de baixa confiança as pessoas tendem a imaginar que todo argumento seja um pretexto para imposição de pontos de vista e obtenção de vantagens.

Já estamos tão acostumados com reações de seqüestro da amígdala que achamos que isso é o normal e nem nos lembramos de que antigamente havia um negócio chamado “serenidade das convicções”: um adulto que sabe que está certo não perde a calma ao ser confrontado com informações de má qualidade, desinformação, ignorância etc. Ele pode até engrossar o tom, mas será uma escolha (que pode ter vários motivos, da pedagogia ao tédio).


Não Tenhais Medo: Como Salvar Sua Próxima Ceia De Natal, O Brasil E Talvez Até Sua Alma -Elton Mesquita

² AMYGDALA HIJACK. https://en.wikipedia.org/wiki/Amygdala_hijack