Por exemplo, você pega a palavra VACA, é o signo. A definição de vaca, que você encontra no dicionário, é o significado. E o referente é uma vaca real que você vê no pasto. Ora essa vaca real não é uma palavra. Ela mesma não é um signo nem um significado. Ela é uma terceira coisa. É um elemento extra verbal.
Esse elemento extra verbal não vem com sua expressão verbal pronta. Existe sempre uma transmutação que temos que operar do dado dos sentidos para o mundo verbal. Esses dois mundos são de naturezas diferentes. O mundo que você vê, no qual vivemos, é uma coisa e o mundo do discurso é outra. Este é uma parte ínfima do mundo real. Então é evidente que sempre existe na transmutação das experiências em palavras, discurso, uma dificuldade. A possibilidade de erro é monstruosa.
Quando você pega um discurso no qual você só conhece os signos e o significados, essas palavras evocam em você alguma reação (emocional, sentimental) independente do referente. As próprias palavras têm um peso emocional. Elas por si bastam para despertar em você uma reação independentemente do conhecimento do referente. Isso significa, tragicamente, que em qualquer situação a mentira é mais persuasiva que a realidade, porque o discurso da realidade depende do referente.
A Força da Mentira - 18 de fevereiro de 2020 - Olavo de Carvalho