— Há um limite a caridade humana - disse Lady Outram, trêmula da cabeça aos pés.
— Existe, é verdade,- respondeu o Padre Brown, secamente - e aí está a diferença real entre a caridade humana e a caridade cristã. Vocês me perdoem se eu não me deixei esmagar pelo seu desprezo à minha falta de caridade hoje; ou pelos sermões quanto a perdoar todos os pecadores. Pois me parece que voces só perdoam os pecados que não Ihes parecem realmente pecaminosos. Só perdoam criminosos quando o que estes fizeram não é algo que julgam ser um crime; sim, uma convenção. De modo que toleram um duelo convencional, assim como toleram um divórcio convencional. Perdoam porque não há o que se perdoar.
— Mas não é possível que o senhor espere que perdoemos uma coisa tão vil dessas! - protestou Mallow.
— Não - disse o padreco - mas temos de ser capazes de perdoá-la.
De súbito, pôs-se de pé e os fitou a todos.
— Temos de tocar tais homens, não com um pedaço de pau, e sim com uma bênção - disse ele. - Temos de dizer a palavra que haverá de salvá-los do inferno. Somos nós que Ihes restam para livrá-los do desespero quando sua caridade humana já os desertou. Vão, caminhem satisfeitos pela sua própria estrada primaveril, a perdoar seus vícios favoritos e dispensar generosidade aos seus crimes em voga; deixem-nos à treva, os vampiros da noite, para consolar os que realmente precisam ser consolados; os que verdadeiramente fizeram algo indefensável, para o qual não se pode encontrar em lugar algum qualquer mínima justificativa - ninguém senão um padre haverá de perdoá-los. Deixe-nos com os homens culpados de crimes perversos, revoltantes e reais; tão culpados quanto São Pedro quando o galo cantou; e ao qual se lhe seguiu ainda a luz da alvorada.
— A luz da alvorada... - repetiu Mallow, cético. - O senhor quer dizer esperança, para ele?
— Sim - replicou o outro - Deixem-me fazer-lhes uma pergunta. Vocês todos são grandes senhoras e homens honrados, e seguros de si; vocês nunca, é o que se podem dizer, rebaixar-se-iam por um motivo tão sórdido como aquele. Mas me digam o seguinte: se alguém de vocês houvesse caído assim, será que anos mais tarde, já velhos e ricos e em segurança, teriam sido forçados pela consciência ou por algum confessor a contar uma tal história de si próprios? Dizem que não seriam capazes de cometer um crime tão vil. Seriam capazes de confessar um crime tão vil? - os demais juntaram suas coisas e, em silêncio, foram-se embora da sala aos pares e trios. E o Padre Brown, também em silêncio, retornou ao melancólico castelo de Marne.
O Segredo do Padre Brown - Gilbert Keith Chesterton