quarta-feira, 11 de junho de 2025

Reflexão #19

Em relação a uma recente referência:
O Senhor se queixa dos ricos porque encontram, na profusão dos bens seu consolo (Lc 6,24). "O orgulhoso procura o poder terreno, ao passo que o pobre em espírito busca o reino dos céus". O abandono nas mãos da providência do Pai do céu liberta da preocupação do amanhã. A confiança em Deus predispõe para a bem-aventurança dos pobres. Eles verão a Deus.


Surgiu-me o pensamento de como a bebida - ou outra droga, doce, cigarro, etc. - toma o papel de bem material que serve de consolo para o homem em sua dificuldade. É especialmente difícil para o humano suportar a dificuldade sem consolo. Diria até que humanamente impossível. Entretanto, não é impossível para Deus, e é por isso mesmo que deve-se pedir a Ele a força para atravessar esses vales de sofrimento.

Pecado e Perdão

— Há um limite a caridade humana - disse Lady Outram, trêmula da cabeça aos pés.
— Existe, é verdade,- respondeu o Padre Brown, secamente - e aí está a diferença real entre a caridade humana e a caridade cristã. Vocês me perdoem se eu não me deixei esmagar pelo seu desprezo à minha falta de caridade hoje; ou pelos sermões quanto a perdoar todos os pecadores. Pois me parece que voces só perdoam os pecados que não Ihes parecem realmente pecaminosos. Só perdoam criminosos quando o que estes fizeram não é algo que julgam ser um crime; sim, uma convenção. De modo que toleram um duelo convencional, assim como toleram um divórcio convencional. Perdoam porque não há o que se perdoar.
— Mas não é possível que o senhor espere que perdoemos uma coisa tão vil dessas! - protestou Mallow.
— Não - disse o padreco - mas temos de ser capazes de perdoá-la.

De súbito, pôs-se de pé e os fitou a todos.

— Temos de tocar tais homens, não com um pedaço de pau, e sim com uma bênção - disse ele. - Temos de dizer a palavra que haverá de salvá-los do inferno. Somos nós que Ihes restam para livrá-los do desespero quando sua caridade humana já os desertou. Vão, caminhem satisfeitos pela sua própria estrada primaveril, a perdoar seus vícios favoritos e dispensar generosidade aos seus crimes em voga; deixem-nos à treva, os vampiros da noite, para consolar os que realmente precisam ser consolados; os que verdadeiramente fizeram algo indefensável, para o qual não se pode encontrar em lugar algum qualquer mínima justificativa - ninguém senão um padre haverá de perdoá-los. Deixe-nos com os homens culpados de crimes perversos, revoltantes e reais; tão culpados quanto São Pedro quando o galo cantou; e ao qual se lhe seguiu ainda a luz da alvorada.
— A luz da alvorada... - repetiu Mallow, cético. - O senhor quer dizer esperança, para ele?
 Sim - replicou o outro - Deixem-me fazer-lhes uma pergunta. Vocês todos são grandes senhoras e homens honrados, e seguros de si; vocês nunca, é o que se podem dizer, rebaixar-se-iam por um motivo tão sórdido como aquele. Mas me digam o seguinte: se alguém de vocês houvesse caído assim, será que anos mais tarde, já velhos e ricos e em segurança, teriam sido forçados pela consciência ou por algum confessor a contar uma tal história de si próprios? Dizem que não seriam capazes de cometer um crime tão vil. Seriam capazes de confessar um crime tão vil? - os demais juntaram suas coisas e, em silêncio, foram-se embora da sala aos pares e trios. E o Padre Brown, também em silêncio, retornou ao melancólico castelo de Marne.


O Segredo do Padre Brown - Gilbert Keith Chesterton

terça-feira, 10 de junho de 2025

Ofício e Caráter

— O último homem que teria me passado pela cabeça - disse Devine.
— O primeiro homem que me passou pela cabeça - replicou o Padre Brown. - Isto na medida em que tinha eu o direito de pensar em quem fosse. Meu amigo, não há tipos ou ofícios sociais bons ou maus. Qualquer homem pode ser um assassino como o pobre-diabo do John; qualquer homem, e aliás o mesmo homem, pode ser um santo como o pobre Michael. Mas se há um tipo de homem que tende aqui e ali a ser mais ímpio do que os outros, é esta espécie um tanto brutal do homem de negócios. Não tem qualquer ideal social, quem dirá religião; não tem nem as tradições do cavalheiro, nem a lealdade de classe do sindicalista. Sempre que se vangloria por ter conseguido uma boa barganha, está se vangloriando por ter malogrado alguém. Suas chacotas as tentativas de espiritualidade da sua irmã eram detestáveis. O misticismo da senhora era uma besteira; ele odiava o seu espiritualismo apenas porque calhava de ser espiritualidade. Seja como for, não resta dúvida de que ele é o vilão deste caso; o único interesse que resta é ter sido um caso originalíssimo de vilania. Fora realmente um motivo novo e único para um assassinato. Era o motivo de usar o defunto como um aparato teatral - algo como uma boneca ou manequim odioso. No início, pensara num plano para matar Michael no carro, apenas para levá-lo para casa e fingir tê-lo matado no jardim. Contudo, toda sorte de toques finais os mais fantásticos seguiram-se naturalmente ao fato 
primário; que tinha ele à mão, de madrugada e num carro fechado, o cadáver de um ladrão famoso e reconhecível. Podia deixar suas digitais e pegadas; podia apertar-lhe a cara familiar contra janelas e levá-la embora. Repare como Moonshine ostensivamente apareceu e sumiu enquanto Bankes estava ostensivamente fora da sala, em busca do colar de esmeraldas.


O Segredo do Padre Brown - Gilbert Keith Chesterton

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Produtividade e Ansiedade

SOCIEDADE DA ANSIEDADE

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, defende, no livro Sociedade do Cansaço, que a sociedade em que vivemos, a sociedade pós-moderna, está excessivamente centrada no desempenho e na produtividade, o que gera grande cansaço e esgotamento e colabora com o aumento dos problemas psíquicos.

As pessoas acabam por se tornar vítimas de si mesmas através de uma dinâmica tóxica de autocobrança e dependência do "sucesso".

Seguindo um raciocínio parecido no estudo intitulado "Como superar la ansiedade", Enrique Rojas traz o conceito de "sociedade da ansiedade". Na descrição que faz do fenômeno, ele elenca aspectos da nossa cultura, como o materialismo, o 
hedonismo, a permissividade, relativismo e o consumismo, como fatores que "vão marcando a rota da ansiedade". O mais interessante é que Rojas "não escreve como filósofo, historiador o antropólogo, e muito menos como moralista, mas como psiquiatra experimental, a partir dos casos concretos trazidos ao seu consultório".
Tal constatação não deve causar surpresa, pois como já mencionamos, a ansiedade excessiva e o sentimentos a ela relacionados possuem raízes no medo de sofrer, e toda nossa cultura parece especialmente engajada em evitar o sofrimento a todo custo. Como pais ou educadores, temos medo de ver as crianças sofrerem; como adultos, somos constantemente bombardeados por todo tipo de alarmismo, o que nos faz desenvolver temores e reforça os que já temos. Adquirimos gradualmente a sensação de que não há mais causas nobres por que lutar, não sabemos para onde ir e qual o verdadeiro sentido da vida. Cria-se terreno fértil para a ansiedade!
Assim, desenvolvemos aversão a todo o tipo de sofrimento, o que nos impede de conviver com ele em paz e até com certa alegria.


O Mínimo sobre Ansiedade - Araceli Alcântara

terça-feira, 3 de junho de 2025

Oração e Contemplação

A TRADIÇÃO DA ORAÇÃO

ARTIGO 1
NAS FONTES DA ORAÇÃO


O Espírito Santo é "a água viva" que, no coração orante, "jorra para a Vida eterna". É Ele que nos ensina a recolher essa água na própria fonte: Cristo. Ora, existem na vida cristã fontes em que Cristo nos espera para nos dessedentar com o Espírito Santo.


A palavra de Deus

A Igreja "exorta todos os fiéis cristãos, com veemência e de modo peculiar [...] a que, pela frequente leitura das divinas Escrituras, aprendam 'a eminente ciência de Jesus Cristo'. Lembrem-se, porém, de que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada pela oração, a fim de que se estabeleça o colóquio entre Deus e o homem; pois 'a Ele falamos quando rezamos; a Ele ouvimos quando lemos os divinos oráculos'".
Os Padres espirituais, parafraseando Mt 7,7, resumem assim as disposições do coração alimentado pela Palavra de Deus na oração: "Procurai pela leitura, e encontrareis meditando; batei orando, e vos será aberto pela contemplação".



Catecismo da Igreja Católica 2653-2654