sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Vaidade e Preguiça

Do mesmo modo, os dias de guarda exigem zelo e comportamento diferentes daqueles requeridos nos dias em que é licito trabalhar. Nos dias de guarda, devemos nos reunir mais zelosa e espirituosamente na igreja e nos dispor mais devotamente para celebrar mistérios divinos; devemos perseverar por mais tempo na oração e demonstrar nas vestes, no caminhar e no agir maior devoção para com o culto divino; não devemos fazer nada que não seja santo, que não seja divino e que não nos seja ordenado; devemos afastar a língua de conversas vazias e os pés das idas e vindas; devemos fechar os olhos, inclinar o rosto, elevar a mente e entregar todo ato e todo movimento do coração e do corpo ao serviço divino; devemos, enfim (por assim dizer), honrar os dias santos com espírito sempre renovado.
Nos outros dias, em que é lícito trabalhar, ninguém fique ocioso; cada um deve, segundo suas forças e conhecimentos, aplicar-se àquele trabalho que lhe tiver sido imposto, e não que ele próprio escolheu. Quanto de beleza o repouso dá aos dias de guarda, tanto de ornamento o esforço do trabalho confere aos dias restantes. Desta forma, todo aquele que não quis repousar nos dias de guarda seja juiz de sua vaidade, e aquele que não foi esforçado nos dias de trabalho seja testemunha de sua preguiça. Assim se dá com as mentes carnais: nos dias de descanso a vaidade as incita a não descansar, e nos dias de trabalho a preguiça as impede de trabalhar bem.
Por isso, para agir bem deve haver um cuidadoso discernimento dos tempos, para que, assim como as obras más em tempo algum são louváveis, as boas obras não sejam dignas de repreensão por não terem sido praticadas o tempo oportuno.


A Instrução dos Principiantes - Hugo de São Vítor

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Aflição e Preocupação

Também é responsabilidade da meditação dos costumes a consideração de evitar na boa ação dois males principais: a aflição e a preocupação. A aflição gera a amargura, a preocupação gera a dispersão. Pela aflição amarga-se a doçura da mente; pela preocupação dispersa-se a sua tranquilidade.
A aflição se dá quando, pensando nas boas obras, somos consumidos por uma impaciência de realizar coisas que nos são impossíveis. E a preocupação, quando ficamos inquietos pela impaciência de realizar coisas possíveis. Então, para que a alma não fique amargurada, sustente pacientemente as suas impossibilidades; e, para que não se preocupe de um modo prejudicial, não estenda suas possibilidades além da sua medida.


Opúsculo Áureo sobre a Arte de Meditar - Hugo de São Vítor

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Esforço e Orgulho

A meditação dos costumes também precisa considerar o fim e a direção em todas as relações. O fim é aquilo que é buscado. A direção, aquilo através do qual se chega mais facilmente. Tudo que busca algo, a ele se dirige segundo algum caminho próprio, e aquilo que prossegue do modo mais direto, mais rapidamente chega.
Certamente há alguns bens nos quais há muito para se mover e pouco para se promover. Outros, com pequeno trabalho alcançam um grande fruto. Sendo assim, estes que rendem mais devem ser discernidos e escolhidos com prioridade. Pois que, sem dúvida, os que rendem mais os melhores, convém julgar toda ação segundo o seu fruto.
Muitos, não possuindo esse discernimento, trabalharam muito e progrediram pouco, já que dirigiram seu olhar apenas exteriormente à aparência da obra, e não internamente ao fruto da virtude. Orgulham-se por fazerem grandes coisas mais do que por realizarem o que é útil, e amaram mais aquelas obras em que podiam ser vistos o que aquelas em que podiam se emendar.


Opúsculo Áureo sobre a Arte de Meditar - Hugo de São Vítor

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Meditação e Realização

5. Sobre a meditação


A meditação é o pensamento frequente com deliberação, que investiga prudentemente a causa e a origem, o modo e a utilidade de cada coisa. A meditação tem o seu princípio na leitura, entretanto não se realiza por nenhuma regra ou preceito da leitura. Na meditação, de fato, agrada-nos discorrer por uma espécie de espaço aberto, no qual direcionamos nosso olhar para a verdade a ser contemplada, considerando ora uma, ora outra das causas das coisas; às vezes também penetrando no que nelas ha de mais profundo, não deixando nada de duvidoso ou obscuro.
O princípio do conhecimento, portanto, está na leitura e sua consumação na meditação. Quem aprender a amá-la intimamente e se dedicar a ela com frequência, tornará sua vida imensamente gozosa e terá na tribulação a máxima consolação. A meditação é, entre todas as coisas, a que mais afasta a alma da barulheira das ações mundanas; e pela doçura da sua quietude oferece já nesta vida um antegosto da vida eterna. Ela nos faz buscar e conhecer o Criador por meio das suas criaturas, e dessa forma ensina a alma pela ciência e a aprofunda na felicidade, donde que na meditação se realize a maior das alegrias.


Sobre o Modo de Aprender e Meditar - Hugo de São Vítor

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

História e Alegoria

Capítulo VI
Sobre a ordem dos livros


Não se deve seguir a mesma ordem de livros na leitura histórica e na alegórica. A história segue a ordem temporal. À alegoria é mais apropriada a ordem do conhecimento, pois, assim como foi dito acima, o aprendizado deve começar sempre das coisas mais claras e conhecidas, e não das obscuras.
Donde se segue que, neste tipo de leitura, o Novo Testamento, no qual está manifestamente proclamada a verdade, é preferível ao Velho, no qual a mesma verdade está prenunciada ocultamente sob representações figurativas. Em ambos os testamentos, trata-se da mesma verdade, mas lá está oculta, aqui manifestada; lá, prometida, aqui, realizada. Escutaste o que se lê no Apocalipse, que o livro estava selado e que não se podia encontrar ninguém que pudesse remover seus selos, a não ser o "leão da tribo de Judá". ¹ Selada estava a Lei, seladas estavam as profecias, pois os tempos da redenção futura estavam ocultamente prenunciados. Acaso não te parece selado aquele livro que anunciou: "Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho; e o chamará com o nome de Emanuel"? ² E este outro que disse: "E tu, Belém de Éfrata, que és pequenina entre milhares de tribos de Judá: de ti sairá para mim aquele que será o dominador de Israel; e tem sua origem desde o início, desde as auroras da eternidade"? ³ E também o Salmista: "Porventura não se dirá de Sião: 'Este e aquele homem nasceram nela, e o próprio Altissimo a fundou"? * E que, de novo, disse: "É do Senhor, é do Senhor que vem a evasão da morte"? *¹ E igualmente: "Disse o Senhor ao meu Senhor: 'senta-te à minha direita'"? *² E, logo depois, no mesmo salmo: "Contigo está o principado desde o dia do teu nascimento; nos esplendores dos santos, desde o útero, antes da aurora eu te gerei"? *³ E Daniel: "Eu contemplava na visão da noite, e eis que entre as nuvens do céu como que se aproximava o Filho do homem, e chegou ao ancião dos dias e deu a ele o poder, a honra e o reino; e todos os povos, de todas as tribos e línguas, lhe serviram: seu poder é um poder eterno, que não lhe será tirado"? **
Quem tu pensas que poderia compreender estas coisas antes que se cumprissem? Estavam seladas, e ninguém poderia remover os selos, senão o leão da tribo de Judá. Veio, então, o Filho de Deus, e se revestiu de nossa natureza, nasceu da Virgem, foi crucificado, sepultado, ressuscitou, ascendeu aos Céus e, cumprindo o que havia sido prometido, revelou o que estava velado. Leio no Evangelho que o Anjo Gabriel é enviado à Virgem Maria para anunciar que ela dará à luz; e recordo-me da profecia que disse: "Eis que a Virgem conceberá".**¹ Leio que, quando José foi a Belém com Maria, sua esposa gestante, veio o tempo de ela parir, e deu à luz o seu filho primogênito, o qual o anjo anunciara que havia de reinar no trono de David, seu pai; e recordo-me da profecia: "Belém de Éfrata, que és pequenina entre milhares de tribos de Judá: de ti sairá para mim aquele que será o dominador de Israel".**² Leio em outro lugar: "No principio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e a Verbo era Deus";**³ e recordo-me da profecia que disse: "E tem sua origem desde o início, desde as auroras da eternidade".*** Leio: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós"; ***¹ e recordo-me da profecia que disse: "Chamarás a ele com o nome de Emanuel, isto é, Deus conosco". ***²
Não tenho a intenção de te saturar, passando por todos os trechos; mas, se não conheceres primeiro a natividade de Cristo, sua pregação, paixão, ressurreição, ascensão e tudo o que suportou na carne e pela carne, não conseguirás penetrar os mistérios das figuras do Velho Testamento.

¹ Ap 5,5.
² Is 7, 14.
³ Mq 5, 1.
* Sl 87,5.
*¹ Sl 68, 21.
*² Sl 110,1.
*³ SI 110, 3.
** Dn 7,13-14.
**¹ Is 7, 14.
**² Mq 5, 1.
**³ Jo 1, 1.
*** Mq 5, 1.
***¹ Jo 1, 14.
***² Is 7 14.


Didascalicon: Sobre a Arte de Ler - Hugo de São Vítor

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Ascender e Descender

Capítulo IX
Sobre os quatro degraus


São quatro as etapas nas quais se exerce a vida dos justos neste mundo, como se fossem quatro degraus pelos quais ela se eleva à perfeição futura, a saber, a leitura ou aprendizado, a meditação, a oração e a ação. Segue-se ainda uma quinta, a contemplação, na qual, como um fruto decorrente das precedentes, tem-se um antegosto nesta vida do que será a recompensa futura das boas obras. Por isso, o Salmista, quando falava sobre os Mandamentos de Deus, 
recomendando-os, imediatamente acrescentava: "É grande a retribuição para quem os observa".¹
Destes cinco degraus, o primeiro, isto é, a leitura, pertence aos iniciantes, o último, isto é, a contemplação, aos perfeitos. E, quanto aos degraus intermediários, quem mais se ascender por eles, mais se aproximará da perfeição. Por exemplo: no primeiro degrau, a leitura concede o entendimento: no segundo, a meditação fornece o conselho; no terceiro, a oração pede; no quarto, a ação busca; e no quinto, a contemplação encontra.
Portanto, se lês e tens o entendimento e já sabes o que deve ser feito, estás no início do caminho do bem, mas ainda não é suficiente para ti, ainda não és perfeito. Suba, então, à fortaleza do conselho, e medite como conseguir realizar aquilo que você aprendeu que deve ser feito. Com efeito, muitos têm a ciência, mas poucos são os que sabem de que modo convém exercê-la.
De outra maneira, visto que o conselho humano, sem o auxílio divino, é débil e ineficaz, eleva-te à oração e pede a ajuda de Deus, sem a qual nada podes fazer de bom, a fim de que a sua graça, que antecipadamente já te iluminou, conduza também teus passos pelo caminho da paz, e te leve a consumar em boas obras o que antes estava somente na vontade.
Depois, resta a ti que te revistas da boa ação, para que o que pedes orando mereças receber agindo. Deus quer operar contigo, não para te obrigar, mas para te ajudar. Se operas sozinho, nada consegues; Se somente Deus opera, nada mereces. Opere, então, Deus, para que te seja possível conseguir alguma coisa; e operes também tu, para que a mereças. A boa ação é o caminho pelo qual se conduz à vida. Quem percorre este caminho busca a vida. "Tem coragem e age virilmente",² este caminho tem seu prêmio. Quantas vezes estamos fatigados dos fardos deste caminho e somos iluminados pela graça que do alto nos guarda, "provando e vendo quão suave é o Senhor".³ E assim se cumpre o que foi dito acima: o que a oração busca, a contemplação encontra.
Vês, pois, de que modo a perfeição vai ao encontro dos que ascendem por estes degraus, de tal maneira que quem não os sobe não pode ser perfeito.
O nosso propósito deve ser sempre ascender; porém, visto que é grande a inconstância de nossa vida, de tal modo que não conseguimos permanecer no mesmo degrau, somos freqüentemente impelidos a retornar aos degraus já superados, e, para não perdermos o que já conquistamos, refazemos algumas vezes o caminho pelo qual já havíamos passado. Por exemplo: quem está firme no degrau da ação, reza para não cair; quem está persistente na oração para que não cometa enganos rezando, medita sobre o que deve rezar; e quem, às vezes, desconfia do próprio conselho, recorre novamente à leitura. E é assim que acontece: ainda que nossa vontade seja sempre ascender, às vezes, entretanto, a necessidade nos obriga a descender, mas de tal modo que nosso propósito consista em nossa vontade, e não na necessidade. Nosso propósito é. ascendermos, e por causa dele é que, às vezes, descendemos. Portanto, o fundamental não é descender, mas ascender.*

¹ Sl 19, 12.

² Js 1,18.

³ Sl 34, 9.

* "Há, portanto, um tempo para estudar e há um tempo para meditar. Há um tempo para investigar a verdade para que se enriqueça o entendimento, há um tempo para exercitar a virtude para sanar os nossos afetos, e há também um tempo para praticar a boa obra para que se auxilie o próximo. Há um tempo para orar e um tempo para cantar, há um tempo para assistir ao Ofício Divino e um tempo para dedicarmos a qualquer outra coisa necessária. De todas estas coisas, como uma abelha que retira o seu mel de flores diversas, devemos colher para nós a doçura de uma suavidade interior, para que possamos consumar, através de uma vida santa, o favo de uma melíflua justiça" (Hugo de Sao Vítor, Prólogo do Sermones Centum).


Didascalicon: Sobre a arte de ler - Hugo de São Vítor

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Escritura e Significado

Capítulo III

Sobre também as coisas terem um significado na Sagrada Escritura


Também é necessário saber que, no discurso divino, não só as palavras, mas também as coisas têm significados, de um modo que não se costuma encontrar com freqüência em outros escritos.¹ O filósofo conhece somente o significado da palavra, mas o significado das coisas é muito mais superior do que o das palavras, pois o significado destas foi instituído pelo uso, enquanto o daquelas foi fornecido pela natureza. O significado das palavras é voz do homem, o das coisas é a voz de Deus aos homens.² As palavras, depois de pronunciadas, perecem; as coisas, depois de criadas, subsistem. A voz, frágil, é a expressão dos sentidos; a coisa é imagem da razão divina. Portanto, o que o som emitido pela boca, som que cessa ao mesmo tempo em que se expressa, é para a idéia mental, toda duração temporal é para a eternidade. A idéia mental é o verbo interior que se expressa pelo som da voz, isto é, o verbo exterior. E assim, a divina Sabedoria, que o Pai fez brotar de seu coração e que em si mesma é invisível, pelas criaturas e nas criaturas é que se dá a conhecer.³
A partir disso, fica claro o quão profundo deve ser o conhecimento extraído da Sagrada Escritura, na qual pela palavra se chega ao intelecto, pelo intelecto à coisa, pela coisa à idéia, e pela idéia à verdade. Por não levarem isto em conta, algumas pessoas pouco sábias julgam não haver sutileza alguma na Sagrada Escritura na qual possam exercer o seu engenho, e por isso voltam-se aos escritos dos filósofos, pois não concebem que nela esteja expressa alguma coisa a não ser unicamente a superfície do sentido literal, ignorando, assim, o poder da verdade.
Através de um breve e claro exemplo demonstraremos como o discurso sagrado se utiliza do significado das coisas. Diz a Escritura: "Vigiai, pois vosso inimigo, o Diabo, que como um leão rugindo ronda em torno de vós".* Aqui, se dizemos que o leão significa o Diabo, devemos compreender a coisa em si e não a palavra que a designa. Se estas duas palavras, isto é, "Diabo" e "leão", significassem a mesma coisa, seria inútil a semelhança de uma coisa com ela mesma. Segue-se, então, que esta palavra, "leão", significa o animal, e que este animal designa o Diabo. E todas as outras coisas devem ser entendidas do mesmo modo, como quando dizemos que o verme, o bezerro, a pedra, a serpente e outras coisas semelhantes significam o Cristo.


Didascalicon: Sobre a Arte de Ler - Hugo de São Vítor


¹ Hugo de São Vitor, comentando o trecho (Hb 4, 12) em que São Paulo faz a distinção entre a palavra de Deus e a dos homens, escreve: "'A palavra de Deus é viva', porque não muda Eficaz, porque não falha. Penetrante, porque não se engana. Não muda no que promete, não falha no que realiza, não se engana no julgamento" (A Palavra de Deus, disponível em cristianismo.org.br/h-verb.htm).

² "'Toda criatura possui uma causa e uma imagem na razão de Deus e em sua providência eterna; e é por esta causa e sobre o modelo desta imagem que ela foi criada em sua substância' (Hugo de São Vítor, De Sacramentis) [...] a criação é, portanto, a manifestação do pensamento e da sabedoria de Deus, assim como a palavra é a manifestação do pensamento e da sabedoria do homem" (Princípios fundamentais de pedagogia, disponível em cristianismo.org.br/pfp-01.htm).

³ "O Verbo de bondade e a vida de sabedoria que fez o mundo se manifesta na contemplação da criação. O Verbo em si mesmo era invisível, mas se fez visível, e foi visto pelas suas obras. [...] O mundo é, de fato, um livro escrito pelo próprio dedo de Deus. Cada criatura 
é como um sinal, não por convenção humana, mas estabelecido pela vontade divina. O homem ignorante vê um livro aberto, percebe certos sinais, mas não conhece nem as letras nem o pensamento que elas manifestam. Assim também o insensato, o homem animal que não percebe as coisas de Deus, vê a forma exterior das criaturas visíveis, mas não compreende os pensamentos que elas manifestam. Assim como em uma única e mesma obra um homem admira a cor e a forma das letras, enquanto outro louva os pensamentos que elas expressam. É bom, portanto, contemplar assiduamente e admirar as obras de Deus, mas para aquele que souber converter a beleza das coisas corporais em uso espiritual" (Hugo de São Vítor, Tratado dos três dias, disponível em cristianismo.org.br/pfp05-b.htm)

* I Pe 5, 8.