quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Palavras e Realidade

Não era só porque ele me divertia que eu passava tempo com Karel – ainda que só Deus soubesse que na época a diversão era bem vinda. Para Karel, as palavras não era servas das coisas, mas senhoras delas: elas arranjam e rearranjam o mundo. Em 1984, de George Orwell, a linguagem foi reconfigurada para que só as opiniões oficiais pudessem ser nela expressas. Algo parecido, dizia Karel, aconteceu conosco. A literatura oficial, a imprensa oficial, até as notícias na TV usavam um pequeno vocabulário de palavras confiáveis, e uma sintaxe que só permitia combinações confiáveis. As pessoas, nesse discurso, aparecem não como indivíduos dotados de livre-arbítrio, mas como abstrações por meio das quais forças impessoais “lutam” por dominação. As forças do progresso inevitavelmente venceriam, e as forças reacionárias seriam derrotadas. Enquanto isso, era importante fundir as palavras permitidas em blocos, de modo que vedassem as portas pelas quais a realidade pudesse entrar. Por isso, reacionário sempre ia junto com “burguês”, “imperialista” e “sionista”, e esta última abria a possibilidade de um tom permitido de antissemitismo; “progressista” invariavelmente vinha junto com “proletário”, “fraterno” e “internacionalista”. Nossa “sociedade” estava “construindo o socialismo” e, nesse ínterim, vivendo numa condição de “socialismo real” que de algum modo antecipava o heroico objetivo. E o que, perguntava Karel, significava a palavra “real”? Só o sedimento que vai para o fundo, quando a jarra das possibilidades é agitada.

O abuso das palavras de que dependia nossa doutrina oficial já estava prefigurado nos textos sagrados de Marx, Engels e Lênin. O objetivo, dizia Karel, não era contar mentiras explícitas, mas destruir a distinção entre o verdadeiro e o falso, de modo que a mentira não fosse necessária, nem possível. E ele comparava a novilíngua ao kitsch*, cujo propósito é destruir a distinção entre sentimento verdadeiro e falso, para remover a emoção da realidade e investi-la num mundo de fantasia, onde nada tem valor, mas tudo tem preço.


As Memórias de Underground – Roger Scruton


* Usualmente é empregado nos estudos de estética para designar uma categoria de objetos vulgares, baratos, sentimentais, bregas (cheesy, do inglês), que copiam referências da cultura erudita sem critério e sem atingirem o nível de qualidade de seus modelos, e que se destinam, conforme o seu crítico popularizador, Clement Greenberg, ao consumo de massa. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Kitsch)

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