quarta-feira, 10 de março de 2021

Notícia e História

A inovação moderna que substituiu o jornalismo pela história, ou por essa tradição que é o comentário da história, teve ao menos um efeito definido. Assegurou que todos poderiam ter apenas conhecimento do fim de cada história. Os jornalistas têm o hábito de imprimir, por cima de precisamente o último capítulo das suas histórias periódicas (quando o herói e a heroína se encontram a ponto de se abraçar no último capítulo, coisa que somente uma perversidade inexplicável os impediria de fazer no primeiro), as palavras um tanto desnorteadoras: “o leitor poderá começar a história apenas daqui.” Todavia nem este paralelo é completo, pois os jornais dão, de fato, uma espécie de resumo da história, embora não apresentem nada que se assemelhe, remotamente, a uma sinopse da história. Tratam, não somente das notícias, mas de tudo, como se fosse absoluta novidade. É e exatamente da mesma forma pela qual lemos que o almirante Bangs foi alvejado com um tiro, quando essa notícia é a primeira notificação que temos de que tal indivíduo existia. Há qualquer coisa singularmente significativa no emprego que o jornalismo dá aos seus recursos biográficos. Nunca se lembra de publicar a vida enquanto não publica a morte. E do mesmo modo como cuida dos indivíduos, cuida das instituições e das idéias. Depois da Grande Guerra, o nosso público começou a ouvir que toda espécie de nação se estava emancipando. Entretanto, jamais ouvira uma só referência ao fato de terem estado escravizadas. Éramos convocados para ajuizarmos da justiça das colonizações, sem que nunca tivéssemos tido permissão de tomar conhecimento da existência de tais litígios. O povo acharia pedante falar do heroísmo sérvio, e prefere discorrer em linguagem vulgar, moderna, sobre a nova diplomacia internacional iugoslava; e todos se acendem de entusiasmo ante algo a que chamam Tchecoslováquia, sem que, aparentemente, jamais tivessem ouvido falar da Boêmia. Coisas que são antigas como a Europa assumem caráter mais novo do que as recentes novidades dos prados da América. É muito animador; como o último ato de uma peça a pessoas que entram no teatro pouco antes de fechar as cortinas. Não conduz, porém, exatamente, à compreensão do que se estivesse passando. Poder-se-ia recomendar esse modo sossegado de patrocinar o teatro àqueles que se contentam em assistir meramente a um tiro de pistola ou a um beijo apaixonado. Mas isto não satisfaz a quantos atormente a simples curiosidade intelectual de saber quem está beijando, quem foi morto, e porque razão.


São Francisco de Assis - G. K. Chesterton

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