– O cachorro poderia quase ter-lhe contado a história, se pudesse falar – observou o padre. – Minha única queixa é, por ele não ser capaz de falar, você ter inventado uma história para bicho e posto no seu focinho as línguas dos homens e dos anjos. Isto é parte de algo que eu venho notando ser cada vez mais frequente no mundo moderno, coisa que se vê em toda sorte de burburinhos de jornal e frases feitas; algo que é arbitrário sem ser autoritário. As pessoas engolem facilmente afirmações não provadas deste, daquele ou daquele outro. Está afogando todo o velho racionalismo e ceticismo de vocês, e se vem aproximando feito um vasto oceano; e o seu nome é superstição – de súbito ele se pôs de pé, com um pesado sobrecenho, e continuou a falar quase como se estivesse sozinho. – É o primeiro efeito de não se acreditar em Deus: perde-se o senso comum e não se consegue mais enxergar as coisas como são. Qualquer coisa que qualquer pessoa diga e afirme ser importante, vai-se esticando indefinidamente, feito uma larga e lúgubre paisagem num pesadelo. E um cachorro é um presságio, e um gato é um mistério, e um porco é um mascote, e um besouro é um escaravelho, evocando todo panteão bestial do politeísmo do do Egito e da velha Índia; o Cão Anúbis e a descomunal Pasht, com seu verdoso olhar, e todos os sacros e bramantes Touros de Bashan; cambaleando de volta aos deuses animalescos do princípio, evadindo-se para elefantes e cobras e crocodilos; e tudo porque têm um pavor incontrolável de quatro palavras:
"Ele se fez Homem".
O jovem levantou-se, constrangido, como se acidentalmente tivesse ouvido um monólogo. Chamou o cão e saiu do aposento com despedidas breves, porém vigorosas. No entanto, viu-se obrigado a chamá-lo duas vezes, pois o animal por um instante ficara imóvel, a olhar firme para o Padre Brown, como o lobo outrora fitou São Francisco.
A Incredulidade do Padre Brown - G. K. Chesterton
Nenhum comentário:
Postar um comentário