Concórdia e Discórdia
Se houvesse um meio de compor uma cidade ou um exército de amantes e seus amados, não haveria melhor sistema possível de sociedade do que esse, porque seus componentes recuariam ante tudo que fosse vil, numa emulação mútua da honra [entre amantes e amados]; e indivíduos como esses, lutando lado a lado, mesmo num modesto contingente, poderiam quase ser considerados por nós capazes de vencer o gênero humano inteiro. De fato, um homem apaixonado preferiria suportar quaisquer outros ao seu amado observá-lo abandonando seu posto ou depondo as armas; preferiria morrer múltiplas vezes; por outro lado, quanto a deixar para trás seu jovenzinho, ou deixar de socorrê-lo no perigo, nenhum homem seria tão baixo a ponto de esquivar-se à própria influência de Eros, incutindo-lhe uma bravura que o igualaria aos mais naturalmente bravos; e incontestavelmente o que Homero denomina um "ardor insuflado"¹ por um deus em alguns heróis é o efeito produzido pelo próprio Eros nos amantes.
¹ Ilíada, Canto XV, 262.
O Banquete - Platão
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