sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Original e Tradução

Tomando o barbeiro outro livro, disse:

- Este é Espelho de cavalarias.

- Já conheço a Sua Mercê - disse o cura. - Aí anda o Senhor Reinaldo de Montalvão com os seus amigos e companheiros, mais ladrões que Caco, e os Doze Pares com o verídico historiador Turpin. A falar a verdade, estou em condená-los, pelo menos a desterro perpétuo, por terem parte na invenção do famoso Mateus Boiardo, donde também teceu a sua teia o cristão poeta Ludovico Ariosto. Este, se por aqui o apanho a falar-me língua que não seja a sua, não lhe hei-de guardar respeito algum; falando porém no seu próprio idioma, colocá-lo-ei sobre a cabeça.

- Em italiano tenho-o eu - disse o barbeiro - mas não o entendo.

- Nem era preciso que o entendêsseis - respondeu o cura; - de boa vontade perdoáramos ao senhor capitão que se tivesse deixado de o trazer à Espanha, pois lhe tirou muito de sua valia original; e o mesmo sucederá a todos quantos quiserem traduzir para os seus idiomas livros de versos, que, por muito cuidado que nisso ponham, e por mais habilidade que mostrem, nunca hão-de igualar ao que eles valem no original. O que eu digo é que este livro, e todos os mais que se acharem tratando destas coisas da França, se lancem e guardem num poço seco, até que mais repousadamente se veja o que se há-de fazer deles, excetuando a um Bernardo del Cárpio que por aí anda, e a outro chamado Roncesvales, que esses, em me chegando às mãos, vão direitos para as da ama, e delas para fogo, sem remissão.


Dom Quixote Vol. I - Miguel de Cervantes

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