terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Esforço e Aprendizado

Chega um momento em que o esforço aplicado a um obstáculo exterior suscita um obstáculo interior mais insidioso que o outro, que cresce sem parar, muito mais ainda quando se tenta resisti-lo, como se vê com o gago. Os moralistas, que estudaram o mecanismo da tentação, sabem-no bem. Ser tentado é estar às voltas com uma imagem que pressentimos que agirá sobre as nossas glândulas. É evidente que uma certa maneira de orientar o esforço para dissipar a imagem corre o risco de intensifica-la. O corpo não conhece a diferença entre o sim e o não. Dizer “Não tenho medo, não quero ter medo desse projétil que passa” é aumentar as imagens que nos são adversas. Não querer tremer nos momentos de medo aumenta o estremecimento. Enrijecer para não ceder à tentação é dispor-se a ceder ainda mais depressa. É por isso que se pede a Deus para não ser tentado, e não para resistir, ato muito difícil. O velho Coué dizia em sua linguagem, geométrica demais para meu gosto, que “quando há uma luta entre a imaginação e a vontade, a imaginação aumenta ao quadrado da vontade”.

Essa lei da inversão dos esforços mal dirigidos é uma das mais profundas de nossa vida psíquica. Admiro-me de se falar tão pouco nela e de nem se saber ensiná-la. Quando, apesar de excelentes guias e de uma boa vontade sincera, não fui capaz de aprender uma arte simples (a geometria ou a equitação, por exemplo), foi porque os meus mestres ignoravam esse princípio da inversão. Contraía-me em cima do cavalo ou no teorema e o resultado era a queda ou a ignorância. Era preciso trabalhar com descanso. “Ride, ride!”, dizia o duque de Nemours aos seus filhos, quando via-os dar um passo em falso no carrossel. Conselho que Joana d’Arc dava também ao gentil duque. Bergson contava aos seus amigos que existiam duas maneiras de aprender a montar cavalo. A primeira é a maneira comum: dor, irritação, injúrias, esforço, arranhões, enfim, todo esse tipo de coisas; não creio que seja inteiramente má, pelo menos para a maioria. A outra maneira é a de simpatizar com o movimento do animal, tornando-se tão flexível e mole quanto possível, evitando perturbar esse animal flexível, abandonando-se, como dizia Bergson, à “graça da equitação”, como se ela já nos tivesse sido dada. É provável que o primeiro método, um dia, acabe por levar-nos ao segundo, como se vê na aprendizagem da valsa ou de línguas estrangeiras. É certo que para um dia merecermos fazer qualquer movimento sem esforço (incluindo o da virtude) é preciso ter feito muitos esforços.


O Trabalho Intelectual. Conselho para os que Estudam e Para os que Escrevem - Jean Guitton

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